domingo, 13 de janeiro de 2019

Questionando o princípio da equivalência de Einstein

1.  INTRODUÇÃO

Na literatura científica encontramos duas definições distintas de massa, uma para a massa obtida a partir de interações de ordem gravitacional, chamada de "massa gravitacional", e outra para a massa obtida a partir de interações mecânicas cotidianas, como por exemplo, aplicar uma força a um objeto e empurrá-lo, chamada de "massa inercial".

Newton alegava que essas massas poderiam ser equivalentes. Essa proposta ficou conhecida como "o princípio de equivalência entre massas".

Anos mais tarde, esta ideia foi utilizada por Einstein como ponto de partida da relatividade geral, com o seguinte princípio:
Um campo gravitacional homogêneo é totalmente equivalente a um referencial uniformemente acelerado. (TIPLER, 2000, p. 114)
"Einstein propôs que o princípio de equivalência se aplica não apenas à mecânica, mas a toda a física. Assim, ele tomou como hipótese que nenhum experimento permite distinguir se um corpo está submetido a uma aceleração ou a um campo gravitacional." (TIPLER, 2000, p. 114)

Mas será verdade isso? Será que um observador teórico, do tamanho de uma partícula fundamental de matéria, não conseguiria distinguir essas duas situações? Ou será que pelo fato de só conseguirmos realizar medições macroscópicas pensamos que elas são equivalentes?

Investigaremos isso a seguir. O item 2 deste ensaio versará sobre o que se entende sobre o princípio de equivalência de massas de Einstein em sentido macroscópico. Já o item 3 será praticamente uma repetição das situações ilustradas no item 2, mas analisado em escala subatômica.


2.  O PRINCÍPIO DA EQUIVALÊNCIA DE MASSAS TAL COMO ELE É HOJE COMPREENDIDO

Para ilustrar as diversas situações, utilizaremos a figura de um foguete, que pode estar em movimento ou estacionado, propulsado ou não propulsado, submetido ou não a um campo gravitacional. Dentro do foguete haverá um objeto massivo (tal como uma bola de ferro) e uma balança para registrar o seu peso em cada situação. É necessário observar o ponteiro da balança em cada cenário.

2.1  Objeto propulsado e não submetido a campo gravitacional

Imagine o leitor um foguete, em um ambiente sem qualquer campo gravitacional, acelerado por uma força aplicada por um dos seus propulsores externos, tal como a figura abaixo.
Figura 1 - comportamento de um foguete ao ser aplicada uma força de propulsão externa em gravidade = 0
Como o foguete apresenta um movimento acelerado, ocorrerá uma reação no interior da cabine e a balança indicará um peso (que na verdade é uma força), que é o da esfera, que corresponderá ao produto da massa dessa esfera pela sua aceleração.

Força = massa x aceleração

Se a massa da esfera for determinada por uma relação da força e da aceleração conhecidas, essa massa será chamada de massa inercial:

massa inercial = força / aceleração


2.2  Objeto em repouso, não propulsado e submetido a um campo gravitacional

Imagine o leitor agora o mesmo foguete, mas em repouso (não sujeito a qualquer propulsão), apoiado sobre a superfície da Terra e sujeito apenas à ação da gravidade. A figura abaixo ilustra esta situação.
Figura 2 - comportamento do foguete estacionado na superfície da Terra
A reação do foguete com o solo produz uma força normal, que reage com a balança e esta indicará um peso, que é o da esfera, que corresponderá ao produto da massa dessa esfera pela aceleração da gravidade, que será igual à força normal de reação.

Peso = massa x gravidade

Se a massa da esfera for determinada por uma relação entre o peso e a aceleração da gravidade, conhecidas, essa massa será chamada de massa gravitacional:

massa gravitacional = peso / gravidade


2.3  Conclusão: primeiro princípio da equivalência

A primeira forma de visualizarmos o princípio da equivalência diz, em linhas gerais, que se a aceleração imposta por uma propulsão externa for exatamente igual à aceleração da gravidade, o valor da massa inercial será exatamente (e não apenas aproximadamente) igual à massa gravitacional. Elas seriam equivalentes, donde o nome "princípio de equivalência entre massas". Dessa afirmação não discordamos de modo algum.
Figura 3 - se a aceleração imposta ao primeiro foguete pela força F for igual à aceleração da gravidade imposta ao segundo foguete pela força G, o observador interno não saberia dizer se o foguete está estacionado sobre a Terra ou se está em movimento acelerado
Mas Einstein defendeu ainda que um observador que estivesse dentro da cabine não saberia dizer se o movimento do ponteiro da balança se deve à atuação de uma força de aceleração ou se à reação normal em razão da atuação da gravidade, porque as indicações seriam idênticas.

No momento não vamos criticar essa segunda afirmação e faremos isso apenas no item 3.3 deste ensaio.


2.4  Queda livre em ambiente com campo gravitacional

Einstein ilustrou esse experimento mental como sendo o "pensamento mais feliz" de sua vida. Ele imaginou um elevador no qual o cabo se rompe, mas ilustrarei a mesma situação com o foguete e esfera das figuras anteriores.

Imagine o leitor o mesmo foguete das ilustrações anteriores em queda livre, ou seja, sem qualquer propulsão externa e submetido apenas a um campo gravitacional homogêneo ao longo de toda a sua dimensão, de qualquer valor. O que ocorreria?

O que ocorreria é que ao foguete seria imposto uma aceleração igual à aceleração da gravidade, tal como se estivesse sendo por esta propulsado (vide Figura 1). A diferença estaria no indicador da balança, porque em queda livre todos os objetos parecem que "perdem" o seu peso e começam a flutuar dentro do compartimento, conforme a figura abaixo:
Figura 4 - comportamento do foguete em queda livre - os objetos flutuam no interior da cabine como se não estivessem sendo submetidos a força alguma, embora o objeto esteja acelerado
Esse efeito também pode ser observado em simulações de gravidade "zero" feita com aviões, ou em naves espaciais na órbita terrestre.


2.5  Queda livre em ambiente sem campo gravitacional

Se o foguete da ilustração anterior fosse transportado para um ambiente sem qualquer campo gravitacional, o que ocorreria?

Neste caso, como não há propulsão nem campo gravitacional, o foguete não estaria acelerado, estaria em velocidade constante e poderia inclusive estar em perfeito repouso.

No entanto, a indicação seria a mesma da condição de queda livre sob um campo gravitacional qualquer, ou seja, a balança indicaria 0 (zero) e os objetos no interior da cabine flutuariam, conforme a figura abaixo:
Figura 5 - em um ambiente sem gravidade temos o mesmo efeito que em um ambiente em queda livre sob um campo gravitacional

2.6  Conclusão: segundo princípio da equivalência de massas

Nesta nova perspectiva do princípio da equivalência, Einstein afirmou que um observador que estivesse dentro da cabine não saberia dizer se estaria ou não sendo submetido a um campo gravitacional, nem seu módulo, direção e sentido e, em consequência, se estaria ou não em um movimento acelerado, porque as condições da cabine seriam idênticas. Ver a figura abaixo:
Figura 6 - não é possível ao observador interno saber se está parado ou se está acelerado em queda livre, independentemente se há ou não campo gravitacional e a sua direção ou intensidade (desde que seja homogêneo ao longo da massa)
Novamente, no momento não vamos criticar a afirmação de que o observador que estivesse dentro da cabine não saberia dizer se estaria ou não submetido a um campo gravitacional, e faremos isso apenas no item 3.6 deste ensaio.


2.7  Por que a gravidade não parece ser uma força?

Comparando agora a situação ilustrada pela figura 1, do foguete propulsado, com a situação ilustrada pela figura 4, de um objeto em queda livre, observamos um fato que é digno de reflexão. A situação é ilustrada na figura abaixo.
Figura 7 - Na primeira figura, embora a ela esteja sendo imposta a mesma aceleração da segunda figura, não há qualquer indicação de peso na balança e os objetos flutuam dentro da cabine
Observe o leitor que ambos os foguetes se encontram acelerados, que a aceleração tem o mesmo módulo e sentido, mas a força de aceleração é sentida apenas no foguete propulsado. No foguete em queda livre parece não haver qualquer força atuando sobre o foguete. Isso parece violar a segunda Lei de Newton, que diz que a força resultante que age sobre um corpo deve ser igual ao produto da massa do corpo pela sua aceleração. Na primeira figura, porém, há massa, há aceleração, mas não parece haver nenhuma força.

Foi esta situação, aparentemente estranha, que levou Einstein a inferir que a gravidade não seria de fato uma força, pois que, no caso do corpo em queda livre, este estava acelerando sem estar submetido a força alguma.

Desse modo, a gravidade passou a ser reinterpretada não mais como uma força, mas como uma espécie de curvatura no "tecido espaço-tempo", de modo que o objeto acelera não porque estaria submetido a uma força (gravitacional), mas ele simplesmente estaria seguindo a "curvatura do espaço-tempo" distorcido, como na figura abaixo:
Figura 8 - Representação do espaço-tempo curvo
Na figura acima, a Lua não se encontraria na órbita da Terra porque está sendo mantida por uma força gravitacional, mas ela seguiria a órbita da Terra porque ela simplesmente acompanha o espaço que foi curvado devido ao "peso" da massa da Terra sobre o "tecido do espaço-tempo".

Sem entrar no mérito do absurdo desta tese, que tem incoerências dignas de um Ptolomeu e seu sistema geocêntrico, cabe averiguar melhor o experimento mental que deu origem à tese de que não haveria qualquer força atuando sobre um objeto em queda livre. É o que faremos a seguir no capítulo 3 deste ensaio.

3. QUESTIONANDO O PRINCÍPIO DA EQUIVALÊNCIA

O ponto que pretendo defender aqui neste tópico é que a gravidade é uma força sim, semelhante a todas as outras. Só que ela é uma força que atua à distância (como todas as outras), penetrante, de partícula fundamental a partícula fundamental, como ilustrado na figura abaixo:
Figura 9 - representação reduzida da força de gravidade atuando partícula a partícula nos corpos compostos
Repare o leitor na figura acima que cada partícula do corpo massivo 1 está submetido a apenas 3 linhas de força provenientes do corpo massivo 2, e que cada partícula do corpo massivo 2 está submetido a 5 linhas de força provenientes do corpo massivo 1. Por isso o corpo massivo 2 tem mais tendência de se deslocar em direção ao corpo massivo 1 do que o contrário, porque suas partículas estão submetidas a uma força maior proveniente do outro corpo.

Desse modo, a representação da força de gravidade que atua entre a Terra e a Lua, por exemplo, ao invés de ser isso:
Figura 10 - Representação da gravidade como uma força concentrada
 Seria assim:
Figura 11 - Representação da gravidade como uma força distribuída

Na figura acima, devemos imaginar cada partícula fundamental individual da Terra atuando univocamente sobre cada partícula fundamental da Lua, considerada a sua distância particular uma da outra, e o somatório de todas essas forças equivale ao que conhecemos como força gravitacional "G".

Essa mudança na forma de representar a gravidade produz enormes impactos no modo como devemos entender a sua atuação, e talvez lance alguma luz sobre como devemos entender os estranhos efeitos observados nas figuras 3, 6 e 7 deste ensaio, que revisitaremos abaixo um a um, mas agora considerando o efeito sobre cada partícula fundamental da matéria, ao invés de considerar a sua estrutura macroscópica.


3.1  Objeto propulsado e não submetido a campo gravitacional em escala subatômica

No item 2.1 e Figura 1, já vimos o esquema da massa inercial. Como será que ficaria esse esquema se analisássemos o que acontece partícula a partícula?
Figura 12 - a força é toda aplicada na parte inferior do sistema e transmitida, partícula a partícula, até o último elemento do sistema
As partículas mais inferiores suportam todo o peso do sistema. Neste cenário, a propulsão empurra todo o sistema de baixo para cima, e a força é transmitida partícula a partícula até a última. Desse modo, a primeira partícula no topo está submetida a apenas ao próprio peso, a partícula debaixo precisa suportar ela própria e a de cima, a terceira precisa suportar ela própria mais as duas de cima, e assim sucessivamente, até ocorrer o toque na balança, que registrará o peso de todo o sistema por ela sustentado.


3.2  Objeto em repouso, não propulsado e submetido a um campo gravitacional em escala subatômica

No item 2.2 e Figura 2, já vimos o esquema da massa gravitacional. Como será que ficaria esse esquema se analisássemos o que acontece partícula a partícula?
Figura 13 - na reação do foguete com o solo é produzida uma força Normal, que sobe até as últimas partículas do sistema, tal como ocorre no esquema anterior
Neste cenário, as partículas inferiores suportam todo o peso do sistema e, da mesma forma que no cenário acelerado, a força Normal é transmitida partícula a partícula até a última. Desse modo, a primeira partícula no todo está submetida a apenas o próprio peso, a partícula debaixo precisa suportar ela própria e a de cima, a terceira precisa suportar ela própria mais as duas de cima, e assim sucessivamente, até ocorrer o toque na balança, que registrará o peso de todo o sistema por ela sustentado.

3.3 Conclusão: primeiro princípio da equivalência de massas em escala subatômica

Na comparação abaixo vemos o que já havia sido observado na escala macroscópica no item 2.3 e Figura 3 deste ensaio:
Figura 14 - Princípio da equivalência analisado em escala subatômica
Nesta nova forma de visualização subatômica percebemos que, assim como observado na medição macroscópica, o valor da massa inercial será exatamente (e não apenas aproximadamente) igual à massa gravitacional, porque à força de propulsão da primeira figura será equivalente a força Normal da segunda figura, que por sua vez será igual ao somatório das forças gravitacionais atuando partícula a partícula. Nenhuma diferença aí, portanto, em relação às conclusões da medição macroscópica.

No entanto, será que seria impossível a um observador subatômico interno perceber a diferença entre o movimento propulsado e a aeronave estacionada sob ação de campo gravitacional homogêneo?

Nos dois foguetes, as forças de reação entre as partículas são as mesmas. Mas naquele foguete estacionado e submetido a uma força gravitacional "G", a partícula recebe uma força adicional, de cima para baixo, correspondente ao produto da aceleração da gravidade pela massa da partícula. Essa força de cima não aparece no foguete propulsado, porque é compensada pelo movimento acelerado.

A partícula mais alta do foguete propulsado sentirá uma força por baixo, mas nenhuma por cima. Mas a partícula mais alta do foguete estacionado sentirá uma força equivalente por baixo e por cima, e se sentirá comprimida, tal como se estivéssemos em pé no chão com um peso sobre a nossa cabeça. Olhando mais de perto:

Figura 15 - Análise de cada partícula fundamental no topo de cada sistema
Mas por que então não percebemos essa força compressão adicional quando estamos estacionados sobre a superfície da Terra, e por que essa força se parece com a movimento acelerado?

Isso ocorre porque cada partícula individualmente recebe a sua parcela de força gravitacional, correspondente ao produto de sua massa, que é muito pequena, pela aceleração da gravidade, o que ocasionará uma força pequena demais para ser por nós percebida ou por qualquer instrumento terreno já inventado. Por isso que analisadas do ponto de vista macroscópico, elas parecem equivalentes.

Apenas como referência, a massa do próton é 1,67 × 10-27 kg, e o próton está longe de ser a partícula mais fundamental da matéria. O elétron, por exemplo, tem massa quase 1.800 vezes menor. No entanto, se a massa do próton fosse a massa a ser considerada para a partícula fundamental, a diferença de força de compressão entre a partícula do movimento uniformemente acelerado e a partícula estacionada na Terra submetido à gravidade terrestre, seria de apenas de apenas 16,38 x 10-27 N, que é um valor muito pequeno para ser por nós percebido ou detectado pelos nossos instrumentos de medida.

Mas o fato de o valor ser pequeno não significa que é 0 (zero), e um observador subatômico seria capaz de perceber essa força e a diferença entre o movimento acelerado e o campo gravitacional, inclusive devendo ser capaz de calcular módulo, direção e sentido dessas forças.


3.4 Queda livre em ambiente com campo gravitacional em escala subatômica

Aqui vamos revisitar o item 2.4 e Figura 4 em escala subatômica, para tentarmos entender o que pode estar acontecendo. Vejamos a figura abaixo:
Figura 16 - Queda livre com campo gravitacional examinado em escala subatômica
Repare o leitor que no objeto em queda livre, submetido a um campo gravitacional, cada partícula fundamental do material está sentindo uma força que corresponde ao produto da aceleração da gravidade pela massa da partícula fundamental, que como vimos, é muito baixa. Não há reações internas, porque a força não é transmitida partícula a partícula como no caso anterior, e a única força que realmente é sentida é a que atua em cada partícula individualmente. Como essa força é extremamente baixa, experimentalmente é quase como se ela não estivesse presente. A balança não consegue detectá-la porque não há reação com ela, visto que ela própria está sendo submetida à força gravitacional e não é "empurrada" pelo conjunto que acima dela.


3.5 Queda livre em ambiente sem campo gravitacional em escala subatômica

Aqui vamos revisitar o item 2.5 e Figura 5 em escala subatômica, para tentarmos entender o que pode estar acontecendo. Vejamos a figura abaixo:
Figura 17 - Em um ambiente sem gravidade tem-se o mesmo efeito resultante que em um ambiente em queda livre sob um campo gravitacional, exceto que as partículas individualmente não estão sujeitas a nenhuma força
Nenhuma surpresa! Não há força gravitacional alguma, não há força propulsora alguma, de modo que nenhuma partícula sente força alguma ou reação alguma, nem tampouco a balança registra coisa alguma.


3.6 Conclusão: segundo princípio da equivalência de massas em escala subatômica

Na comparação abaixo vemos o que já havia sido observado na escala macroscópica no item 2.6 e Figura 6 deste ensaio:
Figura 18 - princípio de equivalência examinado em escala subatômica
Aqui neste caso observamos que há sim uma pequena diferença entre a queda livre em gravidade 0 (zero) e a queda livre com algum grau de gravidade. Na queda livre com gravidade, cada partícula fundamental se sentiria puxada por uma força equivalente ao produto de sua massa pela aceleração da gravidade. Esse valor seria muito pequeno, mas não seria zero e, portanto, não seria equivalente ao ambiente totalmente destituído de gravidade. Olhando mais de perto:
Figura 19 - Análise de cada partícula fundamental no topo de cada sistema
O que não é menos digno de nota é que em qualquer caso não há interações de força exteriores entre as partículas, e apenas as fundamentais perceberiam a ancoragem das forças. Desse modo, na escala macroscópica, como não há reações internas acumulativas, e como a força é muito pequena, ela não é detectada pelos nossos atuais instrumentos de medida. Como também não há reações exteriores de nenhuma ordem, não há também reação com a balança e, em ambos os casos, elas registrariam "zero", o que não violaria o princípio da equivalência de massas inercial e gravitacional.

Mas se o observador da primeira figura fosse uma partícula fundamental, ele sentiria uma força o puxando para um sentido determinado, que é a resultante da força gravitacional. Saberia inclusive dizer o módulo, direção e sentido dessa força resultante que o acelera.


3.7  A gravidade ainda parece não ser uma força em escala subatômica?
 
Na comparação abaixo vemos o que já havia sido observado na escala macroscópica no item 2.7 e Figura 7 deste ensaio:
Figura 20 - na primeira figura, embora a ela esteja sendo imposta a mesma aceleração da segunda figura, não há qualquer indicação de peso na balança e os objetos flutuam dentro da cabine. Porém, na escala subatômica podemos entender o que de fato ocorre
Com o anteriormente exposto, podemos entender porque os objetos propulsados percebem a força de aceleração, e porque os objetos em queda livre não o percebem. O fato é que os objetos em queda livre perceberiam a força da gravidade que os acelera se essa força pudesse ser medida em cada partícula fundamental.

No caso do foguete propulsado, a força é aplicada apenas na base do foguete, e é transmitida, partícula a partícula, de forma cumulativa, de modo que o somatório de todas as forças tem um valor considerável que é percebido pela balança. Na queda livre, não há nenhuma transmissão de forças internas (nem mesmo a reação contra a balança), de modo que a única força que poderia ser percebida é a aplicada sobre a partícula e apenas por ela própria. Mas esta é tão pequena que, para efeitos práticos, é equiparada a zero no mundo macroscópico, de modo que todos os materiais flutuam dentro do foguete como se não houvesse força alguma aplicada aos materiais.

O que também deve-se ter em conta é que todas as forças detectadas em relações exteriores são forças de reação, mas nunca devido ao campo gravitacional. Isso fica mais claro na Figura 18. Por isso, como as relações exteriores são sempre idênticas, o princípio de equivalência de massas de Newton está correto.

Já o princípio da equivalência de Einstein é correto até o nível das interações exteriores. Como toda medição é feita, em princípio, por meio de interações exteriores entre os materiais (por exemplo, o material com a balança), e neste caso elas seriam idênticas, é possível concordar com Einstein que desse modo não é possível distinguir um movimento acelerado do corpo estacionado sobre a Terra, ou o repouso de uma queda livre. Mas quando entramos no nível das partículas simples, indivisíveis, a conclusão é outra, e seria em princípio possível sim, a uma partícula, determinar os módulos, direções e sentidos dos campos gravitacionais que sobre ela atuam.


4. CONCLUSÃO

Newton estava certo, ou seja, a massa inercial é igual à massa gravitacional. Mas a extensão desse princípio que Einstein propôs parece não estar.

E essa extensão do princípio de equivalência de massas foi tomado como ponto de partida para a relatividade geral porque parecia, à primeira vista, que não havia força alguma sujeitando os corpos expostos a uma força gravitacional. Eles parecem estar acelerando sem nenhuma força, do nada.

Isso gera um enorme problema para o nosso entendimento, porque viola a lei de causalidade em todas as suas concepções possíveis (de determinação e autodeterminação), pois parece que o nada, o vazio, seria capaz de alterar o estado inercial de corpos sólidos, o que é impossível. É preciso que a alteração do movimento tenha uma causa (uma força), e uma causa cuja origem seja material.

Qualquer que seja a teoria que elaboremos para explicar um fenômeno observável, nunca podemos abandonar o domínio causal e apelar para explicações não-causais*, onde os fenômenos ocorreriam "do nada" e todos nós ficamos satisfeitos com isso. Pelo contrário, devemos sempre presumir causas materiais para todos os fenômenos, ainda que em um primeiro momento não consigamos vislumbrar que causa seria essa.

Com o anteriormente exposto espero ter demonstrado que o chamado "princípio de equivalência de massas" de Newton está correto, mas a extensão que Einstein propôs deve ser entendido como uma "quase equivalência", válido apenas para relações exteriores, e que seria possível sim a um observador interno, desde que ele fosse simples (indivisível), ou seja, desde que ele fosse uma das partículas fundamentais de matéria onde a força de gravidade pudesse se ancorar, diferenciar se ele está submetido a uma aceleração ou a um campo gravitacional, conseguindo inclusive determinar módulo, direção e sentido desse campo resultante, assim como perceber todos os campos que sobre ele atuam.

Talvez seja verdade, como defendeu Einstein, que nenhum experimento humano consiga distinguir isso, porque embora não saibamos que massa tem a unidade mais fundamental de matéria, sabemos que ela é muito pequena e imperceptível aos atuais instrumentos de medição atuais. Talvez medir seja uma impossibilidade equivalente ao do princípio da incerteza de Heisenberg, que especifica que quanto menor for o objeto observado, maior será a incerteza na medição, chegando até a impossibilidade de medição no nível mais fundamental.

No entanto, a impossibilidade de medir e de determinar uma causa não é desculpa para apelar para explicações não-causais, pois isso seria retornar para a época do obscurantismo intelectual onde, para tudo o que não conhecíamos dizíamos "foi porque Deus quis", com a diferença que hoje dizemos "foi o espaço-tempo que fez", ou "foi o acaso que assim determinou".

Não pretendo aqui demover ninguém de acreditar que seja uma suposta curvatura no vazio que acelera corpos massivos, assim como não é meu intento demover alguém de acreditar em milagres, bem entendidos aqui como ocorrências de eventos não causais. O que tratei aqui é apenas um experimento mental (tal qual o de Einstein) que torna possível uma explicação causal para o princípio da equivalência de massas, e que não há, portanto, razão alguma para abandonarmos o universo clássico e partir para explicações fantasmagóricas como causas dos fenômenos relativísticos.

Einstein implorou perdão a Newton quando sua teoria da relatividade supostamente obliterou os absolutos de tempo e espaço que o cientista teórico havia defendido mais de dois séculos antes. Mas neste momento digo eu ao grande cientista do século XX: "Einstein, por favor, me perdoe, porque não era bem assim como você acreditava".

* Nota: considero uma "explicação não-causal" aquela que não se preocupa com o equilíbrio de forças, ou com o princípio da conservação de energia e de massa, etc..., de modo que isso nos obriga ao absurdo de pressupor acelerações sem forças, ou massas e/ou energias surgindo do, ou desaparecendo para o, nada, etc... O objetivo deste ensaio é justamente demonstrar que não é necessário abandonar o domínio causal para prover uma explicação possível para o princípio da equivalência de Einstein.

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Brasília/DF
Revisado em 20/1/2019.

5. BIBLIOGRAFIA:

TIPLER, Paul A. Física - Volume 3. 4ª Edição. Rio de Janeiro: LTC, 2000.

6. CRÉDITO DAS IMAGENS:

Espaço curvado na figura 8: Tetiana Zhabska/depositphotos.com. Licença de arquivo #137026108. 13/1/2019.
Terra, nas figuras 10 e 11: Michael Traves/depositphotos.com. Licença de arquivo #137025946. 13/1/2019.
Lua, nas figuras 10 e 11: Daniel Cole/depositphotos.com. Licença de arquivo #137026002. 13/1/2019.

sábado, 8 de setembro de 2018

Solução definitiva do paradoxo de Epicuro (ou problema do mal)

O homem pensante sente uma aflição, desconhecida pelo não pensante, que pode muito bem tornar-se corrupção moral: trata-se da insatisfação com a Providência, que rege o curso do mundo em seu todo, sentida por ele quando considera os males que, sem esperança de melhora (como parece), tanto oprimem o gênero humano. Mas é da maior importância estar satisfeito com a Providência (mesmo que ela tenha traçado uma via tão penosa para nosso mundo terreno), em parte para sempre manter coragem diante das dificuldades, em parte para que não atribuamos ao destino a culpa por aquilo que é nossa própria falta - talvez a única causa de todos esses males -, e, dela desviando os olhos, deixemos de buscar ajuda contra eles no melhoramento de nós mesmos. (Kant, Começo Conjectural da História Humana, 1786).

INTRODUÇÃO

O paradoxo de Epicuro, também conhecido como o problema filosófico do mal, alega ter encontrado uma incompatibilidade entre a existência de um Deus onipotente, onisciente e onibenevolente (soberanamente justo e bom) e a existência de todo o mal no mundo. Normalmente é assim enunciado:

Deus, enquanto onisciente e onipotente, tem conhecimento de todo o mal e poder para acabar com ele. Mas não o faz. Então Deus não pode ser onibenevolente nesta hipótese.

Deus enquanto onipotente e onibenevolente, tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe o quanto mal existe e onde o mal está. Então Deus não pode ser onisciente nesta hipótese.

Deus enquanto onisciente e onibenevolente, sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não tem poder para fazê-lo. Então Deus não pode ser onipotente nesta hipótese.

A consequência lógica desse suposto paradoxo seria que não é possível existir um Ser Supremo (Deus) que fosse ao mesmo tempo onipotente, onisciente e onibenevolente. E como esses três predicados são fundamentais para o conceito de Deus, a consequência lógica imediata é que Deus não existiria e a única opção intelectualmente consistente com a realidade seria o ateísmo.

O objetivo deste ensaio é demonstrar que a existência de um Deus que seja ao mesmo tempo onisciente, onipotente, e onibenevolente não é incompatível com todo o mal visível que há no mundo. Mas antes são necessários alguns esclarecimentos preliminares.

ESCLARECIMENTOS PRELIMINARES

Uma prova da existência ou da inexistência de Deus não é possível. Mas se o paradoxo de Epicuro fosse realmente insolúvel, a inexistência de Deus estaria comprovada só pela sua impossibilidade lógica, donde que importa que ele deva ter, de fato, uma solução possível para nós.

Só que neste caso, como não se sabe se Deus existe ou não, a prova visa unicamente demonstrar que o problema do mal tem solução possível, e que não necessariamente será real, porque para ser real depende de Deus existir, coisa que não podemos saber.

A solução aqui proposta não é minha, mas é a única possível, segundo entendo, e deixo as portas abertas para quem quer que queira propor outra, se a encontrar, com a única condição de que ela consiga resolver todas as dificuldades da questão. Soluções simplistas tais como, o sofrimento é para a glória de Deus, ou Deus pode fazer o que quiser porque é Deus, não são aceitáveis neste caso, porque não concordariam com um Ser Supremo onibenevolente.

Para a solução aqui proposta, o problema do mal precisa ser dividido em duas partes.

DIVISÃO DO PROBLEMA DO MAL

O problema do mal se divide em duas partes:

1. Problema do mal moral - que pergunta por que Deus permite que façamos o mal.

2. Problema do mal natural - que pergunta por que Deus permite que soframos o mal.

Praticar e sofrer refere-se às duas instâncias em que o mal é possível e nenhuma outra é admissível, de modo que se essas duas instâncias forem resolvidas, o problema do mal estará completamente solucionado.

Essas instâncias serão tratadas nos tópicos seguintes.

PROBLEMA DO MAL MORAL

Por que Deus permitiria que fizéssemos o mal a outrem?

A resposta a essa primeira parte é muito simples: em respeito ao livre-arbítrio do homem.

Se Deus dirigisse o homem como a um ventríloquo, ele poderia impedir o mal, mas impediria também o exercício do livre-arbítrio. Desse modo, ao invés de o homem fazer o mal, seria Deus o agente do mal ao impedir o livre exercício da liberdade humana. O critério da onibenevolência não seria atendido dessa forma, embora nenhum mal fosse realizado pela humanidade.

O exercício (e desenvolvimento) do livre-arbítrio deve ser possibilitado em alguma medida, e ao mesmo tempo o mal uso da liberdade deve ser tratado em um sistema de justiça que retribua o mal realizado. Em outras palavras, para que Deus seja justo, ele não pode impedir todo o mal, mas deve sempre prover a punição do mal.

Desse modo, como não é possível a Deus impedir completamente o exercício do livre-arbítrio do homem, mesmo quando ele faz o mal, sem que Ele se torne ao mesmo tempo mau, entendo como solucionada essa primeira face do problema do mal.

O PROBLEMA DO MAL NATURAL

Por que Deus permite que soframos o mal?

A primeira resposta que podemos pensar para isso é que podemos estar sendo punidos pelo mal que anteriormente praticamos, ou pela nossa própria imoralidade ou imprevidência.

Neste caso, não existe aí uma injustiça e Deus não pode ser acusado de não ser onibenevolente justamente por permitir que aquele que praticou o mal sofra as suas consequências, ou por aplicar uma punição sobre aquele que praticou o mal exteriormente.

Porém esse argumento ainda não resolve tudo. E quanto àquelas pessoas que durante a vida nunca fizeram mal a ninguém? Pior ainda, as crianças com pouca idade, que não tiveram ainda a oportunidade de fazerem nem o bem, nem o mal, nem de serem imprudentes, nem imprevidentes? Por que sofrem, e muitas vezes atrozmente?

Neste caso, se não quisermos ceder à ceticismo ou à incredulidade (que são males teóricos e práticos, respectivamente), teremos que supor que o mal que tornou merecido aquele castigo fora cometido antes desta vida, em uma vida anterior a esta.

Por isso, admitir a reencarnação é praticamente obrigatório se quisermos resolver esta face do problema do mal e não é possível uma solução sem ela. É por isso que, por exemplo, em alguns sistemas religiosos, tal como o Espiritismo, a reencarnação foi aceita independentemente do que dizia a revelação (vide questão 222 de O Livro dos Espíritos). Não digo que é impossível uma solução satisfatória para o problema do mal natural sem recorrer à reencarnação. Apenas digo que não vislumbro outra solução sem a reencarnação que seja capaz de conciliar a teoria com os fatos.

De qualquer forma, como o problema do mal requer apenas uma solução possível, independentemente de poder haver outras, pode-se considerar que o paradoxo de Epicuro já solucionado, ou seja, é possível conciliar a existência de um Deus onipotente, onisciente e onibenevolente com a existência de todo o mal observável no mundo.

ESCLARECIMENTOS ADICIONAIS

Tratamos acima da solução do problema do mal, mas convém tratar também do que se entende por "mal" e qual deve ser a nossa postura para com ele.

Do ponto de vista moral, mal é tudo aquilo que fazemos que tenda a impedir exteriormente (porque interiormente é impossível) o exercício da dignidade, autonomia e isonomia da humanidade em geral, inclusive em nossa própria pessoa. Mesmo se o que estivermos fazendo nos deixar felizes ou deixar outros felizes, isso será um mal caso se contraponha ao exercício da nossa dignidade, autonomia e isonomia enquanto seres racionais.

Há apenas uma exceção em que impedir o exercício da dignidade, autonomia e isonomia de um ser racional não pode ser considerado um mal: é quando este está cumprindo uma pena, aplicada pela Justiça (não pelos indivíduos, com as próprias mãos), em virtude de um mal (crime) anteriormente cometido. O mesmo raciocínio se aplica quando é a Justiça Divina quem aplica o castigo. Mas uma vez cessado o período imposto do castigo, não é mais possível sustentar o impedimento do exercício da dignidade, autonomia e isonomia, ainda que disso resulte a felicidade.

Já do ponto de vista natural, mal é tudo aquilo que nos faz infelizes, ou seja, os sofrimentos físicos ou morais, as desilusões, as doenças, as guerras, a carência do mínimo existencial, etc..., incluindo o impedimento do exercício da nossa dignidade, isonomia e autonomia.

Mas do mesmo modo como acima, a infelicidade sofrida não pode ser considerada um mal quando temos consciência (ou a convicção) de que essa infelicidade é merecida. O contrário é que de fato seria um mal, pois representaria a impunidade. No entanto, uma vez esgotado o período do castigo, a felicidade não é instantânea e ela depende do trabalho e do esforço. Ou seja, não basta não fazer o mal para aspirar ser feliz, mas é preciso também fazer o bem positivo.

Na Terra somos por vezes infelizes, muitas vezes não sabemos as causas, e em muitas outras acusamos a Providência divina de injustiça pela nossa sorte. Mas como disse Kant, é da maior importância estarmos satisfeitos com a Providência, e para isso é possível (ainda que não possamos provar) atribuir a culpa dos nossos sofrimentos a nós mesmos e buscar a sua solução no nosso próprio melhoramento, suportando com paciência e sem blasfêmia os sofrimentos que não pudermos, de pronto, eliminar.

Com relação ao sofrimento alheio, ainda que ele possa não ser imerecido, isso não significa que não devamos aliviá-los na medida do possível, desde que não em contradição com a dignidade, isonomia e autonomia do indivíduo. A crença no merecimento do castigo não pode servir de desculpa para não ajudarmos o próximo, e se Deus realmente quisesse que uma determinada pessoa não fosse por nós auxiliada, caberia a Ele colocá-la fora do nosso alcance, e não a nós nos omitirmos, mesmo porque podemos ser, neste caso, os instrumentos da Providência que colocarão fim à pena de alguém, mesmo que não tenhamos consciência disso. Além disso, prolongar desnecessariamente o sofrimento de alguém (por ação ou omissão) e de forma privada é atribuir a si próprio o direito de punir, o que por si só é um crime contra a humanidade. "A Mim [Deus] pertence a vingança e a recompensa" (Dt 32:35).

Nem tampouco, contra nós mesmos, podemos utilizar a desculpa de que é a "vontade divina" as diversas espécies de cilícios ou os votos de pobreza que algumas pessoas infligem a si mesmas. Pelo contrário, devemos fazer o possível para progredirmos moral e materialmente neste mundo, eliminando o sofrimento desnecessário (incluindo o nosso), e deixar que Deus crie os obstáculos e sofrimentos, se a Ele aprouver fazê-lo, ao invés de tomarmos para nós a responsabilidade de nos autoinfligirmos castigos. Quanto a isso, finalizo com uma citação de Immanuel Kant:
"Entretanto, essa distinção entre o do princípio da felicidade e o princípio da moralidade nem por isso é uma oposição entre ambos, e a razão pura prática não quer que se renuncie à pretensão à felicidade, mas unicamente que a felicidade não seja tomada em consideração quando se fala de dever. Sob certos aspectos, pode até mesmo ser um dever cuidar da própria felicidade: é que, em parte, ela contém (já que a ela pertencem a habilidade, a saúde e a riqueza) meios para cumprimento do dever e, em parte, porque a carência de felicidade (por exemplo, a pobreza) encerra a tentação de infringir o dever. Apenas a promoção da felicidade não constitui nunca um dever imediato e muito menos um princípio de todo dever." (Crítica da Razão Prática)

Rafael Gasparini Moreira
Brasília/DF

domingo, 2 de setembro de 2018

Esperanças de futuro - Religião

Abaixo segue um diálogo travado em uma rede social, diante uma postagem com um meme com a seguinte provocação: "Parabéns a você, que mesmo com a barganha do céu, e ameaça do inferno, conseguiu abandonar a religião". Mantive o meu nome, mas ocultei o nome dos participantes do debate, utilizando apenas as suas iniciais. Também efetuei pequenas correções no português (exceto onde não consegui apreender o sentido), pois no calor da discussão normalmente não se atenta para esses detalhes, e algumas inserções entre colchetes nas falas originais, para melhor esclarecimento.

O objetivo é mostrar que se o religioso tem esperanças e riscos, o não religioso também os tem, e que se ele abre mão de suas esperanças de futuro e até da sua própria dignidade, isso não é de forma completamente desinteressada e também tem as suas compensações para este mundo.

De resto, wishful thinking por wishful thinking, opto por aqueles que dignificam a humanidade e que nos impulsionam ao nosso melhoramento contínuo, e não aqueles que nos rebaixam.

Primeira resposta à provocação.

[Rafael Gasparini Moreira - RGM]: Parabéns também a vocês, que mesmo com a mais absoluta falta de provas não perderam a sua fé no futuro e na humanidade, recaindo na incredulidade, no materialismo e/ou no fatalismo.

[G... G... - GG]: Isso é uma acusação séria.

[RGM]: É a consequência da falta de religião, ou seja, falta de fé no futuro, crença de que a vida se encerra com a morte física, crença de que não haverá nunca justiça perfeita, crença que o homem nada mais é do que um simples objeto no mundo, etc...

[GG]: Sim, mas você está acusando os ateus de não acreditarem na humanidade, quando na verdade nos nos consideramos humanistas. O fato de não acreditarmos numa entidade celestial não nos torna desumano, pelo contrário, é no ser humano que nós acreditamos, tanto é que estamos sempre a dizer que pessoas ajudam pessoas. Se você analisar bem, não é falta de crença que causa desumanidade, que causa mortes e tragédias, mas sim, em muitos casos, a presença da fé que provoca esses eventos.

[RGM]: Quem acredita que a humanidade vai morrer e apodrecer, que justiça perfeita nunca se realizará, e que a humanidade nunca alcançará os seus fins essenciais (que aliás, somos moralmente obrigados a fomentar no mundo), acredita na humanidade?
Pára!

[GG]: E quem é que discrimina, que mata, que coíbe, que coage, que reprime, que age com preconceito, que humilha, que maltrata, que expulsa de casa quando tem um pensamento contrário, que povoam as maioria das prisões, que praticam atos de pedofilia e de promessas evasivas e enriquecimento as custas de promessas para uma vida no céu?

[M... E... - ME]: E quem é que acredita na humanidade então, quem acha que uns vão pro “céu” e a maioria pro “inferno”?
Pára!

[RGM]: [Ao GG] Eu não sou. E sou religioso (não perdi nem vou perder a minha fé no futuro).

[RGM]: [À ME] Eu não sou. Não somos mais crianças para acreditar em penas eternas, né? Só em penas, proporcionais ao crime.

[GG]: Nós acreditamos no ser humano sim, mas acreditamos num plano terreno, algo tangível. Fazemos o bem porque consideramos correto fazê-lo sem esperar nada em troca, ao contrário do que comumente acontece com os religiosos que fazem o bem esperando um lugarzinho no céu.

[RGM]: Se você quer usar religiões ruins como desculpa para abdicar, de livre vontade, da sua fé no futuro, vá em frente. Mas esse não é o único caminho possível.

[GG]: Religião ruim? Por gentileza, faça-nos o favor de listar quais são essas religiões.

[RGM]: Sem a alma, imortal, não existe qualquer critério de bem e mal.

Você pode até alegar que quer fazer o bem. Eu vou dizer que acredito na sua boa intenção, mas que você não tem qualquer critério do que seja isso. Apenas critérios utilitários.

A simples natureza não é em sim nem boa, nem má, assim como a ela não se pode fazer nem bem, nem mal. Ela é só "coisa". Nada além disso.

[RGM]: Toda a religião que prega a injustiça ou a ausência de futuro e finalidade moral para o homem é uma religião ruim. Sem exceções.

[RGM]: Lista? Infelizmente a quase totalidade das religiões instituídas públicas existentes são assim. Das que conheço, apenas o Espiritismo e o Cristianismo primitivo são exceções. Mas pode existir outras que eu não conheço (especialmente lá por aquelas bandas "orientais", que eu conheço bulhufas).

[GG]: "Sem alma imortal não existe qualquer critério de bem e mal". Pergunto-te: Se por ventura você e sua família estivessem sob forte ameaça e um ateu chegasse e salvasse a sua vida e dos seus pares, essa atitude teria algum critério ou ele seria apenas utilitário?

[RGM]: Depende. Você cometeu alguma trapaça ou desonestidade para atingir esse fim? Se sim, esse ato teria valor meramente utilitário. Caso contrário, teria também um valor moral.

Mas o que conta são os motivos. Você cometeria um ato desonesto para atingir esse fim?

[GG]: Se esse fosse o caso, então qualquer pessoa, tendo fé ou não, estaria agindo de forma errada. Eu falo em fazer o bem de maneira honesta. Viu alguém em necessidade, vai lá e salva, somente dessa forma.

E veja que usei esse exemplo, mas que pode ser qualquer um outro. Podemos também exemplificar com coisas simples. Devolver uma carteira, um celular, um troco que foi dado a mais, coisas realmente simples do cotidiano.

[RGM]: É um ato moral, embora nem sempre realizado por razões morais, como já expliquei.

[GG]: Nesse caso, pra você, um ação que se considere boa somente é considerada para quem tem fé, para quem não tem é um ato moral?

[RGM]: Na simples ação eu não consigo apreender as suas motivações, exceto se elas forem imorais. Se elas forem morais eu não tenho como saber, mas apenas presumir.

[GG]: Resumindo: eu salvo uma vida, é um valor utilitário e moral?
Um cristão salva uma vida, é um ato de benevolência?

[RGM]: A moral é relacionada à dignidade (uma pessoa - pode ser tão má quanto for - como um fim em si mesma e não como um simples objeto no mundo).

Qualquer coisa que faça em violação disso, vamos saber e podemos punir. Qualquer ato em favor disso não temos como saber se foi por motivação simplesmente moral ou por interesse.

Mas quem abdicou da fé no futuro abdicou, ao mesmo tempo (ainda que inconscientemente) da moralidade. Então é difícil presumir que tenha feito a boa ação por outra motivação que não a utilitária.

[RGM]: Porque, veja bem, se você acredita que um dia vai se tornar "nada", que um dia todos aqueles que ama vão se tornar "nada", e isso nem sequer o afeta, o choca, mas muito pelo contrário, que valor de fato você dá à dignidade humana?

Então não consigo presumir nas suas motivações algo acima do interesse utilitário.

Não é a crença que forma o caráter da pessoa. Mas se você é em princípio livre para escolher acreditar no que quiser (visto que nenhuma tem provas que a confirmem ou refutem), e escolhe uma crença que indignifica a humanidade, o que espera que eu pense das suas reais motivações?

Que são utilitárias, por óbvio.

[GG]: Não, meu amigo. De maneira alguma abdicamos do senso moral ao nos afastamos da fé. Isso é uma suposição preconceituosa, isso sim. Os códigos morais foram criados pela comunidade, independente de crença. E quem falou pra você que abdicamos de fé no futuro, o que deixamos para trás foi a crença em um deus que para nós não tem nenhuma serventia. Se você julga que é difícil presumir que tenhamos feito uma boa ação que não por motivação que não seja utilitária, podemos afirmar também que a motivação que vocês têm é para ser salvo e isso de forma consciente. Se pensar dessa maneira, então não existe nenhuma teu bom. Repense essa sua linha de pensamento e saiba que fé não molda caráter de ninguém, mas as atitudes sim.

[RGM]: A moral é absoluta. A dignidade tem um valor absoluto.

O que tem valor relativo é a utilidade.

Você está só passando um verniz de moralidade nos seus princípios subjetivos e utilitários.

[GG]: Eu estou passando verniz? Imagina então o que você está passando ao nos acusar de desumano, somente pelo fato de acreditarmos que a vida é aqui na terra.

[RGM]: Quem não acredita em Deus perdeu a fé no futuro, ainda que indiretamente, porque deixa de acreditar na Justiça (em estado de anarquia não é possível fazer justiça).

A figura de Deus é sim necessária para representar a ideia de uma autoridade civil sobre todos os seres racionais, sensíveis ou suprassensíveis.

E não é que eu não acredito que não possam agir moralmente. Eu não acredito é que já possam agir por razões puramente morais. Na ação, às vezes os motivos não morais coincidem com a moralidade.

É que com o materialismo se perde totalmente o conceito do que é uma ação moral. O que é bem e mal do ponto de vista da matéria? Não faz nem sentido a pergunta. O que resta, portanto, é o bom e o mau, do ponto de vista utilitário.

É difícil acreditar em motivações outras que não as utilitárias em materialistas, porque ele renunciaram a todos os princípios que tornavam isso possível.

Por isso o ateísmo e o materialismo sempre foram associados, em todos os tempos, e com razão, à imoralidade.

Não é essa crença que torna a pessoa imoral. A crença apenas revela o que estava oculto. Se você escolhe, de livre vontade, uma crença que indignifica o homem, sendo que poderia escolher qualquer outra sem incorrer em contradições ou absurdos, o que espera que as pessoas pensem de você?

[RGM]: Por exemplo, no caso de salvar a família da morte.

Se isso não dependesse de nenhum ato desonesto, de nenhuma trapaça, provavelmente eu e você salvaríamos a família.

Mas se para isso dependesse de um ato desonesto (uma mentira, por exemplo), eu com certeza não a salvaria por esse meio, independentemente das consequências, porque isso viola a moralidade.

Mas alguém que privilegia os valores utilitários, poderia querer ponderar, por exemplo. Se com a mentira ele tivesse chances de obter sucesso, é possível que lançasse mão dela para salvar a família.

Mas isso apenas revelaria falta de fé em Deus e no futuro, o que faz perder também os escrúpulos morais, i.e., faz que se considere meios imorais para obter ganhos ou evitar prejuízos de ordem utilitária.

[RGM]: Isso não é para as "orelhas pequenas", para usar um termo pejorativo empregado por Nietzsche para designar todos os crentes.

[GG]: Agora sim você está falando com um verdadeiro cristão: apoiado num preconceito que nem tem nome. Vamos ao primeiro parágrafo.

Quem foi que te disse que deixamos de acreditar na justiça por termos nos afastado de deus? Pelo contrário, é na justiça da terra que nos nos embasamos. Não sei de onde você tirou esse absurdo.

A ideia de deus tem servido muito mais para a prática de atos de desumanidade. O que mais vemos são pessoas serem agredidas em nome da fé.

Eu não tenho como ter certeza que um cristão está fazendo o bem por essa ação em si, pois o que se sabe é que fazem isso com o intuito de ir para o céu. O que se formos entender mais profundamente, eles não têm a intenção em fazer a boa ação, mas de se beneficiar com ela. O que resta é que existe apenas interesse próprio.

[Nota RGM: eu não respondi o ponto levantado no parágrafo acima porque não atentei na hora. Mas se fosse responder diria que no religioso existe um conflito de interesses, insolúvel, que torna impossível saber se a ação boa é por interesse (pela salvação, por exemplo) ou se é desinteressada, pela Lei e pela própria dignidade da humanidade em si mesma, e somente essa ação desinteressada tem valor moral. Já no materialismo, toda ação boa é materialmente interessada (objetiva normalmente a felicidade para si ou para alguém) e não são possíveis ações desinteressadas no materialismo, porque o único fundamento do desinteresse material (a dignidade da humanidade, que depende de postular a alma e sua imortalidade) é por eles rejeitado. No primeiro caso, apenas não podemos ter certeza, e a ação boa pode ou não ter valor moral. No segundo caso, ela com certeza não tem valor moral e é interessada, sensualista. Por outro lado, é possível também que haja espiritualistas inconscientes, ou seja, aqueles que são materialistas apenas da boca para fora, que não o entenderam em sua completude, especialmente quanto às consequências, e que se chocam igualmente perante a perspectiva do nada e têm a perspectiva da dignidade. Não é a esses que me refiro, mas àqueles que entenderam perfeitamente o materialismo e as suas consequências pragmáticas, e ainda assim aderiram a ele (Nietzsche, por exemplo).].

Por isso que as crenças são associadas por muitos a um mal terrível, vide as atrocidades que foram praticadas na idade média.

E por fim, a velha e boa desculpa que aquele que se diz religioso e só pratica coisas ruins, não é religioso de verdade. Muito cômodo afirmar isso.

[GG]: E afirmo mais, vocês cristãos não praticam mais atrocidades pelo fato de a justiça da terra impedir isso, caso contrário teríamos outra inquisição. Se bem que com essa cambada evangélica que existe em brasília, aliada a esse candidato cujo nome prefiro nem dizer, não estamos longe de uma teocracia em nosso país.

[ME]: GG mas o discurso edificante e imparcial logo mostra a religiosidade e crenças entranhadas. É só mais do mesmo com vestimentas bonitas, a mesma balela.

[RGM]: De fato, tem havido muitas religiões ruins no mundo. E a ideia de Deus (inclusive no Cristianismo) tem sido muito mais usada para promover a injustiça do que a justiça.

Mas isso não significa que não possamos apontar para um futuro melhor, que não possamos postular uma Religião boa.

Os fatos do mundo real nos dão subsídios para isso, e de modo algum refutam essa ideia de mundo melhor.

[RGM]: Só deixo claro aqui que para mim uma religião ruim é tão ruim ou pior que crenças ateístas ou materialistas.

De modo algum eu dou as mãos a essas religiões e as critico da mesma forma que critico vocês.

[GG]: RGM, agora sim concordo com você. Também acredito no que você falou, todavia, você precisa entender que existe bondade verdadeira entre os que não pensam igualmente você no tocante à religiosidade. Existem pessoas ruins e pessoas boas em todos os segmentos, o que você não pode fazer é colocar todos os ateus num balaio e afirmar que todos não tem bondade. São essas coisas que combato e combaterei sempre. Para você ter ideia, no meu trabalho existem diversos cristãos, a saber católicos e evangélicos e convivemos pacificamente.

[GG]: E só deixo claro que ruindade é ruindade e ponto final. Não importa se tem ou não religião.

[RGM]: Nisso estamos de acordo.

[G... A... de A... - GAA]: RGM, e é obrigatório acreditar no Deus da Bíblia?

[RGM]: Evidente que não, Gilberto. Deus, antes de ser um conceito empregado na Religião, é um conceito filosófico. O conceito de Deus que interessa é a de um ser onipotente (para que ninguém possa se subtrair de sua autoridade), onisciente (para que ninguém possa lhe ocultar nada e assim sair impune ou sem a sua merecida recompensa), livre (ou pessoal, porque seria absurdo que os homens fossem julgados por uma espécie de máquina), moral (justamente por ser livre e racional e, então, estar submetido às mesmas leis da razão), dentre outros.

No entanto, o Deus apresentado pela Bíblia por acaso é assim, mas não porque a Filosofia imitou a Religião, mas porque neste caso a Religião antecipou a Filosofia, embora de forma não tão perfeita.

Então, quando se aceita o Deus filosófico, nos limites da razão, incidentalmente acaba-se aceitando o próprio Deus cristão.

[RGM]: Kant mesmo não deixava de reconhecer isso:

"A palavras fides [fé] exprime já isso e pode aparentemente parecer suspeito que esta expressão e esta ideia particular entrem na filosofia moral, pois que antes de mais ela foi introduzida com o Cristianismo e a sua aceitação poderia parecer talvez somente uma imitação lisonjeira da sua linguagem. Mas este não é o caso, já que esta religião maravilhosa, na suprema simplicidade da sua exposição, enriqueceu a filosofia com conceitos de moral muito mais definidos e puros do que esta até então tinha podido fornecer, os quais contudo, uma vez existindo, são livremente aprovados e aceitos como tais e que ela própria bem podia ter descoberto e introduzido."
(Crítica da faculdade do juízo - §91)

Rafael Gasparini Moreira
Brasília/DF

domingo, 10 de junho de 2018

Os "nunca" para prevenir absurdos na ciência

Os preceitos abaixo são frutos de reflexões e discussões sobre os limites das declarações que podem ser consideradas científicas.

Tentei tomar o máximo de cuidado com a forma de escrever para evitar ambiguidades e espero não ter restado nenhuma, mas se ainda restar alguma, futuramente efetuo correções. Elas devem ser compreensíveis e óbvias à razão comum. Elas seguem a trilha das categorias do entendimento kantianas. Abaixo faço alguns comentários.

QUANTIDADE
1. Nunca declare a existência ou inexistência de matéria não extensa (mesmo que seja na forma de energia). Antes presuma, na investigação, que toda matéria detectável pela ciência é extensa.
2. Nunca declare a existência de partícula fundamental (quantum) de matéria, ou que a matéria é infinitamente divisível. Antes presuma, na investigação, que ela é indefinidamente divisível.
3. Nunca declare que o universo é finito ou infinito em quantidade de matéria. Antes presuma, na investigação, que ele é de quantidade indefinida.

QUALIDADE
4. Nunca declare que há ou que não há espaços absolutamente isentos de influência de matéria (o "vácuo absoluto"). Antes presuma, na investigação, que todos os espaços possíveis detectáveis pela ciência estão sob alguma influência material (algum campo).
5. Nunca declare que algo real e existente como fenômeno não é matéria e/ou é destituído de massa. Antes presuma, na investigação, que se algo é capaz de afetar algo com massa, aquele algo também tem massa (mesmo que não ainda detectável).
6. Nunca declare que a partícula fundamental tem densidade finita ou infinita. Antes presuma-a, na investigação, de densidade indefinida.

RELAÇÃO
7. Nunca declare que há criação ou destruição de matéria do nada ou para o nada. Antes presuma, na investigação, que ela veio de ou foi para um lugar que ainda desconhecemos.
8. Nunca declare que há efeitos sem causa (ou acelerações sem força). Antes presuma, na investigação, uma causa, ainda que desconhecida, a ser encontrada.
9. Nunca declare que há matéria que não interaja diretamente com todas as outras quantidades de matéria do universo e, como corolário, nunca declare que há interações materiais que não sejam à distância. Antes presuma, na investigação, que toda a matéria detectável pela ciência exerce algum tipo de influência (de ação e reação) sobre todas as outras quantidades de matéria do universo cognoscível.

MODALIDADE
10. Nunca declare como possível aquilo que viola as condições formais da experiência;
11. Nunca declare como real qualquer matéria que não tenha sido detectada pela experiência;
12. Nunca declare como necessário aquilo cuja realidade não dependa tão somente das condições formais da experiência.


TEMPO E ESPAÇO
13. Com relação ao tempo e ao espaço, nunca, mas nunca mesmo, nem mesmo na imaginação (tais como os espaços de Riemann, por exemplo):
a) materialize o tempo e o espaço e, como corolário, nunca:
I - confira ao tempo ou ao espaço propriedades físicas, tais como a capacidade de se alongar, encolher ou curvar;
II - confira ao tempo ou ao espaço propriedades geométricas, tais como tamanho e forma; ou
III - confira ao tempo ou ao espaço propriedades dinâmicas, tal como a capacidade de acelerar a matéria, ou criá-la, ou fazê-la desaparecer, ou intermediar as relações dinâmicas entre duas quantidades de matéria;
b) atribua ao espaço mais de três dimensões;
c) considere o tempo uma quarta dimensão espacial;
d) considere o tempo ou o espaço como condições de existência ou de mudança da matéria;
e) considere a possibilidade de viagens no tempo; ou
f) considere a possibilidade de bilocação simultânea da matéria (observe melhor).

Esses "nunca" vêm das categorias kantianas do entendimento aplicadas no tempo e no espaço, que definem os limites do nosso conhecimento e, por consequência, os limites daquilo que podemos declarar como conhecimento empírico ou científico.

Também serve de critério seguro para identificar teorias absurdas e declará-las, desde já, como falsas, independentemente de análise material do mérito.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE

Apenas deixo como observação que esses "nunca" não são proposições necessariamente falsas, mas são sempre inaceitáveis na atividade científica humana, que se baseia na observação de fenômenos e não das coisas como elas são em si mesmas.

Por exemplo, não podemos declarar que não há efeitos sem causa, pois é perfeitamente possível pensar em um primeiro motor ou uma causa originária do universo, ainda que hipoteticamente. O que não pode acontecer é a ciência declarar que encontrou tal efeito sem causa e então embarcar no navio das "respostas fáceis" (tal como se usava antigamente quando diziam "aconteceu porque Deus quis"), pois esse é o princípio da razão preguiçosa.

A missão da ciência é continuar tentando encontrar as causas para todos os fenômenos, mesmo que nunca as encontre (ou mesmo que nem existam), de modo que a ciência não pode simplesmente e dogmaticamente declarar que há efeitos sem causa, porque isso significaria considerar finalizada a busca.

Da mesma forma, a ciência não pode declarar ter encontrado evidências de criação ou destruição de matéria de/para o nada, ou que encontrou os limites do universo, ou que encontrou o "átomo" e que não é mais possível dividir a matéria, etc...

É importante também observar que os preceitos acima não proveem explicação alguma para os fenômenos, mas apenas delimitam o que não pode ser aceitável como explicação. A explicação correta evidentemente demandará maiores investigações científicas.

Observação 2:

Algumas pessoas acharam pretensioso eu dizer, em se referindo à ciência, "nunca declare...", "nunca declare...", "nunca declare..."; que eu estaria propondo algum tipo de "censura" para a ciência. Mas não é isso de modo algum, pois sou um defensor da absoluta liberdade de expressão e consciência, embora o exercício dessa liberdade não seja sem consequências.

Apenas pretendi estabelecer um critério mais seguro para diferenciar a ciência da pseudociência, e o que disse acima não é mais pretensioso do que dizer:

"Nunca minta...", "nunca minta...", "nunca minta..."; ou "nunca diga que sabe quando não sabe...", "nunca diga que sabe quando não sabe...", "nunca diga que sabe quando não sabe...", etc...

O engano é perdoável, mas sabendo da limitação da nossa capacidade de conhecer e ainda afirmar que conhece para além desses limites, é se enganar ou mentir.

E qualquer um é evidentemente livre para ignorar a recomendação, se quiser. Mas se não observá-las, talvez não consiga evitar o rótulo de mentiroso ou, minimamente, de iludido ou dogmático.

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Brasília/DF
Revisado em 13/4/2019