segunda-feira, 18 de março de 2013

Os 10 mandamentos da Filosofia Especulativa (2ª parte - final)

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Exemplos do quarto mandamento
"Do necessário, e do contingente empiricamente evidenciado, disso não duvidarás; diferenciar o contingente do necessário aprenderás."
Neste mandamento o que se combate não é propriamente o dogmatismo, mas o ceticismo, que duvida daquilo que não é permitido duvidar.

É fora de dúvida que não podemos duvidar do empírico, embora a demonstração disso não seja trivial. A "colher" (da Matrix) existe sim, embora ela como é em si possa até não ser na exata aparência de colher. Se percebemos pelos sentidos um determinado contingente, podemos e devemos afirmar objetivamente sobre ele. Mas há muitas pessoas que duvidaram ou duvidam da realidade exterior, ou seja, aquela realidade que percebemos pelos sentidos. O filósofo mais célebre a fazer isso foi René Descartes, na Quarta Parte do seu Discurso sobre o Método:
Há muito tempo eu notara que, quanto aos costumes, por vezes é necessário seguir, como se fossem indubitáveis, opiniões que sabemos serem muito incertas, como já foi dito acima; mas, como então desejava ocupar-me somente da procura da verdade, pensei que precisava fazer exatamente o contrário, e rejeitar como absolutamente falso tudo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se depois disso não restaria em minha crenças alguma coisa que fosse inteiramente indubitável. Assim, porque os nossos sentidos às vezes nos enganam, quis supor que não havia coisa alguma que fosse tal como eles nos levam a imaginar. E porque há homens que se enganam ao raciocinar, mesmo sobre os mais simples temas de geometria, e neles cometem paralogismos, julgando que eu era tão sujeito ao erro quanto qualquer outro, rejeitei como falsas todas as razões que antes tomara como demonstrações. E, finalmente, considerando que todos os pensamentos que temos quando acordados também nos podem ocorrer quando dormimos, sem que nenhum seja então verdadeiro, resolvi fingir que todas as coisas que haviam entrado em meu espírito não eram mais verdadeiras que as ilusões de meus sonhos. Mas logo depois atentei que, enquanto queria pensar assim que tudo era falso, era necessariamente preciso que eu, que o pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade - penso, logo existo - era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não eram capazes de a abalar, julguei que podia admiti-la sem escrúpulo como o primeiro princípio da filosofia que buscava.
Por mais inteligente que fosse Descartes e por mais bem intencionado que fosse esse filósofo quando propôs essa demonstração, ela é falaciosa. Descartes não o percebeu, mas esse raciocínio não somente não demonstra que existo enquanto ser racional, como ele indevidamente coloca em dúvida a existência das coisas exteriores a nós, como se pudessem ser simples sonhos. Descartes viola este quarto mandamento colocando em dúvida o contingente empiricamente evidenciado. Outros pensadores seguiram pelo mesmo caminho, como Berkeley e Schopenhauer, e todos igualmente se equivocaram.

No tempos atuais há vários pensadores que também duvidam de fatos. No livro Just Culture - Balancing Safety and Accountability, de 2007, do autor holandês Sidney Dekker (infelizmente só existe disponível em inglês), que está já em sua segunda edição, na página 155 (a minha versão é formato Kindle e alegadamente corresponde à paginação da versão impressa), no capítulo 11 - Why Do We Blame? (Por que culpamos?), subitem History as Present (História como presente), encontramos:
What separates past from present is arbitrary. In this view, a cause for an accident is never found. It is constructed with language or rethoric ensuring that certain subsequent actions are legitimate or even possible (...), and others not.

Tradução livre: O que separa o passado do presente é arbitrário. Nesta visão, uma causa para um acidente nunca é encontrada. É construída com linguagem ou retórica que assegura que certas ações subsequentes são legítimas ou mesmo possíveis (...), e outras não são.
Just Culture - Balancing Safety and Accountability
O problema dessas ideias é que esse autor sustenta que as pessoas deviam ser "defendidas" dos tribunais, como se os tribunais julgassem com base em crenças e não em evidências empíricas das quais não é lícito duvidar; é como se as evidências não falassem por si sós e os fatos fossem simplesmente "construções" por meio de "linguagem ou retórica". Esse tipo de dúvida coloca em risco o Estado de Direito, pois como viver em um Estado assim duvidando da eficácia do Direito, que por sua vez se baseia em evidências empíricas? Essa a perigosa consequência de toda a dúvida a respeito do contingente empiricamente evidenciado. A refutação a esse tipo de dúvida é algo demasiado longo para ser tratado aqui, mas essa refutação existe, já foi tratada por Kant na Refutação do Idealismo, na Crítica da Razão Pura, e em breve tratarei disso aqui também neste Blog em artigo em separado. Por enquanto basta apenas lembrar: não é lícita a dúvida a respeito do empírico.

Com relação ao necessário, pelo contrário, tanto podemos como devemos fazer afirmações objetivas que não só não precisam de fundamento empírico, como não podem ter fundamento empírico algum. Dar fundamento empírico a coisas necessárias é uma prática supersticiosa. O necessário deve ser conhecido absolutamente a priori. Com relação ao necessário, a dúvida também não é de forma alguma permitida. A diferenciação do contingente para o necessário não é difícil, porém é preciso um pouco de reflexão e prática. Se não aprendermos a diferenciar um do outro, não só duvidaremos daquilo que é absolutamente certo a priori como converteremos em necessidade aquilo que é mera contingência, como no caso dos exemplos do terceiro mandamento. Então, aprender a diferenciar uma coisa da outra é também uma obrigação, a fim de que aprimoremos os nossos juízos.

Como exemplos de dúvidas a respeito do necessário, vou citar dois físicos famosos do século XX, que não só colocaram em dúvida, como renunciaram à lei de condição dos fenômenos da natureza: a causalidade. Abaixo a citação e a fonte:
Com efeito, a interação finita entre o objeto e o instrumento de medida, condicionada pela simples existência do quantum de ação, implica - devido à impossibilidade de controlar a reação do objeto sobre os instrumentos de medidas, se é que esses devem servir à sua finalidade - a necessidade de uma renúncia final do clássico ideal de causalidade, e uma revisão radical de nossa atitude diante do problema da realidade física. (Niels Bohr) (grifos em negrito e sublinhado meus)

Mas por que, pode-se perguntar, o método científico de fato mudou sua posição, desde Kant, a respeito de uma questão tão fundamental como essa [a lei de causalidade]?
Duas respostas possíveis podem ser dadas a essa pergunta. A primeira: fomos convencidos pela experiência que as leis da teoria quântica são corretas e, se assim for, elas nos ensinam que um evento precedente, que seja a causa para a emissão, em um dado instante de tempo, não pode ser encontrado. A segunda: conhecemos o evento precedente, mas não com grande precisão. E conhecemos as forças no núcleo que são responsáveis pela emissão da partícula alfa. Esse conhecimento, todavia, contém a incerteza que provém da interação entre o núcleo e o resto do Mundo. Se quisermos saber porque a partícula alfa foi emitida naquele particular instante de tempo, teríamos que conhecer a estrutura microscópica do Mundo inteiro, nós nele incluídos, e isso não é factível. Portanto, não mais valem os argumentos kantianos que favorecem o caráter a priori da lei de causalidade. (Werner Heisenberg) (grifos em negrito e sublinhado e inclusão entre colchetes meus)

Fonte: A apercepção originária de Kant na física do século XX, Ruben Braga, 1991, Editora UnB, págs. 99 e 101.
Em resumo, o que os dois estão dizendo é que uma lei que é determinada a priori pela razão e necessária não seria mais verdadeira somente só porque os dois digníssimos cientistas não conseguem medir e identificar a causa de certos fenômenos. Mas com que direito eles dizem isso? Deixo que o físico brasileiro, Ruben Braga, responda a essa pergunta, nas páginas 113/114 do mesmo livro citado acima:
Mas por que, continua Heisenberg, o método científico de fato mudou sua posição, desde Kant, a respeito de uma questão tão fundamental? A resposta é: não mudou, porque não é lícito, a partir da contingência da experiência, concluir pela contingência da lei, porque a lei não está ela própria contida na experiência. Se se tratasse de coisas-em-si a conclusão estaria correta porque neste caso as leis seriam independentes de um entendimento particular que as conhecesse. Mas fenômenos são representações do próprio sujeito, dele mesmo inclusive e aí então a lei de conexão de um múltiplo numa síntese tem necessariamente que ser a priori e ter sua origem na capacidade de imaginação de um entendimento puro, através do esquematismo das categorias, e não na experiência pura e simplesmente.
A fim de que o leitor entenda o que se passa, vou ilustrar com uma analogia matemática. Todos nós aprendemos na escola uma série de relações geométricas necessárias, como o Teorema de Pitágoras. Ora, a Teoria da Relatividade de Einstein nos ensina que a matéria deforma as métricas de espaço e o tempo, de modo que uma régua (ou seja, uma métrica do espaço), absolutamente reta em ausência de velocidade e gravidade, ficaria curvada em presença de força gravitacional e/ou velocidade. Desse modo, como poderiam então valer as relações pitagóricas nesse espaço curvado, se não posso mais medi-las de forma precisa por causa da deformação da minha métrica? Essas relações não seriam então mais necessárias; não poderíamos mais afirmar com certeza absoluta que o quadrado da hipotenusa é exatamente igual à soma dos quadrados dos catetos e que essas relações seriam contingenciadas pelas características gravitacionais e de velocidade do local onde o triângulo retângulo estivesse situado no espaço, o que é um disparate tal que é difícil crer que há pessoas, incluindo cientistas, que se confundem nesses enroscos sofísticos.

E no entanto foi isso o que Heisenberg e Bohr fizeram com relação à lei de causalidade, ou seja, contingenciaram a lei. Algumas medidas são impossíveis de se fazer, a causa é (presumivelmente) impossível de se determinar, então os dois gênios concluem que a causalidade não é mais uma lei? Simplesmente um absurdo, porque as leis que regem a experiência não estão contidas elas mesmas na experiência e, consequentemente, não podem ser contingenciadas por elas. Se a lei que rege a experiência estivesse ela própria contida na experiência, teríamos o paradoxo da lei regendo ela própria e se modificando em tempo real em função das contingências que ela própria provoca, o que é um absurdo imenso, porque seria o equivalente a dizer que leis que valiam ontem não valem mais hoje, porque poderiam estar "diferentes". Isso é um abuso da crítica cética, ou seja, duvidaram de uma lei necessária (a lei da causalidade), assim como alguns duvidam da matemática. As leis não estão submetidas à experiência, mas legislam sobre a experiência. Se um fato observado diverge da matemática não temos nenhum direito de duvidar de relações matemáticas, mas de duvidar sim das condições em que os fatos foram observados. E assim deve ser com tudo o que está submetido a leis.

A lei de causalidade é uma lei do entendimento humano. Nada pode ser experiência (fenômeno) para nós se não for precedido de uma causa. Pode ser que não haja causalidade necessária no domínio da coisa-em-si (por exemplo, um simples ato livre nosso, cujo fundamento está no domínio da coisa-em-si, deve ser concebida como um efeito sem causa), coisa que não podemos saber justamente por estar além do plano fenomênico. Mas a ciência só trabalha no domínio fenomênico, ela não especula sobre a coisa-em-si, pois não é de sua atribuição, de modo que ela nunca poderá abrir mão do postulado da causalidade. Não é lícito, como disse Ruben Braga. Imagine que sou um cientista observando um fenômeno e, depois de muito procurar as causas e não as encontrar, eu escreva no meu relatório de conclusão: "o efeito observado não tem causa". É simplesmente um direito que eu não tenho e me tornaria digno de demissão do cargo de cientista, pois o erro é primário. Como cientista, devo sempre procurar as causas, ainda que elas em última instância não existam. Isso seria a mesma coisa que dizer que o fenômeno se dá por um milagre, ou por obra e graça do espírito santo, ou qualquer outro tipo de conclusão simplista por parte de quem se cansou de procurar e espera uma resposta imediata (e consequentemente dogmática). Não é a toa que essas conclusões precipitadas de Bohr e Heisenberg ajudaram a fundamentar todo tipo de fantasia e misticismo quântico que circula nas livrarias místicas, espiritualistas e até em meios científicos. Diz Ruben Braga (pág. 81 do livro indicado acima) que o próprio Bohr "pensou encontrar fundamentos para o seu princípio de complementaridade em doutrinas mágicas orientais, como o zen-budismo, teoísmo, etc., ou na filosofia de Kierkegaard, ou ainda na psicologia de William James", o que acreditava ser em vão. Isso porque, de fato, a razão jamais consegue se satisfazer com respostas simplistas do tipo "não há causa", mas ela precisa continuar buscando a causa, mesmo que não a encontre, e se a causa mecânica é negada, então recorre-se à busca por causas livres, o que é uma porta larga aberta para o misticismo e para a fantasia.

O relativismo moral que hoje também assola quase todas as sociedades ocidentais repousa em dúvidas acerca de leis necessárias: as leis morais. Elas também foram "contingenciadas pela experiência". Pelo fato de muitas pessoas não cumprirem contingentemente a lei no passado, algumas pessoas concluíram que a moralidade variava no tempo e no espaço, o que é a mesma coisa que dizer que não há lei moral alguma. Desse modo, não haveria mais certo e errado. Mas será que não posso mesmo mais dizer que certas coisas são absolutamente certas ou erradas de um ponto de vista moral? De novo a tendência de submeter a lei à contingência empírica, ou seja, dizem que não há lei porque ninguém a cumpre. Mas será que alguém é capaz de dizer que não há consequência alguma para a violação da lei? Somos capazes de dizer que as pessoas não cumprem sempre as leis (porque a experiência nos ensina isso), mas é possível dizer que a lei não se cumpre sempre (ou seja, que os que a violam não lhe sofrem as consequências)? A lei, portanto, existe independentemente de estar ou não sendo cumprida, continua obrigando-nos incondicionalmente e é no mínimo temerário duvidar de leis que regem a coexistência de seres livres (racionais). Há um risco imenso de consequências muito desagradáveis no futuro para quem duvida da eficácia de uma lei.

Também é muito comum vermos pessoas duvidando da exatidão da matemática em fóruns. Sugiro ao leitor que faça uma experiência a fim de constatar isso. Poste em um fórum de discussões qualquer a seguinte pergunta: "em qualquer triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é exatamente igual ou aproximadamente igual à soma dos quadrados do catetos?"; ou esta aqui: "a soma dos ângulos internos de qualquer triângulo é exatamente igual ou aproximadamente igual à soma de dois ângulos retos?". A matemática é uma lei a priori e necessária, de modo que não se pode haver dúvida alguma de que essas relações são exatas e não aproximadas. As leis não são determinadas pela experiência, mas regem a experiência, de modo tal que nenhuma experiência pode se dar para nós em violação das leis (por exemplo, eu não consigo construir, mesmo que eu quisesse, um triângulo retângulo em desacordo com a relação pitagórica). Mas haverá muitos considerando a curvatura espaço-tempo, ou a velocidade tangencial do corpo, ou a gravidade, ou a aceleração, etc..., a fim de fundamentar que a relação é impossível de ser determinada exatamente e que é aproximada. Mas um triângulo retângulo, que não existe em outro lugar que não dentro da minha mente, não pode ser curvado e distorcido por coisas que se encontram fora do meu pensamento. Vamos ao próximo mandamento.

Exemplos do quinto mandamento
"Não cobiçarás o conhecimento do contingente cuja ideia não se possa representar no tempo ou no espaço."
O homem tem sede de conhecimento, mas a natureza nos impôs limites. Não só os nossos sentidos não conseguem abarcar todo o existente, como também a nossa mente só consegue representar intuições no tempo e no espaço, o que limita o nosso conhecimento do contingente a estes âmbitos. Todo contingente cuja ideia não se possa representar no tempo e no espaço (ou seja, que pertence ao reino das ideias) é, portanto, absolutamente incognoscível para nós, não apenas hoje, mas enquanto existirmos na Terra como homens. Pode ser que em uma eventual vida futura tenhamos outras formas de intuição que nos permitam outras formas de conhecimento, mas enquanto estivermos presos na Terra, nestes corpos, a nossa mente restringe a nossa forma de intuição ao tempo e ao espaço. Temos apenas a ideia de coisas que podem existir fora deste âmbito, porém não podemos conhecê-los, como por exemplo, não podemos conhecer Deus, a nossa existência inteligível (a alma), a forma de existência das próprias leis da natureza, as coisas como são em si mesmas.

Ora, se já sei de antemão que uma determinada espécie de conhecimento me é absolutamente impossível, isto quer dizer ao mesmo tempo que devo renunciar a qualquer tentativa de conhecer coisas desta espécie. Esse é o sentido deste quinto mandamento, ou seja, não cobiçarás jamais determinada espécie de conhecimento (ou seja, coisas que não podem ser representadas no tempo e no espaço), porque qualquer coisa que se diga objetivamente a respeito não poderá ser provada, nem a favor e nem contra a tese. Estas coisas devem ser relegadas ao domínio da crença somente e a pretensão ao conhecimento deve ser completamente renunciada. Quem viola este mandamento fatalmente incorre em dogmas, porque não vai conseguir demonstrar as suas asserções com a menor aparência de veracidade. Ou então simplesmente não sai do lugar, por mais que caminhe, porque para sair precisaria necessariamente incorrer em dogmatizações.

Tudo aquilo que pode ser representado no tempo e no espaço podemos alimentar a esperança de um dia conhecermos (por exemplo: uma nova molécula química, a descoberta de vida extraterrestre, galáxias distantes, uma nova forma de energia, etc...). Mas o que não pode ser representado no tempo e no espaço está absolutamente fora de nossas possibilidades e a renúncia a este tipo de conhecimento deve ser completa. A simples tentativa de conhecer esses objetos é uma violação das leis do entendimento. Da mesma forma, qualquer um que tenha dito qualquer coisa de objetivo a respeito dessas coisas incognoscíveis, o fez dogmaticamente. Não precisamos sequer nos darmos ao trabalho de procurar o fundamento das afirmações, porque tal fundamento não existirá. Basta apenas examinarmos o objeto da discussão para sabermos se pode sair alguma coisa de útil ou se só vão sair quimeras. Portanto, investigações acerca da existência ou inexistência do livre-arbítrio, da existência de Deus, da imortalidade da alma, da transmigração das almas, e outras do gênero não poderão nunca terminar em uma certeza objetiva, e qualquer coisa de objetivo que seja dito a respeito dessas coisas não possui valor algum.

Quando critico os filósofos pós-modernos (os pós-kantianos) é porque todos eles aspiraram a este tipo de conhecimento, donde que os seus sistemas não são nada mais do que quimeras dogmáticas. Não possuem valor algum como conhecimento. E como quase todas não possuem interesse prático associado, são imprestáveis também como crenças, e por isso quase toda a filosofia pós-moderna resulta simplesmente em um grande Nada. São mais de dois séculos de laborioso trabalho intelectual para nada, simplesmente porque o objeto da investigação nunca poderá ser conhecido, com a menor probabilidade de verdade. É por isso que há tantos sistemas filosóficos que nunca terminam o seu trabalho e nunca nos permitem concluir nada. Eles não vão concluir nunca. O trabalho deve ser interrompido o mais rápido possível, de modo que pelo menos os prejuízos cessem, já que o se encontra para trás não pode mais ser mudado. As faculdades de filosofia estão ensinando, em grande parte, apenas dogmas existencialistas, que não conseguem provar e nem largar. Mas é preciso largar, por mais que doa a consciência o abandono de todo o trabalho inútil produzido.

Vejamos então alguns exemplos de filósofos que tentaram inutilmente conhecer coisas que não podem ser representadas no tempo e no espaço. Primeiramente Friedrich Nietzsche, que tentou falar algo de objetivo acerca do livre-arbítrio, em Humano, demasiado humano, item 39:
"39. A fábula da liberdade inteligível - A história dos sentimentos em virtude dos quais tornamos alguém responsável por seus atos.... (...) De maneira que sucessivamente tornamos o homem responsável por seus efeitos, depois por suas ações, depois por seus motivos e finalmente por seu próprio ser. E afinal descobrimos que tampouco este pode ser responsável, na medida em que é inteiramente uma consequência necessária e se forma a partir dos elementos e influxos de coisas passadas e presentes: portanto, que não se pode tornar o homem responsável por nada, seja por seu ser, por seus motivos, por suas ações ou por seus efeitos. Com isso chegamos ao conhecimento de que a história dos sentimentos morais é a história de um erro, o erro da responsabilidade, que se baseia no erro do livre-arbítrio." (grifos em negrito e sublinhado meus)
E conclui (dogmaticamente):
"Ninguém é responsável por suas ações, ninguém é responsável por seu ser; julgar significa ser injusto. Isso também vale para quando o indivíduo julga a si mesmo. Essa tese é clara como a luz do sol: no entanto, todos preferem retornar à sombra e à inverdade: por medo das consequências." (grifos em negrito e sublinhado meus)
De maneira similar Schopenhauer, em Fragmentos sobre a história da filosofia, §13:
A afirmação de que um dado ser é livre, ou seja, de que pode agir em determinadas circunstâncias desse ou de outro modo significa que ele possui uma existentia sem nenhuma essentia; em outros termos, que apenas existe sem ser alguma coisa e, portanto, nada é, mas existe, o que faz com que seja e não seja ao mesmo tempo. Por conseguinte, embora esse seja o cúmulo do absurdo, não obstante é bom para as pessoas que buscam não a verdade, mas seu revestimento e, por isso, nunca admitem nada que não corresponda às suas intenções, à fable convenue de que vivem. (grifos originais)
O pretenso absurdo da ideia se deve justamente ao fato de não a podermos representar no tempo e no espaço. Mas como se prova que só existe o que pode ser assim representado? O leitor experimentado não terá dificuldade em refutar a falácia schopenhaueriana ponto por ponto. Eu já desafiei diversas vezes (por mera formalidade, porque tenho absoluta certeza que não serei respondido) todos os adeptos dos sistemas que negam o livre-arbítrio a mostrarem qual foi o fundamento utilizado para afirmar objetivamente que o livre-arbítrio é impossível, que é uma fábula. O seu fundamento, ou o fundamento de sua aparência, não pode ser representado no tempo ou no espaço. Logo, esse conhecimento é impossível, seja a favor da tese, seja contra ela. De onde então Nietzsche, Schopenhauer e vários outros retiraram esse "conhecimento", que não de suas próprias imaginações férteis? Vejamos o que mais disse Schopenhauer:
Se, portanto, esta coisa em si, como creio ter demonstrado suficientemente e provado claramente, é a vontade, ela existe enquanto tal e separada de seu fenômeno fora do tempo e do espaço; ela não conhece a pluralidade, ela é, por conseguinte uma só; todavia, ela não o é à maneira de um indivíduo ou de um conceito, mas como uma coisa à qual o princípio de individuação - isto é, a própria condição de toda pluralidade possível - é estranho. (Schopenhauer em O mundo como vontade e representação, Livro II, § 25)
Realmente é estranho. Mas mas estranho ainda é como é que Schopenhauer pode saber que a coisa-em-si, cujo fundamento está fora do tempo e do espaço, não conhece a pluralidade (ou seja, que ela é apenas uma coisa-em-si e não pode ser, por exemplo, duas coisas-em-si)? De onde veio essa demonstração "evidente" que não da própria imaginação de Schopenhauer aliada à cobiça do conhecimento de coisas que não se encontram no tempo e no espaço?

Outro sofista que também cobiçou conhecimentos inacessíveis foi Martin Heidegger, que é bastante conhecido não só pela sua extensa obra, mas pelo fato de não a haver concluído. Mas o que é que ele investigava? O ser, que é suprassensível e igualmente não pode ser representado no tempo e no espaço. Logo, podemos dizer com absoluta certeza que ele poderia viver mais 500 anos e ele não terminaria a sua obra (a não ser que desse um passo dogmático), assim como podemos afirmar que todas as suas divagações em sua obra principal não possuem utilidade prática alguma; são apenas conceitos possíveis ligados a outros conceitos possíveis, mas que não conseguem nunca estabelecer um único vínculo que seja com a realidade que o permita avançar um passo sequer na senda do conhecimento. Eis um trecho de sua obra:
A distinção entre ser e ente é temporalizada na temporalização da temporalidade. (...) A distinção entre ser e ente é pré-ontologicamente, sem um conceito explícito de ser, latente na existência do Dasein. Enquanto tal ela pode tornar-se uma diferença explicitamente compreendida. No fundamento da temporalidade pertence a existência do Dasein a unidade imediata da compreensão do ser e do comportamento em direção ao ente. Somente porque essa distinção pertence a existência ela pode tornar-se explícita em diferentes modos. (...) Por esta razão chamamos a distinção entre ser e ente,quando ela é executada explicitamente, de diferença ontológica [die ontologische Differenz]. (Martin Heidegger) (grifos originais)

Fonte: Numen: revista de estudos e pesquisas da religião, v. 7, n. 2, artigo Heidegger, Schelling e a Liberdade, de Acylene Maria Cabral Ferreira, págs. 107 e 108.
Não é preciso nos estendermos na análise, porque o objeto da investigação ontológica (leia-se investigação do contingente pela razão pura por meio de meros conceitos), ou seja, o ser, não pode ser representado no tempo e no espaço. A criação e a ligação de novos conceitos entre si ou com conceitos antigos apenas visa confundir e impressionar o leitor, criando uma aparência de intelecção e erudição que não poderia ser alcançada pelas "mentes comuns". Mas não há nada, porque esses conceitos podem ser criados e interligados ao nosso bel prazer, desde que não se contradigam e obedeçam aos mais rigorosos critérios lógicos. É como transformar uma equação indeterminada simples em uma equação complexa, na qual se é preciso muito esforço (que a maioria de nós não estará disposta a fazer) para pelo menos entender o que se quer dizer com os novos termos criados arbitrariamente e no final a maioria concederá ao gênio criativo o título de grande sábio, por ter sido capaz de pensar (eu diria criar) algo tão complexo e profundo.  Reparem no exemplo matemático abaixo, em que eu tenho uma simples indeterminação "a" e "b":

a + b = 5

A equação é indeterminada porque eu não consigo saber o valor de "a" ou de "b" (pode ser 0 e 5, 1 e 4, 2 e 3, etc., ao infinito). Eu não posso, portanto, resolver essa equação; aqui é o meu ponto de parada. Porém, eu também não tenho nenhuma necessidade de complicar o meu problema inicial. Mas se eu criar arbitrariamente conceitos novos e novas relações de identidade, eu posso complicar o quanto eu quiser. Por exemplo, se eu assumir que "a = c + d" e que "b = t + f", sendo que "c", "d", "f" e "t" são variáveis ou conceitos novos criados arbitrariamente ao meu bel prazer (desde que sua combinação seja adequada ao conceito original de onde se derivam), vejam como a indeterminação que era em princípio simples de entender pode se tornar bastante complexa:


Simplifiquem isso tudo (quem tiver paciência) e, se eu não cometi erro algum na elaboração, o leitor chegará ao mesmo problema inicial (a+b=5=c+d+t+f) que não conseguia resolver. E depois me digam quanto tempo levaram para retornar exatamente ao mesmo ponto de partida, sem ter avançado um infinitésimo que seja no conhecimento. Reparem que aqui foram criadas mais quatro variáveis (conceitos) que não eram aquilo que eu inicialmente queria saber. Eu apenas preciso saber "a" e "b", mas não preciso conhecer "c", "d", "f" e "t". A equação acima representa exatamente o mesmo problema inicial, mas o público leitor desse gênio vai se persuadir de que há algo de profundo escondido nesses conceitos e relações novas que precisam ser desvendadas. Cria-se então o mito do grande filósofo, que fora capaz de pensamentos tão profundos, tão "a frente do nosso tempo", que ninguém antes pensara (também pudera, são arbitrários e, portanto, subjetivos e podem ser inovadores ao infinito) e que ninguém de inteligência mediana, um "mero mortal" como nós, é capaz de compreendê-lo, não sem um mestrado ou doutorado em filosofia, e mesmo assim para compreender o sábio apenas parcialmente. Hegel também era assim. Ele multiplicava o problema para criar a aparência de erudição e sabedoria, quando na verdade nada há por detrás do palavrório prolixo dele. Em fenomenologia do espírito, Hegel escreveu (grifos em negrito e sublinhado meus):
805 [In dem Wissen hat] No saber, portanto, o espírito concluiu o movimento de seu configurar-se enquanto esse [configurar-se] é afetado pela diferença não-superada da consciência. O espírito ganhou o puro elemento do seu ser-aí, - o conceito. O conteúdo é, segundo a liberdade de seu ser, o Si que se extrusa, ou a unidade imediata do saber-se a si mesmo. O puro movimento dessa extrusão, considerado no conteúdo, constitui a necessidade desse mesmo conteúdo. O conteúdo diversificado está como determinado na relação; não é em si. Sua inquietude é suprassumir-se a si mesmo, ou a negatividade: assim é a necessidade ou a diversidade; é tanto o si quanto é o ser livre; e nessa forma de-Si, em que o ser-aí é imediatamente pensamento, - o conteúdo é conceito.
O palavrório erudito e praticamente indecifrável nos dá a impressão de que deva haver algo de profundo por trás quando na verdade nada mais há do que pura crença travestida de conhecimento. E não há limites para a criação e a fantasia. As novas variáveis podem ser quaisquer coisas, desde números ou funções até sinfonias de Beethoven, concertos de Mozart, poemas, sons, luzes e cores. Veja-se, por exemplo, as respostas de Gilles Deleuze ao questionamento de Claire Pernet, no famoso Abecedário de Gilles Deleuze, gravado em vídeo e encontrado facilmente na Internet, na letra "H" de História da Filosofia. Recorro aqui a uma tradução livre, cuja fonte indico abaixo da citação:
Claire Parnet: Sabemos qual é a utilidade da história da Filosofia para você. Mas, para as pessoas de modo geral? Já que você não quer falar da especialização da Filosofia e que a Filosofia se dirige também aos não-filósofos.

Gilles Deleuze: Isso me parece muito simples. Só se pode entender o que é a filosofia, a que ponto ela não é uma coisa abstrata, da mesma forma que um quadro ou uma obra musical não são absolutamente abstratos, só através da história da Filosofia, com a condição de concebê-la corretamente. Afinal, o que é... Há uma coisa que me parece certa: um filósofo não é uma pessoa que contempla e também não é alguém que reflete. Um filósofo é alguém que cria. Só que ele cria um tipo de coisa muito especial, ele cria conceitos. Os conceitos não nascem prontos, não andam pelo céu, não são estrelas, não são contemplados. É preciso criá-los, fabricá-los. Haveria mil perguntas só neste ponto. Estamos perdidos, pois são tantas questões. Para que serve? Por que criar conceitos? O que é um conceito? Mas vamos deixar isso para lá por enquanto.

(...)

Muito tempo depois, há um filósofo chamado Leibniz, que faz e inventa um conceito bem extraordinário, a que chamará de "mônada", e escolhe uma palavra técnica, complicada: "mônada".

E, nos conceitos, há sempre algo um pouco louco... Essa mãe que só seria mãe, em outro caso, a idéia pura. Há algo um pouco louco. Pois bem, a mônada leibniziana designa um sujeito, alguém, você ou eu, enquanto alguém que exprime a totalidade do mundo. E ao exprimir a totalidade do mundo, ela só exprime, claramente, uma pequena região do mundo: seu território. Já vimos, já falamos do território. Seu território, ou o que Leibniz chama seu "departamento". Portanto, uma unidade subjetiva que exprime o mundo inteiro, mas só exprime claramente uma região, um departamento do mundo, é o que ele chama uma mônada. Aí também é um conceito, ele o cria, esse conceito não existia antes dele, pergunta-se: mas por quê? Porque ele o cria, é muito bonito, mas por que fazê-lo, por que dizer isso e não outra coisa? É preciso encontrar o problema, não que ele o esconda, mas se não o procuramos um pouco, não o encontraremos. É esse o charme de ler filosofia. Tem tanto charme e é tão divertido quanto ler um romance, ou olhar quadros. É prodigioso...

Fonte: http://www.oestrangeiro.net/esquizoanalise/67-o-abecedario-de-gilles-deleuze
Ou seja, fazer filosofia agora é um mero divertimento. Deixou de ser há muito uma atividade séria. Por falta de coisa melhor para fazer, vamos criar conceitos! Para quê? Porque é bonito! E a pieguice filosófica prossegue. E ainda envolveu Leibniz nessas fantasias. Certamente que o conceito de mônada de Leibniz não se sustenta. Porém Leibniz não criava conceitos porque era "bonito", mas ele buscava um entendimento sério e são, e nessa busca séria ele estava sujeito ao erro. Mas isso nada tem a ver com a arte ou com a beleza, que não passam de divagações fantasistas e deslumbradas de Deleuze. E se o leitor aceita um conselho, quando quiser a arte, busque os legítimos artistas, os escritores de contos que visam unicamente o deleite do espírito (Shakespeare, Sófocles, Machado de Assis, etc...), e saia fora dessas cópias mal imitadas da arte (Nietzsche, Deleuze e outros) que ultimamente se convencionou chamar de filosofia. E pelo contrário, quando o leitor buscar a Filosofia, ou seja, quando buscar respostas sérias para um objetivo sério, afaste-se de tudo o que tiver o menor viés artístico como nos afastamos de uma lepra, a menos que queira ser seduzido e iludido pela beleza da exposição, mas em geral vazia de conteúdo.

Convido o leitor a ler o artigo indicado acima da revista Numen e dizer a que conclusão afinal chegou com aquilo tudo. Não vai chegar a nada, a indeterminação inicial permanecerá e ele vai terminar o texto mais confuso do que quando começou. Na equação, precisamos passar a Navalha de Ockham para simplificar o problema àquilo que eu realmente quero saber ("a" e "b"), e esquecer o resto, que não vai me levar a lugar algum. Se eu quiser a diversão eu vou buscar a ficção, filmes, literatura, teatro, música. Mas quando busco a Filosofia eu quero respostas, e respostas sérias, e não simplesmente diversão, charme. Mas como está, na reformulação, com os "conceitos novos", as variáveis "a" e "b" estão blindadas e praticamente ocultas em um monte de conceitos que para nada servem, pois são arbitrários. A interpretação então despende um enorme tempo, com conceitos arbitrários que muitas vezes levam a outros conceitos arbitrários, e isso dá muito trabalho aos filósofos, às faculdades de filosofia, com muitos livros, teses, artigos e muito mais.

O objetivo que almeja todo o nosso esforço especulativo reside nestes objetos basicamente: Deus, alma e mundo. Existe ou não existe Deus, e qual a sua forma de existência? Existe ou não existe a alma? Existe ou não existe um mundo (visto que há filósofos que duvidaram, como Descartes, ou que simplesmente afirmaram que não existia um mundo, como Berkeley e Schopenhauer). São essas de fato as minhas indeterminações, pois disso nada podemos conhecer (pois não se representam no tempo e no espaço) e no entanto é o que mais quero saber. Se pudéssemos conhecer apenas esses objetos a filosofia especulativa teria alcançado o seu fim e não seria mais necessária. Todos os filósofos em geral trabalham com essas matérias, mas quase todos multiplicam os conceitos e as relações e, consequentemente, o problema. É assim que, com Heidegger acima, a questão sobre a liberdade da vontade torna-se a questão do ser, que rapidamente se deriva para "ente" e "daisen" de forma "pré-ontológica". E aparecem os termos "temporalizada", "temporalização" e "temporalidade", tudo isso em um único parágrafo, que o coitado do leitor tem primeiramente entender o que se quis dizer com cada coisa e depois descobrir como isso se relaciona entre si e com a pergunta fundamental, que no final nunca será respondida (pois é uma indeterminação) ou será respondida de forma dogmática, como Nietzsche e Schopenhauer nos exemplos que dei acima, que simplesmente determinaram que a liberdade da vontade (responsável pelo livre-arbítrio) não existe. É nisso que tem se resumido a filosofia nos últimos mais de 200 anos, e por isso ela tem sido, com raras exceções, inútil e foco de perigosas ideologias, que se formam sobre esses conceitos arbitrários. Daí que insisto que todo esse longo trabalho prolixo devia se encerrar e ser considerado como inexistente.

Portanto, não é preciso sempre avaliar o conteúdo da obra para saber que ela nada nos ensinará: basta avaliar o seu objeto de discussão e constatar que se trata de coisas que não se deixam representar no tempo e no espaço e que por isso (e só por isso) é inútil despender tempo com ela com o fim de um conhecimento objetivo.

Como outro exemplo, vejamos Schelling, na mesma revista Numen citada acima, pág. 110:
Considerando-se que nada é antes ou fora de deus, deus deve possuir em si mesmo o fundamento de sua existência. (...) Se nada, porém, pode ser fora de deus, essa contradição só pode se resolver quando se considera que as coisas têm seu fundamento naquilo que, em deus, não é ele mesmo, ou seja, naquilo que é fundamento de sua existência. (...) O fundamento é somente uma vontade de revelação e para que esta aconteça deve proclamar o ser próprio e a contradição. (Schelling)
Schelling está tentando um conhecimento a respeito Deus (ou sua aparência) e da existência em si. De novo a mesma questão fundamental indeterminada. Ele não chega a lugar algum da mesma forma que seus antecessores e sucessores (como Hegel, Marx), pois investigam algo que não pode ser representado no tempo e no espaço.

Fato curioso é também que a "certeza" é tanta acerca de coisas suprassensíveis que não se podem representar no tempo e no espaço, que mesmo adeptos do que deveria ser um mesmo sistema, como o protestantismo, divergem sobre certas questões capitais. É de novo a cobiça de conhecer o que não pode ser conhecido. Vejam os dois exemplos abaixo, a respeito novamente do livre-arbítrio. Primeiramente o site EclesiaNet:
Deus está no controle de tudo?
Um dos grandes mistérios na vida do cristão, é o processo de conhecer á Deus, como Ele reage em relação á nós? Como é sua resposta em relação as nossas necessidades? Como Deus age e como e quando é que nós precisamos agir?
Precisamos compreender o comportamento de Deus. Ele é Imutável, Onisciente, Onipotente e Onipresente; estas são características implícitas no caráter de Deus. Porém Deus deu ao homem o livre arbítrio, o direito de escolha, o direito de tomar decisões e se responsabilizar pelas decisões que tomar.
Dizer que Deus está controle de tudo, isenta o homem de suas responsabilidades e de seu livre arbítrio. (grifos meus)
Fonte: http://www.eclesianet.com/deus-esta-no-controle-de-tudo/
Já a Igreja Evangélica Cristo Vive diz o seguinte:
A Falsidade do Livre Arbítrio
PENSAMENTO: Martin Lutero disse: "Se alguém atribui alguma parte da salvação, ainda que seja a mais insignificante, ao livre arbítrio do homem é porque não sabe nada a respeito da graça de Deus, e não conhece Jesus Cristo como realmente é devido". (grifo meu)
Fonte: http://igrejacristovive.com.br/apostilas/a-falsidade-do-livre-arbitrio/
Se eu fosse protestante eu ficaria realmente muito confuso com todas essas "certezas objetivas". O mesmo ocorre do lado ateísta. Vemos ateus que negam e outros que admitem o livre arbítrio, e todos têm muitas "certezas" sobre o que dizem.

Para fechar os exemplos deste mandamento, sem dúvida um dos mais violados, segue mais um argumento sofístico:
Cientistas tentam provar a existência da alma
O médico americano Stuart Hamerroff e o físico britânico Sir Roger Penrose afirmaram que podem provar cientificamente a existência da alma.
Em entrevista ao Daily Mail, eles explicam a teoria quântica da consciência, que revela que as almas estão contidas dentro de estruturas chamadas de microtúbulos, os quais vivem dentro de nossas células cerebrais. (grifos meus)
Fonte: http://noticias.band.uol.com.br/ciencia/noticia/Default.asp?id=100000547279
Como é que a alma (que é o ser livre), que conceitualmente precisa ser simples, pode ser representado no tempo e no espaço e imaginado dentro de microtúbulos? É quimérica a conclusão e não vale a pena sequer perder tempo em refutar isso.

Não são necessários mais exemplos. O leitor experimentado poderá então examinar as grandes obras filosóficas e científicas simplesmente pela avaliação do objeto investigado, sem que precise lê-las todas. Se se objetiva um conhecimento objetivo de um determinado contingente e o objeto investigado não pode ser representado no tempo e no espaço, já se pode concluir, de antemão, que a obra não chegará a lugar algum e se chegar só o poderá ter sido de forma dogmática. E soluções dogmáticas só servem para aprofundar a nossa ignorância, porque julgamos conhecer algo quando na verdade não conhecemos nada.

No entanto, discussões acerca dessas coisas contingentes que não se representam no tempo e no espaço são possíveis no âmbito da Filosofia Prática (e apenas nesse âmbito), o que não é o objeto deste ensaio.

Exemplos do sexto mandamento
"Por meio de demonstrações apagógicas não darás falso testemunho; testemunharás a verdade sempre por meio de demonstrações diretas."
Como já explicado na observação 2 acima, demonstrações apagógicas na filosofia não demonstram nada, porque nunca podemos estar certos do número total de opções a fim de podermos julgar por exclusão. E também porque em geral recaímos em uma série de aparentes paradoxos ou indeterminações para qualquer lado que julguemos (como na questão se o universo é finito ou infinito), que não conseguimos demonstrar qual dos "absurdos" é mais factível. O meio de reconhecermos o uso das demonstrações apagógicas é o apelo ao argumento contrário ao que se quer demonstrar, no qual se tenta provar o seu absurdo (evidentemente ignorando o absurdo do seu próprio argumento). Então, aquele que quer provar a finitude, vai tentar demonstrar o absurdo da infinitude, e assim sucessivamente. Vejamos abaixo alguns exemplos reais:

No vídeo http://youtu.be/Rj6x3zSg0rc, publicado no Youtube e intitulado como O Argumento Cosmológico, o Dr. William Lane Craig, teólogo e filósofo analítico, argumenta:
...Número um, o Argumento Cosmológico. A pergunta "Porque as coisas existem?" é a mais profunda questão da Filosofia. O filósofo Derek Parfit diz "Nenhuma pergunta é mais sublime do que 'Porque há um Universo? Porque existe algo em vez de nada?'" tipicamente, os ateus respondem a essa pergunta dizendo que o Universo é apenas eterno e sem causa. Mas há boas razões, tanto filosóficas quanto científicas, para pensar que o Universo começou a existir. Filosoficamente, a ideia de um passado infinito parece absurda. Pense nisso! Se o Universo nunca começou a existir, isso significa que o número de eventos passados na história do Universo é infinito. Mas os matemáticos reconhecem que a existência de um número infinito de coisas leva a auto-contradições...
Reparem nos grifos. Ele quer demonstrar que o Universo começou a existir (que é finito no tempo). Mas ele começa argumentando que "se o Universo nunca começou a existir..." (ou seja, se ele fosse infinito no tempo...). O argumento apagógico é aqui então evidente. Mais a frente Dr. William Craig continua:
...Agora, como a causa do espaço e do tempo, esse deve ser um Ser não-causado, atemporal, aespacial, imaterial e de poder incompreensível. Além disso, ele deve ser também pessoal. Porque? Porque a causa deve transcender espaço e tempo. Portanto, não pode ser física ou material. Agora, há apenas dois tipos de coisas que se encaixam nessa descrição. Ou um objeto abstrato, como números, ou uma mente pessoal. Mas, objetos abstratos não podem causar nada. Portanto, segue-se que a causa do Universo é uma mente transcendental e inteligente. Assim, o argumento cosmológico nos dá um Criador pessoal do Universo.
Aqui novamente ele quer demonstrar que a causa do Universo deve ser também pessoal. Mas ele não prova isso diretamente, mas apenas argumenta que não pode ser física ou material e que também que não pode ser abstrata, ou seja, ele tenta demonstrar o absurdo dos dois argumentos contrários. Logo, o Criador deve ser pessoal. A demonstração apagógica está aqui novamente evidente. Só que isso não demonstra nada, pois não temos como ter certeza se as opções são apenas uma causa física, material, abstrata ou pessoal. Se houver uma quinta opção o argumento cai todo por terra. Logo, isso é um falso testemunho por  meio de argumentos apagógicos. E não são apenas os teístas que jogam esse jogo. No site da ateus.net encontramos um artigo intitulado Doze provas da inexistência de Deus, de um tal Sebastien Faure (1858-1942). Depois de admitir a inexistência de provas diretas acerca da inexistência de Deus, devido ao "estado atual dos conhecimentos humanos", ele escreveu:
Todavia, há uma segunda maneira de estudar e de tentar a resolução da inexistência de Deus: consiste em examinar a existência de Deus que as religiões apresentam à adoração dos crentes.
Ora, ele aqui pretende provar a inexistência de Deus examinando a existência de Deus tal como apresentado pelas religiões e apontando os pretensos absurdos. De novo o argumento apagógico está aqui em evidência. Mas como saber se as concepções de divindade que as religiões apresentam ao mundo são as únicas possíveis concepções de divindade? Mais um exemplo bem recente: no dia 2/10/2012 lemos a seguinte notícia no website Última Revelação:
CIENTISTA PROVA A EXISTÊNCIA DE DEUS E GANHA PRÊMIO
Através de leis da física e da filosofia, pesquisador polonês Michael Keller mostra que Deus existe e ganha um dos mais cobiçados prêmios. Ele montou a sua metodologia a partir do chamado “Deus dos cientistas”: o big bang, a grande explosão de um átomo primordial que teria originado tudo aquilo que compõe o universo.
(...)
O que é a “Teologia da Ciência”? Em poucas palavras, ela se define assim: a ciência encontrou Deus. E a isso Keller chegou, fazendo-se aqui uma comparação com a medicina, valendo-se do que se chama diagnóstico por exclusão: quando uma doença não preenche os requisitos para as mais diversas enfermidades já conhecidas, não é por isso que ela deixa de ser uma doença. De volta agora à questão da formação do universo, há perguntas que a ciência não responde, mas o universo está aqui e nós, nele. Nesse “buraco negro” entra Deus. (grifo meu)
Fonte: http://www.ultimarevelacao.com/2012/10/cientista-prova-existencia-de-deus-e.html
O termo grifado "diagnóstico por exclusão" não deixa nenhuma dúvida acerca da natureza da pretensa prova da existência de Deus, ou seja, trata-se de "provas apagógicas". Tanto o do Dr. Craig, como esse tal Sebastien Faure ou Michael Keller, apenas reciclam velhas ideias e métodos com novas roupagens.

Por fim, como ninguém escapa das demonstrações apagógicas em algum momento da vida, cito abaixo uma fala minha própria, que faz parte do meu index expurgatorius, emitida em 11/1/2006 no antigo fórum Portal do Espírito, que não está mais disponível mas do qual eu retive uma cópia em PDF. Na época escrevi:
Uma das maneiras de obtermos o conhecimento de uma coisa é conhecermos o que ela não pode ser.
(...)
Eu responderei, de antemão, que não existe outra teoria que resolva todos os problemas. Então, descartando-se todas as hipóteses, que positivamente não solucionam o problema, e ficando somente com as hipóteses que resolvem (que só há uma, na minha opinião), então podemos fundamentar positivamente a existência dos espíritos.
Aqui vê-se o mesmo argumento apagógico que estou agora censurando em outros. Cito apenas para mostrar que eu próprio, que aqui censuro os dogmáticos, também tive a minha própria fase dogmática, assim como quase todos nós. Mas o que ocorria comigo é o mesmo que ocorre com todos: uma tendência natural da razão a se exceder unida ao desconhecimento de uma crítica da razão. De fato, o meu primeiro contato com a obra kantiana se deu ao final de 2010, e tudo meu que é anterior a isso possui suspeita fundamentada de ranço dogmático, muito embora eu tenha feito um exame por amostragem nas minhas postagens antigas e a situação não estar tão ruim quanto eu em princípio imaginava. Mas completamente limpo de dogmatismo também não está. Por isso tenho insistido com quem converso que a crítica devia ser ensinada nas escolas, nas séries superiores do ensino fundamental ou quando mais tarde no ensino médio, a fim de que se pudesse cortar o dogmatismo pela raíz. Muitos prejuízos especulativos seriam evitados caso isso fosse feito.

E sobre as demonstrações apagógicas, vale a pena a leitura de uma palavra de Kant a respeito delas, para reforço da ideia:
O modo apagógico de demonstrar é também a verdadeira ilusão com que se deixam prender sempre os admiradores da solidez dos nossos raciocínios dogmáticos; é, por assim dizer, o campeão que quer provar a honra e o direito inatacável do partido que abraçou, empenhando-se em cruzar o ferro com tudo o que o puser em dúvida, embora por essa fanfarronada nada se prove em favor da coisa, mas unicamente mostre as forças respectivas dos adversários ou mesmo apenas as do agressor. Os espectadores, vendo que cada um, por sua vez, é ora vencedor, ora vencido, encontram muitas vezes ocasião para duvidar ceticamente do próprio objeto da luta. Mas não há razão para isso e basta gritar-lhes: Non defensoribus istis tempus eget. Cada qual deve estabelecer a sua causa mediante uma demonstração legítima, conduzida pela dedução transcendental dos argumentos, isto é, diretamente, para que se veja o que as suas pretensões racionais podem alegar em seu favor. Com efeito, se o adversário se apóia em razões subjetivas é certamente fácil contradizê-lo, mas sem vantagem para o dogmático que, da mesma forma, está ligado aos motivos subjetivos do juízo e semelhantemente pode ser levado à parede pelo adversário. Mas se ambas as partes procederem diretamente, então, ou por si próprias observarão a dificuldade e mesmo impossibilidade de encontrar o título que apóia as suas afirmações e só poderão no fim de contas invocar a prescrição, ou a crítica descobrirá facilmente a aparência dogmática e forçará a razão pura a abandonar as suas pretensões exageradas no uso especulativo e a retirar-se para dentro dos limites do seu próprio terreno, isto é, dos princípios práticos. (A 794 B 822) (grifos em negrito e itálico meus)

Exemplos do sétimo mandamento

"Não tentarás o vosso Espírito a conhecer apenas por si mesmo o contingente, mas antes honrarás e prestigiarás a ciência empírica neste objetivo."

A razão, como já disse, tem fome e sede de conhecimento. Só que o contingente somente pode ser conhecido por meio da experiência, ou seja, precisamos do concurso de pelo menos um dos nossos 5 sentidos. Quando nos falta a experiência, a razão tende a produzir internamente imagens na intuição (que chamamos de imaginação), donde que a falta da intuição externa (a experiência) é suprida pela intuição interna. Não é possível sair nada daí a não ser ficções, boas para produzir filmes interessantes para o cinema, contos para a literatura, mas não para quem deseja conhecimento sólido e verdadeiro. Somente a Ciência empírica pode nos prover as intuições externas, por meio da experiência, que podem se tornar matéria para conhecimentos, ao passo que a razão por si própria nenhum conhecimento do contingente pode obter. A razão por si própria só pode conhecer o necessário. Então o sentido do mandamento é seguinte: não devemos tentar o nosso Espírito  (ou seja, a nossa razão) a conhecer por si mesmo o contingente, porque ele, na falta da experiência, acabará por suprir pela imaginação a matéria necessária para o conhecimento, o que resultará em mais nada além de ficções. Devemos, portanto, ter paciência e honrar a Ciência empírica nessa busca (ou seja, esperar pelos seus resultados empíricos) a fim de que somente ela nos forneça a matéria para o conhecimento certo. A simples tentativa de conhecer pela razão pura, mesmo sem compromisso algum se chegar ao fim, é uma violação deste mandamento.

Como exemplo, cito um sofista italiano de nome Pietro Ubaldi, muito popular no Brasil do século passado e que até mesmo hoje conta com alguns adeptos. Ele dizia que o que escreveu era muito "avançado" para os nossos dias e que antecipava a Ciência. Reparem no palavreado grifado, retirado de seu livro As Noúres, cap. 1 - Premissas:
O tema que vou desenvolver, se pode parecer avançado para os nossos dias, amanhã será de domínio científico; e é também de interesse atual para a grande maioria que apenas começa a agitar-se.
(...)
Aqui está todo um ser que se movimenta, coração e inteligência, num espasmo de humanidade e super-humanidade, que não pode deixar de despertar ressonâncias noutras almas. E aqui são postos de frente os mais graves problemas da psique e do espírito, e dessa superdelicada ciência do futuro, em que se fala de ondas-pensamento, de ressonâncias intelectivas, de captação de correntes psíquicas, de atrações e simpatias entre os mais distantes centros vibratórios do universo.
Aqui, se defronta um novo método de pesquisa científica por intuição e uma nova técnica de pensamento, que circunda os problemas por espiras concêntricas, comprime-os em ângulos visuais progressivos, afronta-os por visões de concepção poliédrica, aproximando-se sempre, cada vez mais, de sua íntima estrutura até desnudá-los em sua essência.
Problemas científicos, profundos, do futuro, que eu antecipo e investigo para resolvê-los.
Fonte: http://www.ubaldi.org/obra/livros/as-noures/capitulos/35-premissas
Vê-se aqui claramente que ele quer fornecer a matéria do conhecimento pela imaginação (que ele chama de "pesquisa científica por intuição"). Em outras palavras, ele quer conhecer o contingente pela razão pura, em total desprestígio à Ciência, para tentar chegar antes dela, por um atalho intelectual, ao objetivo que ela laboriosamente persegue. O resultado disso tudo já sabemos: um monte de bobagens e ficções. Todos os exemplos do quinto mandamento também se encaixariam perfeitamente neste, de modo que não vou mais me alongar.

Exemplos do oitavo mandamento

"Não tomarás em vão o nome da Ciência e da Filosofia para falar em teu favor a respeito daquilo que nada sabes, porque o tribunal da razão não terá por inocente aquele que assim o fizer."

A maior parte do nosso conhecimento não brotou de nós mesmos, mas nos foi ensinado pela Ciência ou pela Filosofia. Isso é fato. Porém isso não significa que devamos anular o nosso entendimento em razão da autoridade da Ciência e da Filosofia. Se eu realmente entendi o que me foi ensinado, eu devo ser capaz de explicar por mim mesmo, sem recorrer à autoridade de cientistas ou filósofos. Recorrer a "autoridades" do assunto quando nada se sabe a respeito de tal questão é a maneira mais fácil de um ignorante arrotar sapiência. "Não sou eu quem digo, mas o grande filósofo ou cientista fulano de tal quem afirma", é um argumento muito utilizado. Não que seja proibido citar pessoas para ajudar a reforçar o argumento, mas eles não devem ser citados para suprir a minha falta de entendimento. Acima eu já havia citado o Dr. William Lane Craig, teólogo e filósofo analítico. No mesmo vídeo citado acima encontramos:
...A pergunta "Porque as coisas existem?" é a mais profunda questão da Filosofia. O filósofo Derek Parfit diz "Nenhuma pergunta é mais sublime do que 'Porque há um Universo? Porque existe algo em vez de nada?'" tipicamente, os ateus respondem a essa pergunta dizendo que o Universo é apenas eterno e sem causa. (...) David Hilbert, talvez o maior matemático do século XX, escreveu: "O infinito não pode ser encontrado em nenhum lugar da realidade. Não existe na natureza, nem fornece uma base legítima para o pensamento racional. O papel que resta para o infinito exercer é somente o de uma ideia." Como o físico P.C.W. Davies explica: "A vinda do universo à existência, como discutida na ciência moderna, não é apenas uma questão de impor alguma organização num estado caótico anterior, mas é literalmente a vinda à existência de todas as coisas físicas a partir do nada." Isso põe os ateus numa posição muito desconfortável. Como Anthony Kenny, da Universidade de Oxford realça: "Um proponente da teoria do Big Bang, se ele é um ateu, deve acreditar que o Universo veio do nada e por meio de nada." Mas, certamente, isso não faz sentido! Do nada nada vem!...
Em um vídeo de 4 minutos ele recorreu a 4 "autoridades" no assunto para sustentar o seu argumento. Mas será que ele sabe explicar porque o infinito não pode ser encontrado em nenhum lugar da realidade? Na verdade, o finito parece tão incompreensível quanto o infinito.  Ou como algo pode vir à existência a partir do nada? Ou como a primeira existência veio a existir? Ele provavelmente não sabe explicar por si mesmo, e então ele recorre a autoridade de quem pretensamente explicou, de modo que ele se desonerasse dessa atribuição e a coisa passasse por plenamente demonstrada, quando na verdade nem ele nem os sábios citados por ele resolveram essas questões.

Schopenhauer também era mestre em recorrer a esse expediente. Em sua obra O Mundo como Vontade e Representação, Livro I, §5, encontramos o seguinte:
...Mas, se apesar de tudo, como acontece muitas vezes, não se consegue descobrir a presença ou ausência de uma ligação de causalidade entre um acontecimento passado e o estado presente, sempre será impossível decidir se um fato aconteceu ou se foi simplesmente sonhado. É aqui que se manifesta ao pensamento a semelhança íntima que existe entre a vida e o sonho; ousemos proclamar uma verdade reconhecida e proclamada por tantos grandes espíritos. Os Vedas e os Puranas, para representarem com exatidão o mundo real, "essa teia de Maia", comparam-no geralmente a um sonho. Platão repete muitas vezes que os homens vivem num sonho e que só o filósofo procura manter-se acordado. Píndaro (II, v. 135) diz: umbrae somnium homo, e Sófocles:
"Descobri, na verdade, que todos nós que vivemos não passamos de imagens e frágil sombra." (Ajax, 125)
Ao lado destes mestres, Shakespeare merece também ser citado:
"Somos feitos da matéria de que são tecidos os sonhos e a nossa vida tão curta tem por fronteira um sono." (A tempestade, Ato 4, Cena 1)
Enfim, Calderón estava tão profundamente penetrado por esta ideia que a tornou o assunto de uma espécie de drama metafísico intitulado: A vida é um sonho.
Além desses exemplos podemos citar os sistemas teosóficos em geral, que também sempre se baseiam em "autoridades", antigas e modernas, que deviam possuir um conhecimento transcendente superior aos dos homens de hoje. Afinal, em que mais poderia se basear a teosofia senão nesses relatos? É como se os homens de antigamente não inventassem tanto quanto os de hoje. É uma maneira esperta de fazer passar fantasias como se fosse conhecimento sério, visto que possuem ao menos um valor histórico.

Mas são todos argumentos sofísticos. Ou sabemos ou não sabemos aquilo de que estamos tratando. E se não sabemos, melhor calar do que falar, especialmente pela boca alheia.

Exemplos do nono mandamento

"Não fornicarás com os dialéticos dogmáticos só porque eles aparentemente demonstraram aquilo que subjetivamente queres crer."

Quando cremos em algo, temos uma tendência instintiva a nos agarrarmos a qualquer pensador ou cientista que aparentemente tenha demonstrado objetivamente a verdade do nosso objeto de crença, esquecendo-nos na maior parte das vezes de questionar se a demonstração é sólida e se foi rigorosamente conduzida. Teístas têm então uma tendência a aderir às "demonstrações" de William L. Craig, Tomás de Aquino, C. S. Lewis, Santo Agostinho; ateístas aderem a Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris, Christopher Hitchens, Friedrich Nietzsche, Karl Marx, etc. Mas de que adianta darmos as mãos a alguém que vai ser mais tarde refutado lá na frente? Isso só não servirá apenas para nos desmoralizar junto com eles quando forem refutados e prejudicar a nossa causa? Portanto, eu como teísta não tenho nenhuma dúvida em afirmar que as pretensas demonstrações da existência de Deus de Tomás de Aquino, William Craig, Michael Keller, Descartes e de vários outros são falaciosas e que, longe de ajudar, prejudicam a causa teísta, porque dão armas aos adversários céticos. Neste caso não basta aderir apenas porque a conclusão está certa, mas porque foi correto o caminho para se chegar até ela. É preciso tomar cuidado com todas as pretensas demonstrações, mas principalmente aquelas cuja prova é impossível, como a existência de Deus, a alma, o livre-arbítrio, a forma de existência da coisa-em-si. Deve-se dissociar de todos aqueles que queiram falar qualquer coisa de objetivo a respeito dessas coisas, sob pena de futura refutação e desmoralização. Não é preciso romper totalmente com o pensador, mas apenas nos pontos em que ele foi dogmático, sob pena de sermos acusados de parcialidade na nossa crítica.

Exemplos do décimo mandamento

"Não farás imagens intuitivas de escultura daquilo que pertence unicamente ao reino das ideias e nem te encurvarás diante delas; as analogias, não as tomarás por objetos reais."

Objetos que pertencem unicamente ao reino das ideias são tudo aquilo que não podemos representar no tempo e no espaço. Deus, a alma, a coisa em si, são objetos pertencentes unicamente a esses reinos, e sempre que produzimos imagens intuitivas deles nos iludimos. Dessa forma é que produzimos mentalmente a imagem de um Deus antropomórfico, na figura de um senhor idoso e de barba, ou que imaginamos a alma como se fosse um vaporzinho, que ficasse cada vez mais etéreo quanto mais puro fosse o espírito, ou que imaginamos a coisa-em-si como um objeto corpóreo muito pequeno (um quanta), etc... Essas representações não são e nem podem ser o objeto real.

Nada do que pertence ao reino das ideias deve ser por nós representado, e muito menos adorado, porque adorá-las seria o mesmo que adorar um simples fenômeno, ou seja, uma imagem. Que dizer então do homem-deus que representaram na pessoa de Jesus Cristo? Infelizmente é preciso dizer que isso tudo não passa de idolatria, pois que é um ídolo o que se erige na mente (ou mesmo fisicamente) para adorar. Deus não se pode representar ao homem. E mesmo que Deus quisesse se apresentar pessoalmente a mim, ele teria que o fazer na forma de um fenômeno que fosse por mim percebido, de modo que pudesse se tornar para mim compreensível. Como então eu saberia que por trás daquele fenômeno, e não de outro similar, é que se encontraria o Ser Supremo? Como é que teria certeza que é Deus mesmo que se me apresenta e que não é outro que tomou o lugar dele? Como saber objetivamente que era mesmo Deus quem estava por detrás do corpo de Jesus? É impossível. Pode ser objeto de crença isso, mas jamais será um conhecimento, assim como tampouco qualquer experiência no mundo poderá nos dar a certeza de que Deus existe. Que dizer então das chamadas "experiências com Deus", que algumas pessoas alegam ter, às vezes até diariamente? Não se pode levar isso a sério, porque essas pessoas não têm a menor possibilidade de discernirem se é mesmo Deus que se lhes apresenta ou não. E o simples fato de usarem o nome de Deus para essas fantasias já revela um espírito de vaidade e de orgulho, quando não coisa pior, de se julgar em relações íntimas com o Criador. Por exemplo, percebam a armadilha que se encontra por trás de apelos deste tipo:
IV – Deus me chama para o cumprimento de uma missão;
Após ter passado pelo deserto e ter visto a glória de Deus, Moisés recebeu o chamado do Senhor. Quando temos uma experiência profunda com Deus, somos chamados para o cumprimento de uma missão.Moisés foi chamado para ser o agente efetivo de libertação para a nação de Israel. Qual o chamado Deus tem para a sua vida? Tenha a certeza de que Ele é o Deus que nos chama, nos capacita, nos supre e envia. Ele quer nos usar para marcarmos a nossa geração com a Sua glória. Você crê nisso? Então abra o seu coração de deixa o Senhor levá-lo a essa maravilhosa história de bênçãos, onde muitas almas serão alcançadas pela Graça salvadora de Cristo.
Fonte: http://www.casadeoracaocehab.com.br/2012/05/quando-tenho-uma-experiencia-com-deus.html
Chamariscos como estes existem aos milhares por aí e em todas as seitas. Uma experiência é um fenômeno (uma representação) e um fenômeno é uma imagem. Como então saber se se trata da imagem do verdadeiro Deus? Trata-se, portanto, de uma simples crença que se serve da linguagem da especulação e do conhecimento objetivo. A missão que se desempenhará certamente que não será para Deus diretamente, mas para seus "emissários". Não se enganem, portanto. Não há experiência direta possível com Deus e a Ele, se existir, só se pode agradar por meio do cumprimento de suas leis, que se apresentam de forma certa e imediata em nossas mentes (leis morais e leis da natureza), das quais não se pode duvidar (vide o quarto mandamento deste ensaio), e que é objeto de discussão da Filosofia Prática.

Por outro lado, se as imagens que substituem os objetos reais não são permitidas para o conhecimento, as analogias são permitidas, desde que se não as confunda com os objetos reais. Sem as analogias seria impossível estudarmos as leis da natureza como, por exemplo, representamos o tempo por meio de uma linha no espaço, ou como representamos as linhas força magnéticas por meio linhas em uma folha de papel, etc. Essas analogias são permitidas desde que de modo algum se confunda essas analogias com a realidade. Como exemplo de um mau uso das analogias me reporto à série Cosmos, de Carl Sagan. Em um momento de um dos vídeos daquela série, intitulado Uma Viagem Pessoal (A Personal Voyage) - No Limiar da Eternidade (The Edge of Forever), entre os 23 e 35 minutos aproximadamente, é feita uma apologia a uma hipótese pseudocientífica de que o universo seria curvo em uma quarta dimensão. O problema com esta hipótese é que ela pertence ao domínio da coisa-em-si, que não pode ser representado no tempo e no espaço e cujo conhecimento não pode ser cobiçado (vide o quinto mandamento) sem violação às regras do entendimento. E isso por uma razão simples: há infinitas hipóteses possíveis que podem ser elaboradas para explicar o fenômeno do afastamento das galáxias, de modo que a hipótese da quarta dimensão é apenas uma das infinitas possíveis, o que a transforma em um mero chute, uma aposta, mística, que jamais poderá ser comprovada e cuja chance de acerto é menor do que ganhar na loteria. Como não é dessa forma que se deve elaborar hipóteses científicas, essa hipótese levantada no Cosmos é pseudocientífica.

Mas a razão de ela ser mencionada aqui é que a hipótese da quarta dimensão curva é defendida por meio de uma analogia muito bem feita de um universo de duas dimensões (chamado planolândia) que estaria curvado em uma terceira dimensão, como uma folha de papel, e por meio dessa analogia defender que somos um universo "plano" em três dimensões que estaríamos curvados em uma quarta. Mas basta um pouco de reflexão para percebermos que a hipótese não se sustenta a não ser como uma aposta, e a analogia só serve para nos deslumbrar e para nos dar uma falsa aparência de conhecimento.

As analogias verdadeiras não devem ser tomadas por objetos reais. Porém, pior ainda são as falsas analogias utilizadas para explicar invencionices e ainda por cima tomadas por objetos reais. Hegel, em Fenomenologia do Espírito, §158:
158 - [Nach dem Gesetze] Conforme a lei desse mundo invertido, o homônimo do primeiro mundo é assim o desigual de si mesmo; e o desigual desse primeiro mundo é também desigual a ele mesmo, ou vem-a-ser igual a si. Em momentos determinados, o resultado será este: o que na lei do primeiro mundo era doce, nesse Em-si invertido é amargo, e o que naquela lei era negro, nessa é branco. O que na lei do primeiro era pólo norte do ímã, no seu outro Em-si supra-sensível (isto é, na Terra) é o pólo sul; e o que ali é pólo sul aqui é pólo norte. Igualmente, o que na primeira lei da eletricidade é pólo do oxigênio vem-a-ser, na sua outra essência suprassensível, o pólo do hidrogênio. E vice-versa, o pólo do hidrogênio de lá é aqui pólo do oxigênio.

Numa outra esfera, segundo a lei imediata, a vingança contra o inimigo é a mais alta satisfação da individualidade ultrajada. Mas essa lei - segundo a qual devo mostrar-me, como essência, frente a quem não me trata como essência autônoma e, antes, suprimi-lo como essência, - se converte através do princípio do outro mundo no oposto; e a restauração de mim mesmo como essência, mediante a supressão da essência alheia, se converte em autodestruição.

Porém, se for erigida em lei essa inversão - que é representada no castigo do crime - será também de novo apenas a lei de um mundo que tem como sua contrapartida um mundo sensível invertido, no qual se honra o que no outro se despreza, e onde é ignomínia o que no primeiro é honra. O castigo, que segundo a lei do primeiro mundo desonra e destrói o homem, transmuda-se, em seu mundo invertido, no perdão que salvaguarda sua essência e o leva à honra.
O inverso do amargo é o doce? O inverso do pólo do oxigênio é o do hidrogênio? O inverso do branco é o negro? É dessa forma que ele concebe um mundo invertido (abstração feita aqui do fato de que ele também está tentando investigar o suprassensível por meio da razão pura, o que não é especulativamente permitido)? E no entanto essa coisa grosseira e ridícula tem sido chamada de filosofia.

Encerro por aqui os meus exemplos e espero que eles sejam de alguma valia ao leitor que de fato busca o conhecimento sólido e fundamentado e que apenas acidentalmente esteja (como eu próprio de certa forma já estive um dia) perdido em conhecimentos ilusórios. Nada há a se ganhar com um dogma, ao passo que com a remoção deste abre-se caminho para uma crença sólida e baseada em princípios, pois certas questões, por não poderem ser resolvidas objetivamente, nem por isso podem ficar sem resposta de um ponto de vista subjetivo. E para decidir sobre isso, basta ao leitor fazer a si mesmo a seguinte pergunta: "na falta de uma certeza objetiva e sendo necessário decidir, em que sentido devo ajuizar sobre uma determinada questão, tendo em vista o meu próprio interesse prático?" Mas para que essa pergunta possa ter o seu lugar é preciso primeiro remover a aparente certeza objetiva, pois onde há de fato o objetivo não há espaço para o subjetivo. É a resposta a essa pergunta que poderá fundamentar solidamente as nossas crenças, após o terreno ter sido limpo das ervas daninhas que são os dogmas.

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Petrópolis/RJ
Revisado em 22/10/2013
(Introdução e exemplos inseridos em 31/3/2013; complementação e exemplos do quarto mandamento para abranger as provas empíricas em 22/10/2013; divisão do ensaio em duas partes em 22/10/2013).

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