domingo, 10 de junho de 2018

Limites para prevenir abusos no discurso científico

As restrições abaixo são frutos de reflexões e discussões sobre os limites das declarações que podem ser consideradas científicas.

Tentei tomar o máximo de cuidado com a forma de escrever para evitar ambiguidades, mas se ainda restar alguma, ao longo do tempo efetuo correções. Elas devem ser compreensíveis e óbvias à razão comum e seguem a trilha das categorias do entendimento kantianas. Abaixo faço alguns comentários adicionais.

QUANTIDADE
1. Nunca declare a existência ou inexistência de substância não extensa. Sempre presuma, na investigação, que toda substância detectável empiricamente é extensa.
2. Nunca declare a existência de partícula fundamental (atômica, quantum) de substância, ou que a substância é infinitamente divisível. Sempre presuma, na investigação, que ela é indefinidamente divisível.
3. Nunca declare que o universo é finito ou infinito em substâncias. Sempre presuma, na investigação, que ele é de quantidade indefinida.

QUALIDADE
4. Nunca declare que há ou que não há espaços absolutamente isentos de influência de substâncias (o "vácuo absoluto"). Sempre presuma, na investigação, que todos os espaços possíveis detectáveis pela ciência estão sob alguma influência de substâncias (algum campo).
5. Nunca declare que algo real e existente como fenômeno não é substancial e/ou é destituído de massa. Sempre presuma, na investigação, que se algo é capaz de afetar algo com massa, aquele algo também é substancial e tem massa (mesmo que não ainda detectável).
6. Nunca declare que a partícula fundamental tem densidade finita ou infinita. Sempre presuma-a, na investigação, de densidade indefinida.

RELAÇÃO
7. Nunca declare que há criação ou destruição de substâncias do nada ou para o nada. Sempre presuma, na investigação, que ela veio de ou foi para um lugar que ainda desconhecemos.
8. Nunca declare que há efeitos sem causa (ou acelerações sem força). Sempre presuma, na investigação, uma causa, ainda que desconhecida, a ser encontrada.
9. Nunca declare que há substâncias que não interajam diretamente com todas as outras substâncias do universo e, como corolário, nunca declare que há interações substanciais que não sejam a distância. Sempre presuma, na investigação, que toda substância detectável pela ciência exerce algum tipo de influência (de ação e reação) sobre todas as outras substâncias do universo cognoscível.

MODALIDADE
10. Nunca declare como possível aquilo que viola as condições formais da experiência;
11. Nunca declare como real qualquer substância que não tenha sido evidenciada pela experiência;
12. Nunca declare como necessário aquilo cuja realidade não dependa unicamente das condições formais da experiência.


TEMPO E ESPAÇO
13. Com relação ao tempo e ao espaço, nunca, nem mesmo na imaginação:
a) substancialize o tempo e o espaço e, como corolário, nunca:
I - confira ao tempo ou ao espaço propriedades físicas, tais como a capacidade de se alongar, encolher ou curvar;
II - confira ao tempo ou ao espaço propriedades quantitativas e qualitativas, tais como extensão e grau; ou
III - confira ao tempo ou ao espaço propriedades dinâmicas, tal como a capacidade de acelerar a matéria, ou criá-la, ou fazê-la desaparecer, ou intermediar as relações dinâmicas entre duas ou mais substâncias;
b) atribua ao espaço mais de três dimensões;
c) considere o tempo uma quarta dimensão espacial, pois o tempo tem características completamente diferentes das do espaço;
d) considere o tempo ou o espaço como condições de existência ou de mudança das substâncias;
e) considere a possibilidade de viagens no tempo (pois mudanças não se desfazem ou aceleram); e
f) considere a possibilidade de bilocação simultânea de substâncias (observe melhor).

Esses limites são baseados nas categorias kantianas do entendimento aplicadas no tempo e no espaço, que definem as balizas do nosso conhecimento e, por consequência, as balizas daquilo que podemos declarar como conhecimento empírico ou científico.

Também serve de critério seguro para identificar teorias absurdas e declará-las, desde já, como falsas ou pelo menos pseudocientíficas, tão logo qualquer das caraterísticas acima seja identificada na teoria, independentemente de posteriores análises de mérito.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE

Apenas deixo como observação que declarações que não respeitem esses limites não são proposições necessariamente falsas, mas são sempre inaceitáveis na nossa humana atividade científica, que se baseia na observação de fenômenos e não das coisas como elas são em si mesmas.

Por exemplo, não podemos declarar que não há efeitos sem causa, pois é perfeitamente possível pensar em um primeiro motor ou uma causa originária do universo, ainda que hipoteticamente. O que não pode acontecer é a ciência declarar que encontrou tal efeito sem causa e então embarcar no navio das "respostas fáceis" (tal como ocorria antigamente quando diziam "aconteceu porque Deus quis"), pois esse é o princípio da razão preguiçosa.

A missão da ciência é continuar tentando encontrar as causas para todos os fenômenos que observa, mesmo que nunca as encontre e mesmo que nem existam. Declarar simplesmente que há efeitos sem causa é considerar finalizada a busca de modo fácil e injustificado.

Da mesma forma, a ciência não pode declarar ter encontrado evidências de criação ou destruição de matéria de/para o nada, ou declarar que encontrou os limites temporais e espaciais do universo, ou que encontrou o "átomo" (ou "quantum") e que não é mais possível dividir a matéria, etc...

É importante também observar que os preceitos acima não proveem explicação alguma para os fenômenos, mas apenas delimitam o que não é aceitável como explicação. Não ultrapassar os limites acima não significa ter as respostas e a explicação correta poderá demandar maiores investigações empíricas. Mas enquanto não houver explicação alguma, a ciência deveria emitir um humilde "não sei".

Observação 2:

Algumas pessoas acharam pretensioso estabelecer limites para o discurso científico; que se estaria propondo algum tipo de "censura" para a ciência. Mas não é isso de modo algum, pois defendo a absoluta liberdade de expressão e consciência, embora o exercício dessa liberdade não seja sem consequências.

Apenas pretendeu-se estabelecer um critério mais seguro para diferenciar a ciência da pseudociência e o que foi dito acima não é mais pretensioso do que estabelecer limites para a mentira e para a pseudo-sapiência.

O engano é perdoável, mas sabendo da limitação da nossa capacidade de conhecer e ainda afirmar que conhecemos para além desses limites, é se enganar ou mentir.

É claro que esses limites não impedirão ninguém de inobservá-los, assim como não é possível impedir alguém de se enganar ou de mentir. Mas observando-os talvez seja possível evitar ser chamado, com justiça (porque com injustiça nem sempre está no nosso poder evitar), de mentiroso, ou de iludido, ou de dogmático.

Observação 3:

Alguns dos limites acima não se aplicam às crenças, como por exemplo, não declarar a existência de substância não extensa, ou não a existência de partículas fundamentais. Se queremos declarar a existência substancial e a natureza simples e livre da nossa alma, precisamos necessariamente ultrapassar esses limites.

Só que aqui não estamos mais falando de ciência e estamos no domínio da convicção subjetiva, ou crença, ou fé. Neste sentido, basta apenas que fique demonstrado que não é impossível, por exemplo, substâncias simples e livres. Porém, quando a ciência se limita à investigação de fenômenos e não das coisas como elas são em si mesmas, ela não impede a crença e a fé de se estenderem para o domínio das "coisas-em-si", onde não é possível o conflito com a ciência, desde que não se confunda essa crença ou fé com conhecimentos científicos ou filosóficos. 

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Brasília/DF
Revisado em 9/1/2019.

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