domingo, 7 de julho de 2019

Superando o reducionismo

1 INTRODUÇÃO

Reducionistas são teses de filósofos e/ou cientistas que pretendem reduzir o homem a um princípio único. Há dois tipos de reducionismos, que parecem muito distantes quanto à essência, mas são muito próximos quanto às consequências práticas. Há o reducionismo materialista, pretende reduzir o homem a um princípio material único, e há o reducionismo idealista, que pretende reduzir o homem a um princípio espiritual único e negar a existência independente do mundo material.

Doutrinas de reducionismo idealista não são muito populares, porque são contraintuitivas e também porque já foram objetivamente refutadas. Doutrinas de reducionismo materialista são hoje muito mais influentes e pelas razões opostas, ou seja, é intuitivo e é impossível de refutar objetivamente. Mas isso não significa que o reducionismo espiritualista também deva ser ignorado, porque ele tem os seus adeptos ainda nos dias de hoje e, embora com o discurso de preservar a liberdade, a espiritualidade, a dignidade, elas acabam recaindo nas mesmas consequências do reducionismo materialista.

O fato é que não dá para considerar pessoas e coisas como tendo um único e mesmo princípio e depois esperar que na vida prática eles sejam por nós tratados de modo diferenciado, e sob qualquer dessas doutrinas acabaremos por tratar pessoas como se fossem coisas, ou coisas como se fossem pessoas. Por isso é da máxima importância que o reducionismo seja superado. Como o reducionismo materialista é mais influente, ele é o foco principal deste ensaio.

As mais influentes correntes reducionistas (materialistas) tomam como base a teoria de Darwin que defende que a seleção natural seria a responsável pela evolução das espécies ao longo dos anos, nelas incluído o próprio homem, sendo o homem, portanto, um mero produto dessa evolução.

A nossa mente seria então um produto da matéria de que somos feitos, ou seja, do nosso cérebro. Como o nosso cérebro evoluiu mais do que os dos outros animais, isso explicaria a melhor capacidade do homem de pensar.

A desvantagem dessa tese é que ela equipara o homem a tudo o mais que existe no universo (pois o princípio deve ser único), o que tem por consequência reduzir o homem à qualidade da mesma matéria de que é feito, e isso torna teoricamente possível que o homem seja utilizado e/ou disposto como se fosse um simples objeto material.

O objetivo deste ensaio é prover um argumento (o único possível, segundo creio) capaz de superar esta tese, utilizando como base, principalmente, o argumento de Kant.


2 SUPERANDO O REDUCIONISMO

Immanuel Kant, filósofo prussiano, em sua obra intitulada “Crítica da Razão Pura”, nos ensina que “só é possível conceberem-se duas espécies de causalidade em relação ao que acontece: a causalidade segundo a natureza ou a causalidade pela liberdade” (2013, p. 462).

A causalidade segundo a natureza, diz Kant, “é, no mundo sensível, a ligação de um estado com o precedente, em que um se segue ao outro segundo uma regra” (2013, p. 462). Uma outra forma de expressar essa ideia é que a causalidade pela natureza é sempre uma causalidade de origem exterior.

Em contrapartida, Kant entende por liberdade, em sentido cosmológico, “a faculdade de iniciar por si um estado, cuja causalidade não esteja, por sua vez, subordinada, segundo a lei natural, a outra causa que a determine quanto ao tempo” (2013, p. 463). Uma outra forma de expressar essa ideia é que a causalidade pela liberdade é sempre uma causalidade de origem interior.

Para tentar superar essa dicotomia entre natureza e liberdade, alguns pensadores pretenderam postular ainda uma terceira espécie de causalidade, que é normalmente conhecida pelo nome de “acaso”. Só que o princípio lógico do terceiro excluído proíbe uma terceira espécie de causalidade entre natureza e liberdade, ou seja, uma espécie que não fosse nem exterior, nem interior, de modo que se pode afirmar objetivamente que o acaso não existe. Por isso esta hipótese já se pode considerar descartada desde já.

Importante também considerar que essas espécies de causalidade (natureza e liberdade) precisam ser consideradas em objetos atômicos. Porque se um objeto livre fosse, por exemplo, divisível, nada impediria que seus componentes internos estivessem se determinando exteriormente e mutuamente, produzindo apenas a ilusão de liberdade.

Considerando isso, os reducionistas têm fortes argumentos a seu favor: a liberdade não é sequer possível no universo que conhecemos como “físico”. Isso porque a simplicidade não é concebível no espaço e qualquer coisa que nele representemos será, para nós, em princípio, sempre divisível, ao infinito. E também porque uma causa livre apareceria, aos nossos olhos, como uma causa absolutamente primeira e incondicionada do universo, o que para nós, fisicamente (ou fenomenicamente), é também impossível de se conceber e menos ainda de se aceitar. Kant tinha essa mesma visão quando tratava de representações no espaço e no tempo:

E aqui a hipótese comum, mas enganosa, da realidade absoluta dos fenômenos, mostra bem quanto é prejudicial o seu efeito de confundir a razão. Pois que, se os fenômenos são coisas em si, não é possível salvar a liberdade. A natureza é então a causa completa e por si só suficiente, determinante de cada acontecimento, e a condição de cada um deles está sempre contida, unicamente, na série dos fenômenos que, juntamente com os seus efeitos, estão necessariamente submetidos à lei natural. (KANT, 2013, p. 465, grifos meus)

Contudo, se fizermos abstração da realidade representada no tempo e no espaço, se não tomarmos como absolutamente necessário o encadeamento temporal e espacial da realidade como ela é em si mesma, a liberdade pode ser possível. Kant diz, na sequência:

Se, pelo contrário, os fenômenos nada mais valem do que de fato são, quer dizer, se não valem como coisas em si, mas como simples representações encadeadas por leis empíricas, têm eles próprios que possuir fundamentos que não sejam fenômenos. Uma causa inteligível desse gênero, porém, não é, quanto à sua causalidade, determinada por fenômenos, embora os seus efeitos se manifestem e assim possam ser determinados por outros fenômenos. Encontram-se pois, ela e a sua causalidade, fora da série, ao passo que os seus efeitos se encontram na série das condições empíricas. O efeito, portanto, pode considerar-se livre quanto à sua causa inteligível e, quanto aos fenômenos, consequência dos mesmos segundo a necessidade da natureza... (KANT, 2013, p. 465, grifos meus)

O argumento acima possui duas consequências importantes. A primeira é que, se há liberdade no universo, ela não é representável no tempo e no espaço, o que, por conseguinte, torna impossível para nós uma representação física e sensível de um objeto livre. Ele seria, para nós, como se fosse “nada”, ou não pareceria simples, ou não pareceria livre. Assim, René Descartes não estava errado quando escreveu que ele “era uma substância (...) que, para ser, não precisa de nenhum lugar nem depende de nada material” (DESCARTES, 2005, p. 42).

Como esse “objeto livre” é o que normalmente designamos por “pessoa”, ou ainda por “alma”, ou “espírito”, e ele não pode ser representado no mundo que conhecemos como “físico”, normalmente dizemos que a nossa alma é imaterial. Mas não é imaterial no sentido de que não seja “nada”, mas no sentido de que, se ela existe, é um objeto que não é representável no tempo e no espaço. Mas a alma pode, de fato, ser um objeto bem real e concreto.

A segunda consequência do argumento de Kant é que a existência da alma não pode ser provada por nenhum meio, pois a prova possível deveria ser empírica e a alma, como já visto, se existir, nunca poderia se apresentar a nós em uma experiência no tempo e no espaço. Essa conclusão parece apoiar o argumento reducionista. Pois se a liberdade é, para nós, inconcebível no tempo e no espaço e, além disso, se a explicação natural consegue dar conta de todos os acontecimentos empíricos até o presente e conseguirá dar conta de todos os acontecimentos futuros, por que então precisaríamos admitir a liberdade? Não poderíamos descartá-la pelo princípio da Navalha de Ockham, como variável desnecessária para explicar tudo o que existe?

Em resposta a isso digo, primeiramente, que se a alma não pode ser provada, ela não pode ser refutada, pois o mesmo argumento que torna impossível uma prova torna impossível também uma refutação. Em segundo lugar, a Navalha de Ockham só pode ser utilizada para descartar variáveis irrelevantes de um problema e não o próprio problema, e a existência ou inexistência da alma é um dos grandes problemas que se quer resolver, porque disso depende a própria dignidade humana. E em terceiro lugar, se é verdade que a hipótese da liberdade não é necessária para explicar nada na natureza por nós conhecida, ela também não é proibida de ser admitida como hipótese, visto que é logicamente possível haver liberdade atuando em concomitância com a natureza na produção de tudo o que existe.

Mas então podemos nos perguntar: por que admitiríamos a hipótese da causalidade pela liberdade, sendo que não precisamos dela para explicar tudo o que existe?

A resposta para isso é muito simples: porque se rejeitarmos a hipótese da liberdade, teríamos que rejeitar a liberdade em nós mesmos, e rejeitando a liberdade em nós mesmos, nos reduziríamos, aos nossos próprios olhos, ao estado de mera natureza, ao estado de “coisas”, e não restaria qualquer argumento lógico ou racional que pudesse nos convencer a considerarmo-nos e a todos os outros homens na Terra como fins em si mesmos, que não podem ser tratados, utilizados e/ou descartados como se fossem simples objetos. E para aceitar uma conclusão dessas, somente mediante uma prova cabal, definitiva, absolutamente evidente e irrefutável, de modo que, para esse caso específico, podemos e devemos, com todo o direito, inverter o ônus da prova.

Desse modo, embora o reducionismo não possa ser refutado por qualquer argumento teórico concebível, seja ele de origem científica ou filosófica, ele pode ser declarado, com todo o direito, como absolutamente inaceitável. A liberdade humana e, consequentemente, a alma humana, assim como seus corolários, a dignidade e a igualdade, podem ser postuladas existentes, não por uma questão de fato, mas por uma questão de direito.


3 CONCLUSÃO

O argumento reducionista, como visto, é teoricamente irrefutável, mas é também ao mesmo tempo inaceitável. Como fica então a teoria darwinista? É inaceitável também?

O erro do darwinismo foi pretender explicar a evolução por causas unicamente naturais (seleção natural) e injustamente pretender descartar qualquer possibilidade de uma intervenção livre e inteligente na evolução, ainda que fosse a nossa própria. Um objeto simplesmente natural só é capaz de uma causalidade exterior, enquanto um objeto livre é, por definição, ao mesmo tempo capaz de uma causalidade interior e exterior, não havendo razões para supor que ele não poderia intervir na natureza.

Quando colocamos um relógio para funcionar, o seu funcionamento pode ser explicado por causas unicamente naturais. Mas se ele desacerta, podemos sempre, no exercício de nossa liberdade, intervir em seu curso e fazer nele pequenos ajustes periódicos, de modo que ele sempre indique a hora certa, segundo a nossa conveniência.

Não é impossível, embora não possa ser provado, que com a evolução tenha ocorrido algo assim, que um processo que ocorre naturalmente possa ter sido, vez ou outra, “ajustado” para se direcionar a um determinado fim.

Mas isso significa que a ciência ou a filosofia teórica deveriam considerar a liberdade nas suas investigações?

Não! Nem a ciência, nem a filosofia teórica, deveriam sequer investigar a liberdade nos fenômenos naturais, porque ela está completamente fora do seu alcance de investigação. Qualquer coisa que digam sobre a liberdade não terá qualquer valor teórico, por simples falta de fundamento. Elas simplesmente devem se abster dessa discussão e investigar somente causas naturais, até que ponto a natureza consegue ir por si só sem recorrer a ajustes inteligentes. E mesmo quando não encontrar a causa natural, de modo algum estará autorizada a recorrer a explicações suprassensíveis (à interferência inteligente).

No entanto, constatar que há, que houve e que haverá uma seleção natural não significa que toda seleção foi puramente natural e que não há espaço para uma intervenção livre, e a ciência ou a filosofia teórica não devem, injustamente, fechar a porta desta possibilidade, de modo que o homem possa continuar postulando a sua própria liberdade, e em consequência, a sua própria dignidade, sem ser persuadido que se contradiz ou que se ilude, a fim de satisfazer os princípios da Ética, do Direito e da Religião.


4 REFERÊNCIAS

DESCARTES, René. Discurso do Método, Regras para a Direção do Espírito. Tradução: Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2005.

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução: Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. 8ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2013.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Debata ideias e não pessoas. Comentários ofensivos, com palavras de baixo calão ou personalismos (xingamentos) serão excluídos. Serão excluídos também comentários não relacionados ao assunto ou ao seu desdobramento.