quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A alegoria da caverna de Platão

Lê-se no Livro VII de A República, de Platão, no diálogo entre Sócrates e Glauco:
SÓCRATES: – Em seguida – continuei –, imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa elevação, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no gênero dos tapumes que os homens dos "robertos" colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.

GLAUCO: – Eu os vejo – disse ele.

SÓCRATES: – Veja também ao longo deste muro homens que transportam toda a espécie de objetos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.

GLAUCO: – Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.

SÓCRATES: – Semelhantes a nós – continuei. – Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projetadas pelo fogo na parede oposta na caverna?

GLAUCO: – Como não – respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça sempre imóvel?

SÓCRATES: – E os objetos transportados? Não se passa o mesmo com eles?

GLAUCO: – Sem dúvida.

SÓCRATES: – Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objetos reais quando designavam o que viam?

GLAUCO: – Realmente.

SÓCRATES: – E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?

GLAUCO: – Por Zeus, que sim!

SÓCRATES: – De qualquer modo – afirmei –, pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objetos.

GLAUCO: – Exatamente – disse ele.

SÓCRATES: – Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, para ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objetos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objetos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objetos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?

GLAUCO: – Sem dúvida – afirmou.

SÓCRATES: – Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objetos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?

GLAUCO: – Seria assim – disse ele.

SÓCRATES: – E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objetos?

GLAUCO: – Não poderia, de fato, pelo menos de repente.

SÓCRATES: – Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objetos, refletidas na água, e, por último, para os próprios objetos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.

GLAUCO: – Pois não!

SÓCRATES: – Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer outra parte, mas a ele mesmo, no seu lugar.

GLAUCO: – Necessariamente.

SÓCRATES: – Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.

GLAUCO: – É evidente que depois chegaria a essas conclusões.

SÓCRATES: – E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?

GLAUCO: – Com certeza.

SÓCRATES: – E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prêmios para que distinguisse com mais agudeza os objetos, que passavam, e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse o mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo "servir junto de um homem pobre, como servo da gleba", e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?

GLAUCO: – Suponho que seria assim – respondeu –, que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela maneira.

SÓCRATES: – Imagina ainda o seguinte – prossegui. – Se um homem nessas condições desce de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?

GLAUCO: – Com certeza.

SÓCRATES: – E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?

GLAUCO: – Matariam, sem dúvida – confirmou ele.

SÓCRATES: – Meu caro Glauco, este quadro – continuei – deve agora aplicar-se a tudo quanto dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à caverna da prisão, e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao mundo superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma ao mundo inteligível, não iludirás a minha expectativa, já que é teu desejo conhecê-la. O Deus sabe se ela é verdadeira. Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e de belo; que, no mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública.

Fonte: Platão – A República, Livro VII, págs. 210 a 213, tradução de Pietro Nassetti – Editora Martin Claret, 3a Edição, 9a reimpressão - 2011.
O que essa alegoria de fato nos ensina? Que podemos ter acesso a um mundo transcendental por meio de experiências transcendentais? Ou que devíamos aceitar os relatos extravagantes daqueles que alegam ter tido tais experiências? Ou que precisamos de experiências deste tipo (por nós mesmos ou crendo nos relatos de outros) para sermos sensatos na vida? Os três problemas principais desta alegoria são os seguintes:

1. Como homem na Terra, nunca alguém saiu da caverna e nem sairá, e mesmo que alguém saia, não como homem, mas em uma dessas supostas experiências transcendentais fora do corpo, jamais conseguiria validar a experiência quando retornasse ao corpo, nem sequer para si próprio, de modo que ela jamais poderia ter qualquer valor objetivo para si ou para o restante da humanidade (embora possa até ter algum valor subjetivo);

2. Nós não precisamos sair da caverna para ter acesso ao mundo superior, ou seja, ao mundo inteligível, pois pressupostamente já fazemos parte dele onde quer que estejamos; e

3. Esse tipo de experiência ou conhecimento transcendental não é de forma alguma necessário para ser sensato na vida particular e pública, pois o que devo absolutamente fazer não depende do que conheço ou posso conhecer pelos sentidos.

Em outras palavras, a parábola nada nos ensina e ainda por cima nos coloca em uma rota que vai ao encontro direto do mundo das fantasias, do exotismo, do misticismo, visto que sempre haverá alguém alegando já ter vivido alguma experiência transcendente e que espera encontrar pessoas sempre crédulas e bem dispostas a tomar como verdades as suas fantasias místicas. Vamos tentar entender esses três aspectos por partes.

1. Ninguém jamais saiu ou sairá da caverna enquanto homem na Terra

É possível notar na parábola de Platão que a limitação do conhecimento dos prisioneiros se dava unicamente por causa de uma limitação dos seus sentidos (eles estavam amarrados, não podiam virar a cabeça, etc.) e não de suas inteligências. Ao prisioneiro que se viu solto na parábola não foi preciso nenhum esforço adicional da inteligência para entender o que se passava, mas foi preciso apenas abrir os olhos. Se ele continuasse preso, ele poderia forçar o quanto quisesse o seu pensamento, que ele jamais conseguiria entender aquilo que conseguira entender apenas abrindo os olhos. Conhecer dessa forma independe do nível de inteligência do sujeito que conhece.

Nós, que vivemos como homens na Terra, também somos prisioneiros dos nossos sentidos. Em outras palavras, nós não possuímos uma percepção direta da realidade, mas apenas uma percepção indireta. O que o nosso cérebro recebe para processar nada mais são do que sinais elétricos enviados pelos sentidos. Cabe então ao cérebro processar essas informações e construir aquilo que tomamos por realidade. E é aí que entra em cena um outro tipo de limitação, que é a da nossa faculdade de entendimento, que diz respeito ao modo como o nosso cérebro processa as informações que recebe dos sentidos.

São essas duas limitações, e não uma suposta limitação de nossa inteligência, as causas principais da nossa fatal ignorância acerca da essência do Mundo, ou seja, da realidade como ela é em si. Vejamos então essas duas limitações em detalhes:

1.1 Limitação dos sentidos: os nossos sentidos não são potentes o suficiente para perceberem toda a realidade fenomênica. Os nossos olhos, por exemplo, não possuem definição suficiente para perceber objetos muito pequenos ou muito longe. Eles também não são capazes de perceber todo o espectro luminoso. Além disso, a visão só é capaz de perceber a presença daquilo que emite radiação luminosa. Objetos que não emitissem radiação alguma não poderiam ser por nós percebidos e, consequentemente, também não poderiam ser conhecidos. Pode de fato existir toda uma realidade suprassensível à nossa volta e que nós não podemos conhecer pelo simples fato de eles não produzirem nenhuma ação sobre os nossos sentidos.

A boa notícia é que essas limitações sensíveis podem ser gradativamente reduzidas pelos avanços tecnológicos, que mais não fazem do que ampliar a capacidade de percepção dos nossos sentidos. Dessa forma, o que hoje é suprassensível poderá não o ser mais amanhã, se o homem inventar instrumentos capazes de detectá-los e converter os seus sinais em algo que possa ser percebido, ainda que indiretamente, por um dos nossos cinco sentidos (usualmente pela visão). É dessa forma que os microorganismos (vírus, bactérias, etc...) já foram um dia para nós uma realidade suprassensível, e hoje, após a invenção do microscópio, passou a ser uma realidade indiretamente sensível. O mesmo com relação à existência de estrelas, galáxias e planetas distantes.

Dessa forma, os nossos sentidos podem ser ampliados e com isso a nossa ignorância a respeito do mundo fenomênico pode ser gradativamente reduzida.

Mas é importante lembrar que esse avanço do conhecimento sempre se dará por uma ampliação dos sentidos, e não por uma ampliação da faculdade de entendimento ou por uma ampliação da inteligência. Não adianta eu ser o homem mais inteligente da Terra. Se eu não puder perceber nada pelos sentidos, o meu conhecimento será inferior ao de um ignorante iletrado com sentidos apurados. Um “excesso de inteligência” jamais poderia suprir uma deficiência dos sentidos ou do entendimento. Esta última é a que limita fatalmente a nossa capacidade de conhecer, e é a que trataremos em seguida. Galileu quando descobriu o movimento dos planetas não o fez pela inteligência (embora ele até fosse bastante inteligente), mas o fez apenas porque olhou com um telescópio e viu.

1.2 Limitação do entendimento: chamo aqui de entendimento à faculdade que possui o nosso cérebro de processar o que recebe dos sentidos. É como se fosse a nossa unidade central de processamento (CPU), que recebe os sinais, processa, e entrega à inteligência aquilo que ela quer ou precisa conhecer.

É necessário cuidado para não confundir aqui neste ensaio o termo “entendimento” com “inteligência”. O entendimento possui uma função passiva de processamento. Já a inteligência possui uma função ativa de autodeterminação, ou seja, possui uma vontade própria. A inteligência somos nós mesmos, a nossa individualidade, a nossa alma, a nossa faculdade de liberdade, de livres-arbítrios, a responsável pela nossa vontade, que como já foi explicado diversas vezes neste Blog, não podemos provar existente em nós mas devemos pressupor existente em nós, caso não queiramos considerar a nós mesmos simples máquinas ou simples coisas.

Mal comparando, podemos associar os sentidos com um sensor, que percebe algo exterior a nós (a temperatura, por exemplo), converte essa percepção em um sinal e envia esse sinal para a CPU de um computador; podemos associar a nossa faculdade de entendimento com a própria CPU, que é limitada de acordo com a forma de sua constituição (de modo que uma CPU da década de 80 possuía uma capacidade de “entendimento” inferior a das CPUs modernas); e podemos associar a inteligência ao usuário, que faz uso da informação que o computador lhe provê por meio de seus sensores e da sua CPU. Desse modo, assim como dizemos que a CPU é limitada e o usuário não, podemos afirmar que a nossa faculdade de entendimento é limitada, mas não a nossa inteligência.

O nosso cérebro é a nossa CPU e a nossa inteligência apenas o opera (pressupostamente, como já dito). E esse nosso cérebro possui capacidade de processamento limitado, a exemplo das CPUs antigas. Só resolveríamos as limitações da CPU trocando a CPU. Dessa forma, só poderíamos resolver a limitação do nosso cérebro trocando de cérebro. Mas aí então não seríamos mais os homens que conhecemos da humanidade na Terra. Seríamos um outro tipo de ser empírico. Por isso escrevi acima que, enquanto formos homens na Terra, jamais sairemos da caverna, ou seja, jamais superaremos as nossas limitações de conhecimento, pois elas se encontram limitadas pela nossa faculdade de entendimento. Se em alguma outra suposta vida futura, em uma existência transcendente a esta após a nossa morte física, teremos outra CPU e outros sentidos capazes de perceber e processar outra realidade que hoje sequer sonhamos que exista, isso é coisa que até podemos subjetivamente esperar (no âmbito da religião apenas), mas jamais poderemos objetivamente saber (no âmbito da ciência). O fato é que aqui na Terra todo tipo de conhecimento que transcende os sentidos e à nossa faculdade de entendimento nos são vedados, não importando o esforço racional que façamos para tentar compensar essas limitações. A razão (ou inteligência), neste caso, apenas possui um uso regulador, de modo a evitar que ela mesmo se exceda e tente, por si só, transcender os limites do entendimento, o que só poderia resultar em ilusões. Sobre isso Kant escreveu na Crítica da Razão Pura:
É humilhante para a razão humana que, no seu uso puro, não chegue a conclusão alguma e necessite mesmo de uma disciplina para reprimir os excessos e impedir as ilusões que daí lhe resultam. Mas, por outro lado, há alguma coisa que a eleva e infunde confiança em si própria; é que ela pode e deve exercer esta disciplina, sem admitir acima de si uma outra censura. Acrescente-se ainda que as barreiras, que é obrigada a pôr ao seu uso especulativo, limitam ao mesmo tempo as pretensões sofisticas de todo o adversário e, por conseguinte, podem garantir contra quaisquer ataques tudo o que ainda restar à razão das suas exageradas pretensões anteriores. O proveito maior e talvez único de toda a filosofia da razão pura é, por isso, certamente apenas negativo; é que não serve de organon para alargar os conhecimentos, mas de disciplina para lhe determinar os limites e, em vez de descobrir a verdade, tem apenas o mérito silencioso de impedir os erros.

IMMANUEL KANT. Crítica da Razão Pura, parte II (Doutrina Transcendental do Método), capítulo II (O cânone da razão pura), (A795 / B823), tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão, publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian, 5a edição, 2001, Lisboa.
O nosso cérebro recebe as sensações provenientes dos sentidos, processa tudo por meio de funções lógicas (que Kant chamaria de funções lógicas do entendimento), e representa tudo na forma pura de intuição de tempo e espaço, ou seja, o nosso cérebro posiciona todos os objetos percebidos pelos sentidos em uma forma espacial e temporal que ele mesmo cria para representar as suas sensações e entender a realidade à sua volta, após estas terem sido processadas logicamente. Isso implica que o nosso conhecimento está limitado a tempo e espaço, e que não podemos conhecer nada cuja realidade transcenda tempo e espaço (não posso nem mesmo saber se existem ou se não existem tais objetos), porque mesmo para pensar a existência de tais coisas, a nossa mente nos obrigaria a reduzi-las à forma de representação de tempo e de espaço, o que nos conduziria inevitavelmente a contradições. A conclusão disso é que tudo aquilo que transcende tempo e espaço é para nós absolutamente incognoscível, não apenas hoje, mas enquanto o homem existir na Terra como homem. É por isso que nunca vamos saber se existimos como seres inteligíveis (ou seja, se possuímos uma alma) ou se Deus existe, porque essas coisas necessariamente devem ser posicionadas fora da forma espacial e temporal, ou se somos imortais, pois essa realidade transcenderia o tempo, etc... A nossa faculdade de conhecimento, apesar de possibilitar todo o nosso conhecimento, também o limita e nos impede de conhecer coisas que transcendam tempo e espaço, donde que os juízos a respeito dessas coisas só são possíveis a nível de crença (de convicção subjetiva), mas nunca a nível de saber (de conhecimento ou certeza objetiva).

E mesmo que algum iluminado tivesse um tal tipo de experiência transcendente a tempo e espaço (e eu nem duvido que a nossa parte inteligível possa realmente vivenciar isso), ele jamais conseguiria representar quando retornasse ao seu cérebro antiquado. Seria como tentar abrir uma planilha de Excel em um computador que não tem o Excel instalado ou um programa capaz de processar o arquivo, ou seja, a resposta dada pela CPU ao abrir o arquivo com as avançadas informações seria algo completamente sem sentido, irreconhecível e, consequentemente, inútil para o conhecimento humano. Nem mesmo o próprio sujeito da experiência seria capaz de descrever para si mesmo, em vigília, a experiência de que teria participado, porque o seu cérebro não conseguiria processar e pensar isso. Mais impossível ainda seria levar à compreensão de outras pessoas um tal tipo de experiência, visto que estamos todos nós presos à forma de representação espacial e temporal, que não é adequada à representação do que transcende esse âmbito, nem mesmo a nível de imaginação. Daí que a descrição "física" de uma tal experiência não poderia ser tomada por nada além de fantasia e ilusão por qualquer pessoa minimamente ponderada.

Platão escreve em sua alegoria que é no limite do cognoscível que se avista, a custo, a ideia do Bem. Ora, o Bem é dessas coisas que não se representam em tempo e espaço (pois senão, em que lugar do espaço, ou em que momento do tempo, o Bem estaria situado?). Eu não poderia jamais "avistar", mesmo que custosamente, o Bem. O Bem é apenas uma ideia, acessível apenas pela inteligência, e jamais se tornará para nós um objeto visível. O que Platão queria com essa alegoria era, pelo menos inconscientemente, validar objetivamente experiências místicas, de modo que tais relatos não fossem ridicularizados pelos homens sérios. Mas os homens sérios, se forem realmente sérios, não poderiam validar objetivamente tais experiências transcendentes. Aqueles, portanto, que não saíram da caverna e que troçaram do viajante transcendental por ter subido ao “mundo superior”, estavam na verdade cobertos de razão ao afirmarem que não valia a pena tentar a ascenção, visto que dela nada de útil poderia se esperar para o conhecimento.

Não pensem que estou aqui taxando de "falsos" todos os supostos objetos e as supostas revelações de origens transcendentes, especialmente as de ordem religiosa. Pelo contrário, admito muitas delas (subjetivamente) como verdadeiras, pois nada prova que são impossíveis tais existências inteligíveis ou a confabulação com elas, que necessariamente possuiriam a mesma natureza inteligível que nós (concordo que isso deve parecer a alguns uma contradição com o que eu escrevi nos parágrafos anteriores, embora não haja contradição alguma). Não precisamos renunciar a essa possibilidade teórica e podemos admiti-la a título de convicção subjetiva (e não de saber objetivo, como querem muitos), por razões morais. Daí que devemos pressupor a nossa existência inteligível transcendente a tempo e espaço (a alma) somente por razões morais, com objetivo prático no mundo, mas sem nenhuma pretensão a uma prova teórica, que é impossível; podemos admitir igualmente, com validade apenas para nós mesmos e para quem quiser livremente aderir, as supostas revelações de supostos seres inteligíveis provindos de supostos mundos para nós transcendentes, desde que o objeto dessas revelações não se afaste de objetivos morais, que é o que podemos controlar e validar (ou refutar) por meio da nossa própria inteligência (para maiores detalhes, vide o ensaio deste Blog intitulado Qual o verdadeiro papel das revelações religiosas?) e que podem eventualmente nos chamar a atenção para coisas que não estávamos discernindo. Porém, fora do âmbito moral não possuímos mais nenhum elemento de controle, pois precisaríamos para isso de sentidos que não temos (e a inteligência não pode suprir ou compensar essa falta), e teríamos que confiar cegamente em tudo o que nos fosse revelado, o que não é de forma alguma razoável.

O que devemos jamais tentar, portanto, é imaginar a forma de uma tal experiência ou existência transcendente (como aquele “vaporzinho” que alguns gostam de imaginar para representar a alma; ou o algo infinitamente grande e que estaria presente "fisicamente" em todos os lugares que alguns gostam de imaginar para representar Deus, etc.), porque para isso nós fatalmente reduziríamos a representação à forma temporal e espacial e não conseguiríamos evitar as contradições ao tentar responder a certos questionamentos céticos (por exemplo: "se a alma é um 'vapor' e Deus está 'fisicamente' em todos os lugares, porque nenhum destes pode ser detectado pelos instrumentos mais potentes?", etc...). A alma é uma ideia, uma ideia necessária por razões puramente morais (pois se não a admitirmos teríamos que nos considerar simples máquinas, simples organismos mecânicos, simples coisas sem inteligência), e não devemos ir além disso, ou seja, não devemos jamais tentar conhecer a “física da alma”, a “física dos mundos superiores”. A "física" desses mundos transcendentes (caso realmente existam) sempre serão absolutamente desconhecidos (para a nossa forma humana terrena), de modo que jamais poderemos controlar ou validar esse tipo de informação aqui na Terra e, mesmo que tais revelações fossem verdadeiras, nenhum valor poderiam ter para nós, por causa da sua incognoscibilidade. Desse modo, falsas ou verdadeiras, revelações deste tipo nenhum valor possuem para o homem na Terra e podem ser sumariamente descartadas (mesmo a título de convicção), sem piedade e sem medo de errar.

Ao conhecimento que nos é negado por causa da limitação da nossa faculdade de entendimento devemos, portanto, absolutamente renunciar, porque essa limitação é insuperável. Já ao conhecimento que nos é hoje negado apenas por causa da limitação dos nossos sentidos devemos renunciar temporariamente, mas sempre buscá-lo, por meio da ampliação da nossa capacidade de observação, que ampliará assim o nosso conhecimento do mundo fenomênico. Em outras palavras, para a limitação dos sentidos, esperemos os avanços da ciência e não tentemos adivinhar antes dela o que é de sua incumbência descobrir.

2. Nós não precisamos sair da caverna para ter acesso ao mundo inteligível

O que é na verdade o mundo inteligível, esse mundo superior de que nos fala Platão? O mundo inteligível é o mundo da razão pura, da pura inteligência, onde nada há que seja sensível (ou material), onde nada há que seja temporal ou espacial. Ora, como seres racionais que pressupostamente somos já fazemos parte desse mundo, estejamos nós onde estivermos no mundo sensível. Por meio dos olhos, como no caso do prisioneiro libertado na alegoria de Platão, nada seria possível de se ver nesse mundo. Nem por algum outro sentido, que exista ou que venha a ser criado. E por outro lado os prisioneiros, mesmo presos, considerando que fossem seres racionais, já tinham acesso a esse mundo inteligível mesmo lá da prisão onde se encontravam. O prisioneiro não precisava ser “libertado” para possuir acesso a esse "mundo superior". Nós apenas não podemos perceber, pelos sentidos, esse mundo no qual pressupostamente já estamos inseridos. E se, por outro lado, não fôssemos racionais (como sugerem alguns filosofistas que negam a inteligência e o livre-arbítrio), então de qualquer forma jamais teríamos acesso a esse mundo inteligível e nenhuma experiência transcendente seria capaz de nos fazer vê-lo ou conhecê-lo.

Assim como o mundo sensível, que possui as suas leis e que são todas matemáticas, o mundo inteligível possui também as suas leis, que são as próprias leis da razão ou leis morais. Ora, temos acesso imediato às leis morais pela inteligência, assim como temos acesso imediato às leis da natureza por essa mesma inteligência, de forma absolutamente a priori. Que tipo de acesso ao mundo inteligível então esperava obter Platão saindo da caverna? Dizer que deseja "ver" algo no mundo inteligível é uma contradição, porque se algo pudesse ser visto lá, isso seria uma operação de um sentido qualquer e não seria mais inteligível. É justamente a característica de ser acessível apenas pela inteligência, e não pelos sentidos, que caracteriza algo como pertencente ao mundo inteligível. Mas à época de Platão, e há até poucos anos antes de Kant, os mundos sensível e inteligível eram confundidos e tomados um pelo outro, em uma complicada salada teórica. Por isso o leitor notará a confusão entre os dois conceitos que faz Platão na citação do último parágrafo da alegoria da caverna, citada acima, onde ele o tempo todo confunde o sensível com o inteligível. Mas isso não desmerece Platão, por conta do tempo em que viveu e do estado de conhecimento em que se encontrava a humanidade. Difícil mesmo é entender porque até hoje, mais de 200 anos depois de Kant, que brilhantemente separou esses dois conceitos, tanta gente ainda se perde nesses enroscos intelectuais.

Se queremos mesmo ter acesso ao mundo inteligível, esforcemo-nos por nos melhorarmos moralmente. Isso será mais efetivo do que qualquer experiência mística e transcendental.

3. Não é preciso conhecimento transcendente algum para agirmos sensatamente na vida particular e pública

Bem, não se pode falar em sensatez ou insensatez quando nos referimos à natureza. A natureza não é inteligente, não pensa por si só. E mesmo que pensasse, não pertenceria mais à natureza, mas ao mundo inteligível. Uma pedra, por exemplo, não é sensata nem insensata quando atinge a cabeça de alguém. Um animal não é sensato nem insensato quando ataca a sua presa, porque ele apenas faz o que a sua natureza lhe ordena. Então, só pode ser sensato ou insensato aquele que age racionalmente e por meio de um livre-arbítrio.

Podemos chamar de sensato aquele que observa e obedece às leis (tanto morais como naturais) e de insensato aquele que não observa ou não obedece a essas mesmas leis. Ora, se as leis pertencem ao mundo inteligível, se para agirmos sensatamente apenas precisamos conhecer e observar essas leis, se para o conhecimento das leis não é necessário nem possível uma operação dos sentidos (pois senão as leis pertenceriam ao mundo sensível e não mais ao mundo inteligível), porque então o tipo de conhecimento empírico do mundo superior que Platão imaginava seria necessário para nos fazer agir sensatamente? Em que a visão do prisioneiro libertado o auxiliou a ser mais sensato, visto que a sensatez é uma operação da inteligência? Em que as novas verdades empíricas descobertas pelo prisioneiro libertado favoreceram a sua sensatez? Em nada, creio eu.

Não precisamos, portanto, conhecer nada da natureza sensível para agir sensatamente, mas apenas conhecer as leis da natureza e as leis morais para isso e as colocar em prática. Se sou um engenheiro, devo obedecer aos cálculos matemáticos (ou seja, às leis da natureza) nos meus projetos, caso contrário o meu projeto fracassa em seu propósito. Como ser racional, devo obedecer também às leis morais, a fim de não sofrer as sanções decorrentes da violação dessas mesmas leis por parte de toda a comunidade Ética. O contrário, em ambos os casos, é agir insensatamente. E nenhuma dessas duas leis pode ser conhecida por sentido algum, mesmo que ampliado ao infinito, mas apenas pela inteligência. Por isso Platão errou novamente quando escreveu que era preciso ver a ideia do Bem para se ser sensato na vida particular e pública.

E seria até incoerente supor que eu precisasse ver algo para ser sensato, pois senão teríamos que concluir, absurdamente, que aquele que é destituído de um sentido qualquer, aquele que, por exemplo, não pudesse ver, que fosse cego, não poderia ser sensato; ou ainda, que aquele que enxerga mais e melhor seria mais sensato do que aquele que enxerga menos e pior; ou que aquele que tivesse um sentido extra ou mais apurado (como supostamente possui um médium, por exemplo) fosse sempre mais sensato do que aquele que nada percebe além dos seus 5 sentidos normais. Então, é preciso dissociar uma coisa da outra, ou seja, diferenciar as operações pertencentes ao mundo sensível das operações pertencentes ao mundo inteligível. O que devo absolutamente fazer depende apenas do que posso conhecer pela inteligência, e independe daquilo que, para conhecer, eu precisasse de qualquer sentido normal ou especial.

4. Conclusão geral acerca da alegoria da caverna de Platão

Considero Platão um dos grandes filósofos que já existiram. Ele se orientava por bons princípios, e fez em sua filosofia tudo o que lhe era possível para o seu tempo e para o estágio de conhecimento em que se encontrava a humanidade há quase 2400 anos. Porém, muito pouco de sua filosofia pode-se aproveitar hoje, especialmente em A República, mesmo com interpretação. Pode-se apenas considerá-lo como precursor de ideias mais apuradas que se desenvolveram a partir das falhas identificadas nas suas tentativas de obter um conhecimento são.

Então, para quê serviria, hoje, a alegoria da caverna de Platão, já que todos os seus fundamentos foram há muito tempo refutados? Infelizmente ela só possui valor cultural, fora da filosofia, pois na filosofia mesmo ela só serve de pretexto para que pessoas afeitas ao misticismo taxem de aprisionados aqueles que, com bom senso, duvidam dos relatos de suas supostas experiências transcendentais. "Abra a sua mente!" – dizem –, "Saia da caverna!" – complementam. Em outras palavras, a alegoria da caverna abre para nós as portas de um mundo novo, o mundo das extravagâncias e das fantasias, que fatalmente nos conduziria também ao mundo do ridículo se quiséssemos aplicá-lo às ciências, e sem ganho algum para o aspecto moral e prático. Aquele que porventura tenha acesso a uma determinada experiência transcendental não é necessariamente mais sábio. Dá-se comumente o contrário (com raras e honrosas exceções), ou seja, o suposto acesso àquilo que não se pode compreender serve apenas para deslumbrar e confundir, incutindo no gênio uma confiança exacerbada no seu poder de conhecimento (quando ele na verdade nada conhece), o que aprofunda a sua ignorância e que, quando noticiado, arrebanha também uma multidão de discípulos, tão deslumbrados e confusos quanto, o que só faz aumentar e espalhar ainda mais esse deslumbramento, confusão e ignorância tanto própria como pública.

Como já disse, se quisermos ter de fato acesso aos mundos superiores, melhoremo-nos moralmente. Aí teremos acesso a esse mundo maravilhoso, em vigília mesmo, na Terra, e sem tirar os nossos pés do chão firme. E se a natureza porventura dotara alguém de algum sentido especial, que este alguém, se for sábio, limite o uso deste sentido a objetivos puramente práticos, para um uso moral no mundo, e que não pense por meio desse sentido especial transcender os limites que a própria natureza nos impôs para tentar conhecer a física de outras realidades transcendentes, competindo com a ciência (para satisfazer o orgulho bobo de dizer que descobriu antes dela, facilmente, por meio de um mero favor natural, certas "verdades superiores"). Este tipo de projeto está fadado ao fracasso e, mesmo que se creia ter sido bem sucedido, o gênio não conseguirá explicar objetivamente o mecanismo, nem mesmo para si próprio, sem incorrer em sofismas, contradições, e sem cair no ridículo. Restringir-se ao uso prático é o único meio seguro, segundo creio, de não se perder em fantasias e falsas esperanças.

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Petrópolis/RJ
Revisado em 23/11/2013.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Debata ideias e não pessoas. Comentários ofensivos, com palavras de baixo calão ou personalismos (xingamentos) serão excluídos. Serão excluídos também comentários não relacionados ao assunto ou ao seu desdobramento.