terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Filosofia da ciência - método científico - parte I

INTRODUÇÃO

Inicio este ensaio esclarecendo que infelizmente não será possível servir-me do atual método científico para a minha exposição, porque é justamente ele que pretendo colocar em xeque. Portanto, na primeira parte deste ensaio realizarei uma reflexão a respeito das fontes de todos os nossos conhecimentos, a fim de chegar naquilo que entendo que o método científico deveria ser com o fim de conseguir obter esses conhecimentos de forma certa e segura, e aí comparar o status quo atual com esse modelo e realizar a minha crítica ao atual método científico.

POSSIBILIDADE, REALIDADE E NECESSIDADE

Inicio então com a pergunta: o que é Ciência?

Em todos os tempos até aproximadamente o início do século XX ninguém teve dúvidas a respeito do significado deste termo. Ciência é simplesmente conhecimento.

E todo conhecimento precisa referir-se à verdade, porque algo manifestamente falso, ou que não temos certeza que é verdadeiro, não pode ser chamado de conhecimento, e menos ainda de Ciência, donde podemos afirmar que a Ciência se ocupa da busca e da revelação de verdades. Dizer que estamos de posse de um conhecimento, ou de uma Ciência, é o mesmo que dizer que estamos de posse de uma verdade.

No que se refere ao conhecimento, podemos proferir os seguintes juízos:
1. possibilidade (ou impossibilidade);
2. realidade (ou irrealidade);
3. necessidade (ou contingência, possibilidade da não-existência).

Quando nada sei a respeito de algo do mundo, digo simplesmente que a coisa é possível. A possibilidade é sempre dada a priori. Quando nada conhecemos, tudo é em princípio possível.

Se descubro que algo existe, digo que é real. E se descubro a respeito de algo cuja não-existência é impossível, digo que é necessário. E claro que há os juízos complementares opostos, que nada mais são do que as “outras faces das mesmas moedas”: a impossibilidade nada mais é do que a necessidade, a irrealidade é a realidade, e a contingência é a própria possibilidade, todas aplicadas às teses opostas.

Só como exemplos destes tipos de juízo, podemos dizer:
- É possível que exista vida microrgânica em Europa (lua de Júpiter);
- A existência de corvos negros é real;
- Na natureza, é necessário que dois experimentos realizados exatamente nas mesmas condições produzam o mesmo resultado.

CIÊNCIA EM SENTIDO AMPLO

Qual é então o verdadeiro papel da Ciência em seu sentido amplo (que tratarei por “Ciência”, com “C” maiúsculo)? O papel da Ciência é converter, fundamentadamente, todas as possibilidades em realidades/irrealidades ou em necessidades/impossibilidades, assim como converter todas as realidades/irrealidades em necessidades/impossibilidades. Somente quando puder dizer, fundamentadamente, que algo é real, irreal, necessário ou impossível é que posso afirmar que estou de posse de um conhecimento (ou de uma "Ciência") desse “algo”.

Todos os erros da Ciência, em todos os tempos, sempre se deram pela confusão destes juízos, ao considerarmos:
1. o que é apenas possível como real/irreal ou necessário/impossível;
2. o que é apenas real/irreal como necessário/impossível;
3. como apenas possível o que já foi determinado real/irreal ou necessário/impossível; ou
4. como apenas real/irreal o que já foi determinado como necessário/impossível.

FILOSOFIA E CIÊNCIA EM SENTIDO ESTRITO

A Ciência (em sentido amplo) se subdivide em Filosofia (antigamente era chamada de "Metafísica") e ciência em sentido estrito (que vou tratar daqui para frente como ciência, com “c” minúsculo).

A Filosofia é o ramo da Ciência que cuida de transformar a possibilidade ou realidade/irrealidade em necessidade ou impossibilidade mediante demonstração.

A ciência é o ramo da Ciência que cuida de transformar a possibilidade em realidade ou irrealidade mediante provas empíricas.

A Filosofia é totalmente a priori, pois se já sei que algo é necessário ou impossível, não me é requerido experiência alguma para determinar sua realidade ou irrealidade. Por exemplo, uma vez que provei que uma determinada quantidade de água ferve a 100 ºC à pressão atmosférica, não me é requerido experimentar todas as outras porções de água do planeta para ver se se comportam da mesma forma, porque sei a priori que um comportamento uniforme é necessário para toda a matéria; assim como na matemática não me é requerido que eu saia pelo mundo em busca de triângulos retângulos empíricos a fim de provar que o Teorema de Pitágoras é de fato verdadeiro, etc...

A ciência, pelo contrário, é totalmente a posteriori, porque se não posso determinar que a coisa é necessária ou impossível, se ela é em princípio contingente, somente a experiência pode me dizer se ela é real ou irreal. No exemplo anterior, antes do primeiro experimento, não tenho como saber a que temperatura a água ferve na pressão atmosférica. Preciso testar, porque não há nenhuma necessidade determinada a priori que a água deva ferver nesta temperatura. Também não é necessário, por exemplo, que existam satélites em Júpiter. Suas existências são contingentes (poderiam não existir). Desse modo, apenas por observação eu poderia saber que eles se encontram lá e nunca a priori. Por isso a ciência é sempre empírica, baseada na observação.

Uma das confusões muito recorrentes na Ciência é a confusão dos papéis da ciência e da Filosofia, que começa com a confusão do que é contingente e necessário, e termina com uma investigação a priori do que deveria ser a posteriori, ou vice-versa.

DE QUE SE COMPÕE O CONHECIMENTO CIENTÍFICO (EM SENTIDO ESTRITO)

Um legítimo conhecimento científico é composto sempre de uma matéria e de uma forma.

A matéria é dada a posteriori, como já disse, por meio dos sentidos em uma experiência.

Já a forma do conhecimento científico é a priori e, consequentemente, filosófica, que deve preceder o empírico e lhe dar significação, e é o que compõe o que chamamos de Filosofia da ciência.

Mal comparando seria como fazermos uma analogia com um sistema eletrônico que mede, por exemplo, uma temperatura ambiente. É preciso uma matéria para a medição, que é dada por um sensor que interage com o ambiente, percebe o dado de entrada e converte a temperatura em, por exemplo, um sinal elétrico (que poderia ser um sinal de pressão, de movimento, etc...). O sinal vai para o microprocessador central que recebe essa matéria e lhe dá uma forma, ou seja, o transforma em uma saída equivalente digital em uma unidade de temperatura específica (ºC, ºF, Kelvin, etc...), perceptível aos nossos sentidos e compreensível ao nosso entendimento. Com o conhecimento empírico o mesmo se dá, ou seja, recebemos a matéria por meio dos nossos sentidos em uma experiência, mas essa matéria não teria nenhum significado para nós se o nosso cérebro, por meio da sua faculdade de entendimento, não lhe desse uma forma, que é temporal e espacial.

Sem essa forma não poderíamos dizer que há realmente um conhecimento científico, visto que não entenderíamos porque os fenômenos ocorrem. Sem a Filosofia da ciência, o conhecimento empírico não seria um conhecimento, mas um mero apanhado de percepções, sem nenhuma relação necessária entre si ou com outras percepções.

É também à Filosofia da ciência que cabe dizer, a priori, o que é e o que não é ciência. Por isso o objeto deste ensaio é na verdade sobre Filosofia da ciência, e pretendo mostrar as confusões que fizeram os filósofos da ciência ao tratarem do possível, do real e do necessário, que aliás representam três das categorias do entendimento enunciadas por Kant.

O QUE É E O QUE NÃO É ATIVIDADE CIENTÍFICA EM SENTIDO ESTRITO

À ciência, como já dito, cabe converter o contingente possível em realidade ou irrealidade mediante provas empíricas, e isso só pode ser feito por meio dos nossos sentidos em uma experiência.

O problema é que determinados tipos de experiências são impossíveis para nós. Como então realizar a tarefa da ciência sem a experiência, sem nenhuma observação ou outra forma de detecção pelos sentidos? Impossível.

Por outro lado, por que a ciência deveria investigar uma tese cuja impossibilidade de provar é manifesta? E reparem que essa “impossibilidade” é determinada pela Filosofia da ciência, a priori. Não seria lícito então afirmarmos que teses assim se encontram fora do escopo da ciência, e que a ciência deveria investigar apenas aquilo que possui possibilidade (por mínima que seja) de provar empiricamente?

A Filosofia da ciência então coloca um primeiro delimitador entre a ciência e a não-ciência:

“A ciência (como "atividade científica") refere-se à investigação de tudo aquilo cuja experiência é possível”.
“A não-ciência refere-se a tudo aquilo cuja experiência é impossível”.

E podemos ainda chamar de pseudociência à investigação de todo o contingente cuja experiência é impossível.

VERIFICAÇÃO E REFUTAÇÃO

Ao contrário do que apregoava Karl Popper, o conhecimento científico pode se dar tanto por prova direta (verificação) ou refutação. A prova direta atesta a realidade da tese. A refutação prova a irrealidade da tese.

A refutação e a prova direta são, portanto, “duas faces da mesma moeda”. Provar diretamente uma tese é refutar (provar a irrealidade de) todas as antíteses. Porém, refutar uma tese é provar que pelo menos uma das antíteses é real.

A prova da tese refuta todas as antíteses. Mas a sua refutação não prova necessariamente uma das antíteses, porque seria necessário conhecê-las e refutá-las todas. Refutando a tese, apenas saberei que uma das antíteses possíveis é real, mas não necessariamente saberei qual delas é real. Esse é o cerne da minha crítica ao falseacionismo (ou deducionismo) de Popper.

E tanto as tentativas de verificação ou de refutação podem ser científicas como pseudocientíficas, a depender se a experiência é possível ou não.

TESES CIENTÍFICAS, SEMI-CIENTÍFICAS E NÃO-CIENTÍFICAS

Creio que posso tentar definir aqui as teses como científicas, semi-científicas ou como não-científicas.

A tese científica é aquela em que é possível uma experiência tanto para a prova como para a sua refutação. Por exemplo, para a tese “um determinado indivíduo é culpado de um crime”, pode aparecer uma prova que mostre que o indivíduo realmente é culpado e o crime estará solucionado. Ou pode aparecer uma outra prova que refute a tese e mostre que aquele indivíduo é inocente. Porém, essa refutação não permitirá necessariamente solucionar a investigação do crime, pois pode continuar não conhecido quem realmente o cometeu. A refutação apenas prova que o determinado indivíduo não cometeu o crime. Curiosamente, quando a tese for científica, a sua antítese também sempre o será.

A tese semi-científica é aquela em que é possível uma experiência para a prova, mas não é possível uma experiência para a refutação (ou vice-versa). Por exemplo, para as seguintes tese e antítese: “há vida fora da Terra” e “toda matéria fora da Terra é inanimada”. No primeiro caso é possível uma prova e impossível uma refutação (porque não nos é possível investigar todos os confins do universo a fim de provar que não há vida em lugar algum fora da Terra), e no segundo caso é impossível uma prova (pelas mesmas razões anteriormente expostas) e possível uma refutação. Igualmente, quando a tese for semi-científica, a antítese também sempre o será.

A tese não-científica é aquela em que é impossível uma experiência tanto para a prova como para a refutação e o assunto, definitivamente, não será do escopo da ciência, e nada que ela disser a respeito, a favor ou contra a tese ou a antítese, valor algum terá. Exemplos: “Deus existe”; “Deus não existe”; “a nossa vontade é livre”; “a nossa vontade não é livre”, "a evolução se dá apenas por uma seleção natural", a "evolução se dá por meio de um design inteligente que interfere na natureza com um propósito", etc... E igualmente, quando a tese for não-científica, a antítese também sempre será não-científica, e a investigação de ambas no âmbito da ciência caracterizará pseudociências. O próprio Popper pareceu concordar com essa afirmação em um certo momento, quando escreveu:
"Kant chega à conclusão (e com razão - como será mostrado no exame do problema da demarcação) de que nos casos em que há uma antinomia indecidível as duas afirmações devem ser rejeitadas como injustificáveis e, por isso, não científicas (dogmático-metafísicas)." (POPPER, 2013, p. 84)
O problema é que para Popper, em seu ceticismo quanto à experiência possível, tudo se tornaria "antinomia indecidível". Veremos isso na continuação deste ensaio.

Lembrando que o objetivo da ciência é converter (por meio de provas empíricas) uma tese possível em realidade ou irrealidade, podemos afirmar que as teses não-científicas serão, para nós, homens na Terra, para sempre possíveis, nunca provadas e nunca refutadas. A questão permanecerá eternamente (para nós, na Terra) em aberto.

O mesmo não se pode afirmar das teses científicas ou semi-científicas, pois é possível que um dia apareçam provas de sua realidade ou irrealidade. No caso da tese semi-científica, a investigação da parte não experimentável caracteriza também uma pseudociência (por exemplo, tentar provar que não há vida em lugar algum do universo).

OS FRUTOS DO ATUAL MÉTODO CIENTÍFICO

Como já disse e vou insistir reiteradamente, a fim de que não percamos isso de vista, a ciência deve se restringir ao campo da experiência possível. Quando ela ultrapassa esse limite ela só se ilude e ilude a outros com falsas promessas de conhecimento transcendente, que nunca consegue realizar e muitas vezes não consegue abandonar.

E me antecipando, cito uma crítica que me foi feita quando eu pus em questão o atual método científico, que tem avançado para além do campo da experiência possível, e me foi respondido o seguinte:
“... Como eu disse, se não aceitas o Método Científico, então, siga em paz! Não te esqueças de tomar teus remédios, quando adoeceres, viu?”
O que a crítica quis dizer é que os remédios que tomo e que são eficazes foram obtidos por meio da ciência, supostamente utilizando o defendido método científico (a saber, o popperiano, que naquele momento eu punha em questão), e que se eu não acredito nesse método, ainda assim não deveria rejeitar os produtos científicos obtidos a partir deste método, porque eles são eficazes.

Só que reparem bem: se uma descoberta científica tem aplicação prática eficaz, é porque ela já é, por definição, objeto de uma experiência possível e não é o alvo da minha crítica. O que eu estou criticando é justamente aquilo que não é objeto de uma experiência possível e, portanto, jamais será objeto de uma aplicação prática eficaz, porque se não consigo nem experimentar para provar, como então seria possível eu aplicar na prática (a própria aplicação seria a prova empírica da realidade da tese)? Portanto, entendo que esse tipo de crítica foi erroneamente dirigida a mim.

O que eu quero que me demonstrem é como que algo, que não é determinado necessário nem impossível pela Filosofia, ou seja, que é contingente, pode ser declarado real ou irreal sem uma experiência ou uma observação que corrobore essa afirmação. E como o falseacionismo (ou deducionismo) popperiano permitiu que algumas teses que não são objetos de experiência possível se apresentassem ao mundo como ciência, e mais ainda, como “verdades científicas até que se refute” (o que evidentemente nunca ocorrerá, porque suas antíteses também não são objetos de experiência possível), será ele o objeto principal da minha crítica ao chamado “método científico vigente”.

Para isso será necessário explorar o modo como determinamos que uma tese é possível ou impossível de provar e/ou refutar, e na oportunidade criticar o que disseram alguns dos proclamados “filósofos da ciência”. O erro ou o acerto deles pode, como tudo o que concerne à Filosofia, ser demonstrado a priori e não depende da ciência em si, nem da experiência, nem do senso comum dos cientistas, mas antes será condição de toda a ciência que queira ser respeitada e prestigiada como tal.

Karl Popper, que considerou "insatisfatória" a solução kantiana para o problema do conhecimento, o que equivaleria a dizer que nenhuma Ciência é possível, e encontrou uma solução inusitada para "salvar a Ciência": mudou o significado de "Ciência". Tratarei disso na segunda parte deste ensaio.


BIBLIOGRAFIA

POPPER, Karl. Os dois problemas fundamentais da teoria do conhecimento. São Paulo: Editora Unesp, 2013.

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Brasília/DF
Revisado em 13/4/2016

Um comentário:


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