sábado, 6 de dezembro de 2014

Inteligência x Entendimento

Segue abaixo um pequeno ensaio sobre a inteligência, que julgo útil compartilhar, tendo-se em vista principalmente que a inteligência é constantemente confundida com uma super capacidade de raciocínios lógicos, matemáticos, de aprender ou de conhecer (ou seja, com a faculdade do entendimento). Mas não é nada disso. Pelo contrário, uma super capacidade de processamento do melhor supercomputador que já foi produzido ou que venha a ser criado não se aproxima nem de longe de uma verdadeira faculdade intelectual do selvagem mais ignorante que possamos encontrar na face da Terra.

A inteligência pode ser simplesmente definida como uma faculdade de autodeterminação, ou como uma faculdade de iniciar por si mesma, SEM NENHUM TIPO DE CONDICIONAMENTO EXTERIOR (isto é importante), uma sequência de eventos. É uma faculdade ATIVA e é também chamada de faculdade de autonomia, liberdade da vontade, razão. Diferencia-se da nossa faculdade de entendimento, que é apenas PASSIVA, lógica, de processamento, que nos permite conhecer e fazer distinções, e é necessariamente limitada à forma de constituição do nosso cérebro, de uma forma tal que limita a nossa capacidade de conhecer. O entendimento não pode ser expandido. No entanto, o uso da racionalidade pode ser expandido indefinidamente e não há limites, o que cria invariavelmente um conflito entre entendimento e razão, de modo que a razão quer conhecer até o infinito, o que é grande demais para o entendimento e a tentativa de ultrapassar os seus limites nos leva invariavelmente a ilusões e enganos, ao passo que se nos mantivermos nos estritos limites do entendimento, não nos iludimos, mas a razão não fica satisfeita e fica sempre tentada a ultrapassar esses limites, ao que precisa constantemente de uma censura, ou uma crítica, em tudo o que se refere ao conhecimento.

O entendimento, como já disse, é uma faculdade simplesmente lógica, de REGRAS, e é uma faculdade que compartilhamos com as máquinas e com os animais. Os animais entendem, assim como as máquinas, se forem programadas para tal. O nosso cérebro é o responsável por essa faculdade em nós. Mas ela não é inteligência, porque o entendimento é determinado exteriormente (depende do cérebro, que por sua vez depende do nosso DNA, que por sua vez dependeu dos nossos pais, que dependeram, em última instância, da natureza). Só pode ser inteligência aquilo que depende dela própria e de nada que lhe seja exterior, pois do contrário em nada se diferenciaria da "natureza".

A inteligência vai além do entendimento. Não é uma faculdade simplesmente lógica. É uma faculdade de PRINCÍPIOS. Dos princípios podem derivar-se uma infinidade de regras, donde que se pode dizer que a inteligência (ou a razão) prescreve regras para o entendimento segundo princípios. Um exemplo tornará isso claro.

Um cão (que só possui entendimento e não inteligência) pode aprender regras. Podemos ensiná-lo a fazer cocô em apenas um lugar e ele vai aprender e obedecer. Mas ele nunca vai se perguntar porque ele deve fazer cocô ali e não em outro lugar. Ele nunca vai aprender o princípio por detrás da regra.

Da mesma forma é inconcebível um cão me indagando porque é que comemos na mesa e ele no chão, porque comemos o prato principal e ele só os restos (ou aquelas horríveis rações), porque dormimos dentro de casa e ele fora, etc... Isso porque os seres não dotados de inteligência não são capazes de apreender princípios e nem de agir por princípios, que é uma faculdade exclusiva da inteligência.

E por isso também podemos com certeza afirmar que o homem é o único animal inteligente sobre a Terra. Se algum dia existirão outros eu não sei. Mas hoje é somente o homem, pois só ele age segundo princípios.
Uma característica também da inteligência é dar leis a si própria, ao invés de simplesmente obedecer passivamente uma lei que lhe é prescrita de fora. E o homem é também o único animal na Terra se dá leis (veja-se, por exemplo, as nossas próprias leis, todas editadas pelos homens). Os animais não fazem isso, mas apenas obedecem uma lei que lhes foi dada pela natureza (o instinto) e não conseguem transcendê-la. O joão-de-barro constrói engenhosamente a sua casinha, mas o faz hoje da mesma forma que o fazia há 2000 anos e não consegue, por si só, realizar a sua construção de uma forma diferente. Já o homem pode transcender a sua natureza e não está limitado a uma atividade que lhe fosse "natural" (eu posso ser engenheiro, artista, advogado, médico e transitar tranquilamente entre essas atividades ao longo de uma vida).

Nós também reconhecemos facilmente uma ação segundo princípios (produtos da inteligência) pelo fato de não poderem ser nunca executados por uma máquina ou por um animal. Não se concebe, por exemplo, uma máquina detectando um ato de má-fé da parte de alguém (para julgar esse alguém em um tribunal, por exemplo). Sempre terá que ser um homem a julgar as ações de outros homens. A máquina pode nos ajudar a evidenciar o fato, mas jamais descobrirá a intenção. Não se concebe também uma máquina compondo uma música, ou produzindo uma obra de arte, ou simplesmente decorando a nossa casa como geralmente o faz as nossas esposas. Tudo isso só pode ser feito pela inteligência e, por isso, são atividades que são e sempre serão humanas, não podendo nunca ser substituído por uma máquina e automatizado.

A máquina só vai se apropriar de fato do que é repetitivo, mecânico e, consequentemente, daquilo que não é uma atividade digna de ser executada pela inteligência. Dessa forma é de se lamentar bastante os protestos que às vezes vemos quando se pretende substituir mãos humanas por máquinas. Se essa substituição é possível, é porque o trabalho já não é digno da humanidade, sendo indigno também para o homem insistir em continuar realizando um trabalho que já pode ser realizado por uma simples máquina. Trata-se de uma subutilização infame da inteligência.

Aliás, existe um temor, infundado, de que a máquina substituirá o homem e o homem ficará sem trabalho no futuro. Mas a máquina, contudo, só substitui o homem no trabalho que é puramente mecânico, e nunca o substituirá nos trabalhos da inteligência. A automação, portanto, antes de ser motivo de preocupação e angústia, devia ser antes um motivo de esperança para o homem, de que estará muito em breve desonerado de todo o trabalho puramente mecânico e ininteligente, e que poderá dedicar-se unicamente a trabalhos que estejam elevados à dignidade de sua inteligência, os quais a máquina jamais poderá realizar.

Por mais que uma máquina possa ser avançada e sofisticada (um supercomputador, por exemplo), ela nunca será capaz de realizar um simples debate do tipo, por exemplo, se há ou não inteligência, donde se deduz que aqueles que negam a inteligência utilizam a própria inteligência para negá-la, o que é ridículo. Mas também é verdade que até para ser ridículo é necessário ser inteligente. Máquinas e animais não podem se comportar ridiculamente, donde que quando formos tachados de ridículos por alguém podemos considerar isso como um reconhecimento do adversário de que possuímos a faculdade da inteligência, mesmo que não a reconheçamos em nós mesmos.

Está em voga atualmente um reacendimento da discussão sobre a Seleção Natural e o Design Inteligente. Mas me parece que nem um lado, nem o outro, está sabendo definir bem o que é inteligência, seja para aceitá-la, seja para negá-la, e estão atribuindo à inteligência faculdades simplesmente lógicas, mas não racionais, o que pode comprometer todo o projeto e discussão sobre os temas. Inteligência defendida como uma faculdade simplesmente lógica é a mesma natureza com outro nome. Para produtos da inteligência sempre poderemos identificar uma finalidade, um propósito, um princípio. Para os produtos simplesmente da natureza poderemos identificar apenas eventos que obedecem regras (leis) que não objetivam nenhum fim específico. Na natureza podemos encontrar ambas as coisas (exemplo: um avião, e a disposição dos grãos de areia em uma praia).

Pode-se alegar que não há inteligência em parte alguma (já que sua existência não pode ser provada, nem mesmo em nós). Mas deve-se cuidar para não distorcer o seu conceito.

Um comentário:

  1. Ótimo texto sobre o "esclarecimento", o sentido de entendimento e inteligência em Kant.

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