quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Filosofia da ciência - método científico - parte II

O CETICISMO DE POPPER COM RELAÇÃO À POSSIBILIDADE DE UMA CIÊNCIA

O atual método científico é caracterizado por um profundo ceticismo em relação à possibilidade da Ciência, que é um ceticismo que começou com David Hume, que foi mais tarde incorporado por Popper na sua teoria do conhecimento e depois absorvido pelo senso comum da comunidade científica. Isso fica bastante claro nas palavras do próprio Popper:
"A 'dedução transcendental', a tentativa de provar que há regularidades no sentido de leis da natureza estritamente universais, não é conclusiva. A tese de que a experiência sob todas as circunstâncias é possível, dito de outro modo: de que o mundo sob todas as circunstâncias pode ser conhecido, não pode ser provada.

Mas ela não apenas não pode ser provada, como também é absolutamente irrefutável. Pois a tese de que a experiência é possível não pode nunca ser empiricamente falsificada, a incognoscibilidade do mundo não pode nunca ser conhecida. Enquanto houver a experiência, enquanto houver o conhecimento da realidade, o mundo deve ser cognoscível.

Mas também essa tese sobre a cognoscibilidade do mundo, que tanto não pode ser provada quanto não pode ser refutada, dá ensejo a uma antinomia indecidível.

(...)

Apenas o exame do problema da demarcação justificará que (e de que modo) tanto a tese quanto a antítese da antinomia da cognoscibilidade do mundo devem ser eliminadas da teoria do conhecimento como não científicas, como metafísicas."

(...)

Nós estamos, portanto, na situação curiosa de que, enquanto as ciências naturais devem estabelecer leis da natureza e testá-las, a verdade dessas leis da natureza não pode nunca, em última instância, ser demonstrada." (POPPER, 2013, p. 87, 88 e 90)
Independentemente do erro dessa conclusão, que criticarei em um ensaio posterior, o que importa é que Popper entendeu que um conhecimento do mundo, certo e provado (ou demonstrado), é impossível, ou seja, ele sucumbiu ao ceticismo.

A SOLUÇÃO DE POPPER PARA "SALVAR A CIÊNCIA"

Ao invés de ser sincero em seu ceticismo com relação à possibilidade da Ciência, ele buscou um caminho para lá de inusitado para tentar “salvar a Ciência”. Isaac Reis explica precisamente (a meu ver) o que aconteceu:
"Popper salvou a ciência com uma grande e brilhante explicação ad hoc (se a ciência não pode atingir a verdade, basta mudar o que se entende por ciência)." (REIS, 2009, p. 12)
Isso fica ainda mais evidente em uma fala direta do próprio Popper, ao parafrasear uma expressão semelhante de Einstein:
"À medida que as proposições da ciência se referem à realidade, elas não são certas, e à medida que são certas, elas não se referem à realidade" (POPPER, 2013, p. XXV)
Ou seja, notamos aqui um distanciamento evidente entre ciência e certeza, ao contrário do que existia antes e que fora reconhecido pelo próprio Popper quando ele escreveu, em se referindo ao que outros diziam ser "ciência" até então:
"Pois ciência é conhecimento, e conhecimento implica certeza e justificação: uma justificabilidade empírica ou racional" (POPPER, 2013, p. XXIII)
Vemos então que ele realmente "descolou" o significado de "ciência" do conceito de "certeza" para, brilhantemente, tentar "salvar a ciência".

Grande e brilhante, mas infelizmente desonesto, porque fez com que as pessoas passassem a comprar “gato por lebre”.

Imaginem que não tenho lebres para vender no mercado, então pego gatos, mudo o significado do que entendemos por “lebre” para se aproximar do que entendemos por “gato”, e depois vendo gatos como se fossem lebres. E todo mundo fica feliz, porque afinal “gatos se parecem muito com lebres” e as lebres (em seu sentido antigo) não eram assim tão melhores que os gatos. De fato, podemos até convencer a todos que a "antiga lebre" era muito pior do que a “nova lebre”.

Neste ensaio veremos que a “lebre” é a “Ciência”, e o “gato” é a “crença”, e que estamos "comprando" crenças como se fossem Ciência.

Antes dessa mudança, quando não tínhamos uma certeza objetiva, final, absoluta (por meio de provas ou demonstrações), não tínhamos um produto da Ciência, ou seja, não tínhamos uma verdade adquirida, não tínhamos um conhecimento, porque a proposição defendida ainda poderia ser falsa. Mas como Popper, em seu ceticismo, se convenceu que verdades finais, objetivas e absolutas nunca poderiam ser alcançadas, o que equivale a dizer que a Ciência (enquanto produto) não era possível, e como ele queria “salvar a Ciência” (talvez porque gostasse desse rótulo e não quisesse perdê-lo para o ceticismo), ele propôs uma "solução grande e brilhante": vamos mudar o significado de Ciência!

E o novo significado é exatamente igual ao que antes chamávamos de crença, ou seja, proposições nunca provadas ou demonstradas, ou "descoladas" da realidade, mas que nunca tivessem sido refutadas.

Imaginem um exercício similar. Eu acreditava em unicórnios e achava que unicórnios existiam no mundo, até que um belo dia eu me convenci de que aquilo que eu defini como unicórnio (ou seja, um cavalo com um chifre na testa) não existia. O que faço então para resolver o problema e “salvar” os unicórnios da não existência? Simples! Vamos mudar o que entendemos por unicórnio! A partir de agora ele não terá mais aquele "chifre horrível" na testa (precisamos tachar de “horrível”, senão as pessoas não vão abrir mão dele facilmente). Pronto! Agora em cada haras do mundo podemos encontrar diversos “unicórnios” correndo para lá e para cá, segundo o novo conceito!

Foi mais ou menos isso o que aconteceu com a Ciência. Popper se convenceu (não importa agora como) que a Ciência não era possível como reveladora de verdades. Então ele torceu o conceito de Ciência para “'imunizá-la' contra a verdade e a certeza" (REIS, 2009, p. 22), ou seja, transformou-a no que era até então "crença", que assim se caracterizava pela convicção subjetiva e falta de certeza objetiva (falta de provas). E tratou de chamar a verdade de um nome "horrível", para as pessoas se assustarem e se convencerem de que era uma coisa ruim e devia ser abandonada, ou seja, passaram a chamar a verdade de dogma.

Mas o que era dogma antes? Era justamente uma crença que queria se passar por Ciência. Uma verdade devidamente provada ou demonstrada não era dogma, mas sim Ciência, e era considerado conhecimento certo e seguro. Dogma era somente aquilo que não possuía as devidas provas ou demonstrações mas que queria, mesmo assim, se passar por conhecimento (por Ciência). Um dogma era uma pseudociência.

Hoje é o inverso. A verdade, mesmo que devidamente provada ou demonstrada, é considerada um dogma, e o que era dogma, porque faltam as provas, hoje é considerado Ciência. Estamos comprando gato por lebre. E pior: estamos felizes com isso.

Em debates com defensores do pensamento de Popper, já me foi dito o seguinte:
“É preciso muita humildade para admitir que a ciência não serve para revelar verdades inquestionáveis. Esse é o papel do dogma, não da ciência.”
Ora, desde quando o dogma revela verdades? O dogma revela falsas verdades. O papel de revelar verdades (por meio de provas empíricas ou demonstrações) sempre pertenceu à Ciência.

Um outro defensor de Popper também vive a repetir a seguinte máxima (que desconheço se foi ou não dita por Popper, mas que de qualquer forma concorda com o que ele propôs):
"Ciência não afirma aquilo que é, mas apenas aquilo que jamais se evidenciou diferente."
As frases acima dizem muito sobre o método científico atual. É evidente que o que se quer com esse novo significado de “Ciência” é passar um verniz de cientificidade naquilo que não possui a menor evidência a seu favor (nos dogmas), naquilo que poderíamos licitamente aceitar como crença, com valor subjetivo, mas que quer se apresentar ao mundo como tendo valor objetivo e científico.

Portanto, ao invés de honestamente admitirem o seu ceticismo com relação à possibilidade de uma Ciência, resolveram torcer o significado de Ciência para se igualar ao que antes era simplesmente crença, ou fé, e não é assim, na minha singela opinião, que se faz Filosofia da Ciência.

A CIÊNCIA, A CRENÇA E O DOGMA

Como vimos, uma legítima Ciência provê uma certeza absoluta e objetiva, ou seja, que vale para todos nós, gostemos ou não do que nos é revelado.

A crença surge justamente na impossibilidade da Ciência em prover a certeza absoluta e objetiva, e mesmo assim precisamos de um método de orientação subjetiva para decidir a questão. É evidente que o que quer que eu decida a respeito da questão ainda incerta no âmbito da crença só terá um valor subjetivo, válido apenas para mim mesmo, e não posso ter a pretensão de querer fazer isso valer para todo mundo.

Quando temos de fato uma Ciência (um conhecimento), dizemos "Eu sei...". Mas quando não temos, podemos dizer apenas "Eu acho..." (que caracteriza a opinião), ou então "Eu creio..." (que caracteriza a crença).

É preciso que se note que a Ciência tem um caráter de autoridade, de modo que uma vez que uma Ciência (um conhecimento) é revelada, perdemos a nossa liberdade de nos opor ao que ela revela por uma autoridade irresistível que se chama evidência (que pode ser empírica ou a priori). Ora, quando Galileu apontou o seu telescópio para Júpiter e evidenciou empiricamente que lá existiam satélites que circundavam o planeta, ninguém mais pôde se opor a isso, e mesmo a Igreja, com todo o poder que tinha na época, nada pôde fazer que não aceitar a revelação do fato após um período de inútil resistência. Hoje não há mais o direito de dizer "eu não acredito que haja satélites em Júpiter", exceto se quisermos representar um papel de ridículos.

Talvez um outro exemplo torne mais claro o caráter de autoridade de uma Ciência mediante demonstrações ou provas empíricas. Suponha que um filho meu se torne suspeito de cometer um crime. Por enquanto existe somente a suspeita, ninguém ainda provou nada, não há ainda um conhecimento do que realmente ocorreu. Eu pergunto ao meu filho se ele é culpado e ele alega inocência, diz que as suspeitas são infundadas. Enquanto não houver provas finais e cabais de que o meu filho cometeu esse crime, enquanto não houver uma "ciência" do fato, enquanto o que realmente aconteceu não for conhecido, eu mantenho o meu direito de continuar acreditando no meu filho e de sustentar que ele é inocente. E como a crença é subjetiva, outros poderiam de mim discordar e acreditar que o meu filho é culpado.

O Estado de Direito também só pune mediante provas cabais e finais da culpabilidade. Um autêntico Estado de Direito não pune com base em crenças, não importando a quantidade de pessoas que acreditem que o meu filho é culpado. O direito de punir surge apenas com a "ciência" (com as provas, com o conhecimento) de que o suspeito realmente cometeu o crime. Mas se uma certeza científica nunca fosse possível, com base em quê então o Estado estaria punido pessoas? Essa a consequência que nos leva o ceticismo radical.

Vamos supor então que no meio das investigações apareça uma filmagem de uma câmera de segurança de um posto de gasolina, ou de um prédio nas redondezas, ou mesmo de um celular de um transeunte, que mostre claramente o meu filho cometendo aquele crime. Ora, neste momento adquiriremos uma ciência do fato e o meu direito de continuar acreditando na inocência do meu filho desaparece num piscar de olhos. Não importa se eu quero ou não aceitar, não importa que o meu mundo irá desabar, não importa o quanto eu ainda queira continuar acreditando que o meu filho não só não é um criminoso como também não é um mentiroso, pois a autoridade da evidência vai me forçar a aceitar aquilo que eu jamais na minha vida gostaria de me ver obrigado a aceitar. O Estado também, neste mesmo momento, ganha legitimidade para punir o meu filho pelo crime que Ele agora sabe (e não mais apenas crê) que ele cometeu.

A verdadeira Ciência, portanto, nos obriga a todos à adesão ao que ela nos revela, e por isso é preciso o máximo de cuidado, responsabilidade e discrição antes de chamar qualquer coisa de "científica", porque isso provavelmente vai afetar a liberdade e o direito dos outros homens. Quando há a Ciência, o direito à crença (no caso específico) desaparece. Mas onde a Ciência ainda não se fez ou não se fará presente como conhecimento, temos liberdade para preencher as lacunas com nossas crenças e convicções subjetivas.

Mas e o dogma? Onde é que ele entra nisso?

Há várias formas de definições equivalentes para dogma. Mas uma definição que representa bem a ideia que quero transmitir aqui é a de que dogma é a crença que quer se disfarçar de Ciência.

O dogmático tem muita convicção sobre o ponto que defende e entende que se fosse universalmente aceito isso seria um grande bem para a humanidade como um todo. Mas infelizmente a natureza não colabora e não fornece a ele a prova ou a demonstração necessárias para, com autoridade, obrigar a humanidade à adesão ao ponto defendido. O que faz então o dogmático? Por meios sofísticos e subtis, ele dá uma "forçadinha" na argumentação para disfarçar de Ciência aquilo que nada mais é do que sua crença subjetiva. E com qual objetivo? Obrigar a humanidade a aceitar os seus postulados.

Portanto, enquanto que a verdadeira Ciência tem um caráter de autoridade, o dogma tem um caráter autoritário, ou seja, ele quer ilegitimamente dobrar a humanidade à adesão aos seus pontos de vista.

Dessa forma, por exemplo, quando alguns cientistas falam na mídia que a seleção puramente natural seria cientificamente comprovada, ou que experimentos científicos comprovariam que o livre-arbítrio do homem é uma mera ilusão, o que esses cientistas na verdade querem? Ora, a teoria da seleção puramente natural é uma teoria que, se for realmente verdadeira, seria a derradeira refutação do livre-arbítrio do homem e da existência de Deus (como inteligência). O que essas digníssimas pessoas querem, de fato, com essas pseudoevidências científicas é forçar a humanidade a abandonar a sua fé em Deus e no livre-arbítrio do homem, porque esses são postulados básicos da Religião, eles já se convenceram que a Religião faz mal à humanidade e por isso querem forçá-la, em nome e com a autoridade da Ciência, a renunciar à Religião. É apenas esse desejo autoritário que move essas pessoas. Não fosse por isso eles se contentariam em simplesmente não crer em Deus ao invés de disfarçar as suas crenças de Ciência.

Os filósofos teístas e espiritualistas não fazem melhor. Quando vemos, por exemplo, o Dr. William Craig em seus debates tentando demonstrar a existência de uma primeira causa do mundo, ou quando vemos os adeptos do design inteligente (os chamados "inteligentistas") tentando arranjar evidências de uma finalidade em certos artefatos na natureza, ou quando vemos espíritas (e olha que eu sou espírita) tentando provar cientificamente a reencarnação e a imortalidade da alma, o que todos eles querem afinal? Ora, a teoria do design inteligente, se verdadeira, seria a derradeira prova da existência de Deus (como inteligência) e do livre-arbítrio do homem. O mesmo se pode dizer dos argumentos do Dr. Craig. E uma prova da reencarnação pretende ser uma prova da existência e da sobrevivência da alma. O que esses digníssimos filósofos e cientistas querem então, de fato, com essas pseudoevidências científicas ou filosóficas, é forçar a humanidade a aceitar a existência de Deus, o livre-arbítrio do homem, a imortalidade da alma, a reencarnação, etc., e a renunciar ao ateísmo e ao materialismo, porque, ao contrário dos ateus e materialistas, essas pessoas se convenceram que esses postulados (da Religião) são bons para a humanidade e por isso não querem aguardar a adesão livre do povo como fé, mas querem apressar o processo e forçá-la, em nome da Ciência, a aceitar esses postulados como se fossem descobertas científicas ou filosóficas. É apenas esse desejo autoritário que move essas pessoas. Não fosse por isso eles se contentariam em simplesmente crer em Deus e no livre-arbítrio do homem, etc., ao invés de tentarem disfarçar a sua fé de Ciência.

Vemos, portanto, que não há diferença, em essência, do dogmatismo teísta/espiritualista para o dogmatismo ateísta/materialista, pois ambos compartilham o mesmo caráter autoritário. E ambos têm o interesse de favorecer certas teses em detrimento de outras, primeiro procurando pelas evidências legítimas que os permitiriam forçar as consciências humanas à adesão. E quando não encontram essas evidências legítimas, inventam pseudoevidências, ou sejam, criam uma pseudociência, um dogma, a fim de tentarem levar a cabo esse objetivo de forçar, agora ilegitimamente, as consciências humanas em direção àquilo que eles já julgaram e decidiram que seria "justo e bom".

AS CONSEQUÊNCIAS DA RESIGNIFICAÇÃO QUE POPPER DEU AO VOCÁBULO "CIÊNCIA"

A resignificação que Popper deu ao vocábulo "Ciência" teve pelo menos duas consequências negativas e importantes.

A primeira consequência foi a indevida elevação do que antes era apenas crença para o status de Ciência, o que significa que apareceram crenças no meio científico que pretendiam se legitimar para obrigar a humanidade à adesão. Por exemplo, já em alguns lugares só é permitido que se ensine nas escolas e universidades a teoria da seleção natural, ao passo que as teses "inteligentistas" estão gradativamente sendo expulsas da Academia. Esse é o caráter autoritário do dogmatismo se manifestando. Porém também é digno de nota que o criacionismo (que é uma das teses inteligentistas) já gozou no passado de privilégios de Ciência e também quis obrigar a humanidade à adesão. O pêndulo apenas virou. Esclareço isso a fim de que não interpretem que eu defenda que as teses inteligentistas também devam ser ensinadas nas escolas e universidades como Ciência. Pelo contrário, eu defendo que tanto as teses inteligentistas (o chamado "design inteligente"), quanto as teses puramente naturalistas (a chamada "seleção natural") devam ser ambas banidas da Ciência, visto que não há experiência possível que as corroborem ou refutem. Elas tratam-se de antinomias indecidíveis, para utilizar o linguajar de Popper, e a decisão por uma delas no âmbito da Ciência causa enormes danos tanto à Ciência como à Filosofia Prática e à Religião. Elas são simplesmente crenças, e que se vierem a ser ensinadas em escolas devem ser no seu caráter eminentemente hipotético, deixando claro que não são e nem serão provadas ou refutadas e que, consequentemente, não são e nem jamais serão saberes científicos adquiridos. O trabalho que é preciso fazer na Ciência é expurgar dela todos os dogmas, de modo que essas teses passem para um outro patamar de discussão, que é o da crença, e a Ciência, por outro lado, passe a se ocupar somente daquilo que poderá talvez um dia provar ou demonstrar.

A segunda consequência importante foi o rebaixamento do valor da verdade, como se fosse algo de menor valor para o homem. E muitas pessoas hoje não têm o menor receio de admitir publicamente não buscam a verdade, mas uma tese simplesmente “elegante” (critério esse bastante elástico) e que simplesmente sobreviva à refutação. Reparem no título do artigo que indiquei anteriormente, de Isaac Reis. Ele diz, sem cerimônias, sem nenhuma vergonha, que é “contra a verdade, em favor da razão”. Eu concordo com quem diz que não possuímos nem possuiremos na Terra todas as verdades. Mas afirmar que não possuímos nem possuiremos nenhuma verdade é um exagero que deve ser igualmente combatido e refutado.

REVELAÇÃO DE VERDADES TEM NECESSÁRIA CONOTAÇÃO RELIGIOSA?

Em um dos debates que travei, o meu adversário ridicularizou o uso que fiz do termo “revelação de verdades” para me referir ao objetivo da Ciência. Provavelmente ele deve ter interpretado “revelação” no sentido de “revelação religiosa”, ou seja, aquelas proposições que devíamos aceitar simplesmente por “fé”. Não discordo que é possível também essa interpretação. Mas o termo “revelação” também significa “descoberta ou divulgação de fato”, ou “tornar conhecido” (algo que era desconhecido), que são definições que encontramos no dicionário.

Dessa forma, não entendi bem se a intenção do meu adversário era “revelar” publicamente a sua ignorância sobre o termo “revelação”, ou simplesmente produzir um espantalho. Toda verdade científica é uma verdade revelada pela experiência, pelos fatos empíricos, assim como toda verdade filosófica é uma verdade revelada por uma demonstração. O fato de haver demonstrações falhas não implica que não haja as que são consistentes e verdadeiras. A Ciência se ocupa de revelar verdades. Se ela nunca conseguiu esse objetivo (como parecia acreditar Popper), devemos então dizer que nenhuma Ciência é possível ao invés de torcer o significado de Ciência, ou de revelação, para fazer se aproximar de algo que é possível, o que revela nada menos do que desonestidade intelectual.

EXISTEM CONHECIMENTOS ABSOLUTOS?

Eis uma outra objeção que me foi feita com relação à parte I deste ensaio:
“Usando o princípio da falseabilidade, para destruir essa minha teoria, bastaria me mostrar pelo menos uma coisa sobre a qual o ser humano tenha conhecimento absoluto. Mas não é possível saber tudo sobre nada...”
Conclusão apressada a dele. A própria afirmação “não existem verdades absolutas” destrói-se a si mesma. Se ela fosse verdadeira, então pelo menos uma verdade absoluta existiria, que é a própria proposição “não existem verdades absolutas”. Então, trata-se aí de uma contradição interna evidente.

Mas vamos relevar isso e mudar a frase para “não existem verdades absolutas com exceção desta”. Será que não haveria mesmo?

Primeiramente parece que fazem uma confusão com relação ao significado do uso do termo “absoluto”. Parece-me que o interpretam no sentido de “totalidade”. Ele até pode ser aplicado à totalidade (totalidade absoluta), mas não precisa ser necessariamente interpretado dessa forma, mas pode também ser interpretado no sentido de “o que não é relativo”, o que é “incontestável”, “irrecusável”, “irrefutável”.

Podemos, portanto, possuir verdades absolutas, ou seja, verdades que sejam incontestes, irrefutáveis, irrecusáveis, independentemente daquilo que eu quero acreditar, mas que sejam parciais com relação ao objeto conhecido. Aliás, apenas abrindo-se um parênteses, se a verdade não fosse absoluta, como poderíamos chamá-la de "verdade"? Pois falarmos de "verdades provisórias" é um grotesco absurdo. "Verdade absoluta" é um mero pleonasmo, pois o predicado "absoluto" já está contido no conceito de "verdade".

Se eu, por exemplo, recebo uma multa por excesso de velocidade, o instrumento de medida não é capaz de medir a velocidade exata que eu trafegava, mas ele é capaz de dizer, com uma absoluta certeza, a velocidade mínima que eu trafegava. Ele não diz que eu estava a 89,44... km/h quando a placa diz 80km/h, e que por isso ele estava me multando. Se dissesse isso eu poderia, com toda razão, perguntar como esse aparelho sabia que eu estava a 89,44... km/h e não a 89,45... km/h, e aí alegar que o aparelho é descalibrado, que não é capaz de informar corretamente a minha velocidade, que não provia uma verdade absoluta (total) e que, portanto, a multa era injusta. Mas não é assim. O aparelho informa uma margem de erro (que pelo menos antigamente era de 7km/h), de modo que ele é capaz de afirmar, com absoluta certeza, ao indicar 88km/h, que a minha velocidade real (que ele não sabia exatamente qual era) estava igual ou acima de 81km/h, e como a velocidade máxima era 80km/h, a multa é justa, pois a afirmação empírica produzida por meio do instrumento adquirira um caráter científico e podia, portanto, me obrigar.

Não precisamos conhecer tudo para fazer afirmações absolutas, mas o que importa primordialmente é que tudo aquilo que afirmamos como sendo verdade (absoluta), seja de fato absolutamente certo dentro da margem de erro que provamos ou demonstramos ter. Se eu sou capaz de provar que o meu instrumento erra somente 7km/h para mais ou para menos, eu devo ser capaz de garantir, com uma absoluta certeza, que quando o meu instrumento marcar 88km/h, a velocidade real, que eu não preciso saber qual é exatamente, será um valor compreendido entre 81km/h e 95km/h, sem chances de erro além disso, e que essa informação pode ser provada ou demonstrada de maneira absoluta e inconteste, e por isso vale em um tribunal, etc... Não será difícil para o leitor perceber que não existe apenas uma, mas inúmeras "verdades absolutas" deste tipo, ou seja, que são incontestes, irrefutáveis, ainda que dentro de uma certa faixa de precisão.

Na ciência (com “c” minúsculo, como tratei na primeira parte deste ensaio), verdades absolutas só são possíveis por meio da experiência, e só são legitimamente científicas aquelas investigações em que a experiência é possível, pois é só aí que poderá ser possível uma certeza absoluta.

Popper não acreditava que esse tipo de certeza era possível. Para isso, ele rebateu o argumento de Kant que afirmava justamente o contrário. Isso será analisado detidamente nos próximos ensaios.

BIBLIOGRAFIA

POPPER, Karl. Os dois problemas fundamentais da teoria do conhecimento. São Paulo: Editora Unesp, 2013.

REIS, Isaac. Contra a verdade, em favor da razão - A crítica de Karl Popper à epistemologia da consciência. Cadernos UNDB, v.2, p. 9-43, 2009. Disponível em: <https://www.academia.edu/977000/Karl_Popper_contra_a_verdade_em_favor_da_raz%C3%A3o>. Acesso em: 17 fev. 2015.

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Brasília/DF
Revisado em 27/3/2016

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Um comentário:

  1. Uma pergunta que me poderia ter sido feita a respeito deste segundo artigo:

    "Você escreveu 'Teoria da Seleção Natural'. Não seria 'Teoria da Evolução'? E você a usou como exemplo de crença. Não está já mais do que comprovada empiricamente a Evolução (ou Seleção Natural)?"

    Respondo que confundir a Evolução com a Teoria da Seleção Natural é a mesma coisa que confundir o efeito como uma de suas possíveis causas. A evolução dos seres vivos é um FATO constatado empiricamente. Não a considero sequer uma teoria, mas um fato empírico comprovado, irrefutável, irrecusável, absoluto. Ora, antes existiam na Terra dinossauros e agora existem outros tipos de animais, incluindo aí o próprio homem. Houve, portanto, uma transformação, e é a essa transformação que chamamos de "Evolução". Se foi por meio de um grande salto ou por meio de pequenos saltos, isso é o que menos importa. O que importa é que mudaram e isso que se chama "Evolução", que é um fato empírico, e a sua constatação é uma verdadeira constatação científica, no rigor da palavra.

    O problema está na hora de responder o que provocou a Evolução. Foi um simples mecanismo cego dirigido pelo determinismo natural, que é o que chamamos normalmente de "Seleção Natural", ou a Evolução foi inteligentemente dirigida para um fim teleologicamente determinado (por inteligências), que é o que normalmente chamamos de "Design Inteligente"?

    É esta última questão que se trata de uma antinomia indecidível, pois para decidi-la precisaríamos conhecer as causas primeiras dos fenômenos, e isso nunca poderemos conhecer. Dessa forma, posso CRER que a evolução ocorreu por uma simples seleção natural, ou posso CRER que a evolução ocorreu por uma manipulação inteligente da natureza (por meio de um ou mais designers inteligentes), mas nunca poderei SABER qual delas foi. E se nunca poderei saber, é porque o objeto investigado não é objeto de uma experiência possível e, portanto, ambas as investigações também não são científicas, mas pseudocientíficas.

    A Evolução, portanto, como efeito, possui um prestígio científico que ninguém lhe poderá tirar. Quando os adeptos da "Teoria da Seleção Natural" equiparam sua teoria com a "Evolução", como se fossem uma e mesma coisa, o que eles realmente querem é atrair para sua teoria o prestígio que a Evolução goza como ciência, prestígio que a Teoria da Seleção Natural nunca conseguiria obter por si própria, simplesmente por não conseguir uma prova ou demonstração a seu favor que refutasse definitivamente a teoria concorrente, ou seja, a Teoria do Design Inteligente.

    A Teoria do Design Inteligente já foi denunciada como pseudocientífica, o que está correto (apesar de eu pessoalmente CRER no Design Inteligente). Apesar de muitos de seus adeptos desejarem reabilitarem-na como Ciência, eu não abraço essa tentativa e entendo que ela hoje se encontra no lugar que deve finalmente se situar, ou seja, no domínio da CRENÇA. Só falta agora denunciar como pseudocientífica e dogmática a Teoria da Seleção Natural, porque ela é tão pseudocientífica quanto o Design, e igualmente relegá-la ao seu legítimo domínio da CRENÇA.

    E essa disputa entre as duas teorias deve ser resolvida finalmente somente no âmbito da CRENÇA, por meio da adesão subjetiva de cada indivíduo. Não no âmbito da CIÊNCIA.

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