quinta-feira, 30 de maio de 2013

Qual seria o verdadeiro papel das revelações religiosas?

Para quem está convencido da possibilidade da existência de Deus e, mais ainda, para quem crê em Deus, certamente que deve admitir a possibilidade de Deus permitir que sejam acesas algumas tochas para que possamos nos orientar nesse escuro mundo suprassensível em que nos encontramos e do qual só conseguimos enxergar uma parte, mesmo assim por meio das lentes da sensibilidade que frequentemente nos iludem. Tais tochas seriam as revelações de ordem religiosa.

O problema é que todas as revelações religiosas são imperfeitas, não porque tenham sido necessariamente reveladas de modo imperfeito (o que também é possível), mas porque precisam necessariamente da mão humana para se propagar, o que esbarra em barreiras linguísticas, mudanças de tempos que mudam os significados de palavras, preconceitos terrenos, imperfeições humanas, etc. Teremos obras mais ou menos próximas da perfeição, porém não uma absolutamente perfeita. E se eu sei que elas contém imperfeições, como então utilizá-las como autoridade para o discernimento? Como saber se justamente a parte que estou utilizando para ajuizar acerca de algum assunto não é aquela que contém imperfeições? Como saber ainda se a obra não é puramente humana, inspirada por um falso profeta e que não contém inspiração divina alguma? Até possuímos critérios de orientação nestes casos, mas não provas. E as próprias escrituras não podem em nada nos ajudar nessa orientação, porque são justamente elas que estão sendo examinadas e postas em questão. Seja a Bíblia, seja o Corão, seja O Livro dos Espíritos, seja qualquer obra empírica da Terra, estas jamais poderão se constituir em autoridade para discernir o verdadeiro do falso, o bem do mal. É preciso um princípio superior para validá-las ou refutá-las.

E esse princípio só pode estar na razão. Só a razão, e apenas ela, sem auxílio de nada exterior, pode, portanto, nestes casos discernir e governar o entendimento acerca das coisas que existem no mundo empírico. O contrário é a superstição, ou seja, utilizar algo empírico do mundo para governar aquilo que não está na natureza empírica, ou seja, a razão. Utilizar um livro, como um oráculo, para governar a razão é uma prática supersticiosa. É a razão, portanto, por ela própria e sem nenhum outro concurso, quem deve validar ou refutar essas obras. E essa validação é pessoal, por meio do uso da própria razão e não da razão alheia. Utilizar outra pessoa para raciocinar e decidir por mim (como o fazem alguns que em geral se fiam na pretensa autoridade de eclesiásticos) é me manter na prática supersticiosa, visto que um outro ser humano é do meu ponto de vista algo empírico no mundo, que eu estaria permitindo que guie aquilo que não se encontra na natureza empírica, ou seja, a minha própria razão. E quantos são hoje no mundo que deixam a sua razão se guiar por coisas empíricas!

A Bíblia diz que o Reino de Deus se encontra dentro de nós (Lc 17:21). Essa é uma verdade muito mais profunda do que em princípio se imagina, porque é somente a razão que pode dar a conhecer o Reino de Deus, somente ela pode separar o joio do trigo, o verdadeiro do falso, o bem do mal. Não são as escrituras, sejam elas quais forem. É por mim mesmo que atesto a veracidade desta máxima, e não porque ela está escrita na Bíblia, visto que a Bíblia por ela mesma não me poderia dar qualquer garantia a respeito de sua validade.

Mas se é a razão que tem que em última instância discernir, que tem que separar o verdadeiro do falso; o joio do trigo; o bem do mal; se todo o conhecimento das Leis (de Deus) já se encontra latente nela própria e nenhuma Lei (natural ou moral) lhe pode ser ensinada que já não estivesse nela antes contida, para quê então serviria a revelação? Qual o seu papel?

Para responder isso vamos tomar um exemplo na matemática e na geometria. A matemática se encontra totalmente e plenamente em nós, mesmo aquilo que sequer ainda aprendemos. Newton e Leibniz, quando descobriram o Cálculo, o descobriram dentro de si próprios. Não foi na natureza, não havia livros sobre o assunto, não lhes foi revelado. Apenas começaram a testar relações geométricas e descobriram o cálculo escondido, oculto, latente, dentro de suas próprias mentes. O mesmo o fez Euclides com a geometria euclidiana, ou Riemann com a geometria não-euclidiana. Então poderíamos nos perguntar: se todas essas coisas se encontram em estado latente dentro de nossas mentes, por que então precisamos que essas coisas nos sejam reveladas? Por que precisamos ir à escola para aprender matemática, já que ela se encontra dentro de nós?

A resposta é que esses conhecimentos não emergem espontaneamente de nós, mas precisam ser estimulados. Não foi a observação da natureza quem deu o Cálculo a Newton e Leibniz, mas foi a observação da natureza que deu aos dois a ideia de que poderia existir um Cálculo. Quantos de nós conheceríamos um simples Teorema de Pitágoras se não tivéssemos aprendido um pouco de geometria na escola? Muito poucos de nós.

O homem é de tal forma constituído que, apesar de conter em si mesmo todo o conhecimento das Leis (morais e naturais), esse conhecimento não se manifesta se não for despertado por um estímulo externo. O que em geral desperta o nosso conhecimento matemático são as aulas na escola. Na escola, a matemática nos é literalmente revelada, e de uma forma tal que em geral nos admiramos de não nos termos dado conta de coisas tão simples antes por nós mesmos. E é aí que vemos o real papel e utilidade da revelação.

Suponham que eu apenas tivesse tido maus professores de matemática e geometria, que tivessem me ensinado tudo errado. Isso significaria que eu nunca poderia ter um verdadeiro conhecimento matemático; que estaria eternamente condenado àqueles erros? Suponha que o Teorema de Pitágoras me tivesse sido ensinado incorretamente. Se ao invés de a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa (a2 + b2 = c2), o professor tivesse me ensinado que a soma dos quadrados dos catetos é igual à hipotenusa (a2 + b2 = c), um erro sutil, mas importante. E que ele até tivesse mostrado todas as provas disso dizendo "Olha, para todos os círculos a relação funciona perfeitamente, inclusive para o cálculo de senos e cossenos, até os hiperbólicos!", mas só me tivesse apresentado círculos de raio unitário. Por causa da demonstração que funciona no caso particular (o que não é mais do que uma mera coincidência), eu poderia ficar confiante que a revelação fosse verdadeira quando ela de fato não é. Na verdade a relação não funciona mais para quaisquer círculos cujos raios fossem diferentes da unidade. O que aconteceria então? Eu necessariamente estaria condenado a morrer com esse erro? Ou há como retificá-lo? E como obter então a fórmula correta, sendo que ela não me foi ensinada?

De princípio, como teria grande estima pelo meu professor, a quem consideraria um mestre, eu aceitaria quase que sem nenhuma contestação a fórmula que ele me deu. Mas um dia eu poderia precisar aplicar. E quando eu começasse a desenhar triângulos retângulos com hipotenusas com comprimento diferente de "1", eu veria que a relação ensinada não funciona mais. O que eu faço então? Seguem as opções:

1. mantenho a minha "fé" no professor e continuo insistindo que a fórmula funciona, quando ela manifestamente não funciona, criando sofismas para explicar porque ela "aparentemente" não funciona?; ou

2. vou atrás do professor aonde ele estiver para que ele me ensine a fórmula correta, na esperança de que ele o faça corretamente dessa vez? Mas e se já tiver passado muito tempo e ele já tiver morrido? Estaria eu condenado ao erro só porque não tenho mais o meu mestre perto de mim para discernir em meu lugar?; ou

3. tento por mim mesmo descobrir a relação correta e retificar o ensino, por meio de meu próprio entendimento?

Se eu seguir por este último caminho e começar a rascunhar triângulos retângulos, a partir deles desenhar quadrados e comparar suas áreas, eu certamente chegarei à formula correta, e com uma certeza apodítica (absoluta) disso. Não vai me restar a menor sombra de dúvidas acerca da fórmula correta, e isso apenas por mim mesmo, sem a necessidade de me fiar na autoridade de ninguém. É fácil de ver, por exemplo, que a área do quadrado de lado "c" (c2) é exatamente igual à soma das áreas dos quadrados de lados "a" e "b" (a2 + b2), na demonstração da figura abaixo, uma das muitas possíveis para demonstrar o teorema:


Porém, por nenhum dos dois primeiros caminhos eu poderia ter a certeza que procuro. No primeiro caso eu simplesmente persistiria no erro, por confiar cegamente na autoridade e infalibilidade do professor. No segundo caso, o professor poderia até me revelar a fórmula correta, mas como eu não saberia como ela foi obtida, eu jamais poderia estar absolutamente certo de que a revelação agora estaria correta e ele não errou novamente. Não basta neste caso apenas ter a resposta correta, mas também saber porque ela é correta. Só assim é possível uma certeza completa. Daí se conclui que a revelação jamais pode ser a autoridade para o discernimento, mas apenas a razão e somente ela.

Mas a revelação teve aí um papel importante, mesmo estando errada. Ela serviu para me colocar no caminho da verdade. Sem a revelação eu provavelmente passaria a minha vida em uma eterna ignorância. O que é isso (triângulo retângulo)? Os seus lados possuem alguma relação entre si? Devem possuir? Eu nunca sequer atentaria para o problema. Eu não iria discernir nem mesmo erradamente. Eu não iria discernir de forma alguma. O ensino, que nada mais é do que uma revelação, mesmo errado, teve o mérito de chamar a minha atenção para algo que eu deveria estar discernindo e não estava, que sem ela (a revelação) a minha razão permaneceria num eterno sono e o conhecimento em um eterno estado latente em minha mente. Foi nesse sentido que Kant afirmou que David Hume o despertara de seu sono dogmático. Hume não trouxe a solução para o problema e ainda concluiu certas coisas falsamente, mas despertou a razão de Kant que então, por si mesma, resolveu o problema levantado por Hume. Sem a crítica cética de Hume, é possível que Kant passasse toda a sua vida completamente alheio ao problema, fazendo afirmações dogmáticas e talvez não houvesse até hoje uma Crítica da Razão Pura. Gérard Lebrun, no início de seu artigo intitulado Hume e a astúcia de Kant, publicado em 1976, expôs o caso:
Era uma vez, em Königsberg, um professor de metafísica que falava a seus alunos da Alma, do Mundo e de Deus. Leu um dia um cético escocês, David Hume, "o mais engenhoso de todos os céticos" - e essa leitura o levou como hoje se diz, a colocar-se em questão, a questionar-se e interrogar-se a si próprio. Perguntou-se se era mesmo uma ciência o que ensinava. Perguntou-se se alguma ínfima proposição geral que proferia em suas aulas era mesmo necessária, se enunciava algo cuja falsidade fosse impossível...
O despertar de Kant não foi espontâneo. Ele precisou da crítica de Hume. E assim acontece com quase todos nós. A maioria das pessoas hoje em dia dormem em semelhante sono, ainda mais profundos e nem sequer se dão conta disso; são dogmáticas e não sabem; fazem afirmações infundadas e simplesmente não percebem porque a sua razão ainda não fora alertada e despertada.

As leis da natureza ininteligente são sempre matemáticas. Mas as leis que regem os seres racionais são morais e estas estão igualmente latentes dentro de nossas mentes. A moral não se manifesta espontaneamente em nós, da mesma forma como ocorre com a matemática. A moral é uma ciência objetiva e que precisa ser ensinada tanto quanto a matemática, o que aliás é uma tarefa que tem sido largamente negligenciada nas escolas e que é responsável por boa parte da corrupção dos costumes das sociedades atuais. Um mal ensino moral é melhor do que nenhum ensino moral. As pessoas erram moralmente e nem sequer se dão conta. Fazem o mal julgando que fazem o bem por pura ignorância daquilo que poderia representar o bem.

As revelações de ordem religiosa têm, portanto, esse mérito e finalidade. As revelações religiosas são primordialmente livros de ensinamento moral e só possuem esse objetivo (embora em geral possuam também uma parte histórica que servem de condução para o ensino moral). Mesmo erradas ou imperfeitas, elas podem ajudar a nos colocar no caminho do são discernimento. Porém, a revelação deve sofrer um crivo, ser criticada, e se incorreta ou imprecisa, deve ser retificada da mesma forma que na matemática, ou seja, por um esforço racional, e não por outra revelação ou simples exegese, pela autoridade da revelação ou por outro interpretador que não sejamos senão nós mesmos. Uma outra pessoa pode até me ajudar a discernir, mas não o pode fazer por mim.

O erro de considerarem que a Bíblia é uma revelação puramente divina e que, por isso, não pode conter erros, é o que mantém muitos presos a erros e ilusões milenares. A Bíblia pode perfeitamente possuir origem divina e ainda assim conter imperfeições, pois foi escrita e reproduzida por mãos humanas. É como se eu confiasse na infalibilidade absoluta daquele que me ensinou errado o Teorema de Pitágoras, não ousasse questioná-lo e teimasse por toda a vida que o meu professor não erra jamais. É certo que eu não posso conceber que Deus erre (o que seria a mesma coisa que não crer em Deus), mas posso perfeitamente admitir que Mateus, Marcos, Lucas e João poderiam errar e inconscientemente inserir seus próprios preconceitos (dos quais nenhum de nós está isento) misturados com a verdadeira revelação divina (pressupondo, é claro, que há revelação divina na Bíblia), ou que poderiam interpretar ou expressar imperfeitamente aquilo que lhes fora revelado. Confiar na infalibilidade das escrituras, assim como na infalibilidade de qualquer autor terreno, é uma das formas mais eficientes e eficazes de errar e de se manter no erro.

Pelo contrário, as Escrituras (sejam elas de que sistemas religiosos forem) não só podem como devem ser examinadas, criticadas, e se for o caso, reinterpretadas. Quando tomamos, por exemplo, o ensinamento de Jesus "não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados" (Lc 6:37); será que isso quer mesmo dizer que procedemos errado quando condenamos um criminoso à prisão por um crime doloso; ou que desde que perdoemos tudo de todos estaremos livres para cometer qualquer tipo de falta, estando instantaneamente livres de qualquer julgamento e condenação e dignos de perdão por parte de Deus? Porque é isso que está literalmente escrito.

Dá para ver claramente que esse ensinamento não pode ser sempre aplicado literalmente, pois recairíamos em um monte de absurdos práticos. E quantos não são os que confiam cegamente no que está escrito, sem crivo algum, cometendo intencionalmente todo tipo de falta e contando com um perdão gratuito lá na frente? Se Deus existir mesmo, se Ele fizer cumprir as suas Leis, que terrível decepção espera os que se deixam levar por essas ilusões!

Mas será que esse ensinamento de Jesus, mesmo exposto de forma literalmente errada, não poderia ser reinterpretado e com isso nos conduzir a um juízo correto acerca de um problema que nem sequer refletiríamos se não tivéssemos sido alertados pela revelação?

Por exemplo, e se limitássemos a aplicabilidade daquele ensino somente aos danos que nos são causados por outros de forma acidental? Alguém comete um erro e me causa um grande dano; não foi intencional. Se eu perdoar, não julgar e não condenar, será que posso me julgar merecedor da mesma graça, ao ser julgado por um juiz, quando eu cometer um erro similar? Porém, se eu for implacável na obtenção dos meus direitos, eles deverão me ser dados, porque é meu direito ser ressarcido e ninguém pode moralmente me impedir de reivindicar o que é meu de direito. Um juiz justo exigirá daquele que me causou o dano acidental a reparação. Porém, quando for eu a causar um dano acidental, poderei eu esperar perdão do juiz? Mesmo que aquele a quem eu causei dano me perdoar, o juiz, se for justo, deverá exigir de mim a reparação integral, porque eu devo ser perdoado nestes casos da mesma forma que eu tiver perdoado. E se não perdoei um dano acidental, então não sou digno de nenhum perdão quando eu provocar não intencionalmente um acidente e o juiz deve proferir a sentença neste sentido (se for justo).

Com essa retificação o ensino não nos parece mais racional e mais perto do que seria um propósito de Deus, na qualidade de um justo Juiz? Compare-se, por exemplo, se não atende ao espírito de Mt 18:23-35? Mas tomado à letra ele se nos afigura absurdo e impraticável, pois é bastante claro que este dispositivo não pode se aplicar a faltas dolosas, ou seja, aquelas cometidas com perfeito conhecimento de causa, que é uma falta contra a nossa própria razão, quando esta bem discerne o bem do mal e escolhe o mal, que equivalem às blasfêmias contra o Espírito Santo, ou seja, contra as leis da nossa própria razão, contra o Reino de Deus que está em nós. Essas faltas não podem ser perdoadas, nem neste mundo e nem no próximo (Mt 12:32; Lc 12:10), e é um dever nosso exigir a reparação plena, até o último centavo, assim como a punição do culpado, neste mundo e/ou no próximo, de modo que o Direito não seja espezinhado.

Mesmo do draconiano Antigo Testamento podemos extrair muitas coisas úteis. O mandamento de se guardar o sábado, por exemplo, em Êxodo 20:8-11? Por que o sábado e não um outro dia? Não posso fazer nada realmente, absolutamente nada? A razão não aprova essa lei como está redigida, pois parece arbitrária e sem sentido. Mas podemos perfeitamente pensar que quem ditou este mandamento julgou que o ser humano não fosse feito para trabalhar todos os dias sem descanso e que precisa de uma pausa regular (no caso, de 7 em 7 dias) para repor suas forças físicas e psíquicas. Se interpretarmos o mandamento de guardar o sábado como um mandamento de guardar um dia pelo menos da semana para não trabalharmos, para fazermos apenas coisas que nos interessam e que nos dão prazer, o mandamento readquire um sentido e um espírito.

Não se trata aqui de torcer o que está escrito para se ajustar ao que queremos, mas de tentar assimilar o espírito do texto. A isto chama-se interpretar as escrituras segundo o espírito (ou seja, segundo a razão, que é um dos sinônimos de espírito) e não segundo à letra, porque a letra mata, mas o espírito é quem vivifica (II Cor 3:6). Vivifica um ensino que sem o espírito estaria morto, nos preserva do erro e do absurdo prático, nos conduzindo de fato à vida do espírito, ou seja, à vida da razão, a que todos nós estamos predestinados pela nossa própria natureza racional, que não podemos provar que existe, mas que devemos pressupor que é real. É verdade que nem tudo dará para ser interpretado e há coisas que não haverá outro jeito senão rejeitar. Mas mesmo para rejeitar uma ideia é preciso já possuir uma ideia do sentido em que a coisa deve ser tomada e porque o ensino rejeitado é absurdo ou desnecessário.

Mas o importante que se perceba aqui é que mesmo um ensino exposto de maneira imperfeita é capaz de nos colocar no caminho da verdade, desde que estejamos sempre dispostos ao exercício racional. Errar tentando discernir é perdoável; mas renunciar voluntariamente à faculdade racional é blasfemar contra nosso espírito. Muitos ingenuamente acham que podem se subtrair aos rigores da Lei evitando conhecê-la e se agarrando a uma autoridade, de forma que, ao errarem, poderem dizer que "é tudo culpa do mestre, que conduziu errado o seu rebanho". Mas se fosse eu o juiz não aceitaria facilmente este tipo de desculpa, mas avaliaria o quanto estava cada um em condições de se instruir e o quanto cada um renunciou voluntariamente à sua faculdade racional, o que é o mesmo que renunciar voluntariamente à sua própria humanidade, e daí então proferir a sentença. Se é certo que não posso ser condenado por violar uma Lei que desconhecia, posso ser certamente condenado por querer voluntariamente desconhecer a Lei, a fim de tentar me subtrair a Ela.

Por isso os nazistas alemães não merecem perdão da Justiça pelo que fizeram (porque do ponto de vista pessoal devemos perdoar sempre, visto não podermos fazer justiça com as próprias mãos), mas deveriam sofrer toda a pena até o final. Eles tinham Kant. Kant era alemão. Por que preteriram ele e optaram pelos filósofos antissemitas e/ou utilitaristas? Todos os meios para evitar aquilo que fizeram lhes estava às mãos. Não lhes ensinou Kant que um ser racional devia ser considerado um fim em si mesmo na criação? Não lhes ensinou Kant que um ser racional não poderia ser avaliado em função de sua utilidade ou inutilidade no mundo? Não lhes ensinou Kant que um ser racional não poderia ser utilizado (escravizado) e disposto (morto) como uma simples coisa? E os judeus (assim como outros povos) por acaso não eram seres racionais? Porém, eles voluntariamente viraram o rosto para esses ensinos, assim como para muitos outros que já existiam em sentido similar. Por isso, se existe um outro mundo depois deste, eles devem ser justamente punidos pelas suas violações intencionais.

Isso serve também para nós mesmos de alerta. É muito difícil que Deus (que devemos pressupor existente) não esteja colocando em nosso caminho os meios necessários que podemos lançar mão para nos instruirmos e evitarmos os erros. Mas quantos de nós não estamos hoje nos fazendo de cegos e de surdos a esses apelos? Ah... instruirmo-nos dá muito trabalho, é enfadonho, toma tempo, não se tem garantia de se estar instruindo na fonte certa! E é tão fácil deixar que alguém pense por mim! Mas não se exige aqui o acerto, mas apenas que se busque acertar, que se faça um mínimo de esforço racional. Não pensem aqui que faço apologia à Bíblia ou a qualquer outro livro religioso. Apenas usei exemplos bíblicos, mas os poderia ter tomado de qualquer outro lugar. Quando digo instruirmo-nos me refiro a todos os meios disponíveis para instrução. É como disse Paulo: "Não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias, mas ponde tudo à prova. Retende o que é bom; Abstende-vos de toda espécie de mal." (1Ts 5:19-22).

A Alemanha nazista é apenas um triste exemplo, que podemos tomar para nós mesmos. Deus nos dá os meios de evitarmos os erros, mas Deus não vai nos impedir de errar (e a história o prova), assim como não impediu os alemães de fazerem o que fizeram. Apenas punirá mais tarde os que voluntariamente se fizerem surdos à voz da razão, àquele Reino de Deus que está dentro de nós.

As escrituras, sejam elas quais forem, podem possuir o seu valor e não são necessariamente inúteis a ponto de serem simplesmente descartadas ou ignoradas. Elas podem até não conter a verdade mastigada, mas podem conter sementes de verdade, que se bem regadas e cultivadas podem virar frondosas árvores frutíferas. Porém, as escrituras não devem ser utilizadas como oráculos a que sempre recorremos quando temos preguiça de pensar e discernir por nós mesmos. As escrituras devem ser utilizada para orientar o nosso pensamento, mas não para pensar por nós. E talvez seja por isso mesmo que Deus não permita que as revelações sejam perfeitas, a fim de que isso nos obrigue a sair da nossa zona de conforto, a caminhar por meio de nossas próprias pernas, a tirarmos tudo de nós mesmos, sem nos escorarmos em muletas empíricas e intelectuais que nos deem sempre as respostas certas sem que precisemos nos esforçar para encontrá-las. Só quando nós (enquanto humanidade) entendermos que precisamos caminhar por nós mesmos e que as escrituras não existem para discernir por nós, a religião deixará de ser meramente uma superstição.

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Petrópolis/RJ
Revisado em 19/9/2014.

2 comentários:

  1. Olá Rafael, boa tarde!
    Gostei muito do seu texto, muito mesmo!
    Gostaria, a pricípio, de discordar de apenas um ponto. (talvez relendo todo o texto novamente volte a lhe interpelar futuramente.)
    Quando você diz que os nazistas não merecem perdão...
    Aprendemos, através de Kardec, que a justiça divina é inexorável, mas é cheia de misericórdia e que portanto os nazistas (que são nossos irmãos se basearmos que somos todos filhos de Deus) merecem também o perdão. Assim como todos que cometem crimes, por mais hediodo que seja, também o merecem. Mas isso não impede que esses mesmos irmãos não tenham que ressarcir a todos os que foram lesados (entenda-se lesados todos que perderam suas vidas e também os que perderam seus bens materiais.)
    Um exemplo muito positivo do perdão incondicional foi o que Nelson Mandela promoveu na Àfrica do Sul quando do final do Apartheid, levando os dois lados a se reconciliarem.
    Voi parar por aqui, pois não se posso ficar me extendendo num simples comentário.
    Parabéns pelo blog.

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    1. Prezado Adão, obrigado pelo comentário.

      Concordo com todo o teu argumento e a nossa discordância, penso, é mais em relação às palavras do que ao pensamento.

      O termo "perdão" que foi utilizado neste ensaio quer dizer "esquecimento da falta sem que se exija uma punição e/ou reparação". Há dois tipos de perdão: o perdão individual (que damos nós mesmos, como pessoa física) e o perdão que é dado pela Justiça, seja pela justiça humana, seja pela Justiça divina.

      Do ponto de vista individual, como todos nós fazemos partes de Reinos (seja de um Reino de Deus, que não vemos, mas pressupomos que exista, seja de um Reino empírico, que é o próprio Estado brasileiro), devemos delegar a execução da justiça para esses Reinos. Eu não posso, portanto, do ponto de vista individual, fazer justiça com as próprias mãos. Eu não posso, pessoalmente, punir ou exigir a reparação de uma falta que foi cometida contra mim. Eu devo delegar ao Reino (de Deus ou ao Estado) a incumbência de fazer justiça em meu nome.

      Então, do ponto de vista individual, concordo plenamente com você que devemos perdoar incondicionalmente, como fez Mandela e muitos outros. Na verdade eu não disse que eu pessoalmente não perdoaria os nazistas, mas apenas que eles não mereciam perdão. E se eu tivesse sido um dos judeus do holocausto, eu pessoalmente perdoaria os nazistas pelo que me fizeram, mas mantendo a opinião de que eles não mereceriam o perdão da Justiça e que teriam que sofrer todas as penas, efetuar todos os ressarcimentos a quem causaram prejuízos, visto que eles tinham Kant - entre outros - que lhes advertira 150 anos antes da ilegalidade, perante o Direito Natural, daquilo que iriam ainda fazer. O próprio Adolf Eichmann disse que lera a Crítica da Razão Pura, mas distorceu o imperativo categórico kantiano para os seus propósitos, conforme relatou Hannah Arendt em seu livro "Eichmann em Jerusalém". Os alemães que participaram do Holocausto, portanto, não foram simples ignorantes manobrados por Hitler, mas tinham certo conhecimento.

      Eu, do ponto de vista pessoal, devo perdoar sempre, incondicionalmente. Mas a Justiça, seja a de Deus, seja a do Estado, não pode ser assim. E em certos casos, mesmo que eu perdoe e retire a queixa, a Justiça não pode perdoar. Se um ladrão me assalta na rua, atira em mim, eu posso perfeitamente perdoá-lo (de fato eu devo). Mas a Justiça não pode e deve obrigá-lo a cumprir a sua pena até o final, visto que houve intenção. Uma falta dolosa é o equivalente àquelas blasfêmias contra o Espírito Santo, ou seja, contra as leis da razão (leis morais). Essas não podem ser perdoadas de forma alguma, nem neste mundo nem no próximo, pois havia perfeito conhecimento do bem e do mal e a opção pelo mal.

      Só que não cometemos faltas apenas intencionais. Também erramos por ignorância ou de forma acidental. A falta aí não é reputada ao indivíduo, mas à natureza. A esse tipo de falta a Justiça deve perdoar conforme nós tivermos perdoado em situação similar. Se, por exemplo, eu esbarro no seu carro acidentalmente, você tem todo o direito de me exigir na Justiça a reparação integral do seu dano. Porém se você, pelo fato de ter sido um acidente, deixar por isso mesmo, em uma situação similar, mas invertida, você pode alimentar a esperança de receber o mesmo tipo de perdão. Mas se você for implacável na satisfação dos seus direitos, você não poderá esperar que a Justiça aja diferentemente com você quando estiver do outro lado. Mas reforço que isso só vale para os casos em que "a natureza é a culpada" (acidente ou ignorância). As faltas intencionais não tem jeito; temos que exigir a reparação na Justiça (jamais com as próprias mãos), por causa do caráter doloso da ação, de modo que o Direito não seja espezinhado.

      Não preciso dizer que uma vez que a pena for cumprida, a falta deve ser esquecida, mesmo pela Justiça.

      Por causa do seu comentário vou alterar o artigo para explicitar melhor o entendimento acima.

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