domingo, 7 de julho de 2019

Superando o reducionismo

1 INTRODUÇÃO

Reducionistas são teses de filósofos e/ou cientistas que pretendem reduzir o homem a um princípio único. Há dois tipos de reducionismos, que parecem muito distantes quanto à essência, mas são muito próximos quanto às consequências práticas. Há o reducionismo materialista, pretende reduzir o homem a um princípio material único, e há o reducionismo idealista, que pretende reduzir o homem a um princípio espiritual único e negar a existência independente do mundo material.

Doutrinas de reducionismo idealista não são muito populares, porque são contraintuitivas e também porque já foram objetivamente refutadas. Doutrinas de reducionismo materialista são hoje muito mais influentes e pelas razões opostas, ou seja, é intuitivo e é impossível de refutar objetivamente. Mas isso não significa que o reducionismo espiritualista também deva ser ignorado, porque ele tem os seus adeptos ainda nos dias de hoje e, embora com o discurso de preservar a liberdade, a espiritualidade, a dignidade, elas acabam recaindo nas mesmas consequências do reducionismo materialista.

O fato é que não dá para considerar pessoas e coisas como tendo um único e mesmo princípio e depois esperar que na vida prática eles sejam por nós tratados de modo diferenciado, e sob qualquer dessas doutrinas acabaremos por tratar pessoas como se fossem coisas, ou coisas como se fossem pessoas. Por isso é da máxima importância que o reducionismo seja superado. Como o reducionismo materialista é mais influente, ele é o foco principal deste ensaio.

As mais influentes correntes reducionistas (materialistas) tomam como base a teoria de Darwin que defende que a seleção natural seria a responsável pela evolução das espécies ao longo dos anos, nelas incluído o próprio homem, sendo o homem, portanto, um mero produto dessa evolução.

A nossa mente seria então um produto da matéria de que somos feitos, ou seja, do nosso cérebro. Como o nosso cérebro evoluiu mais do que os dos outros animais, isso explicaria a melhor capacidade do homem de pensar.

A desvantagem dessa tese é que ela equipara o homem a tudo o mais que existe no universo (pois o princípio deve ser único), o que tem por consequência reduzir o homem à qualidade da mesma matéria de que é feito, e isso torna teoricamente possível que o homem seja utilizado e/ou disposto como se fosse um simples objeto material.

O objetivo deste ensaio é prover um argumento (o único possível, segundo creio) capaz de superar esta tese, utilizando como base, principalmente, o argumento de Kant.


2 SUPERANDO O REDUCIONISMO

Immanuel Kant, filósofo prussiano, em sua obra intitulada “Crítica da Razão Pura”, nos ensina que “só é possível conceberem-se duas espécies de causalidade em relação ao que acontece: a causalidade segundo a natureza ou a causalidade pela liberdade” (2013, p. 462).

A causalidade segundo a natureza, diz Kant, “é, no mundo sensível, a ligação de um estado com o precedente, em que um se segue ao outro segundo uma regra” (2013, p. 462). Uma outra forma de expressar essa ideia é que a causalidade pela natureza é sempre uma causalidade de origem exterior.

Em contrapartida, Kant entende por liberdade, em sentido cosmológico, “a faculdade de iniciar por si um estado, cuja causalidade não esteja, por sua vez, subordinada, segundo a lei natural, a outra causa que a determine quanto ao tempo” (2013, p. 463). Uma outra forma de expressar essa ideia é que a causalidade pela liberdade é sempre uma causalidade de origem interior.

Para tentar superar essa dicotomia entre natureza e liberdade, alguns pensadores pretenderam postular ainda uma terceira espécie de causalidade, que é normalmente conhecida pelo nome de “acaso”. Só que o princípio lógico do terceiro excluído proíbe uma terceira espécie de causalidade entre natureza e liberdade, ou seja, uma espécie que não fosse nem exterior, nem interior, de modo que se pode afirmar objetivamente que o acaso não existe. Por isso esta hipótese já se pode considerar descartada desde já.

Importante também considerar que essas espécies de causalidade (natureza e liberdade) precisam ser consideradas em objetos atômicos. Porque se um objeto livre fosse, por exemplo, divisível, nada impediria que seus componentes internos estivessem se determinando exteriormente e mutuamente, produzindo apenas a ilusão de liberdade.

Considerando isso, os reducionistas têm fortes argumentos a seu favor: a liberdade não é sequer possível no universo que conhecemos como “físico”. Isso porque a simplicidade não é concebível no espaço e qualquer coisa que nele representemos será, para nós, em princípio, sempre divisível, ao infinito. E também porque uma causa livre apareceria, aos nossos olhos, como uma causa absolutamente primeira e incondicionada do universo, o que para nós, fisicamente (ou fenomenicamente), é também impossível de se conceber e menos ainda de se aceitar. Kant tinha essa mesma visão quando tratava de representações no espaço e no tempo:

E aqui a hipótese comum, mas enganosa, da realidade absoluta dos fenômenos, mostra bem quanto é prejudicial o seu efeito de confundir a razão. Pois que, se os fenômenos são coisas em si, não é possível salvar a liberdade. A natureza é então a causa completa e por si só suficiente, determinante de cada acontecimento, e a condição de cada um deles está sempre contida, unicamente, na série dos fenômenos que, juntamente com os seus efeitos, estão necessariamente submetidos à lei natural. (KANT, 2013, p. 465, grifos meus)

Contudo, se fizermos abstração da realidade representada no tempo e no espaço, se não tomarmos como absolutamente necessário o encadeamento temporal e espacial da realidade como ela é em si mesma, a liberdade pode ser possível. Kant diz, na sequência:

Se, pelo contrário, os fenômenos nada mais valem do que de fato são, quer dizer, se não valem como coisas em si, mas como simples representações encadeadas por leis empíricas, têm eles próprios que possuir fundamentos que não sejam fenômenos. Uma causa inteligível desse gênero, porém, não é, quanto à sua causalidade, determinada por fenômenos, embora os seus efeitos se manifestem e assim possam ser determinados por outros fenômenos. Encontram-se pois, ela e a sua causalidade, fora da série, ao passo que os seus efeitos se encontram na série das condições empíricas. O efeito, portanto, pode considerar-se livre quanto à sua causa inteligível e, quanto aos fenômenos, consequência dos mesmos segundo a necessidade da natureza... (KANT, 2013, p. 465, grifos meus)

O argumento acima possui duas consequências importantes. A primeira é que, se há liberdade no universo, ela não é representável no tempo e no espaço, o que, por conseguinte, torna impossível para nós uma representação física e sensível de um objeto livre. Ele seria, para nós, como se fosse “nada”, ou não pareceria simples, ou não pareceria livre. Assim, René Descartes não estava errado quando escreveu que ele “era uma substância (...) que, para ser, não precisa de nenhum lugar nem depende de nada material” (DESCARTES, 2005, p. 42).

Como esse “objeto livre” é o que normalmente designamos por “pessoa”, ou ainda por “alma”, ou “espírito”, e ele não pode ser representado no mundo que conhecemos como “físico”, normalmente dizemos que a nossa alma é imaterial. Mas não é imaterial no sentido de que não seja “nada”, mas no sentido de que, se ela existe, é um objeto que não é representável no tempo e no espaço. Mas a alma pode, de fato, ser um objeto bem real e concreto.

A segunda consequência do argumento de Kant é que a existência da alma não pode ser provada por nenhum meio, pois a prova possível deveria ser empírica e a alma, como já visto, se existir, nunca poderia se apresentar a nós em uma experiência no tempo e no espaço. Essa conclusão parece apoiar o argumento reducionista. Pois se a liberdade é, para nós, inconcebível no tempo e no espaço e, além disso, se a explicação natural consegue dar conta de todos os acontecimentos empíricos até o presente e conseguirá dar conta de todos os acontecimentos futuros, por que então precisaríamos admitir a liberdade? Não poderíamos descartá-la pelo princípio da Navalha de Ockham, como variável desnecessária para explicar tudo o que existe?

Em resposta a isso digo, primeiramente, que se a alma não pode ser provada, ela não pode ser refutada, pois o mesmo argumento que torna impossível uma prova torna impossível também uma refutação. Em segundo lugar, a Navalha de Ockham só pode ser utilizada para descartar variáveis irrelevantes de um problema e não o próprio problema, e a existência ou inexistência da alma é um dos grandes problemas que se quer resolver, porque disso depende a própria dignidade humana. E em terceiro lugar, se é verdade que a hipótese da liberdade não é necessária para explicar nada na natureza por nós conhecida, ela também não é proibida de ser admitida como hipótese, visto que é logicamente possível haver liberdade atuando em concomitância com a natureza na produção de tudo o que existe.

Mas então podemos nos perguntar: por que admitiríamos a hipótese da causalidade pela liberdade, sendo que não precisamos dela para explicar tudo o que existe?

A resposta para isso é muito simples: porque se rejeitarmos a hipótese da liberdade, teríamos que rejeitar a liberdade em nós mesmos, e rejeitando a liberdade em nós mesmos, nos reduziríamos, aos nossos próprios olhos, ao estado de mera natureza, ao estado de “coisas”, e não restaria qualquer argumento lógico ou racional que pudesse nos convencer a considerarmo-nos e a todos os outros homens na Terra como fins em si mesmos, que não podem ser tratados, utilizados e/ou descartados como se fossem simples objetos. E para aceitar uma conclusão dessas, somente mediante uma prova cabal, definitiva, absolutamente evidente e irrefutável, de modo que, para esse caso específico, podemos e devemos, com todo o direito, inverter o ônus da prova.

Desse modo, embora o reducionismo não possa ser refutado por qualquer argumento teórico concebível, seja ele de origem científica ou filosófica, ele pode ser declarado, com todo o direito, como absolutamente inaceitável. A liberdade humana e, consequentemente, a alma humana, assim como seus corolários, a dignidade e a igualdade, podem ser postuladas existentes, não por uma questão de fato, mas por uma questão de direito.


3 CONCLUSÃO

O argumento reducionista, como visto, é teoricamente irrefutável, mas é também ao mesmo tempo inaceitável. Como fica então a teoria darwinista? É inaceitável também?

O erro do darwinismo foi pretender explicar a evolução por causas unicamente naturais (seleção natural) e injustamente pretender descartar qualquer possibilidade de uma intervenção livre e inteligente na evolução, ainda que fosse a nossa própria. Um objeto simplesmente natural só é capaz de uma causalidade exterior, enquanto um objeto livre é, por definição, ao mesmo tempo capaz de uma causalidade interior e exterior, não havendo razões para supor que ele não poderia intervir na natureza.

Quando colocamos um relógio para funcionar, o seu funcionamento pode ser explicado por causas unicamente naturais. Mas se ele desacerta, podemos sempre, no exercício de nossa liberdade, intervir em seu curso e fazer nele pequenos ajustes periódicos, de modo que ele sempre indique a hora certa, segundo a nossa conveniência.

Não é impossível, embora não possa ser provado, que com a evolução tenha ocorrido algo assim, que um processo que ocorre naturalmente possa ter sido, vez ou outra, “ajustado” para se direcionar a um determinado fim.

Mas isso significa que a ciência ou a filosofia teórica deveriam considerar a liberdade nas suas investigações?

Não! Nem a ciência, nem a filosofia teórica, deveriam sequer investigar a liberdade nos fenômenos naturais, porque ela está completamente fora do seu alcance de investigação. Qualquer coisa que digam sobre a liberdade não terá qualquer valor teórico, por simples falta de fundamento. Elas simplesmente devem se abster dessa discussão e investigar somente causas naturais, até que ponto a natureza consegue ir por si só sem recorrer a ajustes inteligentes. E mesmo quando não encontrar a causa natural, de modo algum estará autorizada a recorrer a explicações suprassensíveis (à interferência inteligente).

No entanto, constatar que há, que houve e que haverá uma seleção natural não significa que toda seleção foi puramente natural e que não há espaço para uma intervenção livre, e a ciência ou a filosofia teórica não devem, injustamente, fechar a porta desta possibilidade, de modo que o homem possa continuar postulando a sua própria liberdade, e em consequência, a sua própria dignidade, sem ser persuadido que se contradiz ou que se ilude, a fim de satisfazer os princípios da Ética, do Direito e da Religião.


4 REFERÊNCIAS

DESCARTES, René. Discurso do Método, Regras para a Direção do Espírito. Tradução: Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2005.

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução: Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. 8ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2013.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Princípio da equivalência de massas - a gravidade não é uma força?

1.  INTRODUÇÃO

Na literatura científica encontramos duas definições distintas de massa, uma para a massa obtida a partir de interações de ordem gravitacional, chamada de "massa gravitacional", e outra para a massa obtida a partir de interações mecânicas cotidianas, como por exemplo, aplicar uma força a um objeto e empurrá-lo, chamada de "massa inercial".

Newton alegava que essas massas poderiam ser equivalentes. Essa proposta ficou conhecida como "o princípio da equivalência de massas".

Anos mais tarde, esta ideia foi utilizada por Einstein como ponto de partida da relatividade geral, com o seguinte princípio:
Um campo gravitacional homogêneo é totalmente equivalente a um referencial uniformemente acelerado. (TIPLER, 2000, p. 114)
"Einstein propôs que o princípio de equivalência se aplica não apenas à mecânica, mas a toda a física. Assim, ele tomou como hipótese que nenhum experimento permite distinguir se um corpo está submetido a uma aceleração ou a um campo gravitacional." (TIPLER, 2000, p. 114)

Por mais acertada que seja esta conclusão, ela é normalmente utilizada como ponto de partida de uma proposição que é minimamente estranha: que a gravidade não seria uma força.

Mas será verdade isso? Será que um observador teórico, do tamanho de uma partícula fundamental de matéria, não conseguiria distinguir se um corpo está submetido a uma aceleração ou a um campo gravitacional? Ou será que pelo fato de só conseguirmos realizar medições macroscópicas por meio de interações exteriores julgamos não haver força alguma?

Investigaremos isso a seguir. O item 2 deste ensaio versará sobre o que se entende sobre o princípio da equivalência de massas em sentido macroscópico. Já o item 3 será praticamente uma repetição das situações ilustradas no item 2, mas analisado como partículas simples.


2.  O PRINCÍPIO DA EQUIVALÊNCIA DE MASSAS TAL COMO ELE É HOJE COMPREENDIDO

Para ilustrar as diversas situações, utilizaremos a figura de um foguete, que pode estar em movimento ou estacionado, propulsado ou não propulsado, submetido ou não a um campo gravitacional. Dentro do foguete haverá um objeto massivo (tal como uma bola de ferro) e uma balança para registrar o seu peso em cada situação. É necessário observar o ponteiro da balança em cada cenário.

2.1  Objeto propulsado e não submetido a campo gravitacional

Imagine um foguete, em um ambiente sem qualquer campo gravitacional, acelerado por uma força aplicada por um dos seus propulsores externos, tal como a figura abaixo.
Figura 1 - Comportamento de um foguete ao ser aplicada uma força de propulsão externa em gravidade = 0
Como o foguete apresenta um movimento acelerado, ocorrerá uma reação no interior da cabine e a balança indicará um peso (que na verdade é uma força), que é o da esfera, que corresponderá ao produto da massa dessa esfera pela sua aceleração.

Força = massa x aceleração

Se a massa da esfera for determinada por essa relação da força e da aceleração conhecidas, essa massa será chamada de massa inercial:

massa inercial = força / aceleração


2.2  Objeto em repouso, não propulsado e submetido a um campo gravitacional

Imagine agora o mesmo foguete, mas em repouso (não sujeito a qualquer propulsão), apoiado sobre a superfície da Terra e sujeito apenas à ação da gravidade. A figura abaixo ilustra esta situação.
Figura 2 - Comportamento do foguete estacionado na superfície da Terra
A reação do foguete com o solo produz uma força normal, que reage com a balança e esta indicará um peso, que é o da esfera, que corresponderá ao produto da massa dessa esfera pela aceleração da gravidade, que será igual à força normal de reação.

Peso = massa x gravidade

Se a massa da esfera for determinada por essa relação entre o peso e a aceleração da gravidade, conhecidas, essa massa será chamada de massa gravitacional:

massa gravitacional = peso / gravidade


2.3  Conclusão: primeiro princípio da equivalência

A primeira forma de visualizarmos o princípio da equivalência diz, em linhas gerais, que se a aceleração imposta por uma propulsão externa for exatamente igual à aceleração da gravidade, o valor da massa inercial será exatamente (e não apenas aproximadamente) igual à massa gravitacional. Elas seriam equivalentes, donde o nome "princípio da equivalência de massas". Dessa afirmação não discordamos de modo algum.
Figura 3 - Se a aceleração imposta ao primeiro foguete pela força F for igual à aceleração da gravidade imposta ao segundo foguete pela força G, o observador interno não saberia dizer se o foguete está estacionado sobre a Terra ou se está em movimento acelerado
Mas Einstein defendeu ainda que um observador que estivesse dentro da cabine não saberia dizer se o movimento do ponteiro da balança se deve à atuação de uma força de aceleração ou se à reação normal em razão da atuação da gravidade, porque as indicações seriam idênticas.

No momento não vamos criticar essa segunda afirmação e faremos isso apenas no item 3.3 deste ensaio.


2.4  Queda livre em ambiente com campo gravitacional

Einstein ilustrou esse experimento mental como sendo o "pensamento mais feliz" de sua vida. Ele imaginou um elevador no qual o cabo se rompe, mas ilustrarei a mesma situação com o foguete e esfera das figuras anteriores.

Imagine o mesmo foguete das ilustrações anteriores em queda livre, ou seja, sem qualquer propulsão externa e submetido apenas a um campo gravitacional homogêneo ao longo de toda a sua dimensão, de qualquer valor. O que ocorreria?

Ocorreria que ao foguete seria imposto uma aceleração igual à aceleração da gravidade, tal como se estivesse sendo por esta propulsado (vide Figura 1). A diferença estaria no indicador da balança, porque em queda livre todos os objetos parecem que "perdem" o seu peso e começam a flutuar dentro do compartimento, conforme a figura abaixo:
Figura 4 - Comportamento do foguete em queda livre
Esse efeito também pode ser sentido em simulações de gravidade "zero" feita com aviões, ou em naves espaciais na órbita terrestre.


2.5  Queda livre em ambiente sem campo gravitacional

Se o foguete da ilustração anterior fosse transportado para um ambiente sem qualquer campo gravitacional, o que ocorreria?

Neste caso, como não há propulsão nem campo gravitacional, o foguete não estaria acelerado, estaria em velocidade constante e poderia inclusive estar em perfeito repouso.

No entanto, a indicação seria a mesma da condição de queda livre sob um campo gravitacional qualquer, ou seja, a balança indicaria 0 (zero) e os objetos no interior da cabine flutuariam, conforme a figura abaixo:
Figura 5 - Em um ambiente sem gravidade temos o mesmo efeito que em um ambiente em queda livre sob um campo gravitacional

2.6  Conclusão: segundo princípio da equivalência de massas

Nesta nova perspectiva do princípio da equivalência, Einstein afirmou que um observador que estivesse dentro da cabine não saberia dizer se estaria ou não sendo submetido a um campo gravitacional, nem seu módulo, direção e sentido e, em consequência, se estaria ou não em um movimento acelerado, porque as condições da cabine seriam idênticas. Ver a figura abaixo:
Figura 6 - Não é possível ao observador interno saber se está parado ou se está acelerado em queda livre
Novamente, no momento não vamos criticar a afirmação de que o observador que estivesse dentro da cabine não saberia dizer se estaria ou não submetido a um campo gravitacional e faremos isso apenas no item 3.6 deste ensaio.


2.7  Por que a gravidade não parece ser uma força?

Comparando agora a situação ilustrada pela figura 1, do foguete propulsado, com a situação ilustrada pela figura 4, de um objeto em queda livre, observamos um fato que é digno de reflexão. A situação é ilustrada na figura abaixo.
Figura 7 - Na primeira figura, embora a ela esteja sendo imposta a mesma aceleração da segunda figura, não há qualquer indicação de peso na balança e os objetos flutuam dentro da cabine
Observe que ambos os foguetes se encontram acelerados, que a aceleração tem o mesmo módulo e sentido, mas a força de aceleração é sentida apenas no foguete propulsado. No foguete em queda livre parece não haver qualquer força atuando sobre o foguete. Isso parece violar a segunda Lei de Newton, que diz que a força resultante que age sobre um corpo deve ser igual ao produto da massa do corpo pela sua aceleração.

Foi esta situação, aparentemente estranha, que levou à inferência de que a gravidade não seria uma força, pois que, no caso do corpo em queda livre, este estaria acelerando sem estar submetido a força alguma.

Desse modo, a gravidade passou a ser reinterpretada não mais como uma força, mas como uma espécie de curvatura no "tecido espaço-tempo", de modo que o objeto acelera não porque estaria submetido a uma força (gravitacional), mas ele simplesmente estaria seguindo a "curvatura do espaço-tempo" distorcido, como na figura abaixo:
Figura 8 - Representação do espaço-tempo curvo
Na figura acima, o objeto menor não se encontraria na órbita do objeto maior porque está sendo mantido por uma força gravitacional, mas ele seguiria a órbita do objeto maior porque ele simplesmente acompanha o espaço que foi curvado devido à presença da massa do objeto maior sobre o "tecido do espaço-tempo".

Sem entrar no mérito desta tese, que tem incoerências dignas de um Ptolomeu e seu sistema geocêntrico, cabe averiguar melhor esses experimentos mentais que deram origem à crença de que não haveria qualquer força atuando sobre um objeto em queda livre. É o que faremos a seguir no Capítulo 3 deste ensaio.

3. QUESTIONANDO A AFIRMAÇÃO DE QUE A GRAVIDADE NÃO É UMA FORÇA

O ponto que pretendo defender aqui neste capítulo é que a gravidade é uma força sim, semelhante a todas as outras. Só que ela é uma força que atua à distância (como todas as outras), penetrante, de partícula fundamental a partícula fundamental, como ilustrado na figura abaixo:
Figura 9 - Representação reduzida da força de gravidade atuando partícula a partícula nos corpos compostos
Repare na figura acima que cada partícula do corpo massivo 1 está submetido a apenas 3 linhas de força provenientes do corpo massivo 2, e que cada partícula do corpo massivo 2 está submetido a 5 linhas de força provenientes do corpo massivo 1. Por isso o corpo massivo 2 tem maior tendência de orbitar o corpo massivo 1 do que o contrário, porque suas partículas estão submetidas a uma força maior proveniente do outro corpo.

Desse modo, a representação da força de gravidade que atua, por exemplo, entre a Terra e a Lua, ao invés de ser isso:
Figura 10 - Representação da gravidade como uma força concentrada
 Seria assim:
Figura 11 - Representação da gravidade como uma força distribuída

Na figura acima, devemos imaginar cada partícula fundamental individual da Terra atuando univocamente sobre cada partícula fundamental da Lua, e vice-versa, considerada a sua distância particular uma da outra, e o somatório de todas essas forças equivale ao que conhecemos como força gravitacional "G".

Essa mudança na forma de representar a gravidade produz impactos no modo como devemos entender a sua atuação e talvez lance alguma luz sobre como devemos entender os estranhos efeitos observados nas figuras 3, 6 e 7 deste ensaio, que revisitaremos abaixo um a um, mas agora considerando o efeito sobre cada partícula fundamental da matéria, ao invés de considerar a sua estrutura macroscópica.


3.1  Partículas simples propulsadas e não submetidas a campo gravitacional

No item 2.1 e Figura 1, já vimos o esquema da massa inercial. Como será que ficaria esse esquema se analisássemos o que acontece partícula a partícula?
Figura 12 - A força é toda aplicada na parte inferior do sistema e transmitida, partícula a partícula, até o último elemento do sistema

Neste cenário, a propulsão empurra todo o sistema de "baixo" para "cima" e a força é transmitida partícula a partícula até a última. Desse modo, a primeira partícula no topo está submetida a apenas o próprio peso, a partícula debaixo precisa suportar ela própria e a de cima, a terceira precisa suportar ela própria mais as duas de cima, e assim sucessivamente, até ocorrer o toque na balança, que registrará o peso de todo o sistema por ela sustentado.


3.2  Partículas simples em repouso, não propulsadas e submetidas a um campo gravitacional

No item 2.2 e Figura 2, já vimos o esquema da massa gravitacional. Como será que ficaria esse esquema se analisássemos o que acontece partícula a partícula?
Figura 13 - Na reação do foguete com o solo é produzida uma força Normal, que sobe até as últimas partículas do sistema, tal como ocorre no esquema anterior
Neste cenário, as partículas inferiores suportam todo o peso do sistema e, da mesma forma que no cenário acelerado, a força Normal é transmitida partícula a partícula até a última. Desse modo, a primeira partícula no topo está submetida a apenas o próprio peso, a partícula debaixo precisa suportar ela própria e a de cima, a terceira precisa suportar ela própria mais as duas de cima, e assim sucessivamente, até ocorrer o toque na balança, que registrará o peso de todo o sistema por ela sustentado.

3.3 Conclusão: primeiro princípio da equivalência de massas do ponto de vista de partículas simples

Na comparação abaixo vemos o que já havia sido observado na escala macroscópica no item 2.3 e Figura 3 deste ensaio:
Figura 14 - Princípio da equivalência analisado do ponto de vista de partículas simples
Nesta nova forma de visualização percebemos que, assim como observado na medição macroscópica, o valor da massa inercial será exatamente (e não apenas aproximadamente) igual à massa gravitacional, porque à força de propulsão da primeira figura será equivalente a força Normal da segunda figura, que por sua vez será igual ao somatório das forças gravitacionais atuando partícula a partícula. Nenhuma diferença aí, portanto, em relação às conclusões da medição macroscópica.

No entanto, será que seria impossível a um observador interno, que fosse uma partícula simples, perceber a diferença entre o movimento propulsado e a aeronave estacionada sob ação de campo gravitacional homogêneo?

Nos dois foguetes, as forças de reação entre as partículas são as mesmas. Mas naquele foguete estacionado e submetido a uma força gravitacional "G", a partícula recebe uma força adicional, no sentido de "dentro" para "baixo", correspondente ao produto da aceleração da gravidade pela massa da partícula. Essa força de "dentro" não aparece no foguete propulsado, porque é compensada pelo movimento acelerado.

A partícula mais alta do foguete propulsado sentirá uma força por "baixo", mas nenhuma por "cima" ou por "dentro". Mas a partícula mais alta do foguete estacionado sentirá uma força equivalente por "baixo" e "por dentro", e se sentirá comprimida, tal como se estivéssemos em pé no chão com um peso sobre a nossa cabeça. Olhando mais de perto:

Figura 15 - Análise de cada partícula fundamental no topo de cada sistema

Mas por que então não percebemos essa força compressão adicional quando estamos estacionados sobre a superfície da Terra, e por que essa força se parece com a do movimento acelerado?

Isso ocorre porque cada partícula individualmente recebe a sua parcela de força gravitacional, correspondente ao produto de sua massa, que é muito pequena, pela aceleração da gravidade, o que ocasionará uma força que não pode ser por nós percebida. Por isso que analisadas do ponto de vista macroscópico, elas parecem equivalentes.


Mas o fato de o valor ser pequeno não significa que é 0 (zero), e um observador fundamental seria capaz de perceber a força da gravidade atuando em seu "interior" e diferenciá-la das reações exteriores, podendo, portanto, calcular a resultante das forças e calcular o módulo, direção e sentido da aceleração.


3.4 Partículas simples em queda livre em ambiente com campo gravitacional

Aqui vamos revisitar o item 2.4 e Figura 4, mas com os objetos analisados como partículas simples, para tentarmos entender o que pode estar acontecendo. Vejamos a figura abaixo:
Figura 16 - Queda livre com campo gravitacional examinado do ponto de vista de partículas simples
Repare que no objeto em queda livre, submetido a um campo gravitacional, cada partícula fundamental do material está percebendo uma força atuando em seu "interior" que corresponde ao produto da aceleração da gravidade pela massa da partícula fundamental, que como vimos, é muito pequena. Não há reações externas entre as partículas, porque a força não é transmitida partícula a partícula como no caso anterior, e a única força que realmente é percebida é a que atua em cada partícula individualmente. Como essa força é extremamente baixa, por um lado, e a balança só percebe forças por meio de reações exteriores, por outro lado, experimentalmente é como se essa força não existisse. A balança não consegue detectá-la porque não há reação com ela, visto que ela própria está sendo submetida à força gravitacional e não é "empurrada" pelo conjunto que está acima dela.


3.5 Partículas simples em ambiente sem campo gravitacional

Aqui vamos revisitar o item 2.5 e Figura 5, mas com os objetos analisados como partículas simples, para tentarmos entender o que pode estar acontecendo. Vejamos a figura abaixo:
Figura 17 - Em um ambiente sem gravidade tem-se o mesmo efeito resultante que em um ambiente em queda livre sob um campo gravitacional, exceto que as partículas individualmente não estão sujeitas a nenhuma força
Nenhuma surpresa! Não há força gravitacional alguma, não há força propulsora alguma, de modo que nenhuma partícula sente força alguma ou reação alguma, nem tampouco a balança registra coisa alguma.


3.6 Conclusão: segundo princípio da equivalência de massas do ponto de vista de partículas simples

Na comparação abaixo vemos o que já havia sido observado na escala macroscópica no item 2.6 e Figura 6 deste ensaio:
Figura 18 - Princípio da equivalência examinado do ponto de vista de partículas simples
Aqui neste caso observamos que há sim uma pequena diferença entre a queda livre em gravidade 0 (zero) e a queda livre com alguma gravidade (diferente de zero). Na queda livre com gravidade, cada partícula fundamental se sentiria puxada por uma força equivalente ao produto de sua massa pela aceleração da gravidade. Esse valor seria muito pequeno, mas não seria zero e, portanto, não seria equivalente ao ambiente totalmente destituído de gravidade. Olhando mais de perto:
Figura 19 - Análise de cada partícula fundamental no topo de cada sistema
O que não é menos digno de nota é que em qualquer caso não há interações de força exteriores entre as partículas, e apenas as fundamentais perceberiam a ancoragem das forças em seu "interior". Desse modo, na escala macroscópica, como não há reações externas acumulativas, ela não é detectada pelos nossos instrumentos de medida, donde a possível ilusão de que essa força não existe.

Mas se o observador da primeira figura fosse uma partícula fundamental, ele sentiria uma força puxando-o para um sentido determinado, que é a resultante da força gravitacional. Saberia inclusive dizer o módulo, direção e sentido dessa força resultante e de sua aceleração.


3.7  A gravidade ainda parece não ser uma força do ponto de vista de partículas simples?
 
Na comparação abaixo vemos o que já havia sido observado na escala macroscópica no item 2.7 e Figura 7 deste ensaio:
Figura 20 - Na primeira figura, embora a ela esteja sendo imposta a mesma aceleração da segunda figura, não há qualquer indicação de peso na balança e os objetos flutuam dentro da cabine
Com o anteriormente exposto, podemos entender porque os objetos propulsados percebem a força de aceleração e porque os objetos em queda livre não o percebem.

No caso do foguete propulsado, a força é aplicada apenas na base do foguete e é transmitida, partícula a partícula, de forma cumulativa, por reações sucessivas, de modo que o somatório de todas as forças tem um valor considerável que é percebido pela balança. Na queda livre, não há nenhuma transmissão de forças externas, de modo que a única força que poderia ser percebida é a aplicada sobre a partícula e apenas por ela própria, não se transmitindo exteriormente, de modo que pode parecer não haver força alguma.

O que também se deve ter em conta é que todas as forças detectadas em relações exteriores são forças de reação, mas nunca devido ao campo gravitacional. Isso fica mais claro na Figura 18. Por isso, como as relações exteriores são sempre idênticas, o princípio da equivalência de massas está correto.

Mas quando entramos no nível das partículas simples, indivisíveis, fundamentais, a conclusão é outra, e seria em princípio possível sim, a uma partícula fundamental, determinar os módulos, direções e sentidos dos campos gravitacionais que sobre ela atuam, assim como a força e aceleração resultantes.


4. CONCLUSÃO

Não há qualquer razão para suspeitarmos que a gravidade não seria uma força. Ela apenas não seria sentida porque, para percebê-la, precisaríamos de reações exteriores, que no caso não ocorrem. A gravidade é uma força penetrante, atua no "ser", no "interior", da partícula, de modo que apenas ela pode "saber". Mas se pudéssemos medir a "sensação" da partícula fundamental, então conseguiríamos sim saber se ela está em queda livre, acelerada ou em repouso.

Essa conclusão de que a gravidade não seria uma força gera um enorme problema para o nosso entendimento, porque viola a lei de causalidade em todas as suas concepções possíveis (de determinação e autodeterminação), pois parece que o nada, o vazio, seria capaz de alterar o estado inercial de corpos sólidos, o que nos parece impossível. É preciso que a alteração do movimento tenha uma causa (uma força), e uma causa cuja origem seja também material (porque tempo e espaço em princípio são "nada", o simples "vácuo").

Qualquer que seja a teoria que elaboremos para explicar um fenômeno observável, nunca devemos abandonar o domínio causal e apelar para explicações não-causais*, onde os fenômenos ocorreriam "do nada". Ao contrário, devemos sempre presumir causas materiais para todos os fenômenos, ainda que em um primeiro momento não consigamos vislumbrar que causa seria essa.

É verdade que nenhum experimento humano é capaz de distinguir as diversas situações em nível macroscópico. No entanto, a impossibilidade de medir e de determinar uma causa não é desculpa para apelar para explicações não-causais, pois isso seria retornar para a época do obscurantismo intelectual quando, para tudo o que não conhecíamos dizíamos "foi porque Deus quis", com a diferença que hoje dizemos "foi o espaço-tempo que fez", ou "foi o acaso que assim determinou".

Não pretendo aqui demover ninguém de acreditar que seja uma suposta curvatura no vazio que acelera corpos massivos, assim como não é meu intento demover ninguém de acreditar em milagres, bem entendidos aqui como todas as ocorrências de eventos não-causais. O que tratei aqui são apenas experimentos mentais (tais quais os de Einstein) que tornam possíveis explicações causais para o princípio da equivalência de massas, que explica porque não é possível perceber diretamente a gravidade (apenas indiretamente, por suas reações) e que não há, portanto, razão alguma para abandonarmos o universo clássico e partirmos para explicações fantasmagóricas como causas dos fenômenos relativísticos.

* Nota: considero uma "explicação não-causal" aquela que não se preocupa com o equilíbrio de forças, ou com o princípio da conservação de energia e de massa, etc..., de modo que isso nos obriga ao absurdo de pressupor acelerações sem forças, ou massas e/ou energias surgindo do, ou desaparecendo para o, nada, etc... O objetivo deste ensaio é justamente demonstrar que não é necessário abandonar o domínio causal para prover uma explicação possível para o princípio da equivalência de massas.

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Brasília/DF
Revisado em 4/5/2019.

5. BIBLIOGRAFIA:

TIPLER, Paul A. Física - Volume 3. 4ª Edição. Rio de Janeiro: LTC, 2000.

6. CRÉDITO DAS IMAGENS:

Espaço curvado na figura 8: Tetiana Zhabska/depositphotos.com. Licença de arquivo #137026108. 13/1/2019.
Terra, nas figuras 10 e 11: Michael Traves/depositphotos.com. Licença de arquivo #137025946. 13/1/2019.
Lua, nas figuras 10 e 11: Daniel Cole/depositphotos.com. Licença de arquivo #137026002. 13/1/2019.

sábado, 8 de setembro de 2018

Solução definitiva do problema do mal

O homem pensante sente uma aflição, desconhecida pelo não pensante, que pode muito bem tornar-se corrupção moral: trata-se da insatisfação com a Providência, que rege o curso do mundo em seu todo, sentida por ele quando considera os males que, sem esperança de melhora (como parece), tanto oprimem o gênero humano. Mas é da maior importância estar satisfeito com a Providência (mesmo que ela tenha traçado uma via tão penosa para nosso mundo terreno), em parte para sempre manter coragem diante das dificuldades, em parte para que não atribuamos ao destino a culpa por aquilo que é nossa própria falta - talvez a única causa de todos esses males -, e, dela desviando os olhos, deixemos de buscar ajuda contra eles no melhoramento de nós mesmos. (KANT, 2009, p. 122, ênfase original).

1 INTRODUÇÃO

O problema do mal, também conhecido como paradoxo de Epicuro, alega ter encontrado uma incompatibilidade entre a existência de um Deus onipotente, onisciente e onibenevolente (soberanamente justo e bom) e a existência de todo o mal no mundo. Normalmente é assim enunciado:

Deus, enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então Deus não pode ser onibenevolente nesta hipótese.

Deus enquanto onipotente e onibenevolente, tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então Deus não pode ser onisciente nesta hipótese.

Deus enquanto onisciente e onibenevolente, sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não tem poder para fazê-lo. Então Deus não pode ser onipotente nesta hipótese.

A consequência lógica desse suposto paradoxo seria que não é possível existir um Ser Supremo (Deus) que fosse ao mesmo tempo onipotente, onisciente e onibenevolente. E como esses três predicados são fundamentais para o conceito de Deus, a consequência lógica imediata é que Deus não existiria e a única opção intelectualmente consistente com a realidade seria o ateísmo.

O objetivo deste ensaio é demonstrar que a existência de um Deus que seja ao mesmo tempo onisciente, onipotente e onibenevolente não é incompatível com todo o mal visível que há no mundo. Mas antes são necessários alguns esclarecimentos preliminares.

2 ESCLARECIMENTOS PRELIMINARES

Uma prova da existência ou da inexistência de Deus não é possível. Mas se o problema do mal fosse realmente insolúvel, a inexistência de Deus estaria comprovada só pela sua impossibilidade lógica, donde que importa que ele deva ter, de fato, uma solução possível para nós.

Só que neste caso, como não se sabe se Deus existe ou não, a prova visa unicamente demonstrar que o problema do mal tem solução possível, e que não necessariamente será real, porque para ser real depende de Deus existir e de podermos provar isso, o que é impossível.

A solução aqui proposta é a única possível, segundo creio, e fica o espaço de comentários aberto para quem quer que queira propor outra, se a encontrar, com a única condição de que ela consiga resolver todas as dificuldades da questão. Soluções simplistas tais como, o sofrimento é para a glória de Deus, ou Deus pode fazer o que quiser porque é Deus, não são aceitáveis neste caso, porque não concordariam com um Ser Supremo onibenevolente.

Para a solução aqui proposta, o problema precisa ser dividido em duas partes.

3 DIVISÃO DO PROBLEMA DO MAL

I. Problema do mal moral - que pergunta por que Deus permite que façamos o mal.

II. Problema do mal natural - que pergunta por que Deus permite que soframos o mal.

Praticar e sofrer refere-se às duas instâncias em que o mal é possível e nenhuma outra é admissível, de modo que se essas duas instâncias forem resolvidas, o problema do mal estará completamente solucionado.

Essas instâncias serão tratadas nos tópicos seguintes.

3.1 O problema do mal moral

Por que Deus permitiria que fizéssemos o mal a outrem?

A resposta a essa primeira parte é muito simples: em respeito ao livre-arbítrio do homem.

Se Deus dirigisse o homem como a um ventríloquo, ele poderia impedir o mal, mas impediria também o exercício do livre-arbítrio. Desse modo, ao invés de o homem fazer o mal, seria Deus o agente do mal ao impedir o livre exercício da liberdade humana. O critério da onibenevolência não seria atendido dessa forma, embora nenhum mal fosse realizado pela humanidade.

O exercício (e desenvolvimento) do livre-arbítrio deve ser possibilitado em alguma medida, e ao mesmo tempo o mau uso da liberdade deve ser tratado em um sistema de justiça que retribua o mal realizado. Em outras palavras, para que Deus seja justo, ele não pode impedir todo o mal, mas deve sempre prover a punição do mal.

Desse modo, como não é possível a Deus impedir completamente o exercício do livre-arbítrio do homem, mesmo quando ele faz o mal, sem que Ele se torne ao mesmo tempo mau, entendo como solucionada essa primeira face do problema do mal.

3.2 O problema do mal natural

Por que Deus permite que soframos o mal?

A primeira resposta que podemos pensar para isso é que podemos estar sendo punidos pelo mal que anteriormente praticamos, ou pela nossa própria imoralidade ou imprevidência.

Neste caso, não existe aí uma injustiça e Deus não pode ser acusado de não ser onibenevolente justamente por permitir que aquele que praticou o mal sofra as suas consequências, ou por aplicar uma punição sobre aquele que praticou o mal exteriormente.

Porém esse argumento ainda não resolve tudo. E quanto àquelas pessoas que durante a vida nunca fizeram mal a ninguém? Pior ainda, as crianças com pouca idade, que não tiveram ainda a oportunidade de fazerem nem o bem, nem o mal, nem de serem imprudentes, nem imprevidentes? Por que sofrem, e muitas vezes atrozmente?

Neste caso, se não quisermos ceder à ceticismo ou à incredulidade (que são males teóricos e práticos, respectivamente), teremos que supor que o mal que tornou merecido aquele castigo fora cometido antes desta vida, em uma vida anterior a esta.

Por isso, admitir a reencarnação é praticamente obrigatório se quisermos resolver esta face do problema do mal e não é possível uma solução sem ela. É por isso que, por exemplo, em alguns sistemas religiosos, tal como o Espiritismo, a reencarnação foi aceita independentemente do que dizia a revelação (vide questão 222 de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec). Não digo que é impossível uma solução satisfatória para o problema do mal natural sem recorrer à reencarnação. Apenas digo que não vislumbro outra solução sem a reencarnação que seja capaz de conciliar a teoria com os fatos.

De qualquer forma, como o problema do mal natural requer apenas uma solução possível, independentemente de poder haver outras, pode-se considerar que o problema do mal natural já está solucionado, ou seja, é possível conciliar a existência de um Deus onipotente, onisciente e onibenevolente com a existência de todo o mal observável no mundo, pois há pelo menos uma solução possível, independentemente de haver outras.

4 ESCLARECIMENTOS ADICIONAIS

Tratamos acima da solução do problema do mal, mas convém tratar também do que se entende por "mal" e qual deve ser a nossa postura para com ele.

Do ponto de vista moral, mal é tudo aquilo que fazemos que tenda a impedir exteriormente (porque interiormente é impossível) o exercício da dignidade, autonomia e isonomia da humanidade em geral, inclusive em nossa própria pessoa. Mesmo se o que estivermos fazendo nos deixar felizes ou deixar outros felizes, isso será um mal caso se contraponha ao exercício da nossa dignidade, autonomia ou isonomia enquanto seres racionais.

Há apenas uma exceção em que impedir o exercício da dignidade, autonomia e isonomia de um ser racional não pode ser considerado um mal: é quando este alguém estiver cumprindo uma pena, aplicada pela Justiça (não pelos indivíduos, com as próprias mãos), em virtude de um mal (crime) anteriormente cometido. O mesmo raciocínio se aplica quando é a Justiça Divina quem aplica o castigo. Mas uma vez cessado o período imposto do castigo, não é mais possível sustentar o impedimento do exercício da dignidade, autonomia e isonomia.

Já do ponto de vista natural, mal é tudo aquilo que nos faz infelizes, ou seja, os sofrimentos físicos ou morais, as desilusões, as doenças, as guerras, a carência do mínimo existencial, etc..., incluindo o impedimento do exercício pleno da nossa dignidade, isonomia e autonomia.

Mas do mesmo modo como acima, a infelicidade sofrida não pode ser considerada um mal quando temos consciência (ou a convicção) de que essa infelicidade é merecida. O contrário é que de fato seria um mal, pois representaria a impunidade. No entanto, uma vez esgotado o período do castigo, a felicidade não é instantânea e ela depende do trabalho e do esforço. Ou seja, não basta não fazer o mal para aspirar ser feliz, mas é preciso também fazer o bem positivo, ou seja, é necessário trabalhar.

Na Terra somos por vezes infelizes, muitas vezes não sabemos as causas, e em muitas outras acusamos a Providência divina de injustiça pela nossa sorte. Mas como disse Kant, é da maior importância estarmos satisfeitos com a Providência, e para isso devemos (ainda que não possamos provar) atribuir a culpa dos nossos sofrimentos a nós mesmos e buscar a sua solução no nosso próprio melhoramento, suportando com paciência e sem blasfêmia os sofrimentos que não pudermos, de pronto, eliminar.

Com relação ao sofrimento alheio, ainda que ele possa não ser imerecido, isso não significa que não devamos aliviá-los na máxima medida do possível, desde que não em contradição com a dignidade, isonomia e autonomia do indivíduo. A crença no merecimento do castigo não pode servir de desculpa para não ajudarmos o próximo, e se Deus realmente quisesse que uma determinada pessoa não fosse por nós auxiliada, caberia a Ele colocá-la fora do nosso alcance, e não a nós nos omitirmos, mesmo porque podemos ser, neste caso, os instrumentos da Providência que colocarão fim à pena de alguém, mesmo que não tenhamos consciência disso. Além disso, prolongar desnecessariamente e arbitrariamente o sofrimento de alguém (por ação ou omissão), de forma privada, é atribuir a si próprio o direito de punir, o que por si só é um crime contra a humanidade. "A Mim [Deus] pertence a vingança e a recompensa" (Dt 32:35).

Nem tampouco contra nós mesmos podemos utilizar a desculpa de que é a "vontade divina" as diversas espécies de cilícios ou os votos de pobreza que algumas pessoas infligem a si mesmas. Se podemos eliminar o nosso sofrimento desnecessário, se isso está no limite das nossas forças, e não o fazemos, então não há que culpar Deus, mas a nós próprios.

Pelo contrário, devemos fazer o possível para progredirmos moral e materialmente neste mundo, eliminando o sofrimento desnecessário (incluindo o nosso), e deixar que Deus crie os obstáculos e sofrimentos, caso aprouver a Ele fazê-lo, ao invés de tomarmos para nós a responsabilidade de nos auto infligirmos castigos ou infligirmos castigos a outrem. Quanto a isso, finalizo com uma outra citação de Immanuel Kant:
"Entretanto, essa distinção entre o do princípio da felicidade e o princípio da moralidade nem por isso é uma oposição entre ambos, e a razão pura prática não quer que se renuncie à pretensão à felicidade, mas unicamente que a felicidade não seja tomada em consideração quando se fala de dever. Sob certos aspectos, pode até mesmo ser um dever cuidar da própria felicidade: é que, em parte, ela contém (já que a ela pertencem a habilidade, a saúde e a riqueza) meios para cumprimento do dever e, em parte, porque a carência de felicidade (por exemplo, a pobreza) encerra a tentação de infringir o dever. Apenas a promoção da felicidade não constitui nunca um dever imediato e muito menos um princípio de todo dever." (KANT, 2011, p. 108, ênfases originais)

5 REFERÊNCIAS

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Prática. Tradução: Rodolfo Schaefer. 3. ed. São Paulo: Martin Claret, 2011.

KANT, Immanuel. Começo conjectural da história humana. São Paulo: Cadernos de Filosofia Alemã, nº 13, jan./jun. 2009, p. 109-124. Disponível em: <http://ficem.fflch.usp.br/sites/ficem.fflch.usp.br/files/Comecoconjetural.pdf>. Acesso em: 16 out. 2019.

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 87. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006.


Rafael Gasparini Moreira
Brasília/DF
Revisado em 16/10/2019.

domingo, 2 de setembro de 2018

Esperanças de futuro - Religião

Abaixo segue um diálogo travado em uma rede social, diante uma postagem com um meme com a seguinte provocação: "Parabéns a você, que mesmo com a barganha do céu, e ameaça do inferno, conseguiu abandonar a religião". Mantive o meu nome, mas ocultei o nome dos participantes do debate, utilizando apenas as suas iniciais. Também efetuei pequenas correções no português (exceto onde não consegui apreender o sentido), pois no calor da discussão normalmente não se atenta para esses detalhes, e algumas inserções entre colchetes nas falas originais, para melhor esclarecimento.

O objetivo é mostrar que se o religioso tem esperanças e riscos, o não religioso também os tem, e que se ele abre mão de suas esperanças de futuro e até da sua própria dignidade, isso não é de forma completamente desinteressada e também tem as suas compensações para este mundo.

De resto, wishful thinking por wishful thinking, opto por aqueles que dignificam a humanidade e que nos impulsionam ao nosso melhoramento contínuo, e não aqueles que nos rebaixam.

Primeira resposta à provocação.

[Rafael Gasparini Moreira - RGM]: Parabéns também a vocês, que mesmo com a mais absoluta falta de provas não perderam a sua fé no futuro e na humanidade, recaindo na incredulidade, no materialismo e/ou no fatalismo.

[G... G... - GG]: Isso é uma acusação séria.

[RGM]: É a consequência da falta de religião, ou seja, falta de fé no futuro, crença de que a vida se encerra com a morte física, crença de que não haverá nunca justiça perfeita, crença que o homem nada mais é do que um simples objeto no mundo, etc...

[GG]: Sim, mas você está acusando os ateus de não acreditarem na humanidade, quando na verdade nos nos consideramos humanistas. O fato de não acreditarmos numa entidade celestial não nos torna desumano, pelo contrário, é no ser humano que nós acreditamos, tanto é que estamos sempre a dizer que pessoas ajudam pessoas. Se você analisar bem, não é falta de crença que causa desumanidade, que causa mortes e tragédias, mas sim, em muitos casos, a presença da fé que provoca esses eventos.

[RGM]: Quem acredita que a humanidade vai morrer e apodrecer, que justiça perfeita nunca se realizará, e que a humanidade nunca alcançará os seus fins essenciais (que aliás, somos moralmente obrigados a fomentar no mundo), acredita na humanidade?
Pára!

[GG]: E quem é que discrimina, que mata, que coíbe, que coage, que reprime, que age com preconceito, que humilha, que maltrata, que expulsa de casa quando tem um pensamento contrário, que povoam as maioria das prisões, que praticam atos de pedofilia e de promessas evasivas e enriquecimento as custas de promessas para uma vida no céu?

[M... E... - ME]: E quem é que acredita na humanidade então, quem acha que uns vão pro “céu” e a maioria pro “inferno”?
Pára!

[RGM]: [Ao GG] Eu não sou. E sou religioso (não perdi nem vou perder a minha fé no futuro).

[RGM]: [À ME] Eu não sou. Não somos mais crianças para acreditar em penas eternas, né? Só em penas, proporcionais ao crime.

[GG]: Nós acreditamos no ser humano sim, mas acreditamos num plano terreno, algo tangível. Fazemos o bem porque consideramos correto fazê-lo sem esperar nada em troca, ao contrário do que comumente acontece com os religiosos que fazem o bem esperando um lugarzinho no céu.

[RGM]: Se você quer usar religiões ruins como desculpa para abdicar, de livre vontade, da sua fé no futuro, vá em frente. Mas esse não é o único caminho possível.

[GG]: Religião ruim? Por gentileza, faça-nos o favor de listar quais são essas religiões.

[RGM]: Sem a alma, imortal, não existe qualquer critério de bem e mal.

Você pode até alegar que quer fazer o bem. Eu vou dizer que acredito na sua boa intenção, mas que você não tem qualquer critério do que seja isso. Apenas critérios utilitários.

A simples natureza não é em sim nem boa, nem má, assim como a ela não se pode fazer nem bem, nem mal. Ela é só "coisa". Nada além disso.

[RGM]: Toda a religião que prega a injustiça ou a ausência de futuro e finalidade moral para o homem é uma religião ruim. Sem exceções.

[RGM]: Lista? Infelizmente a quase totalidade das religiões instituídas públicas existentes são assim. Das que conheço, apenas o Espiritismo e o Cristianismo primitivo são exceções. Mas pode existir outras que eu não conheço (especialmente lá por aquelas bandas "orientais", que eu conheço bulhufas).

[GG]: "Sem alma imortal não existe qualquer critério de bem e mal". Pergunto-te: Se por ventura você e sua família estivessem sob forte ameaça e um ateu chegasse e salvasse a sua vida e dos seus pares, essa atitude teria algum critério ou ele seria apenas utilitário?

[RGM]: Depende. Você cometeu alguma trapaça ou desonestidade para atingir esse fim? Se sim, esse ato teria valor meramente utilitário. Caso contrário, teria também um valor moral.

Mas o que conta são os motivos. Você cometeria um ato desonesto para atingir esse fim?

[GG]: Se esse fosse o caso, então qualquer pessoa, tendo fé ou não, estaria agindo de forma errada. Eu falo em fazer o bem de maneira honesta. Viu alguém em necessidade, vai lá e salva, somente dessa forma.

E veja que usei esse exemplo, mas que pode ser qualquer um outro. Podemos também exemplificar com coisas simples. Devolver uma carteira, um celular, um troco que foi dado a mais, coisas realmente simples do cotidiano.

[RGM]: É um ato moral, embora nem sempre realizado por razões morais, como já expliquei.

[GG]: Nesse caso, pra você, um ação que se considere boa somente é considerada para quem tem fé, para quem não tem é um ato moral?

[RGM]: Na simples ação eu não consigo apreender as suas motivações, exceto se elas forem imorais. Se elas forem morais eu não tenho como saber, mas apenas presumir.

[GG]: Resumindo: eu salvo uma vida, é um valor utilitário e moral?
Um cristão salva uma vida, é um ato de benevolência?

[RGM]: A moral é relacionada à dignidade (uma pessoa - pode ser tão má quanto for - como um fim em si mesma e não como um simples objeto no mundo).

Qualquer coisa que faça em violação disso, vamos saber e podemos punir. Qualquer ato em favor disso não temos como saber se foi por motivação simplesmente moral ou por interesse.

Mas quem abdicou da fé no futuro abdicou, ao mesmo tempo (ainda que inconscientemente) da moralidade. Então é difícil presumir que tenha feito a boa ação por outra motivação que não a utilitária.

[RGM]: Porque, veja bem, se você acredita que um dia vai se tornar "nada", que um dia todos aqueles que ama vão se tornar "nada", e isso nem sequer o afeta, o choca, mas muito pelo contrário, que valor de fato você dá à dignidade humana?

Então não consigo presumir nas suas motivações algo acima do interesse utilitário.

Não é a crença que forma o caráter da pessoa. Mas se você é em princípio livre para escolher acreditar no que quiser (visto que nenhuma tem provas que a confirmem ou refutem), e escolhe uma crença que indignifica a humanidade, o que espera que eu pense das suas reais motivações?

Que são utilitárias, por óbvio.

[GG]: Não, meu amigo. De maneira alguma abdicamos do senso moral ao nos afastamos da fé. Isso é uma suposição preconceituosa, isso sim. Os códigos morais foram criados pela comunidade, independente de crença. E quem falou pra você que abdicamos de fé no futuro, o que deixamos para trás foi a crença em um deus que para nós não tem nenhuma serventia. Se você julga que é difícil presumir que tenhamos feito uma boa ação que não por motivação que não seja utilitária, podemos afirmar também que a motivação que vocês têm é para ser salvo e isso de forma consciente. Se pensar dessa maneira, então não existe nenhuma teu bom. Repense essa sua linha de pensamento e saiba que fé não molda caráter de ninguém, mas as atitudes sim.

[RGM]: A moral é absoluta. A dignidade tem um valor absoluto.

O que tem valor relativo é a utilidade.

Você está só passando um verniz de moralidade nos seus princípios subjetivos e utilitários.

[GG]: Eu estou passando verniz? Imagina então o que você está passando ao nos acusar de desumano, somente pelo fato de acreditarmos que a vida é aqui na terra.

[RGM]: Quem não acredita em Deus perdeu a fé no futuro, ainda que indiretamente, porque deixa de acreditar na Justiça (em estado de anarquia não é possível fazer justiça).

A figura de Deus é sim necessária para representar a ideia de uma autoridade civil sobre todos os seres racionais, sensíveis ou suprassensíveis.

E não é que eu não acredito que não possam agir moralmente. Eu não acredito é que já possam agir por razões puramente morais. Na ação, às vezes os motivos não morais coincidem com a moralidade.

É que com o materialismo se perde totalmente o conceito do que é uma ação moral. O que é bem e mal do ponto de vista da matéria? Não faz nem sentido a pergunta. O que resta, portanto, é o bom e o mau, do ponto de vista utilitário.

É difícil acreditar em motivações outras que não as utilitárias em materialistas, porque ele renunciaram a todos os princípios que tornavam isso possível.

Por isso o ateísmo e o materialismo sempre foram associados, em todos os tempos, e com razão, à imoralidade.

Não é essa crença que torna a pessoa imoral. A crença apenas revela o que estava oculto. Se você escolhe, de livre vontade, uma crença que indignifica o homem, sendo que poderia escolher qualquer outra sem incorrer em contradições ou absurdos, o que espera que as pessoas pensem de você?

[RGM]: Por exemplo, no caso de salvar a família da morte.

Se isso não dependesse de nenhum ato desonesto, de nenhuma trapaça, provavelmente eu e você salvaríamos a família.

Mas se para isso dependesse de um ato desonesto (uma mentira, por exemplo), eu com certeza não a salvaria por esse meio, independentemente das consequências, porque isso viola a moralidade.

Mas alguém que privilegia os valores utilitários, poderia querer ponderar, por exemplo. Se com a mentira ele tivesse chances de obter sucesso, é possível que lançasse mão dela para salvar a família.

Mas isso apenas revelaria falta de fé em Deus e no futuro, o que faz perder também os escrúpulos morais, i.e., faz que se considere meios imorais para obter ganhos ou evitar prejuízos de ordem utilitária.

[RGM]: Isso não é para as "orelhas pequenas", para usar um termo pejorativo empregado por Nietzsche para designar todos os crentes.

[GG]: Agora sim você está falando com um verdadeiro cristão: apoiado num preconceito que nem tem nome. Vamos ao primeiro parágrafo.

Quem foi que te disse que deixamos de acreditar na justiça por termos nos afastado de deus? Pelo contrário, é na justiça da terra que nos nos embasamos. Não sei de onde você tirou esse absurdo.

A ideia de deus tem servido muito mais para a prática de atos de desumanidade. O que mais vemos são pessoas serem agredidas em nome da fé.

Eu não tenho como ter certeza que um cristão está fazendo o bem por essa ação em si, pois o que se sabe é que fazem isso com o intuito de ir para o céu. O que se formos entender mais profundamente, eles não têm a intenção em fazer a boa ação, mas de se beneficiar com ela. O que resta é que existe apenas interesse próprio.

[Nota RGM: eu não respondi o ponto levantado no parágrafo acima porque não atentei na hora. Mas se fosse responder diria que no religioso existe um conflito de interesses, insolúvel, que torna impossível saber se a ação boa é por interesse (pela salvação, por exemplo) ou se é desinteressada, pela Lei e pela própria dignidade da humanidade em si mesma, e somente essa ação desinteressada tem valor moral. Já no materialismo, toda ação boa é materialmente interessada (objetiva normalmente a felicidade para si ou para alguém) e não são possíveis ações desinteressadas no materialismo, porque o único fundamento do desinteresse material (a dignidade da humanidade, que depende de postular a alma e sua imortalidade) é por eles rejeitado. No primeiro caso, apenas não podemos ter certeza, e a ação boa pode ou não ter valor moral. No segundo caso, ela com certeza não tem valor moral e é interessada, sensualista. Por outro lado, é possível também que haja espiritualistas inconscientes, ou seja, aqueles que são materialistas apenas da boca para fora, que não o entenderam em sua completude, especialmente quanto às consequências, e que se chocam igualmente perante a perspectiva do nada e têm a perspectiva da dignidade. Não é a esses que me refiro, mas àqueles que entenderam perfeitamente o materialismo e as suas consequências pragmáticas, e ainda assim aderiram a ele (Nietzsche, por exemplo).].

Por isso que as crenças são associadas por muitos a um mal terrível, vide as atrocidades que foram praticadas na idade média.

E por fim, a velha e boa desculpa que aquele que se diz religioso e só pratica coisas ruins, não é religioso de verdade. Muito cômodo afirmar isso.

[GG]: E afirmo mais, vocês cristãos não praticam mais atrocidades pelo fato de a justiça da terra impedir isso, caso contrário teríamos outra inquisição. Se bem que com essa cambada evangélica que existe em brasília, aliada a esse candidato cujo nome prefiro nem dizer, não estamos longe de uma teocracia em nosso país.

[ME]: GG mas o discurso edificante e imparcial logo mostra a religiosidade e crenças entranhadas. É só mais do mesmo com vestimentas bonitas, a mesma balela.

[RGM]: De fato, tem havido muitas religiões ruins no mundo. E a ideia de Deus (inclusive no Cristianismo) tem sido muito mais usada para promover a injustiça do que a justiça.

Mas isso não significa que não possamos apontar para um futuro melhor, que não possamos postular uma Religião boa.

Os fatos do mundo real nos dão subsídios para isso, e de modo algum refutam essa ideia de mundo melhor.

[RGM]: Só deixo claro aqui que para mim uma religião ruim é tão ruim ou pior que crenças ateístas ou materialistas.

De modo algum eu dou as mãos a essas religiões e as critico da mesma forma que critico vocês.

[GG]: RGM, agora sim concordo com você. Também acredito no que você falou, todavia, você precisa entender que existe bondade verdadeira entre os que não pensam igualmente você no tocante à religiosidade. Existem pessoas ruins e pessoas boas em todos os segmentos, o que você não pode fazer é colocar todos os ateus num balaio e afirmar que todos não tem bondade. São essas coisas que combato e combaterei sempre. Para você ter ideia, no meu trabalho existem diversos cristãos, a saber católicos e evangélicos e convivemos pacificamente.

[GG]: E só deixo claro que ruindade é ruindade e ponto final. Não importa se tem ou não religião.

[RGM]: Nisso estamos de acordo.

[G... A... de A... - GAA]: RGM, e é obrigatório acreditar no Deus da Bíblia?

[RGM]: Evidente que não, Gilberto. Deus, antes de ser um conceito empregado na Religião, é um conceito filosófico. O conceito de Deus que interessa é a de um ser onipotente (para que ninguém possa se subtrair de sua autoridade), onisciente (para que ninguém possa lhe ocultar nada e assim sair impune ou sem a sua merecida recompensa), livre (ou pessoal, porque seria absurdo que os homens fossem julgados por uma espécie de máquina), moral (justamente por ser livre e racional e, então, estar submetido às mesmas leis da razão), dentre outros.

No entanto, o Deus apresentado pela Bíblia por acaso é assim, mas não porque a Filosofia imitou a Religião, mas porque neste caso a Religião antecipou a Filosofia, embora de forma não tão perfeita.

Então, quando se aceita o Deus filosófico, nos limites da razão, incidentalmente acaba-se aceitando o próprio Deus cristão.

[RGM]: Kant mesmo não deixava de reconhecer isso:

"A palavras fides [fé] exprime já isso e pode aparentemente parecer suspeito que esta expressão e esta ideia particular entrem na filosofia moral, pois que antes de mais ela foi introduzida com o Cristianismo e a sua aceitação poderia parecer talvez somente uma imitação lisonjeira da sua linguagem. Mas este não é o caso, já que esta religião maravilhosa, na suprema simplicidade da sua exposição, enriqueceu a filosofia com conceitos de moral muito mais definidos e puros do que esta até então tinha podido fornecer, os quais contudo, uma vez existindo, são livremente aprovados e aceitos como tais e que ela própria bem podia ter descoberto e introduzido."
(Crítica da faculdade do juízo - §91)

Rafael Gasparini Moreira
Brasília/DF