domingo, 2 de setembro de 2018

Esperanças de futuro - Religião

Abaixo segue um diálogo travado em uma rede social, diante uma postagem com um meme com a seguinte provocação: "Parabéns a você, que mesmo com a barganha do céu, e ameaça do inferno, conseguiu abandonar a religião". Mantive o meu nome, mas ocultei o nome dos participantes do debate, utilizando apenas as suas iniciais. Também efetuei pequenas correções no português (exceto onde não consegui apreender o sentido), pois no calor da discussão normalmente não se atenta para esses detalhes, e algumas inserções entre colchetes nas falas originais, para melhor esclarecimento.

O objetivo é mostrar que se o religioso tem esperanças e riscos, o não religioso também os tem, e que se ele abre mão de suas esperanças de futuro e até da sua própria dignidade, isso não é de forma completamente desinteressada e também tem as suas compensações para este mundo.

De resto, wishful thinking por wishful thinking, opto por aqueles que dignificam a humanidade e que nos impulsionam ao nosso melhoramento contínuo, e não aqueles que nos rebaixam.

Primeira resposta à provocação.

[Rafael Gasparini Moreira - RGM]: Parabéns também a vocês, que mesmo com a mais absoluta falta de provas não perderam a sua fé no futuro e na humanidade, recaindo na incredulidade, no materialismo e/ou no fatalismo.

[G... G... - GG]: Isso é uma acusação séria.

[RGM]: É a consequência da falta de religião, ou seja, falta de fé no futuro, crença de que a vida se encerra com a morte física, crença de que não haverá nunca justiça perfeita, crença que o homem nada mais é do que um simples objeto no mundo, etc...

[GG]: Sim, mas você está acusando os ateus de não acreditarem na humanidade, quando na verdade nos nos consideramos humanistas. O fato de não acreditarmos numa entidade celestial não nos torna desumano, pelo contrário, é no ser humano que nós acreditamos, tanto é que estamos sempre a dizer que pessoas ajudam pessoas. Se você analisar bem, não é falta de crença que causa desumanidade, que causa mortes e tragédias, mas sim, em muitos casos, a presença da fé que provoca esses eventos.

[RGM]: Quem acredita que a humanidade vai morrer e apodrecer, que justiça perfeita nunca se realizará, e que a humanidade nunca alcançará os seus fins essenciais (que aliás, somos moralmente obrigados a fomentar no mundo), acredita na humanidade?
Pára!

[GG]: E quem é que discrimina, que mata, que coíbe, que coage, que reprime, que age com preconceito, que humilha, que maltrata, que expulsa de casa quando tem um pensamento contrário, que povoam as maioria das prisões, que praticam atos de pedofilia e de promessas evasivas e enriquecimento as custas de promessas para uma vida no céu?

[M... E... - ME]: E quem é que acredita na humanidade então, quem acha que uns vão pro “céu” e a maioria pro “inferno”?
Pára!

[RGM]: [Ao GG] Eu não sou. E sou religioso (não perdi nem vou perder a minha fé no futuro).

[RGM]: [À ME] Eu não sou. Não somos mais crianças para acreditar em penas eternas, né? Só em penas, proporcionais ao crime.

[GG]: Nós acreditamos no ser humano sim, mas acreditamos num plano terreno, algo tangível. Fazemos o bem porque consideramos correto fazê-lo sem esperar nada em troca, ao contrário do que comumente acontece com os religiosos que fazem o bem esperando um lugarzinho no céu.

[RGM]: Se você quer usar religiões ruins como desculpa para abdicar, de livre vontade, da sua fé no futuro, vá em frente. Mas esse não é o único caminho possível.

[GG]: Religião ruim? Por gentileza, faça-nos o favor de listar quais são essas religiões.

[RGM]: Sem a alma, imortal, não existe qualquer critério de bem e mal.

Você pode até alegar que quer fazer o bem. Eu vou dizer que acredito na sua boa intenção, mas que você não tem qualquer critério do que seja isso. Apenas critérios utilitários.

A simples natureza não é em sim nem boa, nem má, assim como a ela não se pode fazer nem bem, nem mal. Ela é só "coisa". Nada além disso.

[RGM]: Toda a religião que prega a injustiça ou a ausência de futuro e finalidade moral para o homem é uma religião ruim. Sem exceções.

[RGM]: Lista? Infelizmente a quase totalidade das religiões instituídas públicas existentes são assim. Das que conheço, apenas o Espiritismo e o Cristianismo primitivo são exceções. Mas pode existir outras que eu não conheço (especialmente lá por aquelas bandas "orientais", que eu conheço bulhufas).

[GG]: "Sem alma imortal não existe qualquer critério de bem e mal". Pergunto-te: Se por ventura você e sua família estivessem sob forte ameaça e um ateu chegasse e salvasse a sua vida e dos seus pares, essa atitude teria algum critério ou ele seria apenas utilitário?

[RGM]: Depende. Você cometeu alguma trapaça ou desonestidade para atingir esse fim? Se sim, esse ato teria valor meramente utilitário. Caso contrário, teria também um valor moral.

Mas o que conta são os motivos. Você cometeria um ato desonesto para atingir esse fim?

[GG]: Se esse fosse o caso, então qualquer pessoa, tendo fé ou não, estaria agindo de forma errada. Eu falo em fazer o bem de maneira honesta. Viu alguém em necessidade, vai lá e salva, somente dessa forma.

E veja que usei esse exemplo, mas que pode ser qualquer um outro. Podemos também exemplificar com coisas simples. Devolver uma carteira, um celular, um troco que foi dado a mais, coisas realmente simples do cotidiano.

[RGM]: É um ato moral, embora nem sempre realizado por razões morais, como já expliquei.

[GG]: Nesse caso, pra você, um ação que se considere boa somente é considerada para quem tem fé, para quem não tem é um ato moral?

[RGM]: Na simples ação eu não consigo apreender as suas motivações, exceto se elas forem imorais. Se elas forem morais eu não tenho como saber, mas apenas presumir.

[GG]: Resumindo: eu salvo uma vida, é um valor utilitário e moral?
Um cristão salva uma vida, é um ato de benevolência?

[RGM]: A moral é relacionada à dignidade (uma pessoa - pode ser tão má quanto for - como um fim em si mesma e não como um simples objeto no mundo).

Qualquer coisa que faça em violação disso, vamos saber e podemos punir. Qualquer ato em favor disso não temos como saber se foi por motivação simplesmente moral ou por interesse.

Mas quem abdicou da fé no futuro abdicou, ao mesmo tempo (ainda que inconscientemente) da moralidade. Então é difícil presumir que tenha feito a boa ação por outra motivação que não a utilitária.

[RGM]: Porque, veja bem, se você acredita que um dia vai se tornar "nada", que um dia todos aqueles que ama vão se tornar "nada", e isso nem sequer o afeta, o choca, mas muito pelo contrário, que valor de fato você dá à dignidade humana?

Então não consigo presumir nas suas motivações algo acima do interesse utilitário.

Não é a crença que forma o caráter da pessoa. Mas se você é em princípio livre para escolher acreditar no que quiser (visto que nenhuma tem provas que a confirmem ou refutem), e escolhe uma crença que indignifica a humanidade, o que espera que eu pense das suas reais motivações?

Que são utilitárias, por óbvio.

[GG]: Não, meu amigo. De maneira alguma abdicamos do senso moral ao nos afastamos da fé. Isso é uma suposição preconceituosa, isso sim. Os códigos morais foram criados pela comunidade, independente de crença. E quem falou pra você que abdicamos de fé no futuro, o que deixamos para trás foi a crença em um deus que para nós não tem nenhuma serventia. Se você julga que é difícil presumir que tenhamos feito uma boa ação que não por motivação que não seja utilitária, podemos afirmar também que a motivação que vocês têm é para ser salvo e isso de forma consciente. Se pensar dessa maneira, então não existe nenhuma teu bom. Repense essa sua linha de pensamento e saiba que fé não molda caráter de ninguém, mas as atitudes sim.

[RGM]: A moral é absoluta. A dignidade tem um valor absoluto.

O que tem valor relativo é a utilidade.

Você está só passando um verniz de moralidade nos seus princípios subjetivos e utilitários.

[GG]: Eu estou passando verniz? Imagina então o que você está passando ao nos acusar de desumano, somente pelo fato de acreditarmos que a vida é aqui na terra.

[RGM]: Quem não acredita em Deus perdeu a fé no futuro, ainda que indiretamente, porque deixa de acreditar na Justiça (em estado de anarquia não é possível fazer justiça).

A figura de Deus é sim necessária para representar a ideia de uma autoridade civil sobre todos os seres racionais, sensíveis ou suprassensíveis.

E não é que eu não acredito que não possam agir moralmente. Eu não acredito é que já possam agir por razões puramente morais. Na ação, às vezes os motivos não morais coincidem com a moralidade.

É que com o materialismo se perde totalmente o conceito do que é uma ação moral. O que é bem e mal do ponto de vista da matéria? Não faz nem sentido a pergunta. O que resta, portanto, é o bom e o mau, do ponto de vista utilitário.

É difícil acreditar em motivações outras que não as utilitárias em materialistas, porque ele renunciaram a todos os princípios que tornavam isso possível.

Por isso o ateísmo e o materialismo sempre foram associados, em todos os tempos, e com razão, à imoralidade.

Não é essa crença que torna a pessoa imoral. A crença apenas revela o que estava oculto. Se você escolhe, de livre vontade, uma crença que indignifica o homem, sendo que poderia escolher qualquer outra sem incorrer em contradições ou absurdos, o que espera que as pessoas pensem de você?

[RGM]: Por exemplo, no caso de salvar a família da morte.

Se isso não dependesse de nenhum ato desonesto, de nenhuma trapaça, provavelmente eu e você salvaríamos a família.

Mas se para isso dependesse de um ato desonesto (uma mentira, por exemplo), eu com certeza não a salvaria por esse meio, independentemente das consequências, porque isso viola a moralidade.

Mas alguém que privilegia os valores utilitários, poderia querer ponderar, por exemplo. Se com a mentira ele tivesse chances de obter sucesso, é possível que lançasse mão dela para salvar a família.

Mas isso apenas revelaria falta de fé em Deus e no futuro, o que faz perder também os escrúpulos morais, i.e., faz que se considere meios imorais para obter ganhos ou evitar prejuízos de ordem utilitária.

[RGM]: Isso não é para as "orelhas pequenas", para usar um termo pejorativo empregado por Nietzsche para designar todos os crentes.

[GG]: Agora sim você está falando com um verdadeiro cristão: apoiado num preconceito que nem tem nome. Vamos ao primeiro parágrafo.

Quem foi que te disse que deixamos de acreditar na justiça por termos nos afastado de deus? Pelo contrário, é na justiça da terra que nos nos embasamos. Não sei de onde você tirou esse absurdo.

A ideia de deus tem servido muito mais para a prática de atos de desumanidade. O que mais vemos são pessoas serem agredidas em nome da fé.

Eu não tenho como ter certeza que um cristão está fazendo o bem por essa ação em si, pois o que se sabe é que fazem isso com o intuito de ir para o céu. O que se formos entender mais profundamente, eles não têm a intenção em fazer a boa ação, mas de se beneficiar com ela. O que resta é que existe apenas interesse próprio.

[Nota RGM: eu não respondi o ponto levantado no parágrafo acima porque não atentei na hora. Mas se fosse responder diria que no religioso existe um conflito de interesses, insolúvel, que torna impossível saber se a ação boa é por interesse (pela salvação, por exemplo) ou se é desinteressada, pela Lei e pela própria dignidade da humanidade em si mesma, e somente essa ação desinteressada tem valor moral. Já no materialismo, toda ação boa é materialmente interessada (objetiva normalmente a felicidade para si ou para alguém) e não são possíveis ações desinteressadas no materialismo, porque o único fundamento do desinteresse material (a dignidade da humanidade, que depende de postular a alma e sua imortalidade) é por eles rejeitado. No primeiro caso, apenas não podemos ter certeza, e a ação boa pode ou não ter valor moral. No segundo caso, ela com certeza não tem valor moral e é interessada, sensualista. Por outro lado, é possível também que haja espiritualistas inconscientes, ou seja, aqueles que são materialistas apenas da boca para fora, que não o entenderam em sua completude, especialmente quanto às consequências, e que se chocam igualmente perante a perspectiva do nada e têm a perspectiva da dignidade. Não é a esses que me refiro, mas àqueles que entenderam perfeitamente o materialismo e as suas consequências pragmáticas, e ainda assim aderiram a ele (Nietzsche, por exemplo).].

Por isso que as crenças são associadas por muitos a um mal terrível, vide as atrocidades que foram praticadas na idade média.

E por fim, a velha e boa desculpa que aquele que se diz religioso e só pratica coisas ruins, não é religioso de verdade. Muito cômodo afirmar isso.

[GG]: E afirmo mais, vocês cristãos não praticam mais atrocidades pelo fato de a justiça da terra impedir isso, caso contrário teríamos outra inquisição. Se bem que com essa cambada evangélica que existe em brasília, aliada a esse candidato cujo nome prefiro nem dizer, não estamos longe de uma teocracia em nosso país.

[ME]: GG mas o discurso edificante e imparcial logo mostra a religiosidade e crenças entranhadas. É só mais do mesmo com vestimentas bonitas, a mesma balela.

[RGM]: De fato, tem havido muitas religiões ruins no mundo. E a ideia de Deus (inclusive no Cristianismo) tem sido muito mais usada para promover a injustiça do que a justiça.

Mas isso não significa que não possamos apontar para um futuro melhor, que não possamos postular uma Religião boa.

Os fatos do mundo real nos dão subsídios para isso, e de modo algum refutam essa ideia de mundo melhor.

[RGM]: Só deixo claro aqui que para mim uma religião ruim é tão ruim ou pior que crenças ateístas ou materialistas.

De modo algum eu dou as mãos a essas religiões e as critico da mesma forma que critico vocês.

[GG]: RGM, agora sim concordo com você. Também acredito no que você falou, todavia, você precisa entender que existe bondade verdadeira entre os que não pensam igualmente você no tocante à religiosidade. Existem pessoas ruins e pessoas boas em todos os segmentos, o que você não pode fazer é colocar todos os ateus num balaio e afirmar que todos não tem bondade. São essas coisas que combato e combaterei sempre. Para você ter ideia, no meu trabalho existem diversos cristãos, a saber católicos e evangélicos e convivemos pacificamente.

[GG]: E só deixo claro que ruindade é ruindade e ponto final. Não importa se tem ou não religião.

[RGM]: Nisso estamos de acordo.

[G... A... de A... - GAA]: RGM, e é obrigatório acreditar no Deus da Bíblia?

[RGM]: Evidente que não, Gilberto. Deus, antes de ser um conceito empregado na Religião, é um conceito filosófico. O conceito de Deus que interessa é a de um ser onipotente (para que ninguém possa se subtrair de sua autoridade), onisciente (para que ninguém possa lhe ocultar nada e assim sair impune ou sem a sua merecida recompensa), livre (ou pessoal, porque seria absurdo que os homens fossem julgados por uma espécie de máquina), moral (justamente por ser livre e racional e, então, estar submetido às mesmas leis da razão), dentre outros.

No entanto, o Deus apresentado pela Bíblia por acaso é assim, mas não porque a Filosofia imitou a Religião, mas porque neste caso a Religião antecipou a Filosofia, embora de forma não tão perfeita.

Então, quando se aceita o Deus filosófico, nos limites da razão, incidentalmente acaba-se aceitando o próprio Deus cristão.

[RGM]: Kant mesmo não deixava de reconhecer isso:

"A palavras fides [fé] exprime já isso e pode aparentemente parecer suspeito que esta expressão e esta ideia particular entrem na filosofia moral, pois que antes de mais ela foi introduzida com o Cristianismo e a sua aceitação poderia parecer talvez somente uma imitação lisonjeira da sua linguagem. Mas este não é o caso, já que esta religião maravilhosa, na suprema simplicidade da sua exposição, enriqueceu a filosofia com conceitos de moral muito mais definidos e puros do que esta até então tinha podido fornecer, os quais contudo, uma vez existindo, são livremente aprovados e aceitos como tais e que ela própria bem podia ter descoberto e introduzido."
(Crítica da faculdade do juízo - §91)

Rafael Gasparini Moreira
Brasília/DF

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