quarta-feira, 1 de maio de 2013

As razões ideológicas da greve

Hoje é 1º de maio, dia do trabalhador. É portanto um dia mais do que conveniente para tratar do método mais ineficiente, mais injusto, mais covarde e, porque não dizer, mais cruel (visto que se disfarça com as máscaras do patriotismo e da cidadania e ilude as massas a fim de agirem contra os seus próprios interesses, contra o bem comum e contra direitos individuais em uma ação manifestamente injusta), que alguns homens inventaram, pretensamente em nome da classe trabalhadora, para reivindicar aumentos de salário ou de benefícios para essa mesma classe trabalhadora: a greve.

O momento é também para mim especialmente favorável para tratar desse assunto. Eu sou servidor público concursado e não ocupo atualmente nenhum cargo comissionado, ou de chefia, ou de poder. Além disso, sou estável e não posso ser demitido a não ser por justa causa. E como a lei brasileira garante o direito de greve, também não posso sofrer nenhum tipo de retaliação por aderir a uma paralisação. Logo, eu poderia ter todos os motivos para argumentar a favor da greve, visando o meu próprio interesse, sem temer a menor retaliação por parte dos "sinistros poderes que controlam a economia".

Porém, supostamente contra o meu próprio interesse como trabalhador assalariado, eu vou abrir mão e condenar eticamente (e não legalmente, visto que a lei prevê e permite, me cabendo apenas acatar, ainda que a contragosto, embora não sem reclamar) o exercício do direito de greve. Primeiro porque a greve é moralmente injusta (embora hoje legalmente justa), não importando a quantidade de sofismas que criem para torná-la justificável; e segundo porque a greve atua contra o meu próprio interesse e me causa mais prejuízos materiais do que se eu negociasse sem greve.

Antes de iniciarmos a discussão, uma pequena citação, extraído do site La Insignia:
...Já era o século XIX e o movimento operário tinha surgido. Eram tempos duros, aqueles. Completamente desregulado, o capitalismo submetia os trabalhadores a uma exploração tão brutal que o revolucionário Engels, no livro A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, observou (bem antes de Gilberto Freyre, autor de idêntica observação...) que as condições de vida dos escravos nas Américas eram mais amenas do que aquelas dos assalariados europeus na época da revolução industrial. Nessas condições, vez por outra os trabalhadores cruzavam os braços e se recusavam a trabalhar, exigindo melhorias na sua condição. Recuperando o antigo termo, começou-se a dizer que eles estavam en grève... E foi assim que surgiu a greve.

Nesse tempo, cruzar os braços não era nenhum piquenique. A brutalidade dos patrões e da polícia não se fazia de rogada. Numa época em que o Estado não fazia nenhuma questão de desmentir a acusação marxista de ser o "comitê executivo da burguesia", a repressão se fazia de forma escancarada. Prisões, demissões, espancamentos, "listas negras", deportações - esse foi o lote de provações que o movimento operário nascente teve de enfrentar no duro trabalho de parto que foi o seu. Basta lembrar que só em 1884 uma lei francesa autorizou os trabalhadores a constituírem sindicatos. Antes disso, qualquer tentativa de organização da classe era considerada um atentado à "liberdade do trabalho", e portanto duramente reprimida.

Bem, a história ainda está no começo mas o espaço já está terminando. Assim, tenho de providenciar um corte cinematográfico espetacular, eliminando mais de um século e pulando diretamente para o Brasil. Close no meu rádio, onde ouvi, no dia 12 de março de 2008, uma notícia extraordinária. Os auditores fiscais da Receita Federal estão ameaçando uma greve por aumento salarial. A reivindicação é bem redonda: 22 mil reais por mês. (Por extenso, como se faz com cheque, para evitar qualquer erro: vinte e dois mil reais!) Ou isso, ou vão cruzar os braços, como faziam os trabalhadores franceses quando estavam en grève. A diferença é que continuarão recebendo os salários e não correm risco de perder o emprego... Senhores, que o piquenique comece!

De Luciano Oliveira, professor da UFPE, 2008.
Fonte: http://www.lainsignia.org/2008/marzo/soc_005.htm
Da citação acima é possível perceber uma coisa: a greve surgiu em um contexto de quase completa ausência de um Direito que regulasse as relações de trabalho. Nada proibia aquele que detinha o poder econômico de explorar aqueles que para ele trabalhavam. Os contratos, quando existiam, não ofereciam nenhuma garantia de direitos básicos aos trabalhadores. Era de fato praticamente um trabalho escravo. No entanto, mesmo aí a greve não era justificável, porque seria o mesmo que justificar o direito de insurgência, absurdo por si só e que põe em risco a própria existência do Estado. Mas a greve era aí ao menos desculpável e serviu de motivação para uma série de reformas úteis nas leis trabalhistas.

Mas o que dizer de hoje em dia (especialmente nas democracias ocidentais), em que as leis trabalhistas estão bem estabelecidas e consolidadas? Qual o sentido da greve então? Qual é a justificativa para ela hoje? Certamente que não é para proteger direitos, porque se os direitos são violados há a justiça comum. Se sabemos que em uma determinada empresa há trabalho quase escravo, não é por meio da greve que solucionaremos o problema, mas por meio de uma ação da justiça ou quem sabe até da polícia. Por que então temos hoje um chamado direito de greve, já que o direito natural do trabalhador não pode mais ser legalmente violado? Não há mais justificativas, portanto.

A greve é uma quebra unilateral de um contrato de trabalho, que em um verdadeiro Estado de Direito deveria poder ser denunciado e as multas contratuais aplicadas. O chamado direito de greve é um direito que por si só anula o Direito. A instituição desse direito é a verdadeira instituição do direito de quebra de contratos, um absurdo que não oferece nenhuma segurança jurídica a quem deseja se arriscar em um novo empreendimento que precise gerar empregos.

A greve contém em si ainda uma enorme contradição técnica interna. Os trabalhadores que em geral entram em greve solicitam melhores salários, o que implicaria em uma melhor distribuição de riquezas. Porém, a riqueza só é produzida por meio do trabalho, que é justamente o que se suspende com a greve. A greve, portanto, não torna o trabalhador mais rico, mas tão somente o empregador mais pobre, assim como toda a nação coletivamente considerada. Com a greve, o empregador, a fim de viabilizar o seu negócio e não ter prejuízos (pois não existe "almoço grátis") vai fatalmente repassar o prejuízo com a greve para a sociedade, por meio do aumento do preço final do seu produto ou serviço, o que certamente onerará os próprios trabalhadores que comprarão esses produtos ou serviços (pois ninguém pode se abster deles). Como então pedir uma melhor distribuição de riquezas se se suspende a produção de riquezas?

Mas para quê a greve? O que se objetiva com ela? Não pode ser o direito, pois estes já se encontram hoje em dia preservados pela lei. O que se objetiva então é bem simples: aumento de benefícios e/ou de salário. Mas espera lá... Se eu acho que não estou sendo devidamente valorizado no meu trabalho, se a negociação se esgotou e o meu empregador disse que não pode ou que não quer ou que não vale a pena para ele me pagar mais, o que me impede de abandoná-lo e concorrer a uma vaga melhor em outro emprego onde eu seja mais valorizado? Na verdade é isso que deveria ocorrer em um mercado livre. O fato é que se eu não consigo convencer ninguém que é vantajoso que eu receba mais em um cargo de maior responsabilidade, é porque provavelmente o meu valor no mercado já está adequado e que não cabe nenhum aumento a mais. Além disso podemos tentar trabalhar mais arduamente, mais compromissadamente, nos especializarmos mais, etc... Mas ao invés de se especializar, de trabalhar mais e melhor, a fim de que potenciais empregadores (ou mesmo o atual) se convençam de que é útil tê-lo em um cargo mais valorizado, o que algumas pessoas fazem? Querem arrancar o aumento pela força, e pela força da greve. E fazem isso convencendo a todos os seus colegas que também eles deveriam tomar "o que lhes é de direito" pela força. Pobres dos ingênuos que se deixam levar por essas ilusões, pois vão colher muitos prejuízos e dissabores neste mundo por uma causa vazia e injusta. Não poderão ser punidos pela lei (visto que a lei os protege), mas serão olhados com desprezo e desconfiança por toda a comunidade ética e realmente trabalhadora, e dificilmente conseguirão crescer nas suas carreiras profissionais, visto que ninguém os quererá por perto em posições importantes ou de responsabilidade. Terão apenas o que a lei lhes garante e nada mais além disso.

E a quem a greve favorece hoje? Os que ganham menos? Os trabalhadores sem carteira assinada? Os trabalhadores autônomos, que não contam com a segurança de um salário fixo mensal e devem batalhar a cada dia para ter o que comer no dia seguinte? Alguém já ouviu falar da greve das empregadas domésticas? Greve dos faxineiros das empresas terceirizadas? Greve dos garçons? Eu não ouço falar de nada disso e se há são bem raras. Sabe por quê? Porque se eles fizerem greve eles estarão na rua no dia seguinte. A lei não protege estes. Ou então alguém já ouviu falar em greve dos trabalhadores autônomos? Greve dos pedreiros (aquele que faz aquelas pequenas reformas nas nossas casas)? Greve dos entregadores de pizza? Greve dos barbeiros? Greve dos motoristas de táxi. Não, nunca ouvimos falar de greves dessas classes, por motivos óbvios, e elas são em geral muito mais desfavorecidas dos que os fazedores de greve profissionais do serviço público e das grandes empresas.

Quem é que faz greve então? Na primeira linha são os servidores públicos de todas as instâncias, pois são os mais protegidos pela lei e possuem estabilidade de emprego; não podem ser demitidos a não ser por justa causa. Em seguida vêm os trabalhadores de grandes empresas, que possuam "sindicatos fortes" e que sejam bastante visadas pela sociedade, como bancos e fabricantes de automóveis. Em resumo, quem faz greve são somente aqueles que já possuem salários mais altos e maiores benefícios de carreira, por salários maiores ainda e/ou por mais benefícios. Isso, como já disse, pode ser perfeitamente legal, porém não é moral. É indigno para um ser racional obter um acréscimo de felicidade, por ínfimo que seja, por este meio.

Se o direito de greve deixasse de existir e os empregadores em geral pudessem sancionar todos os que suspendessem o seu contrato de trabalho injustificadamente, pelas regras comuns como as que punem por abandono de emprego, o que ocorreria na sociedade? Para os menos favorecidos nada vai mudar, porque eles nunca precisaram, nunca puderam e nunca fizeram greves. Mas aqueles funcionários estáveis e com altos salários iriam pensar duas vezes antes de colocarem os seus empregos em risco por motivos fúteis. O fim do direito de greve nada mais representaria do que o fim das regalias por parte daqueles que já possuem salários mais altos e muitos benefícios. Eu mesmo ouvi casos de servidores em greve que postavam no Facebook fotos na praia, em passeios, enquanto os serviços públicos permaneciam parados e se acumulando porque eles não estavam em seus postos, em um profundo sinal de desrespeito pela sociedade.

E é de fato curioso que toda a sociedade, que em geral se levanta contra outras causas menos injustas (ou às vezes até mesmo causas justas, mas impopulares), feche os olhos e não lance uma reprovação geral contra esses abusos morais. Não se trata aqui de proibir absolutamente a greve e mandar "baixar o cacete" em grevistas, como fazem as ditaduras. Basta apenas fazer valer o contrato de trabalho, ou seja, se ele é quebrado, que o empregador possa denunciá-lo. Mas hoje ele não pode, porque a lei proíbe.

Se uma determinada categoria quiser fazer greve, então ela deve assumir todos os riscos da greve, inclusive o da demissão por justa causa por abandono de emprego. Uma vez que o contrato de trabalho é quebrado, é necessária a celebração de outro acordo. Pode ser que um empregador, por exemplo, que tenha tido todos os seus funcionários em greve, não queira demiti-los por conta do prejuízo que terá para contratar novos e treiná-los em suas funções. Então ele poderá optar por negociar. Mas isso deve ser discrição dele e não imposição da lei. A mão do Estado está desequilibrando essa disputa. Se antes a ausência do Direito favorecia o empregador, o excesso de leis protetoras e paternalistas está desequilibrando a balança fortemente contra ele, o que é um vício legislativo contrário ao da falta de legislação. Todos falam do direito do trabalhador. E o empregador, não tem direitos? Não deveriam ser também respeitados? Mas a lei hoje não entende dessa forma.

Então, o fim do chamado direito de greve não representaria o fim dos direitos dos trabalhadores e o fim dos meios para que negociassem melhores salários e benefícios. Representaria apenas o fim dos abusos. Do jeito que está hoje o risco da greve se encontra todo do lado do empregador e do governo, porque o trabalhador encontra-se amplamente protegido para tirar os seus "dias de folga" e fazer os seus "piqueniques". E repito mais uma vez: não há sentido hoje para um direito de greve, visto que todos os direitos dos trabalhadores já se encontram resguardados pela lei. Qualquer violação, basta denunciar na justiça. A greve tem sido utilizada apenas para ampliar benefícios, o que é absurdo.

O trabalhador, inclusive por meio dos sindicatos, certamente que pode e deve negociar melhores salários e maiores benefícios, mesmo quando estes já são altos. Cada função tem o seu valor próprio no mercado. Mas isso sem a suspensão do trabalho, que causa transtornos enormes a quem nada tem a ver com a disputa. E quando alguns grupelhos fazem as suas passeatas, atrapalhando o trânsito e a vida de milhões de pessoas? Onde o direito de ir e vir? Por que se permite passivamente que certas pessoas obstruam as vias públicas por interesses privados?

O empregador não é estúpido. Ele sabe que se pagar salários abaixo do mercado ele não conseguirá profissionais, ou se conseguir não vão ser os melhores, capazes de alavancar a sua empresa. Mas se o salário de uma determinada categoria é mais baixo, isso significa que ainda existem muitas pessoas interessadas nesses cargos e eles continuam atrativos. Qual então a justificativa para aumentar esses salários? O empregador também não quer pagar salários acima do mercado, assim como todos nós se estivéssemos no lugar dele. Ele quer pagar salários adequados, para ter o nível de profissional que precisa para sua empresa. É o mercado, a oferta e a procura, que deve regular os níveis salariais. Os que não estão satisfeitos que mudem de emprego, porque isso vai até favorecer os que ficam e que realmente gostam de suas funções.

Mas querer regular isso por meio da força de greve é indigno. A greve indigna e envergonha o verdadeiro trabalhador ao invés de engrandecê-lo. Então nada é mais justo do que neste dia do trabalho condenar toda suspensão indigna do trabalho. E é preciso prestar a atenção nisso: toda a culpa e toda a indignidade da greve recaem sobre o trabalhador. Não é um problema do empregador. É um problema nosso, que temos que resolver. Nós é que temos que nos moderar e moderar os nossos colegas mais exaltados, em nosso próprio benefício, porque o empregador e o governo estão de mãos atadas por causa das restrições da lei, pelo menos até que a lei mude.

E quanto ao governo, este deve decidir se quer mesmo ser governo ou se quer ser governado. Pois um governo que não assume o seu posto é destronado, cedo ou tarde. Todos vimos no ano passado como o governo federal foi desafiado. Até quando ele vai se sujeitar a isso? As democracias são fundamentalmente liberais e pacíficas, mas isso não significa que devem ser fracas e tolerarem afrontas, sob o risco de soçobrarem. Mal iniciou-se o mês de maio e já começamos a ouvir falar novamente de greves. A menina Isadora Faber já avisou na sua página Diário de Classe, no Facebook, no dia de ontem (30/4/2013):
Hoje não tive aulas. Os professores entraram em greve. Uma greve anunciada há muito tempo. Espero que não demore muito, pois os alunos não têm culpa de nada. Não acho justo fazer pessoas que não tem nada a ver com o problema pagarem por isso. Nunca vi professores de escolas particulares fazerem greve, devem receber mais. Por que os professores, em vez de se desgastarem com greves, não procuram emprego em escolas particulares? Quando fizeram o concurso, sabiam muito bem quanto iam ganhar.

Fonte: Facebook
Subscrevo integralmente as palavras dela. Até quando esses abusos vão continuar? Mas enfim, quais são as razões ideológicas por detrás das greves? Porque tantas pessoas caem nesse conto do vigário? Sim, conto do vigário porque os trabalhadores em geral não conseguem obter o que almejam com a greve. São só prejuízos para ambos os lados. Ninguém consegue ganhar nada com essas aventuras.

As fraudes ideológicas que estão por detrás das greves são em geral relacionadas em maior ou menor grau com a ideologia marxista e seus posteriores desenvolvimentos e variações, que se origina de um filosofisma, um absurdo racionalismo que generaliza e divide todos nós em classes. Eu não sou mais eu; eu pertenço a uma classe e sou julgado e condenado (ou glorificado) unicamente pela classe a que pertenço. Se sou trabalhador (especialmente professor) sou exaltado. Se sou empregador, ou chefe, ou diretor, sou literalmente demonizado. Nas manifestações públicas pró-greve sempre vemos as mesmas bandeiras (em geral vermelhas) dos mesmos partidos que ostentam ainda orgulhosamente a ideologia socialista. Pelo menos um desses partidos ainda mantém em sua página todo o erro óbvio, grosseiro e perigoso de Karl Marx & Friedrich Engels, do genocida Lênin, Trotsky e outros.

O que almeja essa ideologia é uma justiça sem tribunais, a chamada "justiça popular", como essa que encontramos no pensamento de Michel Foucault:
....As massas - proletárias ou plebeias - sofreram demasiado com essa justiça, durante séculos, para que se continue a impor-lhes sua velha forma, mesmo com um novo conteúdo. Elas lutaram desde os confins da Idade Média contra essa justiça. Afinal de contas, a Revolução Francesa era uma revolta anti-judiciária. A primeira coisa que ela explodiu foi o aparelho judiciário. A Comuna também foi profundamente anti-judiciária.

As massas encontrarão uma maneira de regular o problema dos seus inimigos, daqueles que, individual ou coletivamente, as prejudicaram, métodos de revide que irão do castigo à reeducação, sem passar pela forma do tribunal que - na nossa sociedade, sem dúvida, na China, não sei - se deve evitar.

Fonte: Microfísica do Poder, cap. III - Sobre a Justiça Popular, Michel Foucault
Um pouco depois um tal Victor diria, no mesmo livro:
Victor: ... No primeiro estágio, pode haver um ato de revide contra um chefe que seja um ato de justiça popular, mesmo que nem toda a oficina esteja de acordo, porque há os delatores, os "caxias" e até mesmo um pequeno número de operários traumatizados pela ideia de que "apesar de tudo é o chefe". Mesmo se houver excessos, se o mandarem três meses para o hospital e ele só merecer dois, é um ato de justiça popular...

Fonte: Microfísica do Poder, cap. III - Sobre a Justiça Popular, Michel Foucault
A greve, na verdade, é um desses atos de justiça popular, embora em menor grau que nas ditaduras socialistas de fato. Já que os tribunais não conseguem obrigar o empregador a dar os aumentos/benefícios requeridos, as massas pensam poder fazer elas próprias a sua "justiça". Só que isso não é justiça.

Essa ideologia tem a característica de ser polarizadora e de fomentar as inimizades entre as classes. Para os seus adeptos, o empregador quando se levanta da cama e vai para a empresa tem apenas uma única ideia em mente: "ferrar o trabalhador o mais que pode". Não passa pela cabeça deles que o empresário apenas quer ganhar e não necessariamente fazer o outro perder, e que não tem nenhum dever de abrir mão facilmente de suas margens de lucro, principalmente mediante a chantagem da greve. Não passa sequer pela cabeça desses "patriotas" que há muitos empresários e também governos que possuem consciência social e que querem apenas pagar pelo que for justo, e não necessariamente fazer todo mundo feliz atendendo a exigências irreais e absurdas.

É claro que isso não me impede de discordar do meu chefe, ou do meu empregador, ou do meu governo, visto que eles ou eu não possuímos nenhuma obrigação de sermos infalíveis. Mas tratá-los como inimigos que apenas vivem para o meu mal é um exagero. E mesmo que eles assim o queiram, é na justiça que devo resolver a minha peleja contra eles e não pela força, ou "mandando-o para o hospital", como exposto no livro do Foucault.

Nas charges e propagandas divulgadas por esses grupos o trabalhador é retratado geralmente como estando acorrentado, oprimido, escravizado (como se ele fosse proibido de sair do emprego atual e procurar outro que o remunere melhor), ou então retratando empregadores e governos sob formas monstruosas ou desfavoravelmente caricatas ameaçando o "pobre e inocente" trabalhador. Isso tudo é a mais pura expressão do classismo (que como já expliquei, é o equivalente do racismo para o preconceito de classe), que tem por único objetivo fomentar as inimizades de classes e o ódio das massas contra seus empregadores ou governantes.  Transformam uma simples negociação salarial em uma luta do bem contra o mal, sendo que os maus são sempre empregadores e governos. Reparem bem na imagem abaixo, que apareceu no ano passado em meio às greves:


Não quero aqui defender Dilma ou FHC. Mas não creio que o único objetivo da vida deles fosse maltratar os servidores públicos. Eles têm o direito de possuírem pontos de vista quem nem sempre concordam com os dos servidores. Mas retratados dessa forma parece ser o caso de uma luta do bem contra o mal, como se o governo fosse uma entidade a quem devêssemos (nós, trabalhadores) combater e derrotar, ao invés de negociar e se submeter (visto que devemos nos submeter aos nossos governos). Trata-se de uma dialética que se serve da arte para, antes do ajuizamento, ganhar para os grevistas os ânimos do público, suprimindo-lhes a liberdade de pensarem e refletirem por si próprios. A imagem já "explica" toda  história. Não é preciso mais pensar e refletir e nem tratá-los com empatia, porque "já sabemos que eles só querem o nosso mal", que a leitura da Dilma na cama é apenas aprender como ferrar mais e mais o servidor, etc... Ah, meus amigos, ao tratar de coisas sérias ou relativas ao direito de outros homens, cuidado com tudo aquilo que possuir o menor vestígio de arte. Ela não se encontra ali para instruir, mas para iludir. Iludir pela arte. O sério deve ser expressado seriamente. Muito embora esse recurso (da arte) possa também ser utilizado para fins em si legítimos e louváveis, é censurável o método de subversão subjetiva das máximas e disposições. Aqui não se trata apenas de fazer o que é justo, mas também de executar de forma justa. A imagem acima é o mais puro classismo, que visa fomentar o antagonismo das massas contra uma classe específica, neste caso as pessoas que ocupam os cargos máximos do executivo, e servindo-se da arte para hipnotizar as massas pelo apelo estético. Reparem nas semelhanças de metodologia com uma outra perseguição de classe muito famosa que também ocorreu no passado:


Portanto, de todo o sério que possua o menor vestígio artístico, fujam como se foge de uma lepra, mesmo quando o fim da retratação for aparentemente justo. A arte é feita para entreter os ânimos, para o deleite puro e simples, e não para instruir. Vejamos esta outra imagem, do mesmo gênero:

Fonte: Blog do VQ

De novo, não quero defender nem atacar o governador Sérgio Cabral. Apenas realço aqui o apelo estético para ganhar os ânimos da população por meio da arte bela, suprimindo-lhes a liberdade de pensamento. É como se a "besta-fera" vivesse unicamente para "ferrar" os profissionais da educação. Classismo de novo, transformando uma negociação salarial em uma luta de classes, uma luta do bem contra o mal! E o autor do blog ainda sugere "colorir" os muros da cidade (devidamente autorizados pelo seu proprietário, claro, aviso escrito em letras bem miúdas) com essa imagem "numa aula de cidadania contra as figuras nefastas que insistem em nos assombrar". Non sense! Outra imagem do mesmo gênero, mas dessa vez impessoal, dirigido especificamente a classes e não apenas a pessoas:

Autor: Carlos Latuff

O tanto de problemas que tais métodos de propaganda produziram no passado já deveriam nos ter convencido (enquanto humanidade) do perigo de recorrer a este tipo de expediente artístico.

Vejamos agora alguns dos argumentos falaciosos utilizados para tentar legitimar moralmente a greve. Na imagem abaixo:


Cascata! A única coisa que estava em jogo aí era o dinheiro. Se o governo acedesse e dobrasse ou triplicasse o salário de todo mundo, todos voltariam ao trabalho felizes e contentes nas condições de trabalho que fossem (até tornarem-se novamente insatisfeitos com a nova remuneração, visto que o ser humano não é de natureza a se contentar com salário algum por muito tempo). Os apelos ao "descaso com a educação", a uma "universidade pública gratuita, de qualidade e socialmente referenciada" são apenas disfarces para mascarar o único e verdadeiro interesse dos grevistas: mais dinheiro na conta bancária. Outra imagem:


O governo aqui é retratado como um "inimigo" da educação. De novo o fomento do antagonismo de classes, com o fim de jogar umas contra as outras, por meio da transformação de uma simples negociação salarial em uma luta do bem contra o mal. Quem seriam então os amigos da educação? Aqueles que pensam antes nos próprios direitos e interesses que nos deveres, e deixam os seus alunos sem aulas? Última imagem:


A palavra "negocia" quer dizer: "atenda incondicionalmente às nossas reivindicações". Porque em uma negociação de fato há a possibilidade de sucessos e reveses. Mas os grevistas não aceitam os reveses. Eles creem que estão sendo roubados e que precisam lutar contra os seus "inimigos de classe". Eles não querem negociar, mas impor. E acusam de enroladores aqueles que se recusam a atender as suas exigências, na maior parte das vezes irreais e absurdas. Negociação não é isso. Eles dizem que são a favor da democracia e contra a ditadura. Mas o que eles defendem é o mais puro e conhecido despotismo, e o do pior tipo que existe, ou seja, o despotismo das massas. Vejam o que encontramos no website de um desses partidos cuja bandeira sempre aparece em todas as manifestações, sem exceção, juntamente com a massa manobrada que sai nas passeatas:
- Vocês defendem uma ditadura?

O centro do programa histórico do movimento trostquista prevê a ‘Ditadura do Proletariado’. Muitos detratores do marxismo utilizam isso para atacar os socialistas, afirmando que queremos uma ‘ditadura’, tal como havia nos países latino-americanos das décadas de 1960/1970 ou como existe hoje em Cuba ou na China. Porém, para os marxistas, ‘ditadura’ é a dominação de uma classe sobre a outra. Desta forma, vivemos hoje uma ditadura burguesa, em que uma ínfima minoria da população exerce seu controle político, econômico e militar sobre a maioria. A Ditadura do Proletariado é o predomínio da classe trabalhadora, a imensa maioria da população, sobre a burguesia. Ou seja, seria uma democracia infinitamente mais democrática que a atual falsa ‘democracia’. (grifos meus)

Fonte: http://www.pstu.org.br/partido (consultado em 18/6/2013)
Não é ditadura gente, rsrs... É uma "democracia" infinitamente mais "democrática" (embora altamente autoritária) do que a atual "falsa democracia". A nova forma proposta de dominação é "infinitamente melhor" do que a outra. Esses são os adeptos da malfadada ideologia que prega a "derrubada violenta de toda a ordem social existente" (vide o Manifesto Comunista). Por isso instigam classes contra classes, para que seus soldadinhos de chumbo lutem entre si, se destruam mutuamente e depois eles surjam como os herois que vão salvar a nação da anarquia, da barbárie e do caos que eles mesmos incitaram. É preciso ser mesmo muito ingênuo e simplório para conseguir ser enrolado em conversas fiadas deste tipo. Eles abraçam quaisquer causas (quaisquer mesmo), inclusive a dos trabalhadores mais ricos em suas greves, desde que isso possa provocar um confronto social entre trabalhadores, empresários e governo. Manifestações pacíficas não lhes interessam para os seus objetivos, a despeito de suas propagandas. Tem que ter luta e confronto. Por isso sempre há entre eles os que provocam a polícia, esperando que ela saia da linha, para depois acusarem o governo de truculência.

Não são necessários mais exemplos, e tanto a população deve abrir o olho com esses movimentos grevistas, que não trazem nenhum benefício para a sociedade nem para os próprios trabalhadores, como o próprio governo, que deveria parar de criar privilégios para classes já favorecidas em prejuízo de toda a sociedade, que deixa de ter prestado os serviços públicos pelos quais paga os seus impostos. Enquanto esse autocontraditório direito de greve continuar a existir, dificilmente veremos uma mudança e esses poucos privilegiados continuarão a transtornar as vidas de todos nós em nossas cidades.

Para finalizar, só quero deixar claro que não estou condenando todos os que são favoráveis à greve, visto que ela se disfarça bem com a máscara da cidadania e do patriotismo que se revolta contra as injustiças. É perfeitamente possível nos iludirmos de boa-fé nessa fraude intelectual e mesmo eu que agora critico esses sofismas já tive uma fase na vida em que considerava a greve justificável. Apenas chamo a atenção dessas pessoas de boa-fé (porque quanto as de má-fé nada há para se fazer) que a greve é mais injusta do que a pretensa injustiça que se pretende por meio dela reparar e que eles estão apenas servindo de massa de manobra. A greve não se sustenta moralmente desde que façamos um mínimo de reflexão sobre o que está por trás dela. É preciso que as pessoas despertem desse sono e se deem conta de que os apologistas da greve não falam em nome dos trabalhadores, que nunca falaram, mas apenas em nome próprio, por inveja da prosperidade alheia, por necessidade subjetiva de sempre terem um inimigo contra quem sempre podem esperar lutar (visto que o homem tem tendência natural ao antagonismo entre si), e que esses apologistas apenas querem encontrar soldados voluntários para os seus exércitos particulares, que aceitem lutar de bom grado por uma causa que em nada lhes interessa. A luta é só deles (dos apologistas da greve), por razões subjetivas só deles, e não nossa. Nada temos a ganhar com esta luta. E temos tudo a perder, incluindo a nossa própria reputação e em estados sociais patológicos mais graves até mesmo a nossa própria liberdade e a nossa própria vida. Reflitam então sobre isso...

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Petrópolis/RJ
Revisado em 4/1/2014

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