sábado, 26 de março de 2016

Filosofia da ciência - método científico - parte III (final)

Voltemos ao que escreveu Popper, por mim citado no início do segundo ensaio desta série:
"Nós estamos, portanto, na situação curiosa de que, enquanto as ciências naturais devem estabelecer leis da natureza e testá-las, a verdade dessas leis da natureza não pode nunca, em última instância, ser demonstrada." (POPPER, 2013, p. 90, grifos meus).
Será que essas leis da natureza não podem ser demonstradas? Será mesmo que a partir de observações particulares não podemos nunca estabelecer proposições universalmente válidas?

Pretendo neste último artigo esgotar completamente essa discussão e demonstrar, a priori, porque essa afirmação de Popper está absolutamente equivocada no que concerne à investigação da natureza.

Vamos começar então pelo fundamento de tudo.

DIVISÃO DE TODO O EXISTENTE EM OBJETOS LIVRES E OBJETOS NÃO-LIVRES (OU NATURAIS)

Se nós imaginarmos o Todo existente, em sua forma mais simples (e quando eu digo “simples” leiam “indivisível”), poderemos conceber dois tipos possíveis de objetos:

- um que é capaz de dar início por si mesmo a uma sequência de eventos; e
- outro que não é capaz disso.

Do primeiro dizemos que é capaz de se autodeterminar. Já o segundo somente pode ser determinado (externamente). Como analogia (e muito cuidado com essa analogia para não tirarem dela conclusões absurdas), se os dois objetos se parecessem com uma bola de bilhar, o primeiro deveria ser capaz de agir por si mesmo, ou seja, de mudar o seu estado inercial autonomamente, enquanto que o segundo só faria isso se fosse atingido (ou determinado) por um outro objeto. O primeiro tem vontade própria. O segundo não. O primeiro é vivo. O segundo é morto*. O primeiro objeto comporta-se como se fosse um causa incausada do universo (ou causa primeira). Já o segundo só se move se houver antes algo que o determine como causa, que o condicione. Ao primeiro objeto também podemos dar o nome de pessoa, ou ser livre, ou alma (a frente veremos o porquê), ou objeto sobrenatural, ou objeto não-natural. Ao segundo objeto podemos também dar o nome de coisa ou objeto natural.

* Talvez a palavra “morto” não seja a mais apropriada, porque “morto” é de certa forma um predicado daquilo que já foi vivo, e não é esta a ideia que se quer transmitir, mas a de um objeto incapaz de iniciar por si só uma cadeia de eventos de causas e efeitos. Eles seriam neste caso “internamente inertes”.

À união de todas as pessoas e coisas (o Todo) podemos chamar também de Natureza (em sentido amplo, e por isso aqui grafada em maiúscula). À união de todas as pessoas podemos chamar de mundo inteligível, mundo sobrenatural, mundo moral, ou simplesmente sobrenatureza. À união de todas as coisas podemos chamar de mundo não-inteligível, mundo natural ou simplesmente natureza (em sentido estrito, e por isso aqui grafada em minúscula). Veremos mais adiante que o único e verdadeiro objeto da ciência é a investigação do mundo natural e que ela não deve jamais se ocupar do mundo inteligível ou sobrenatural, que se encontra completamente fora do seu alcance.

Esses dois tipos de objetos representam os tipos de tudo o que existe e nenhum outro tipo de objeto que já não esteja contido nesses dois tipos é sequer pensável. Como esta última afirmação é objeto de contestação, agora é o momento de fundamentá-la e de refutar essas contestações.

TUDO O QUE EXISTE SÓ PODE SER PESSOA OU COISA

Por que tudo o que existe só pode ser classificado como pessoa ou como coisa? A resposta a essa pergunta é: porque admitir uma terceira categoria de objetos fere a lógica e é, portanto, impossível de existir. Veremos abaixo o porquê.

Se é fato que a lógica não é o critério da verdade sobre o mundo (porque há falsidades e ficções que podem ser rigorosamente lógicas), a lógica é o critério da falsidade (porque tudo que é ilógico é impossível de ser real no mundo).

A regra lógica que vamos tratar é conhecida pelo nome de regra lógica do terceiro excluído. Essa regra diz basicamente o seguinte: duas proposições perfeitamente contraditórias entre si não podem ser ao mesmo tempo falsas.

É preciso muito cuidado na aplicação desta regra, porque é necessário que as proposições sejam realmente perfeitamente contraditórias. Caso não sejam, a regra não funciona. Por exemplo, as proposições "o espaço é finito" e "o espaço é infinito" parecem ser perfeitamente contraditórias, quando na realidade não são, o que nos leva a crer que o espaço devesse ser necessariamente finito ou infinito (porque as duas afirmações não poderiam ser ao mesmo tempo falsas) e, como o espaço não pode ser concebido sob nenhuma dessas duas formas, somos levados a acreditar que a regra lógica do terceiro excluído não é perfeita e que paradoxos são possíveis. Portanto, para a regra lógica do terceiro excluído poder ser aplicada, as proposições precisam ser realmente perfeitamente contraditórias entre si.

Uma forma de prevenir o erro é sempre utilizarmos, na aplicação da regra lógica do terceiro excluído, a forma "A" e "não-A", sendo que "A" é uma proposição qualquer e "não-A" é a sua negativa. Então, por exemplo, se dizemos que para as proposições "o espaço é finito" e "o espaço é não-finito", uma delas é necessariamente verdadeira, ou de outro ponto de vista, que para as proposições "o espaço é infinito" e "o espaço é não-infinito", uma delas é também necessariamente verdadeira, estaríamos aplicando rigorosamente a regra lógica do terceiro excluído e sem possibilidade de errar. De fato, o espaço pode ser ainda definido como algo nem finito e nem infinito (há uma terceira opção), mas o fato de não utilizarmos a forma "A" e "não-A" pode nos induzir ao erro.

Dessa forma, mesmo quando utilizamos palavras diferentes para designar coisas com predicados perfeitamente contraditórios entre si, é preciso averiguar se elas são realmente perfeitamente contraditórias entre si, e a forma de fazer isso é tentar reduzir as proposições à forma "A" e "não-A". Vejamos então se pessoas e coisas são objetos cujas definições são perfeitamente contraditórias entre si, ou seja, se podem ser escritas sob a forma "pessoa = não-coisa" ou "coisa = não-pessoa". Se isto for possível, nenhum outro tipo de objeto que não seja pessoa ou coisa será concebível. Se isto não for possível, então é admissível um terceiro, ou quarto tipo de objeto que não seja nem pessoa, nem coisa.

Ora, já vimos acima que pessoa é tudo aquilo que é "capaz de se autodeterminar", enquanto que coisa é tudo aquilo que é "não-capaz (ou incapaz) de se autodeterminar". Predicados opostos. Dessa forma, pessoa e coisa são objetos cujas definições são perfeitamente contraditórias entre si e, portanto, não podem ser ao mesmo tempo falsas quando se referem a um objeto existente no mundo, de modo que tudo o que existe será necessariamente definido como pessoa ou como coisa (ou uma mistura de ambas, no caso de compostos), e nenhum outro tipo de objeto é possível.

Quem eventualmente quiser discordar e refutar o argumento acima apresentado deveria se esforçar para demonstrar a possibilidade de um terceiro tipo de objeto que não pudesse ser classificado nem como pessoa, nem como coisa, o que até agora não foi feito, e é certo que nunca será.

Mas os físicos do século XX tentaram mesmo assim. Vejamos se a tentativa se sustenta logicamente.

OBJETOS INDETERMINADOS SERIAM UMA CATEGORIA À PARTE AOS OBJETOS AUTODETERMINADOS E AOS OBJETOS NÃO-AUTODETERMINADOS (PESSOAS E COISAS)?

Podemos chamar a disciplina que trata dos objetos "não autodeterminados" de determinismo, e a disciplina que trata dos objetos "autodeterminados" de autodeterminismo. Porém os físicos do século XX julgaram por bem criarem uma categoria à parte entre o determinismo e o autodeterminismo, que denominaram de indeterminismo, baseados principalmente no que disseram Niels Bohr e Werner Heisenberg, conforme abaixo:
Com efeito, a interação finita entre o objeto e o instrumento de medida, condicionada pela simples existência do quantum de ação, implica - devido à impossibilidade de controlar a reação do objeto sobre os instrumentos de medidas, se é que esses devem servir à sua finalidade - a necessidade de uma renúncia final do clássico ideal de causalidade, e uma revisão radical de nossa atitude diante do problema da realidade física. (BOHR, 1935, p. 697 apud BRAGA, 1991, p. 99, grifos em negrito e sublinhado meus)

Mas por que, pode-se perguntar, o método científico de fato mudou sua posição, desde Kant, a respeito de uma questão tão fundamental como essa [a lei de causalidade]?
Duas respostas possíveis podem ser dadas a essa pergunta. A primeira: fomos convencidos pela experiência que as leis da teoria quântica são corretas e, se assim for, elas nos ensinam que um evento precedente, que seja a causa para a emissão, em um dado instante de tempo, não pode ser encontrado. A segunda: conhecemos o evento precedente, mas não com grande precisão. E conhecemos as forças no núcleo que são responsáveis pela emissão da partícula alfa. Esse conhecimento, todavia, contém a incerteza que provém da interação entre o núcleo e o resto do Mundo. Se quisermos saber porque a partícula alfa foi emitida naquele particular instante de tempo, teríamos que conhecer a estrutura microscópica do Mundo inteiro, nós nele incluídos, e isso não é factível. Portanto, não mais valem os argumentos kantianos que favorecem o caráter a priori da lei de causalidade. (HEISENBERG apud BRAGA, 1991, p. 101, grifos em negrito e sublinhado meus)
Podemos notar que os dois digníssimos sábios renunciaram à lei de causalidade porque foram "convencidos pela experiência". Mas o que significa "renunciar à lei de causalidade"? Significa admitir que há certos efeitos que não possuiriam causas, o que significa dizer que certos elementos da Natureza atuariam como se fossem causas primeiras do universo.

Não sei se o leitor percebeu, mas esse "novo" tipo de objeto concebido atua no mundo da mesma forma como se fossem pessoas, ou seja, parecem autodeterminados. Será então que Bohr e Heisenberg acreditavam que pessoas (almas) estariam intervindo nos fenômenos quânticos? De modo algum, porque eles pertenciam à escola materialista que, em princípio, nega a existência de qualquer objeto livre. Então eles inventaram (e a palavra é essa mesma - inventaram) uma nova espécie de causalidade, que não era autodeterminada, nem determinada, mas que chamaram de indeterminada. Só que essa indeterminação nada mais é do que uma simples reinvenção do conceito de autodeterminação, só que com um outro nome, com o fim de se distanciarem das escolas espiritualistas.*

* Diz Ruben Braga que o próprio Bohr "pensou encontrar fundamentos para o seu princípio de complementaridade em doutrinas mágicas orientais, como o zen-budismo, teoísmo, etc., ou na filosofia de Kierkegaard, ou ainda na psicologia de William James" (BRAGA, 1991, p. 81), o que acreditava ser em vão.

Mas como eles chegaram a essa conclusão surpreendente? Por meio de prova empírica? Será que eles presenciaram um fenômeno que não tinha causa? Será que foi por meio de uma demonstração? Mas que tipo de demonstração é capaz de provar que há efeitos sem causa e com isso revolucionar toda a metodologia científica? O indeterminismo é mesmo uma categoria à parte de causalidade, diferente de entes livres e não livres? Vimos acima que isso não é sequer concebível para a nossa mente, mas um exemplo mental tornará isso mais claro.

Uma partícula alfa foi lançada do núcleo de um átomo em um momento do tempo. Estamos olhando para este evento, no passado, e nos perguntamos porque ela saiu naquele determinado momento e não antes ou depois. Independentemente das conjecturas que formulemos para o ocorrido, só poderemos afirmar duas coisas a título de hipótese: ou essa partícula foi empurrada para fora pelo conjunto de forças que atuam no universo (foi determinada); ou então ela saiu por si mesma, porque quis sair naquele momento, sem que nada exterior tivesse atuado para que ela tenha saído naquele momento (se autodeterminou). É possível imaginar terceira opção? Se a partícula não foi empurrada, nem saiu por si só, o que mais poderia ter sido? Esse "o que mais" é a indeterminação dos físicos, só que ele não difere do conceito de autodeterminação.

E o indeterminismo (ou autodeterminismo com outro nome) teve grande influência no método científico e na Filosofia da Ciência como um todo durante o século XX. Mas o método científico realmente mudou? Deixo que Ruben Braga responda a essa pergunta:
Mas por que, continua Heisenberg, o método científico de fato mudou sua posição, desde Kant, a respeito de uma questão tão fundamental? A resposta é: não mudou, porque não é lícito, a partir da contingência da experiência, concluir pela contingência da lei, porque a lei não está ela própria contida na experiência. (BRAGA, 1991, p. 113, grifos meus)
O que realmente aconteceu é que os dois notáveis físicos não conseguiram encontrar as causas e as devidas explicações para os fenômenos quânticos e, como não conseguiram, declararam que esses efeitos não tinham causa. Interromperam a busca e partiram para as respostas simples e fáceis.

Mas qual é verdadeiramente a postura de um cientista quando, ao investigar um fenômeno, não consegue encontrar as suas causas? Simplesmente interromper a busca e declarar que o fenômeno não tem causa? Isso é um erro indesculpável a um estudante de ciências do ensino médio, mas que tem sido aceito há já quase um século como se fosse metodologia de Ciência séria.

A conclusão desta seção é que a hipótese do indeterminismo não pode ser levada a sério. Ela é simplesmente uma declaração de ignorância* a respeito do que verdadeiramente ocorre no mundo subatômico unida a um grande desejo de fornecer respostas rápidas e cômodas a problemas profundos e que não podem ser respondidos pela Ciência.

* Emprego o termo "ignorância" aqui no sentido de "não conhecer", e não no sentido de "pouca inteligência".

Só há, portanto, a possibilidade da autodeterminação e da determinação. Ou estamos lidando com pessoas (livres) ou com coisas (não livres), e não há terceira opção logicamente possível. Essa conclusão será muito importante para refutar o ceticismo de Popper com relação à possibilidade da Ciência.

E olhando para estes acontecimentos e absurdas conclusões, é de certa forma possível compreender as raízes do ceticismo de Popper com relação à possibilidade de uma Ciência (o que o levou a mudar o que se entendia por Ciência para aproximar-se do que se entendia por crença, como vimos no segundo ensaio). Ele foi levado a acreditar (ou melhor, se deixou levar a acreditar) que leis da natureza não poderiam ser estabelecidas. Se admitimos a presença de elementos livres atuando ao invés de elementos não livres, não há mais estabilidade alguma nos eventos e nada prova que fenômenos físicos que ocorrem hoje de uma determinada forma deveriam ocorrer amanhã da mesma forma, segundo uma lei que chamamos de lei natural, e neste caso, Popper estaria com a razão. Essa é uma das razões porque pessoas não podem ser objeto de investigação científica, como veremos a seguir

POR QUE A LIBERDADE (OU INTELIGÊNCIA) NÃO PODE SER OBJETO DE UMA CIÊNCIA

A grande utilidade da ciência é a possibilidade que ela nos acarreta de fazer previsões de fenômenos que possam ser controlados e utilizados pelo homem em aplicações tecnológicas. É verdade que há as ciências históricas, mas elas apenas nos dão a conhecer o passado sem que nos garanta, a priori, qualquer uso para o futuro. Serve simplesmente para conhecermos os fatos. A verdadeira utilidade da ciência é, a partir de um experimento singular, podermos aplicar o seu resultado para o universo de aplicações onde o resultado daquele fenômeno poderá ser repetido ao nosso bel prazer.

Mas é possível fazer algum tipo de previsão com relação a entes livres? O fato de um ente livre (uma pessoa) se comportar hoje de uma determinada forma perante uma determinada condição inicial garante que ele se comportará amanhã dessa mesma forma quando submetido às mesmas condições iniciais? É fácil de perceber que se isso acontecesse, então esse ente não seria livre, mas seria não-livre, ou seja, não seria uma pessoa mas uma coisa.

Desse modo, podemos até observar o comportamento passado de uma pessoa, com o fim de conhecer os fatos, mas isso jamais nos permitirá dizer como as pessoas se comportarão no futuro, presumindo-se que sejam livres. Dessa forma, pessoas nunca poderão ser objeto de investigação da ciência, a não ser que estejamos nos referindo a uma ciência histórica, da investigação de fatos particulares e sem nenhuma pretensão a uma universalização de comportamentos.

Há ainda uma outra razão para não podermos conhecer nada livre. A resposta está em uma limitação do nosso entendimento. O nosso entendimento só pode conhecer compostos e não pode conhecer nada simples, nem mesmo na natureza. O elemento natural mais simples (o quantum) nunca poderemos conhecer. Porém quando esses elementos simples naturais se juntam e formam compostos (átomos, moléculas, etc...), então passam a ter extensão, forma, massa, etc., e só então se tornam para nós cognoscíveis. São apenas os compostos, que na verdade são agregados de estruturas simples, que podemos conhecer, e só empiricamente.

Qual é o problema das pessoas? O problema é que um conjunto de pessoas não forma um composto. E como pessoas não formam compostos, são absolutamente inacessíveis para nós empiricamente. Imaginem se pessoas formassem compostos, como o faz a natureza? Eu seria agora não uma pessoa, mas muitas pessoas; não um indivíduo, mas um aglomerado de indivíduos, cada qual com uma vontade própria e com tendência à dispersão. Se pessoas formassem compostos, poderíamos conhecê-las da mesma forma que conhecemos compostos da natureza.

Pela razão de pessoas não formarem compostos e não se poder atribuir a elas uma massa, uma extensão e uma forma, é que geralmente se denomina as pessoas de alma, e então dizem que ela é imaterial. Mas esse termo "imaterial" não quer dizer que ela seja "nada", mas apenas que a sua existência (se ela existir) não pode ser por nós representada como um fenômeno físico no mundo, embora possa muito bem existir e pertencer ao mundo como ele é em si mesmo, independentemente das nossas representações.

Seja como for, a alma (ou pessoas), não podem nunca ser objetos de investigação científica, porque esta deve ser sempre empírica e pessoas não se deixam representar no empírico, primeiramente porque violariam a lei de causalidade e, segundo, porque nada simples pode ser por nós empiricamente representado.

É POSSÍVEL FAZER PREDIÇÕES COM RELAÇÃO À NATUREZA (NÃO-LIVRE)?

Mas e a natureza? A natureza é definida como não-livre. Será que, ao observarmos o comportamento de determinado material perante a uma condição ambiental inicial, podemos afirmar, a priori, a partir dessa primeira experiência bem sucedida, que todo material igual se comportará exatamente da mesma forma perante uma condição ambiental igual?

Vamos perguntar de outra forma, usando como exemplo um caso concreto. Será que, se pegarmos uma certa quantidade de água, a uma certa pressão atmosférica, a aquecermos e observarmos que quando ela chega a 100 ºC, ela ferve, não podemos afirmar, a partir desta única experiência, que toda água submetida a essas mesmas condições ferverá a 100 ºC, seja aqui, seja do outro lado do universo, seja hoje, seja no passado ou seja no futuro? Será que a partir dessa única experiência não podemos determinar o comportamento de toda água do universo, onde quer que ela se encontre?

Em se tratando de natureza, seria muito estranho e paradoxal se não fosse assim. Se estivéssemos falando de pessoas, não poderíamos certamente fazer esse tipo de afirmação. Mas na seção anterior já excluímos todas as pessoas como objeto da investigação científica, de modo que só a natureza nos interessa. Como então não poderíamos nós afirmar, com certeza absoluta, que um comportamento observado na natureza se repetirá desde que se mantenham as condições do ensaio? A natureza é, por definição, não livre e, portanto, ela não pode comportar-se de forma diferente ao que um dia já se comportou.

E reparem que essa prova é indutiva* em sua essência, ou seja, a partir de uma única experiência particular com a matéria, podemos prever o comportamento de qualquer material similar do universo com uma certeza absoluta. Não fosse assim, não seriam possíveis as aplicações tecnológicas e na engenharia. Imaginem se, por exemplo, um engenheiro realizasse um determinado teste de resistência do concreto em uma obra, e não pudesse ter certeza de que o restante do concreto utilizado na construção do prédio tem a mesma resistência da amostra ensaiada? Que segurança teríamos para habitar edifícios?

* Nota: a indução é um tipo de juízo que consiste em fazer afirmações de caráter universal a partir de observações particulares. Ex.: observei hoje que a água pura ferve a 100 ºC nas CNTP, e então concluo que toda água pura do universo ferve a 100 ºC nas CNTP. É o oposto da dedução, que é um tipo de juízo que parte de uma afirmação de caráter universal preexistente e faz uma afirmação de caráter particular. Ex.: Se toda água pura ferve a 100 ºC nas CNTP, a água que aquecerei hoje ferverá também se chegar a 100 ºC nas CNTP. A indução é a verdadeira ferramenta da ciência preditiva, enquanto que a dedução serve mais à tecnologia. Por exemplo, a indução descobre o comportamento universal da água, e a tecnologia, a partir desse conhecimento, cria aplicações particulares que tirem proveito desse comportamento.

Mesmo na física quântica, se não houvesse o mínimo de previsibilidade, que garantia teríamos que nossos microprocessadores não estão processando como eles querem e não como foram construídos para fazer?

Então é falsa a afirmação de Popper de que a verdade das leis da natureza não pode nunca ser demonstrada. Seria verdadeira apenas se não estivéssemos falando de natureza. E a menos que estejamos considerando a intervenção de almas ou espíritos nos fenômenos naturais, não só podemos, como devemos, declarar a verdade demonstrada das leis da natureza. O método científico é, portanto, indutivo por essência, porque a partir de experimentos particulares podemos prever o comportamento daquela configuração da natureza como um todo.

A refutabilidade de Popper apenas serve para quando há refutação de fato, porque então podemos declarar como falsa uma hipótese com a autoridade da experiência.

Mas e quando a teoria não foi ainda verificada nem refutada (embora seja refutável)? De que nos adianta uma teoria assim, neste estado, sem nenhuma base empírica, que apenas possui o mérito de nunca ter sido refutada?

Primeiramente, se ela não teve verificação empírica, então certamente não tem nenhuma aplicação prática, porque se ela tivesse aplicação prática, ela certamente seria verificada por essa mesma aplicação. Então, essas teorias não têm aplicação alguma no mundo real, não dá para construir nada com elas.

Em segundo lugar, qual é o sentido de admitir, no âmbito da Ciência, como verdadeira, uma teoria que, além de não ter a menor aplicação prática tem ainda chances de ser refutada no futuro?

É verdade que algumas dessas teorias ainda têm o seu papel garantido como crença, e não é minha intenção minimizar ou desprezar esse importante papel, não inferior a qualquer Ciência. Só que aqui não estamos tratando de crenças, mas de Ciência, e para qualquer Ciência ter algum valor como Ciência, a certeza precisa ser absoluta. Eu não quero simplesmente acreditar que o concreto vai aguentar o peso do prédio onde vou residir e que não vai desmoronar por si próprio; eu preciso ter certeza, e uma certeza científica (principalmente se for eu o responsável pela obra).

INDUÇÃO LÓGICA X INDUÇÃO EMPÍRICA

Dissemos acima que o método científico é essencialmente indutivo e não dedutivo. Mas é preciso resolver o problema apontado por Popper, que foi um dos utilizados para negar a autoridade da indução. O problema foi colocado da seguinte forma: "Até hoje, até onde pude observar, só encontrei cisnes brancos. Desse modo, com base nessas observações particulares, posso inferir que não existem cisnes negros?"

Mas será que esse problema equivale ao que enunciamos na seção anterior? Se digo: "Até hoje, até onde pude observar, sempre que aqueci a água pura à pressão de 1 atmosfera, ela ferveu a 100 ºC. Desse modo, com base nessa única observação particular, posso inferir que a água pura, à pressão 1 atmosfera, em qualquer tempo e lugar, nunca ferverá à temperatura diversa de 100 ºC?

As duas inferências são indutivas, mas por que temos a sensação de que somente a segunda nos garante uma certeza absoluta (e não uma mera probabilidade)?

Isso ocorre porque a primeira proposição trata-se da realidade (poderia ser irrealidade), e a simples realidade é em princípio contingente e não encerra obrigatoriamente nenhuma necessidade.

Já a segunda proposição não se trata apenas da realidade, mas da necessidade (poderia ser impossibilidade), que se encontra fundamentada em uma lei natural, qual seja, duas naturezas idênticas, embora diversas no tempo e no espaço, sempre se comportarão da mesma forma quando submetidas às mesmas condições de determinação externas.

Conforme vimos no primeiro ensaio, como a simples realidade é contingente, ela só pode ser atestada empiricamente, e como não é possível investigar empiricamente todos os espaços e todos os tempos, a indução (chamemo-la aqui de indução empírica) não é possível.

Situação diversa ocorre quando se trata da necessidade, pois esta não apenas pode, como deve ser atestada de forma completamente a priori, porque está baseada em leis naturais, de modo que não é preciso investigar empiricamente todos os espaços e todos os tempos para verificar se a água sempre ferveu a 100 ºC quando submetida às mesmas condições ambientais do ensaio. E como a demonstração a priori sempre vale para todos os tempos e todos os espaços, ela vale inclusive para o tempo futuro, de modo que neste caso a indução (chamemo-la aqui de indução lógica, porque baseada em leis) é possível.

A dificuldade aqui parece residir no fato de, para a indução lógica, precisarmos de pelo menos uma experiência empírica, ao que pode ficar a dúvida se esse tipo de indução não é também empírica e ilegítima como a primeira. Mas a lei da natureza é declarada antes do experimento, a priori, ou seja, antes de qualquer experimento com a natureza, seja ele qual for, declaramos de antemão que duas naturezas idênticas, sob as mesmas condições, terão o mesmo comportamento. Antes da experiência, eu não tenho como saber a que temperatura a água vai ferver. Mas uma vez que realizei esse experimento, posso então afirmar que toda experiência realizada nas mesmas condições apresentou, apresenta ou apresentará o mesmo resultado. Nos dizeres de Kant, de um simples juízo de percepção subjetivo induzimos um juízo de experiência objetivo, porque a ele sobrepomos o que nos diz a lei natural. Kant:
Para um exemplo mais fácil de compreender, tome-se o seguinte. Quando o sol ilumina a pedra, ela fica quente. Este juízo é um simples juízo de percepção e não contém nenhuma necessidade, não importa quantas vezes eu e outros tenhamos percebido isso; tudo que ocorre é que essas percepções se encontram costumeiramente conjugadas dessa maneira. Mas se eu digo: o sol aquece a pedra, um conceito do entendimento, a saber, o de causa, é adicionado à percepção e conecta necessariamente o conceito de luz solar ao de aquecimento, e o juízo sintético torna-se necessariamente válido de forma universal e, por conseguinte, objetivo, e,  de uma percepção transforma-se em experiência. (KANT, 2014, p. 76-77, §20, grifos em negrito meus)
Na sua crítica à indução, Popper parece ter tratado e atacado somente a indução empírica, o que fez muito corretamente, porque ela não é mesmo possível. Mas parece ter ignorado a realidade da indução lógica, o que colocou todo o seu trabalho a perder.

TEORIAS X TEORIAS

Observem bem a figura abaixo, tirada do facebook, da conta "Ano Zero", que se trata de ideias hoje muito difundidas, porque ela não contém nenhuma inverdade mas, parafraseando uma antiga propaganda da Folha de São Paulo, é possível induzir a um monte de mentiras dizendo apenas a verdade (desde que sejam verdades ambíguas).

A palavra "Teoria", no nosso vocabulário, tem duas acepções: a primeira é a de "conjunto de hipóteses", e hipóteses que ainda não foram comprovadas. Por exemplo, eu posso ter uma "teoria" sobre a formação do universo, sobre a evolução, sobre extraterrestres, etc., mas nada prova que a minha teoria é verdadeira, simplesmente porque ela nada mais é do que um conjunto de hipóteses sistematicamente organizadas.

A segunda acepção é a que emprega a imagem acima, ou seja, uma explicação de fenômenos de forma concisa, coerente, sistemática e preditiva. Neste último sentido, a teoria (dos livros didáticos, por exemplo) é realmente o sinônimo de explicação de fatos.

Então é preciso muito cuidado, pois a palavra teoria pode significar tanto um conjunto de hipóteses não comprovadas como a explicação de fatos comprovados, e essa confusão terminológica tem se prestado àqueles que querem apresentar ao mundo as suas "maravilhosas hipóteses" não comprovadas como se fossem fatos comprovados.

Mas e a "Teoria da Evolução"? É já um fato comprovado (é real ou necessário) ou é apenas uma hipótese (é apenas possível)? Aqui temos uma outra confusão terminológica, pois o termo "evolução" é utilizado para representar também a ideia de "seleção natural". Só que evolução não é a mesma coisa que seleção natural. São coisas diferentes. A evolução é um efeito; a seleção natural é uma possível causa. Confundir evolução com seleção natural é, portanto, confundir efeitos com causas.

Quanto à evolução, não é mais possível dúvidas de que ela ocorreu: ela é real. Pois o que é a "evolução"? A evolução é uma simples mudança, no tempo, nos tipos de seres vivos que habitaram o globo. Ora, antigamente existiam certas espécies de seres vivos, que desapareceram, e hoje existem outras espécies, que surgiram. Ou seja, houve uma evolução dos tipos de seres vivos, no sentido de que houve uma mudança. Nesse sentido, a evolução é um fato, e a teoria da evolução é simplesmente a explicação das provas que comprovam que esse fato realmente ocorreu (os fósseis, por exemplo).

A fonte de toda controvérsia não é a evolução em si (o efeito), mas a sua causa. Que os seres vivos mudaram ninguém duvida (e aí não faz diferença se foi uma simples nadadeira de um peixe que mudou de tamanho ou se foi um tiranossauro rex que se transformou em uma galinha, mas o fato é que aconteceram saltos de uma geração para a outra e que ontem existiam tiranossauros e não existiam galinhas e hoje existem galinhas e não existem mais tiranossauros, etc...).

Mas existem teorias (no sentido de "conjunto de hipóteses") que pretendem explicar a evolução. Os adeptos de um determinado partido defendem que a evolução ocorreu por meio de um mecanismo simplesmente natural e sem interferência de qualquer agente inteligente direcionando o processo para um fim determinado; e os adeptos de um outro determinado partido defendem que, além do mecanismo natural, houve também a interferência de um ou mais agentes inteligentes (pessoas), que teriam direcionado a evolução para um fim (ainda que não um fim terminal) determinado.

Os primeiros são os adeptos da Teoria da Evolução por Seleção Natural e os últimos são os adeptos da Teoria da Evolução por Design Inteligente. A evolução, portanto, é o efeito. A Seleção Natural e o Design Inteligente são as possíveis causas. A evolução é o fato. A Seleção Natural e o Design Inteligente são hipóteses autoexcludentes. E todos são chamados de "teoria". E reparem que o sentido do termo "teoria" muda completamente de sentido quando dizemos "Teoria da Evolução" e quando dizemos "Teoria da Evolução por Seleção Natural ou Design Inteligente". A primeira acepção é a de "explicação de fenômenos" e a segunda é a de "conjunto de hipóteses". É preciso, portanto, muita atenção para não comprar gato por lebre, para não comprar conjunto de hipóteses como se fosse a explicação de fenômenos muito bem observados e comprovados.

Espertamente, os adeptos da Teoria da Evolução por Seleção Natural chamam o seu conjunto de hipóteses de Teoria de Evolução, como se fossem a mesma coisa. Por quê? Porque contam com a desatenção do leitor de que o termo "teoria" mudou de sentido, e porque querem passar um verniz de cientificidade (de realidade) naquilo que não possui a menor evidência irrefutável a seu favor (que é uma mera possibilidade), e mais, naquilo que é de fato uma teoria pseudocientífica (visto que não pode ser verificada nem refutada - como tratamos no primeiro ensaio). Ou seja, eles tentam vender ao público leigo e desatento meras hipóteses não comprovadas (a Teoria da Evolução por Seleção Natural) como se fossem fatos científicos verificados (a Teoria da Evolução).

Então, de fato, a figura não contém nenhuma inverdade. Mas induz o leitor ao erro ao não considerar as duas acepções da palavra "teoria" e ao tomar o termo "Evolução" por sinônimo de "Seleção Natural", o que é confundir o efeito com sua possível causa. A Evolução é um fato científico constatado (uma realidade). Já as teorias da evolução por seleção natural ou por design inteligente jamais serão comprovadas ou refutadas enquanto o homem existir na Terra, e serão para todo o sempre, neste mundo, meras hipóteses (possibilidade), que não poderão ser solucionadas pela Ciência, que podem até ser aceitas como crenças, mas jamais como conhecimento.

CIÊNCIA X CIÊNCIA X CIÊNCIA

Aqui é também o momento de reforçar (porque isso de certa forma já foi explicado e pode ser deduzido do que foi anteriormente exposto) as diferenças entre os três usos possíveis do vocábulo "ciência".

Primeiramente temos a ciência como atividade de busca do conhecimento, como atividade investigativa. Enquanto há esta atividade é porque não há o conhecimento de fato, porque ninguém busca aquilo que já encontrou. Ninguém, por exemplo, fica repetindo experimentos para provar que a água entra realmente em ebulição a 100 ºC nas CNTP, sendo que esse conhecimento já foi obtido. A atividade científica é focada no que é ainda desconhecido (e que potencialmente pode ser conhecido).

Depois temos a ciência como produto, como resultado da atividade científica. Neste caso temos que ciência, em sentido amplo (referir-se ao primeiro ensaio), é simplesmente sinônimo de conhecimento. Quando temos conhecimento de um fato é a mesma coisa que dizer que temos ciência de um fato. E para ser ciência, o conhecimento precisa ser certo, porque se houver a menor possibilidade de a proposição ser falsa, essa proposição não pode ser chamada de conhecimento e, consequentemente, também não pode ser chamada de ciência (como produto).

Mas há ainda uma terceira acepção de ciência como produto, em um sentido estrito (referir-se também ao primeiro ensaio), que é simplesmente ciência como conhecimento empírico, não levando em conta o conhecimento a priori, que então é chamado de metafísica ou filosofia. É neste último sentido que normalmente se diz que a ciência é sempre resultado de uma atividade experimental, de laboratório.

Os três usos do termo "ciência" estão corretos do ponto de vista terminológico, mas convém tomar muito cuidado na aplicação e na interpretação. Vejamos abaixo alguns exemplos de aplicação.

Karl Popper também confundiu (ou confundiu-nos com) essas três acepções possíveis quando escreveu:
A ideia de verdade tem uma importância fundamental para a teoria do conhecimento e, particularmente, para o conhecimento científico. A ciência é a busca da verdade: não a posse do saber, mas a procura pela verdade. (POPPER, 2013, p. XXVII, grifo original)
Ele começa tratando da "ideia de verdade", do "conhecimento científico", que é a ciência enquanto produto (segunda e terceira acepções acima). Mas depois define a ciência como a busca da verdade (ou busca pelo conhecimento), ou seja, ele define a ciência enquanto uma atividade (primeira acepção acima). Há, portanto, uma confusão evidente entre a primeira e a segunda acepção (ou entre a primeira e a terceira acepção, conforme o caso), onde em uma o saber deve estar presente e na outra, não.

Outro exemplo. Quando Kant diz em Prolegômenos:
Não obstante, estamos efetivamente em posse de uma ciência pura da natureza, que propõe a priori, e com toda a necessidade que se requer de proposições apodíticas [necessárias], leis às quais a natureza está submetida. (KANT, 2014, p. 76-77, §15, grifos em negrito meus)
Reparem que Kant se refere a uma ciência a priori, que pertence à segunda acepção de ciência, mas que não pertence à terceira, pois que ele não se refere a nenhum conhecimento empírico, obtido em laboratórios, pela experiência, ou pela observação. Na verdade, a ciência a que ele se refere pode ser entendida como conhecimento filosófico, ou metafísico, no qual se requer a demonstração da necessidade, como foi visto no primeiro ensaio.

Portanto, recomendo ao leitor muito cuidado com todas essas sutilezas linguísticas, que são muito bem aproveitadas pelos causadores de confusão.

CONCLUSÃO

Karl Popper escreveu o seguinte:
"A ciência teve sorte até aqui com os enunciados factuais particulares, os enunciados de base singulares, que podem facilmente ser testados (por observação) por qualquer sujeito. E é precisamente assim, por tentativa e erro, que se formou esse método empirista que leva em consideração a experiência subjetiva à medida que ela é conciliável com o princípio científico da objetividade (e que, claro, desenvolve apenas esse mínimo de 'dogmatismo', sem o qual certamente não conseguiríamos encontrar o caminho no caos da realidade). (...) Ao longo desta investigação, continuaremos a utilizar as expressões habituais ingênuas ('observação', 'fundamento da observação' etc.), ali onde equívocos não sejam uma ameaça." (POPPER, 2013, p. 155, grifos meus)
Será mesmo que a ciência teve sorte até aqui? Ou será que o método científico é mais intuitivo do que inicialmente se pensava, e os filósofos é que vieram a perturbá-lo. Não é claro, uma vez que tenhamos observado a água pura ferver a 100 ºC em uma determinada região, que toda a água pura deverá ferver a 100 ºC naquela mesma região? O senso comum nunca disso duvidou, mas as classes cultas chegaram ao ponto de negá-la como critério de verdade e tachar esse tipo de conclusão de dogmática, que continuaram aceitando, como confessou Popper acima, por razões pragmáticas.

Se por um lado o senso comum não se enganava com a indução lógica, por outro lado ele se enganava, muito e deploravelmente, com a indução empírica, que levava os povos a fazerem generalizações indevidas a respeito de tudo o que era contingente, o que levou inclusive a inúmeros preconceitos de raças, seitas, etc., onde o comportamento de um único indivíduo de um determinado grupo era utilizado como fundamento para julgar todo um grupo de indivíduos. Popper (assim como Hume), atacou os erros da indução empírica (o que fez muito corretamente), porém levou junto e erroneamente a indução lógica, o que tornaria inviável toda e qualquer possibilidade de uma ciência que se ocupasse em fazer predições. Para disfarçar o desastre e não ter que admitir que a Ciência não era possível de modo algum, Popper mudou o significado de Ciência (ver o segundo ensaio desta série), fazendo-a se equiparar ao que antes era conhecido como crença. Mas isso não apenas não impediu os malefícios da indução empírica como permitiu a infiltração de diversos dogmas disfarçados de Ciência no meio científico, que infelizmente até hoje ainda não se desassociaram. O verdadeiro dogma foi então chamado de Ciência (não verificado, não refutado, mas supostamente refutável), e o verdadeiro conhecimento científico obtido por meio da indução lógica foi chamado de dogma. Popper tornou-se um inimigo da verdade, embora se dissesse a favor da razão.

A teoria (no sentido de "conjunto de conhecimentos") aqui apresentada (que na verdade não é minha, mas uma decorrência da filosofia de Kant) permite-nos encarar a questão sob outro prisma. Restabeleceu-se os sentidos primitivos de Ciência, crença e dogma. Com a separação dos conceitos de indução empírica e indução lógica, restabeleceu-se a possibilidade de uma Ciência capaz de fazer previsões, como uma certeza absoluta, e não meramente provável, ao passo que fica neutralizado o engano da indução empírica. Restabeleceu-se a dignidade da crença e propôs-se o banimento definitivo do dogma do pensamento científico e filosófico, denunciando-o como uma impostura de caráter autoritário, ou seja, como uma crença que quer se apresentar ao mundo como se fosse ciência, que quer obrigar todos à adesão forçada, o que não pode ter valor nem mesmo como condição transitória para uma fase esclarecida.

A ciência que funciona, a ciência que realmente produz conhecimento utilizável para a humanidade, a ciência que produz os avanços tecnológicos, da medicina, etc., não terá dificuldades em aceitar o que aqui é proposto, porque ela já trabalha com essas premissas, ainda que inconscientemente. Quem na verdade vai reclamar e gritar "Heresia!" são apenas aqueles que especulam sobre hipóteses pseudocientíficas (referir-se ao primeiro ensaio), teses que nunca poderão ser provadas nem refutadas, e que apresentam essas especulações como se fossem legítimas teorias científicas, quando não passam de teses a respeito do mundo completamente vazias de conteúdo empírico, que para nada servem além de deslumbrar e hipnotizar as massas com promessas de futuro conhecimento (que nunca virá) a respeito do que é transcendente.

Mas para os que me acusarem de "heresia científica", deixo aqui o meu desafio: que apresentem um único exemplo de um conhecimento científico qualquer, que seja utilizável pela humanidade, que tenha sido obtido de modo não indutivo e utilizando o método deducionista elaborado por Karl Popper ou por outros que com ele concordam. No dia em que esse exemplo me for apresentado, vou considerar rever os pontos de vista aqui apresentados. Até lá, permitam-me continuar vendo na "Filosofia da Ciência" de Karl Popper nada além daquilo que ela se mostra ser: uma impostura intelectual para validação de pseudociências.


BIBLIOGRAFIA

BRAGA, Ruben. A apercepção originária de Kant na física do século XX. Brasília: Editora UnB, 1991.

KANT, Immanuel. Prolegômenos a qualquer metafísica futura que possa apresentar-se como ciência. São Paulo: Estação Liberdade, 2014.

POPPER, Karl. Os dois problemas fundamentais da teoria do conhecimento. São Paulo: Editora Unesp, 2013.

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Brasília/DF
Revisado em 6/10/2016

10 comentários:

  1. Vc precisa ler Popper outra vez, e também Hume quando este fala sobre hábito. Uma teoria é aceita enquanto ele é válida, enquanto ela explica um fenômeno, nada garante que ela que não possa cair, que não possa ser refutada. Como diz Popper, uma teoria que não possa ser falseada pertence ao âmbito da metafísica. Nesse sentido, portanto, a teoria tem um caráter provisório.

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    1. Olá Paulo Jordão.

      Primeiramente, obrigado por ler o meu artigo e comentar.

      É justamente isso que escreveu que trata o cerne da minha discordância com Popper, ou seja, quando ele afirma, para todas as teorias, que "nada garante que ela que não possa cair, que não possa ser refutada". Mostrei os dois sentidos da palavra "teoria", e que qualquer coisa com caráter provisório tem no máximo um caráter hipotético (e aí sim, pode cair), e que só pode ser realmente chamado de conhecimento (ou teoria, no segundo sentido) aquela asserção que não pode mais ser refutada.

      Dei o exemplo (um de muitos possíveis) da temperatura de ebulição da água. Que uma única experiência com uma amostra de água, que determine que ela entra em ebulição a 100ºC nas CNTP, é suficiente para generalizar (por indução) e afirmar que o mesmo ocorre com toda a água do universo, em qualquer tempo e lugar, e que a afirmação "a água entra em ebulição a 100ºC nas CNTP" não pode ser e nem será por ninguém refutada, de modo que se pode considerá-la verdadeira proposição científica.

      E finalmente, mostrei que há dois tipos de indução e que Popper rejeitou ilicitamente uma delas.

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  2. Por isso citei Hume. Para este autor, o que você chama de verdadeira proposição científica não passa de um hábito psicológico de associar percepções e idéias por semelhança e diferença, bem como por contigüidade espacial ou sucessão temporal, então, para Hume, as ciências não possuem verdade alguma, não explicam realidade alguma, não alcançam os objetos e não possuem nenhuma objetividade.
    Basta, por exemplo, que um belo dia, a água a 100°C em vez de entrar em ebulição esfrie para que toda a ciência desapareça, já que ela depende da repetição, da freqüência, do hábito de sempre percebermos uma certa sucessão de fatos à qual, também por hábito, se dá o nome de princípio da causalidade.
    Penso que por isso Popper, um racionalista crítico, atribui à ciência um caráter provisório e convencionalista.

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    1. E como já lhe disse, é justamente de Popper e de Hume que estou discordando (com a ressalva de que Hume foi mais honesto nesta questão, pois admitiu para si mesmo, embora erradamente, que Ciência nenhuma era possível, pelas razões que apontou, enquanto Popper torceu o significado do vocábulo "Ciência" para acomodar a impossibilidade de conhecer como "conhecimento científico").

      Você também está certo ao dizer que se alguma água não entrasse em ebulição a 100°C nas CNTP, toda Ciência desapareceria. Mas o objetivo destes ensaios foi justamente demonstrar (não sei se fui bem sucedido) que é impossível que isso ocorra se realmente estamos falando de Natureza, e que tanto Popper quanto Hume estavam errados.

      Obrigado por comentar.

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    2. Entendo seu ponto de vista. Só gostaria de ressaltar que a grande preocupação de Popper era não ser dogmático, e ele estava contrapondo suas idéias às dos positivistas lógicos do Circulo de Viena, que eram indutivistas e anti metafísicos. Popper buscava separar Ciência de Metafísica, e para isso usava como critério de demarcação a falseabilidade.
      Acho interessante esse debate entre Popper e os positivistas lógicos como Carnap e Schlick. Por admirar o pirronismo tendo a simpatizar um pouco mais com Popper e sua luta contra o dogmatismo.

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    3. Concordo que a grande preocupação de Popper era não ser dogmático. Só que ele acabou se tornando cético, o que é tão ruim quanto o dogmático. O dogmatismo aproxima o homem de todo tipo de "conhecimento" ilusório. Mas o ceticismo, por outro lado, afasta o homem de qualquer possibilidade de conhecer.

      A questão aqui não é admirar céticos e desprezar dogmáticos (ou vice-versa), mas de erradicar do pensamento tanto o dogmatismo como o ceticismo.

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  3. "Mas o ceticismo, por outro lado, afasta o homem de qualquer possibilidade de conhecer."

    Tendo lido muito sobre pirronismo (cetismo grego) e principalmente sobre neopirronismo, tenho que discordar . O pirronismo não nega o conhecimento proveniente dos fenômenos, apenas não o toma como absoluto visto que isso implicaria em dogmatismo. O cético pirrônico não questiona o que aparece e sim aquilo que se diz sobre o que aparece, ou seja, as teorias e especulações sobre o fenômeno.
    Recomendo a leitura do artigo "Sobre o que aparece" de Oswaldo Porchat, que pode ser facilmente encontrado na internet.

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    1. Demorei um pouco para responder, pois quis primeiro ler o artigo que me indicou.

      Primeiramente, cético que admite conhecer algo não é de fato cético. O cético só é cético na medida em que não conhece e admite não poder conhecer. O autor parece ser um “cético parcial” (ainda que não o reconheça e desconsiderando a autocontradição do termo), e nesse sentido, todos somos um pouco “céticos”, porque poucos são os que dizem tudo conhecer.

      O autor também parece, se não entendi mal, querer aproximar os conceitos de conhecimento (epistéme) e técnica (tékhne), rejeitando o conceito clássico de “epistéme” como “a ciência entendida como conhecimento seguro e adequado da realidade mesma das coisas”.

      Isso na verdade tenta fazer aquela manobra que critico aqui nestes três artigos, ou seja, de torcer o significado original das palavras para identificá-la com outra coisa já reconhecida. Popper torceu o conceito de “ciência” e tornou-a semelhante ao vetusto conceito de crença. E o Sr. Porchat parece estar pretendendo torcer o conceito de “ciência” para torná-lo semelhante ao conceito de “técnica” (em contraposição inclusive aos antigos pirrônicos, que não faziam isso, segundo o autor mesmo reconheceu).

      Mas isso é confundir o papel tanto da ciência como da técnica. A ciência busca o conhecimento, enquanto que a técnica simplesmente o utiliza. E se nenhum conhecimento “seguro e adequado” fosse possível, tampouco seria possível alguma técnica.

      Um Engenheiro, ao construir um prédio, aplica técnicas. Mas se ele jamais poderia aplicá-las se, por exemplo, ele não tivesse um “conhecimento seguro e adequado” de que os testes de resistência dos materiais que ele usa para a construção não fossem se repetir na sua construção. Imagine que o ferro e o concreto ora tivessem uma resistência à tração e à compressão, ora tivessem outra, e que isso mudasse aleatoriamente em relação às amostras e mesmo temporalmente dentro de uma mesma amostra. Que segurança poderia haver na construção? Que técnica seria possível? Que certeza poderia haver (e há essa certeza, não duvide) de que dentro das características de projeto o prédio não vai desabar?

      O autor parece considerar a técnica como algo simplesmente dado e que não fosse uma consequência de uma ciência prévia (em sentido clássico), ciência esta que o autor quer negar em um ceticismo extremo e ingênuo.

      É verdade que não podemos ter um conhecimento completo da realidade como ela é “em si”. Mas podemos sim ter um conhecimento “seguro e adequado” da realidade como ela nos aparece (do fenômeno), que nos permite inclusive fazer previsões. Não é um conhecimento total (e nem se espera isso), mas é seguro e absoluto.

      O autor também, a meu ver, está equivocado ao subordinar as suas certezas ao consenso dos cientistas e filósofos. Esse consenso pode nunca acontecer, e isso não significa que não possamos ter conhecimento certo e seguro.

      Primeiramente, o conhecimento do contingente depende da experiência. Se eu tive determinada experiência que os outros não tiveram, é natural que eu conheça esse contingente de forma absoluta enquanto os outros duvidem, ao menos até terem o mesmo tipo de experiência. Mas o meu conhecimento aqui dependeu apenas do que eu experimentei e não da aceitação dos outros. A aceitação do outro não é critério para o conhecimento.

      Já o conhecimento do necessário é a priori, e depende exclusivamente do raciocínio. A indução lógica, que mencionei no meu ensaio, é um desses casos. Como sei, por exemplo, que toda água entra em ebulição a 100ºC nas CNTP, visto que não experimentei toda a água do universo? Há aí um componente a priori (leia-se “metafísico”) nesse conhecimento que me permite julgar dessa forma. Mas apesar de ele ser evidente, seria ingenuidade supor que todos vão compreendê-lo, ao menos em um primeiro momento, de modo que a minha aceitação não pode, novamente, depender de consenso.

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    2. Por fim, estou plenamente de acordo com o autor a respeito das críticas que este faz ao dogmatismo. O problema é que ele considera também o conhecimento certo e seguro como dogmas, só porque não é capaz de compreender o fundamento da justificação.

      Dogma é toda asserção que pretende ter caráter objetivo, mas que não possui a sua devida justificação. Se eu afirmo que absolutamente todos os cisnes são brancos, essa afirmação é dogmática, porque eu não seria capaz de explicar a origem dessa “certeza”. Mas se eu afirmo que absolutamente toda a água entra em ebulição a 100ºC nas CNTP, isso não é dogma, mas é conhecimento, porque é possível explicar a origem dessa certeza.

      É certo que o cético nunca erra e nunca vai errar nas suas afirmações objetivas (porque ele nunca as faz – em tese). Mas ele é também como um barco que não sai do porto, que não navega e que, portanto, é também tão inútil quanto o falso conhecimento (o dogma). Por isso sustento que não apenas o dogmatismo precisa ser vencido, mas também o ceticismo.

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    3. Cético vem do grego Skeptikoi que significa aquele que investiga. Para Pirro, pioneiro do ceticismo grego, o cético jamais duvida daquilo que lhe é fenômeno. Essa imagem estigmatizada do cético tem origem na descrição caricata de Diogenes Laércio, principal historiador da filosofia grega, e passa pelo ceticismo radical da primeira meditação de Descartes, que nada mais é do que um instrumento metodológico para alcançar um suposto conhecimento claro e distinto. Qualquer um que ler os escritos de Sexto Empírico poderá constatar que tal visão não corresponde as ideias do ceticismo grego.
      Portanto, a água entrar em ebulição a 100° nas CNTP, configura para o cético pirrônico, um fenômeno e como tal é imune a epokhé cética, ele não vê motivos para duvidar disso, uma vez que reconhece que há no mundo regularidades e que "...o homem comum se baseia nessas regularidades para formular cotidianamente suas hipóteses e previsões...". Entretanto o cético não confere ao fenômeno status de verdade absoluta e imutável, pois isso seria dogmatizar, e dogma para o cético e dar assentimento aquilo que não é evidente. Destarte o cético não permanece inativo, o fenômeno não é para ele critério de realidade ou verdade e sim critério de ação na vida.

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