terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Que sentido tem a vida?

No último final de semana entrei em uma discussão no Orkut que acabou se desviando do assunto inicial para o questionamento se a vida tem ou não algum sentido. Na discussão lia-se os seguintes argumentos (mantive a forma de redação original, inclusive com os eventuais erros de digitação, apenas ocultando os nomes das pessoas):
Debatedor 1:
"A vida não tem sentido... essa é a afliação humana que criam as religiões e seus dogmas fantasiosos. (...) Se a vida tivesse um sentido, ou seja, um objetivo, um dia o alcançaria e estaria extinta..."
Debatedor 2:
"Eu prefiro viver a vida sem sentido algum, descobrindo cada sensacao a medida em que experimento a vida do que viver uma fantasia, uma mentira!"
Debatedor 3:
"e a vida tem sentido, (...)? aff."
Debatedor 4:
"isso é sociedade...minha vida não tem sentido, nem por isso eu seria inutil ou anarquista....isso é outro assunto. ."
Debatedor 5:
"A Natureza (outro conceito parcamente assimilado pelos humanos, que só pensam nela como "árvores", "florestas" ou um átimo a mais que isto, se chegam a tanto) SEMPRE esteve e SEMPRE estará acima dos "seres racionais", seja lá o que isso for. Quanto ao "pseudo" e à "mecânica", tais ficam exclusivamente por sua conta, mortal."
Esses foram os mais explícitos e eloquentes, porém houve muitos outros que sugeriam tais ideias por argumentos menos explícitos, os que simplesmente ficaram "indiferentes" à discussão ou que simplesmente sugeriram que eu usava drogas por pressupor um sentido à vida, zombaram (como se o assunto não lhes interessasse e não lhes dissesse respeito), como estes:
Debatedor 6:
"The Meaning of Life, ou O sentido da vida , filme dos Monty Python. Um dos filmes mais engraçados que vi até hoje."
Debatedor 7:
"boa pedida, eu estava procurando um rs"
E que depois começaram a delirar a respeito de o universo como um holograma e das literaturas ficcionais de Stephen Hawking e Carl Sagan:
Debatedor 7:
"vejam o universo como um holograma, podem se surpreender"
Havia ainda os que nos consideravam simples organismos mecânicos e pré-programados:
Debatedor 8:
"Seu DNA...quer mais... sua mente tudo em vc...ja e programado pelo seu DNA.. SUA RAZÃO E APENAS IMITAÇÕES E OBSERVAÇÕES E COPIAS.... Se vc tivesse nascido na China pensaria diferente porque sua programação seria outra..."
E por fim aqueles que insistem em nos comparar com simples coisas, e ainda se admiraram quando eu disse que o meu amor era dirigido somente aos seres racionais (na Terra, apenas aos homens), e não às coisas, que apenas utilizo conforme me são úteis:
Debatedor 4:
"a natureza existia muito bem sem seres racionais, rs.. (...) tire as árvores do mundo..tire os humanos..veja o que causa mais problemas para a vida no planeta (...) e vc destrata bem a natureza, a trata como objeto, que falta de compaixão com os seres vivos, rs.."
Debatedor 1:
"Se você acredita que foi Deus quem fez tudo, por que menos preza a maior parte da criação e se coloca no centro?"
E como se não bastasse tudo isso, ainda houve um que disse, sem a menor cerimônia, quando eu escrevi que "objetos eu simplesmente uso enquanto me são úteis; depois descarto":
Debatedor 2:
"Oras... pessoas tambem!"
Ao que repliquei "Pessoas não podem ser usadas como coisas, sob nenhuma hipótese.", e a tréplica veio em seguida:
Debatedor 2:
"Todos nos usamos pessoas como coisa. Inclusive voce!"
Bem, eu não. Mas será que o debatedor realmente usa pessoas como coisas e considera isso normal? Será que ele então recebeu um choque de realidade naquela discussão? E mais a frente começou a me chamar de "imoral', "anti-ético", "mau-caráter", "absurdamente desonesto", simplesmente porque eu disse que certas coisas (no caso a reencarnação) não poderiam ser jamais provadas ou refutadas e que eram objeto de crença (mesmo eu sendo espírita, eu não alimento a menor esperança de que a reencarnação será um dia objetivamente provada). Literalmente, o que ocorreu:
Rafael Gasparini Moreira:
"Sim, concordo. Ninguém pode provar que ela ocorre. Mas também ninguém jamais provará que ela não ocorre. É uma via de mão dupla essa impossibilidade de prova."

Debatedor 2:
"Esse é um falso argumento. Típico de um mau-caracter. É anti-ético, imoral e absurdamente desonesto utilizar esse argumento. Eu já te expliquei isso e você insiste. Ou você é retardado ou é simplesmente mau-caracter em insistir nesse argumento. (...) Não, não é aceitável! Quem diz que deus existe ou dê uma evidência ou cala a boca. Simples assim. Usar o argumento acima é falsidade intelectual e puro mau-caratismo.... E esse argumento só funciona entre ignorantes. Em meio acadêmico esse argumento é inaceitável."
Eu evidentemente sugeri a ele que começasse dando o exemplo, e que se ele diz que Deus não existe "ou dê uma evidência ou cala a boca; simples assim." Veremos adiante que ele não é bom em seguir os conselhos que dá. Por que isso deveria ser uma via de mão única? Na continuação:
Rafael Gasparini Moreira:
"Eu já cansei de dizer que a prova da existência de Deus é impossível. Eu quero ver é o que têm na manga os que dizem que Ele não existe."

Debatedor 2:
"Ou seja, se voce nao tem evidencia de que deus existe e nao pode provar que ele existe, como pode criar argumento para sua existencia? (...) Quem defende a existencia de deus ou e' estupido, retardado ou mau-carater. Nao ha' uma outra alternativa.... Ha.... deve haver outra alternativa: a mente prequicosa, a mente incapaz, a mente tola...."
Vê-se bem que o dogmatismo, tão bem como as imposições dogmáticas, estão longe de serem doenças apenas de religiosos fanáticos, porque há materialistas dogmáticos que são tão ou mais fanáticos e impositores quanto. Na verdade o que ele disse é que eu devia silenciar sobre a minha crença em Deus, ao passo que ele não quer silenciar a dele,  o que ele pode esperar deitado, pois isso nunca acontecerá.

Mas como uma pessoa que admite publicamente que usa pessoas como coisas (e parece achar isso normal) pode acusar outra de imoral, anti-ética, mau-caráter e desonesta? É incrível não só o imoralismo explícito, mas o falso moralismo e também a contradição interna. Evidente que considero o caso acima um "ponto fora de curva" e que não julgo todos os materialistas por esta medida, mas apenas para mostrar que se na religião há fanatismo, no materialismo e pseudoespiritualismo há também, e em igual proporção, e que os materialistas e cientificistas estão muito longe de serem os modelos de vanguarda e liberalidade que eles se consideram, mas antes, representam tudo o que há de mais atrasado em termos de pensamento.

Todas as citações acima vieram de oito pessoas diferentes. Não citei os nomes para não expor pessoas e por não ser relevante neste ensaio, mas tenho o debate original arquivado em PDF caso seja necessário para dirimir alguma futura dúvida.

O fato é que, infelizmente, eu era o único (com exceção de um outro que disse rapidamente acreditar em afirmações positivas) a defender os seres racionais como fim terminal na natureza, como algo de valor absoluto, que não pode ser ultrapassado em importância por nada mais no mundo empírico, que não pode ser usado como simples coisa em hipótese alguma, aos quais deve ser atribuído um sentido de existência; e por isso fui de certa forma até ridicularizado, tachado de "religioso", "dogmático", "egocentrista" e até "mau caráter" e "desonesto". Quase não houve pessoas para contra-argumentar, para dizer um simples "eu concordo com você e também acho um absurdo o homem ser destituído de sentido e ser comparado a simples coisas". Não que eu precise desse tipo de apoio ou elogio. Pelo contrário, eu sou muito seguro ao defender as minhas ideias. Mas realmente é perturbador o fato de eu ter sido praticamente a única voz a combater esses disparates, que vinham como bombas de todos os lados. Parece que o bom-senso abandonou (ao menos temporariamente) a humanidade. A aberração, que deveria ser a exceção, parece que se tornou a regra. Sou absolutamente contra a censura, mas onde está o contrabalanço de tais perigosos argumentos, que destituem a humanidade de um sentido? Por que essas pessoas estão falando praticamente sozinhas e quase ninguém as rebate? Como bem imortalizou Chico Buarque na música O Cálice: "Esse silêncio todo me atordoa, atordoado eu permaneço atento, na arquibancada para a qualquer momento, ver emergir o monstro da lagoa." Todos nós conhecemos esse "monstro", especialmente pelo estudo da história de boa parte do século XX, quando o ser humano foi considerado, usado e disposto como simples coisa.

Como isso realmente parece uma forma de se pensar generalizada, vem a pergunta inevitável: o que é que levaria um ser racional a esvaziar dessa forma a sua humanidade, a ponto de se comparar e até se considerar menos importante do que simples coisas que existem na natureza? Nem na Idade Média, época considerada como "idade de trevas intelectuais", a humanidade se diminuiu a tal ponto. Vejamos algumas possíveis razões:

1. Pseudo-humildade

Humildade, na verdadeira acepção da palavra, significa o "sentimento de pequenês de nosso valor perante a Lei" (Lei aqui bem entendido como as leis da natureza, que são matemáticas; e as leis que regem as relações entre os seres racionais, que são as leis morais), a que estamos inexoravelmente submetidos. Mas como em tudo o homem tem tendência a exagerar, rapidamente ele ampliou essa definição para o "sentimento de pequenês de nosso valor perante qualquer coisa empírica do mundo". Mas isso na verdade não é humildade, mas uma pseudo-humildade, porque é a Lei quem atribui ao ser racional um valor absoluto acima de todas as coisas existentes, só podendo ser igualado, mas nunca ultrapassado, por outro ser racional. Portanto, o fato de o homem se colocar em posição igual ou abaixo de outras coisas ininteligentes na natureza é desprezar a Lei. Na verdade temos aí a soberba com a máscara da humildade e com todos os falsos moralismos que dela decorrem.

É claro que precisamos tratar com respeito todas as coisas existentes, mas amor só é devido aos seres racionais, porque são os únicos que têm dignidade intrínseca. As coisas não racionais nós usamos como isso que são: coisas; que são boas enquanto nos são úteis, mas que descartamos quando não são mais. Quando o meu cavalo está seriamente doente, quando na minha casa aparecem ratos, eu posso sacrificá-los e exterminá-los em nome da utilidade. Mas quando tenho um idoso doente em casa, ou um mau vizinho, ou mesmo um inimigo, eu não posso fazer isso, por mais penosa que possa ser a situação, porque um ser racional não pode ser apreciado do ponto de vista de sua utilidade no mundo. E no entanto há muitas pessoas capazes de amar mais o seu cãozinho do que uma pessoa. Voltando ao caso do debate acima, a manutenção de uma árvore precisa ser justificada do ponto de vista de utilidade para o homem (se ela não for mais útil ao homem se continuar onde está, corta-se); mas a vida do homem não precisa de justificativa utilitária alguma, pois ele é o próprio fim da utilidade. A pergunta: "Qual a utilidade desse homem continuar vivo?" (caso ele esteja muito doente ou debilitado, por exemplo) é absurda e imoral por si só, porque o homem (na qualidade de ser racional) não pode ser jamais medido do ponto de vista de sua utilidade no mundo. Alguém disse lá em cima: "tire as árvores do mundo, tire os humanos, veja o que causa mais problemas para a vida no planeta". Eu diria que se não houvesse homens no planeta, a árvore não teria razão alguma para existir.

Quando fazemos leis para evitar os maus tratos aos animais, não é para os animais propriamente ditos que deve ser feita a lei, visto que eles não têm consciência de si mesmos, se assemelham (embora não sejam necessariamente) a simples máquinas e, portanto, não podem experimentar um sofrimento real, coisa que só um ser racional pode experimentar. É que a barbárie e a destruição inútil de seres que em princípio são frutos de uma inteligência rebaixam o homem ao nível animalesco e irracional, o que afeta a dignidade humana. Por isso tais leis protetoras são justas e necessárias, mas não pelos animais e sim pelo próprio homem. Podemos sim destruir os animais, mas sempre com um fim útil (controle de pragas, alimentação, sacrifício em caso de doença), mas jamais ociosamente, por falta de coisa melhor para fazer, como no caso da caça esportiva, das touradas, ou dos rodeios, que nada mais são do que um retorno do homem à bestialidade. Por isso esses "esportes" devem ser justamente reprovados por qualquer homem de bem.

Os animais só poderiam ser tratados no mesmo nível dos seres racionais em uma única situação: caso se tornassem eles próprios racionais. Se à natureza aprouver elevar alguma das espécies animais hoje existentes à categoria de um ser racional, aí sim não só poderíamos, como deveríamos tratar-lhes como iguais e com os mesmos direitos que são concedidos ao homem, assim como deveríamos entrar com eles em uma constituição civil. Mas enquanto isso não acontece os animais são, no mundo e para o mundo, simples coisas, e não pode ser de outra forma. Eles são pressupostamente produtos de uma inteligência, e devem ser respeitados como tal, mas não podem ser colocados em condição igual ou superior à própria inteligência (aos seres racionais). E aos pseudo-humildes que discordam, eu gostaria de vê-los defender isso perante um juiz, quando, ao terem que escolher entre a vida de um homem e a de um animal, escolherem a do animal, mesmo que o animal for amado e o homem detestado. O homem, portanto, deve respeitar os animais, mas não pode se colocar no nível deles ou elevá-los indevidamente ao seu nível, porque isso é somente pseudo-humildade, ou seja, soberba perante a Lei disfarçada com um verniz de humildade.

Entretanto, a pseudo-humildade é uma das razões para algumas pessoas rebaixarem a sua humanidade ou elevarem simples coisas ao estado de humanidade. Mas estão querendo parecer humildes diante de quem, visto que nem sequer em Deus acreditam? Vejamos outra.

2. Filosofias materialistas ou pseudoespiritualistas

Chamo aqui de materialismo a toda doutrina que nega a natureza racional do ser humano, ou seja, que considera o homem um simples produto da matéria, determinado por ela, que não é capaz de transcender a sua condição empírica e que depois de um tempo se desagregará e se misturará novamente aos demais elementos da natureza mecânica. Em uma palavra, o materialismo é toda doutrina que nega que o homem tenha em si um substrato inteligível, simples (indivisível) e que pensa por si mesmo de forma completamente autodeterminada, ou seja, que nega que tenhamos uma alma. Consequentemente também negam a existência de um Criador e a imortalidade, pois estas coisas são incompatíveis com a crença na inexistência da alma.

Os adeptos dessa doutrina não têm mesmo muitos motivos para nos considerarem melhores do que um punhado de matéria-prima e, dependendo da utilidade é possível mesmo que deem mais valor a outros materiais (incluindo os animais) cuja constituição seja mais elaborada, sofisticada e robusta que a do homem.

Ao lado do materialismo propriamente dito há o pseudoespiritualismo. Com todas as discordâncias que possamos ter com o materialismo, pelo menos há que se reconhecer a honestidade de proposições. Ele diz ao que veio sem rodeios. Já o pseudoespiritualismo não é assim, pois sob uma máscara espiritualista propaga o mais grosseiro materialismo, com todas as suas consequências. Uma das mais conhecidas formas de pseudoespiritualismo é o panteísmo. Como disse Schopenhauer (eu discordo muito dele, mas aqui eu concordo): panteísmo é eufemismo para ateísmo. O panteísmo confunde Deus e sua criação em um "todo universal". Quando nascemos somos uma gota que se desprende do grande todo. Quando morremos, a ela novamente nos juntamos e, consequentemente, perdemos a nossa individualidade. Qual a diferença disso para o materialismo? O debatedor 1 escreveu na discussão: "Depois da morte, retornamos para o oceano de energia criativa."

Ora, o que é oceano senão matéria? O que é energia senão matéria? E como é que algo que não é inteligente pode ser criativo? Isso é materialismo disfarçado, mas os adeptos desses filosofismas se dizem representar uma opção ao materialismo. E como Deus e a alma são confundidos com as coisas ininteligentes da natureza, o rebaixamento da humanidade ao estado de simples coisas, ou a elevação de coisas ao estado de humanidade, é um simples salto. Daí não é novidade que tendam a rebaixar a humanidade ou supervalorizar a natureza. Na minha opinião os adeptos de tais filosofias seriam mais honestos se professassem de vez o bom e velho materialismo, ao invés de se auto-iludirem e iludirem a outros com falsas esperanças de existências transcendentais. Qual é, afinal, o objetivo de professar doutrinas espiritualistas que não para dar um sentido à nossa existência? Para quê vou a aderir a algo altamente improvável e que ainda assim esvazia todo o sentido da vida? Esses filosofismas são, portanto, inúteis como conhecimento e inaceitáveis como crença. Mas cada um sabe de si e do tamanho de sua ilusão, honestidade ou hipocrisia.

Todas as "filosofias" monistas em geral, sem exceção, são também pseudoespiritualistas, pois confundem alma com matéria. O verdadeiro espiritualismo deve ser sempre dualista, ou seja, fazer clara distinção entre liberdade e natureza (mecânica); razão e sensibilidade; alma e corpo; inteligência e matéria, ser moral e ser natural (mecânico), etc..., sem negar uma nem a outra. Esse último ponto é importante, porque negar a matéria (o chamado idealismo) é também sinal de pseudoespiritualismo. Um exemplo desse tipo é o filosofisma sui generis de Schopenhauer, para quem só existe um único ente existente e livre (inteligente) em todo o universo, ou seja, uma única alma no universo: a vontade. A vontade de Schopenhauer é completamente espiritual e o mundo é apenas a sua representação, ou seja, não existe de fato, mas é uma simples criação da "mente" dessa vontade. Todos nós (incluindo os animais, vegetais, as pedras) seríamos então apenas graus de objetivação dessa mesma vontade; parecemos ser livres, porque somos objetivação de um objeto livre (como uma cópia), mas não seríamos livres de fato, porque somos sempre determinados por aquela "vontade mãe". Evidentemente essa "vontade" também se confunde com a própria divindade. Acho que vale a pena uma citação de Schopenhauer, apenas para exemplificação do grau de delírio e fantasia dos filosofistas pós-modernos. A citação abaixo retirei do livro O Mundo como Vontade e Representação, Livro IV, § 63, tradução de M.F. Sá Correia publicada pela editora Contraponto, 1ª edição, 4ª reimpressão de fev/2011 (grifos meus):
...Mas uma vez chegado a este ponto de vista, vê-se claramente que, sendo a vontade aquilo que existe em si em todo fenômeno, o sofrimento, aquele que se inflige e aquele que se suporta, a malícia e o mal, estão ligados a um só e mesmo ser; é indiferente que, no fenômeno em que ambos se manifestam, apareçam como pertencendo a indivíduos distintos, e separados mesmo por grandes intervalos de espaço e tempo. Aquele que sabe, vê que a distinção entre o indivíduo que faz o mal e aquele que o sofre é uma pura aparência que não atinge a coisa em si, que esta, a vontade, está ao mesmo tempo viva em ambos; apenas, enganada pelo entendimento, seu servidor natural, esta vontade desconhece-se a si mesma; num dos indivíduos que a manifestam ela procura um acréscimo do seu bem-estar, e ao mesmo tempo, em outro, ela produz um sofrimento penetrante. Na sua violência, ela enterra os dentes na sua própria carne, sem ver que é ainda a si que se rasga; e, desta forma, graças à individuação, ela patenteia essa hostilidade interior que traz na sua essência. O carrasco e a vítima são apenas um. Aquele engana-se pensando que não tem a sua parte da tortura, e este pensando que não tem a sua parte da crueldade. Se os seus olhos se elevassem, veriam isto: o torturador, que ele próprio vive no fundo de qualquer um que sofre qualquer tortura, neste vasto universo, sem poder compreender (...) por que foi chamado para um existência cheia de misérias que não tem consciência de ter merecido. E, por seu lado, a vítima que toda a maldade que se manifesta ou foi manifestada no universo sai dessa vontade onde também ela vai buscar a sua substância, de que ela também é uma manifestação; veria que, sendo tal manifestação, sendo uma afirmação da vontade, tomou sobre si todo sofrimento que pode ser o resultado de uma vontade de viver, e que se sofre, é com justiça, enquanto é idêntica a essa vontade.
Que direito tenho eu de, dogmaticamente, afirmar tais coisas? Como disse, improvável como saber, inútil como crença. Desse modo, não há mais injustiças, porque qualquer eventual injustiça que eu cometa contra um outro, na verdade é contra mim mesmo que cometo, e seria um absurdo eu cometer injustiça contra mim mesmo; e mais uma sequência de consequências absurdas deste gênero, que não vale a pena me alongar. Apenas quero deixar claro que o verdadeiro espiritualismo é dualista, ou seja, admite tanto o corpo como a alma, e separa ambos. Negar a alma, ou negar a matéria, é pseudoespiritualismo, ou seja, materialismo (ou idealismo) disfarçado de espiritualismo, e quem adere a isso tende a rebaixar indevidamente a humanidade a nível de natureza ou elevar a natureza indevidamente ao nível da humanidade.

Mas porque as pessoas aderem a esses sistemas esdrúxulos? Essa é a terceira razão que vamos agora examinar.

3. Desejo inconsciente (ou consciente) de se subtrair às limitações morais

É preciso admitir: as leis morais exigem bastante de nós enquanto seres duais, ou seja, pertencentes ao mesmo tempo ao mundo sensível e ao mundo inteligível. Como seres livres, temos o dever de governar a nossa parte sensível; a inteligência deve governar a matéria. Mas muitos de nós possuímos espírito fraco e, ao invés de governarmos o sensível deixamos o sensível nos governar. E depois de termos sido arrastados pelos nossos desejos sensíveis, mas em desacordo com as leis morais, fatalmente vem a voz de reprovação da consciência repetindo-nos constantemente: "você tornou-se indigno; não merece a satisfação, mas antes uma punição!".

Alguns que em geral não conseguem resistir a arrastamentos dizem então para si mesmos: "Como seria bom se eu pudesse me fazer de surdo a essa voz (visto que ninguém pode evitar de ouvi-la)!"; "Como seria bom se eu pudesse dizer para mim mesmo que essa voz não passa de uma imaginação, que não existe culpa alguma, que ela é apenas imaginária, uma criação da minha mente, e que eu posso ignorá-la!"; "Como seria bom se eu pudesse fazer o que quisesse sem precisar prestar atenção a essa voz irritante!"

Se esses pensamentos passam pela cabeça de pessoas com pouco senso moral, mas inteligentes e com talento literário, vemos o nascimento dos filosofismas. Por isso disse em outro ensaio que as vidas pessoais desses filosofistas eram capazes de explicar muito sobre os sistemas sofísticos e anti-éticos que erigiram. Na verdade, eles escrevem para si próprios, segundo os seus próprios interesses pessoais que não querem ver limitados pela por nenhuma lei da razão. É dessa forma que nasceram Schopenhauer, Hegel, Marx, Nietzsche, Heidegger, Foucault e uma multidão de filosofistas pós-modernos, para todos os gostos, que tinham um modo epicurista (ou seja, sensualista) de vida. Sugiro ao leitor que pesquise sobre as vidas desses digníssimos homens para ver o quão problemáticas elas eram. Quando Gilles Deleuze, por exemplo, anulou a sua humanidade e se jogou pela janela de seu apartamento em Paris, no dia 4 de novembro de 1995, por causa de um câncer, seus seguidores consideraram, e devo dizer que com muita razão, o seu suicídio coerente com a sua vida e obra. Certamente que era mesmo.

Dessa forma, os que procuram se subtrair às limitações morais, que para muitos é um fardo muito pesado para se carregar, escolhem um desses filosofismas, de modo estético mesmo, por gosto, mas que esteja ao mesmo tempo mais em acordo com o tipo de limitação ética que querem se subtrair (que em geral tem relação com a promiscuidade e/ou com a prostituição, mas outros vícios também aparecem), não importando o quão autocontraditórios eles possam ser. Quem liga para contradições se o sistema me oferece respaldo teórico para poder fazer o que eu quiser sem me preocupar com a ética? E não pensem que esses sistemas são apenas materialistas e pseudoespiritualistas, mas há também espiritualistas que inventaram meios de poderem se fazer surdos à voz da consciência. Quantos não são os que procuram a Igreja, por exemplo, por causa das promessas da "graça" e do perdão absolutamente gratuito e imerecido de todas as faltas cometidas? Como seria bom - alguns pensam - poder fazer o que quiser e no domingo ir pedir perdão no confessionário e receber uma pena branda (isso na Igreja Católica, porque a protestante não impõe absolutamente nada). Então, muitos se iludem nesses filosofismas. Mas curiosamente (ou nem tanto) todos os adeptos destes sistemas, quando o outro faz o que quer em prejuízo deles, sempre ostentam a bandeira da Ética e do Direito para defenderem os seus interesses atingidos. Venha a nós tudo, mas ao vosso reino nada é a máxima que os orienta.

Só que a adesão a todos esses filosofismas utilitaristas cobra um preço: a anulação da nossa humanidade. Não dá para anular a moral e ainda assim preservar a dignidade humana. Essa é a razão principal porque tantas pessoas optam, sem corar, por rebaixar a nossa humanidade ou elevar coisas ao estado de humanidade. Tudo para se iludirem e não se sentirem obrigadas (porque são obrigadas de fato, independentemente de assim se sentirem ou não) a carregar o fardo da "pesada e antiquada" Ética.

Mas afinal, há ou não um sentido para a vida? Como refutar todos esses sistemas sofísticos que tentam nos convencer que a vida não tem sentido?

Foi o gênio de Kant que refutou todos esses sofismas antes mesmo que a maioria deles tivesse nascido. Foi Kant quem demonstrou efusiva e irrefutavelmente que essa questão não tem solução objetiva, pois se encontra completamente no domínio do suprassensível, e que devem ser abandonadas todas as especulações a respeito. Tanto os que defendem que há um sentido para a vida como os que defendem que não há sentido algum para a vida devem depor as suas armas, pois a discussão será eterna e nunca um lado provará ao outro, com evidências irrecusáveis, que o seu ponto de vista é o correto. A discussão é prolixa, inútil, longa e ao final dela a única possibilidade honesta é chegar ao mesmo ponto de ignorância de onde se partiu. É nesse sentido também (entre outros) que Kant escreveu no início da Introdução dos Prolegômenos (grifo meu):
"A minha intenção é convencer todos os que creem na utilidade de se ocuparem de metafísica de que lhes é absolutamente necessário interromper o seu trabalho, considerar como inexistente tudo o que se fez até agora e levantar antes de tudo a questão: 'de se uma coisa como a metafísica é simplesmente possível'."
A mesma observação vale para hoje, sem modificações, e toda especulação (que neste caso é metafísica) deve se encerrar e ser considerada como inexistente até o momento. Nada dá para ser aproveitado. A pergunta que estamos fazendo deve mudar drasticamente. Ao invés de nos perguntarmos: "Há um sentido para a vida?"; devemos perguntar: "Devemos dar um sentido para a nossa vida?" ou "Temos nós o direito de não darmos um sentido (moral, que fique claro) para a nossa vida?" Para a primeira pergunta não há resposta objetiva possível. Mas as últimas possuem sim, respostas objetivas e a priori (ou seja, independente de qualquer observação empírica), baseadas no interesse prático e no nosso dever para conosco e para com os outros seres racionais do mundo.

Da última pergunta ainda podemos derivar outras perguntas, que igualmente possuem respostas objetivas possíveis: "Na falta de comprovação objetiva de um sentido para a vida, tenho eu o direito de considerar a minha vida e a dos outros seres racionais no mundo como destituída de sentido?"; "Na falta de comprovação objetiva se somos ou não simples coisas, temos o direito de nos considerarmos como tal?"; "Que sentido devo dar à minha vida?". É fácil perceber que, quando analisamos essas perguntas sob a luz do dever, e não mais sob a luz da especulação, é possível encontrar respostas a essas perguntas.

Sim, devemos dar sentido à nossa vida, pois não há sofisma que nos libere desta obrigação. Mesmo que ela não tivesse mesmo sentido algum, ainda assim eu deveria morrer buscando esse sentido, sem jamais poder admitir que ele não existe, e isso até o final dos tempos da humanidade. A resposta mais simplista de todas, mais preguiçosa, mais "incapaz", mais "tola" (adjetivos que foram utilizados contra mim acima), é simplesmente admitir que a vida não possui sentido algum e encerrar a busca. Também é evidente, considerando que não é possível provar que somos ou não simples coisas, que não temos o direito de considerarmo-nos e ao o outro como tais. Quanto à última pergunta, sobre que sentido devo dar a minha vida, parece também bastante claro que deve ser um sentido que nos afaste da natureza mecânica ininteligente e realce o valor de nossa humanidade, como ser inteligente e auto-determinado, como fim em si mesmo, terminal, no qual nada mais pode se sobrepor (no máximo igualar, e mesmo assim apenas por outro ser racional), ou seja, devemos dar um sentido à nossa vida exclusivamente moral.

Aqui, portanto, não se trata de uma prova objetiva de que há um sentido para a vida, mas de um método de orientação subjetiva, ou seja, uma pressuposição (um postulado, uma crença) de que a vida tem um sentido, mesmo não havendo a menor possibilidade de provar que isso seja verdade. Eu não sei se a vida tem sentido, mas vou dar (postular) um sentido à minha vida.

Pode parecer estranha a afirmativa de que devemos necessariamente pressupor algo que não podemos provar. Mas isso ocorre por uma razão muito simples: precisamos decidir, a escolha influenciará nossas ações e a escolha certa ou errada tem grandes consequências. É só esse motivo, e mais nenhum, que me levam a me comprometer com algo que não posso ter certeza objetiva. Para maiores detalhes sobre isso o leitor pode se referir a um outro ensaio neste Blog intitulado Sobre a crença e a fé..., visto que a pressuposição nada mais é do que uma crença. Mais alguns exemplos aqui tornarão isso claro:

Se eu estou perdido em um deserto, precisando urgentemente de um oásis que eu não tenho a menor ideia se existe ou onde está, eu tenho duas alternativas:

1. sob a justificativa simplista de não poder provar se existe ou onde está o oásis, eu simplesmente desisto, sento e espero a morte chegar; ou

2. eu começo a procurar o oásis, com os melhores meios de orientação que eu puder dispor.

Aqui a situação é a mesma: há ou não há um sentido para a vida? Eu não posso provar que existe um tal sentido. Então eu sento, não faço mais nada, não vou para lugar algum, tiro algumas vantagens e gozos onde eu puder conseguir e espero a morte chegar (ou mesmo apresso este momento, pelo suicídio)? Essa é a escolha razoável?

Ou, pelo contrário, eu pressuponho que a vida tem um sentido, que ainda me é desconhecido, mas que eu posso tentar descortinar, utilizando-me dos melhores meios de orientação disponíveis, e trabalho para fomentar o fim proposto para esse sentido?

No caso do deserto eu tenho várias opções de direção para ir. Mas se eu escolher errado eu vou morrer de sede. Então eu certamente vou considerar aquelas direções onde as chances de eu sair-me bem são maiores. Ou será que eu deveria escolher na sorte? Jogos de sorte são bons para brincadeiras, mas duvido que em questões de vida e morte alguém decida algo na sorte e deixe de se orientar pelos melhores prognósticos disponíveis. Ou deveria escolher o caminho mais belo, aquele que "me fizer bem", aquele que "me provocar uma sensação de bem estar interior"? Se eu me lembrar que meu caso é de vida e morte, eu não vou escolher dessa forma, mas vou escolher aquele caminho que me der as maiores perspectivas de sobrevivência, não importando se é belo ou feio, fácil ou espinhoso.

Seja como for, é uma obrigação moral o autoconhecimento e uma busca de um sentido para a vida. Podemos errar na busca, mas não buscar é não cumprir com o nosso dever. Dizer que a vida não tem sentido algum só porque não se pode prová-lo é o cúmulo da simploriedade, produto, aí sim, de mentes preguiçosas, incapazes e tolas.

No nosso trabalho, temos um chefe que nos diz: cumpra a sua obrigação. Se você cumpri-la bem e depois a meta não for alcançada por causa de situações que estavam fora do seu controle, você ainda poderá dizer a ele: "fiz tudo o que era possível"; e você fará jus ao recebimento da sua comissão, tão logo seja possível, e mesmo que não seja possível você estará tranquilo de que era dela merecedor. Mas se você não faz nada (porque não sabe e não crê que o empreendimento vai dar certo), você não ganhará comissão alguma e ainda corre o risco de ser demitido, mesmo que por causas fora do seu controle a meta seja cumprida e a empresa lucre uma fortuna, que lhe permitiria te pagar até duas comissões.

Pois bem: eu tenho um "chefe" oculto na minha consciência (a Lei Moral em mim) que constantemente me ordena: busque o seu autoconhecimento, busque ou dê um sentido para a sua vida e cumpra com todas as suas obrigações morais no mundo. Eu não posso provar que essa voz não passa de algo entranhado na minha imaginação; eu não posso provar que as minhas ações morais no mundo servirão para melhorar qualquer coisa nele. Mas se faço tudo pelo bem da sociedade e ela se esboroa mesmo assim, nenhuma culpa eu teria disso, e em um eventual outro mundo eu posso esperar a comissão pelo meu trabalho. Agora se eu digo: a sociedade está perdida mesmo, com todos os crimes, com toda a corrução, nada do que eu fizer vai servir para melhorá-la e então nada vou fazer; se eu agir nesse sentido, mesmo que a sociedade melhore eu estarei fora, não receberei a minha comissão e serei obrigado a mendigar. Serei um mendigo no meio da opulência.

A orientação subjetiva da razão em falta de provas objetivas é simples assim. Eu devo pressupor que a sociedade caminha para o que é melhor, mesmo que, sem eu saber, ela esteja caminhando para o cataclismo. Pressupor o contrário não tem o menor sentido, pois nada é possível se ganhar com a visão pessimista (o máximo que se conseguiria, com sorte, é não perder). Eu devo trabalhar para o que é melhor na sociedade, devo me inteirar de tudo quanto pudesse me auxiliar nessa empreitada e, para esse fim, eu também devo pressupor as causas eficientes sem as quais esse meu esforço seria nada mais do que uma fantasia: a minha existência inteligível (a alma), a existência de Deus e a imortalidade.

Quando eu digo para mim mesmo (dogmaticamente) que uma dessas três coisas não existem, eu ao mesmo tempo me convenço que qualquer esforço que eu faça para o melhoramento do mundo é inútil, não apenas para mim mesmo, mas para o próprio mundo, e isso me leva inevitavelmente ao desânimo. Mas a obrigação deve ser cumprida de qualquer jeito, com ânimo ou desânimo. Não adianta chegar no fim da caminhada com o trabalho não feito e dizer: "eu estava desanimado". Portanto, eu devo pressupor as condições teóricas sem as quais a minha meta não passaria de uma vã intenção piedosa. É por isso que devo postular (pressupor, crer em) a minha liberdade inteligível, a existência de Deus e a imortalidade da alma, porque sem qualquer uma destas três coisas a minha meta não se concretizará nunca. Eu preciso admitir isso para eu não me sentir obrigado perante o nada. Isso é o que se chama de interesse prático da razão, e esse interesse supera e esvazia a especulação teórica.

Mas mesmo assim ainda há os que possam dizer que isso tudo não é provável que ocorra, que não passa de wishful thinking. No caso do oásis, se eu não tivesse nada, nenhuma perspectiva de que um oásis exista por ali, e eu visse, ao longe, uma nuvem meio enegrecida, eu não teria dúvidas de caminhar em direção àquela nuvem, porque pode chover ou já ter chovido naquela região e eu encontrar água. É preferível aquilo do que ir para uma direção onde não há a menor perspectiva de nada.

O mundo empírico também nos dá muitas indicações que nos acenam com várias dessas "nuvens" e que nos indicam a possibilidade de a existência da alma, Deus, imortalidade não serem apenas um ideal piedoso. Então, ao unir isso à obrigação que tenho de dar um sentido à minha vida, eu não posso ter a menor dúvida na hora de orientar as minhas crenças. Kant, na Crítica da Razão Pura, parte II (Doutrina Transcendental do Método), capítulo I (A disciplina da razão pura), na segunda seção (A disciplina da razão pura relativamente ao seu uso polêmico), na tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão, e publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, (grifos em negrito e sublinhado, e inserções entre colchetes, meus), escreveu:
Não compartilho, na verdade, a opinião tantas vezes expressa por homens eminentes e profundos (por exemplo Sulzer) que sentiram a fraqueza das provas até aqui empregadas, a saber, que se podia esperar encontrar um dia demonstrações evidentes das duas proposições cardiais da razão pura: Há um Deus, Há uma vida futura. Pelo contrário, estou certo de que isso nunca acontecerá. Com efeito, onde irá buscar a razão o princípio destas afirmações sintéticas que não se reportam a objetos da experiência e à sua possibilidade interna? Mas também é apoditicamente [necessariamente] certo que nunca aparecerá ninguém que possa sustentar o contrário com a mínima aparência de verdade e para já não dizer dogmaticamente. Porque, não podendo demonstrá-lo senão pela razão pura, devia esforçar-se por provar a impossibilidade de um ser supremo ou de um sujeito que pensa em nós, como pura inteligência. Mas donde extrairia esses conhecimentos que o autorizariam a julgar assim, sinteticamente, acerca de coisas para além de toda a experiência possível? Não temos pois que nos preocupar com que alguém nos venha algum dia provar o contrário e por isso não temos necessidade de recorrer a argumentos escolásticos, mas podemos sempre admitir aquelas proposições que concordam perfeitamente com o interesse especulativo da nossa razão no uso empírico e, além disso, são os únicos meios de o conciliar com o interesse prático. Para o adversário (que não deve aqui ser apenas considerado como crítico) temos pronto o nosso non liquet, que o deve infalivelmente confundir, porque não o impedimos de retorquir contra nós, pois temos permanentemente em reserva a máxima subjetiva da razão [que é, como já disse, a necessidade prática de postular a liberdade, Deus e imortalidade, simplesmente por não termos o direito de atuar no mundo em desacordo com isso], que falta necessariamente ao adversário, e ao abrigo da qual todos nós podemos aguardar com calma e indiferença todos os golpes que desfere no ar [visto que o materialista jamais conseguirá demonstrar ou provar que não somos livres, que Deus não existe ou que a alma não é imortal, limitando-se a proferir sentenças dogmáticas, ou seja, golpes no ar].
Kant continua, na mesma Crítica da Razão Pura, parte II (Doutrina Transcendental do Método), capítulo II (O cânone da razão pura), na segunda seção (Do ideal do sumo bem como fundamento determinante do fim último da razão pura), mesma tradução acima, (grifos em negrito e sublinhado, e inserções entre colchetes, meus):
É necessário que toda a nossa maneira de viver esteja subordinada a máximas morais [ou seja, que a nossa maneira de viver seja ética]; mas é ao mesmo tempo impossível que isto aconteça, se a razão não unir à lei moral, que é uma simples ideia, uma causa eficiente, que determine, conforme a nossa conduta relativamente a essa lei, um resultado que corresponda precisamente, seja nesta vida, seja numa outra, aos nossos fins supremos. Portanto, sem um Deus e sem um mundo atualmente invisível para nós, mas esperado, são as magníficas idéias da moralidade certamente objetos de aplauso e de admiração, mas não mola propulsora de intenção e de ação, pois não atingem o fim integral que para todo o ser racional é naturalmente, e por essa mesma razão pura, determinado a priori e necessário.
Portanto, existe um interesse prático associado (e a razão percebe isso) na postulação do livre-arbítrio, Deus e imortalidade. É uma necessidade subjetiva que constantemente é confundida com prova ou demonstração objetiva, e que acabam por originar os dogmas religiosos e municiar a crítica cética. Devemos postular a liberdade, Deus e imortalidade porque devemos dar sentido a nossa vida. Mas qual é o interesse prático associado à postulação, por exemplo, de seres mitológicos, de deuses, de monstros? Nenhuma, pois o que se ganha com isso? E também por isso a razão não tem necessidade de admiti-los, a não ser por algum fetiche, que pode ser até interessante para a nossa cultura, para ficções, folclore, mas não para determinar os fins essenciais da humanidade. Em outras palavras, a mitologia até tem um legítimo valor cultural, mas não tem valor religioso. Por isso, apesar dos sofistas materialistas, cientificistas e pseudoespiritualistas alegarem que essas crenças são a mesma coisa que postular a existência de Deus, a alma e o livre-arbítrio, não são mesmo, a não ser para quem nem a própria vida faz ou precisa fazer algum sentido.

Dessa forma, o sentido para a vida é uma crença e não um conhecimento. Espero aqui neste não tão curto ensaio haver demonstrado todo o sofisma que está por trás das filosofias reducionistas e ter convencido o leitor a não embarcar nessas canoas furadas, onde a melhor chance que há é a de não perder junto com todo mundo, mas nunca de algo a ganhar. Pelo contrário, as escolhas éticas nos acenam com possibilidades factíveis de felicidade futura, embora ela não possa ser provada real. Quem quer que reflita um pouco não demora a se convencer de que o verdadeiro e único utilitarismo é na verdade ético, muito embora a adesão à ética jamais possa ser por motivos utilitários. De qualquer forma há uma escolha subjetiva a ser feita, onde devem ser pesados os prós e os contras, e cabe a cada um de nós escolher livremente, por sua própria conta e risco, e ninguém é chamado a decidir (dogmaticamente) por nós, embora todos nós sejamos chamados a compartilhar as razões que nos levam a crer de tal ou qual forma, a fim de que possamos nos auxiliar mutuamente a melhor nos orientarmos, segundo o nosso próprio interesse.

Espero também cada vez mais convencer o meu leitor a respeito da impossibilidade e da inutilidade das tentativas de provas objetivas acerca de objetos suprassensíveis, ou seja, que não podem ser representados em uma experiência. Nada há a ganhar por esse caminho e ele só serve para criar argumentos dogmáticos e municiar a crítica cética. Quando queremos moderar as pretensões dogmáticas do adversário temos também que obrigatoriamente moderar as nossas próprias. O debatedor acima que apelou para o ad hominem e me chamou de imoral e antiético teve uma razão para se irritar: é que eu, ao moderar as minhas pretensões dogmáticas, concedendo a ele a razão sobre a impossibilidade de prova objetiva dos objetos suprassensíveis, lhe retirei o único argumento de crítica que tinha contra mim. Do que mais ele pode me criticar, se eu já concordei com ele no seu ceticismo? Daí só lhe restar somente avançar contra a minha pessoa.

Só que eles não ficam apenas no ceticismo, mas subrepticiamente migram para o materialismo ou o pseudoespiritualismo, como se fosse tudo a mesma coisa. O verdadeiro ceticismo suspende completamente o seu juízo acerca de coisas suprassensíveis; ele nada afirma. Mas o materialismo e o pseudoespiritualismo não são céticos, mas dogmáticos, porque eles querem afirmar objetivamente (visto que subjetivamente não faria sentido algum para eles por serem seus sistemas imprestáveis como crenças) a inexistência de Deus ou querem falar algo sobre os atributos "físicos" da divindade ininteligente. Todo argumento subreptício do ateísmo é esse: "se há algo que eu não possa provar que exista, então esse algo não existe", o que é um argumento falacioso e facilmente identificável. Reparem nessa outra parte da mesma discussão supracitada, que ilustra muito bem isso que eu acabei de explicar:
Debatedor 9:
"Pois é, deus não existe! Mais objetivo que isso?"

Rafael Gasparini Moreira:
"É mesmo? Como se prova isso?"

Debatedor 9:
"Na afirmação. Não existe!"

Rafael Gasparini Moreira:
"É sério mesmo? Então é assim? Eu afirmo que algo não existe e então ele não existe?"

Debatedor 9:
"Mais objetivo que isso, impossível!"
Dogmatismo, portanto, não é doença apenas de religiosos. É tão comum a confusão, que em geral materialistas e pseudoespiritualistas são confundidos com céticos. Mas de céticos eles não têm nada. Eles são céticos apenas com relação às pretensões dogmáticas dos seus adversários, porque quanto às suas próprias eles é que precisam de moderação cética.

Renunciando então ao meu dogmatismo teísta eu adquiro o direito de contestar as pretensões dogmáticas materialistas ou pseudoespiritualistas. Se eu não posso provar a existência de Deus, tampouco pode o meu adversário ideológico provar a inexistência. O jogo então inverte-se completamente, porque no campo objetivo, nós é que assumimos o papel do cético e ele o do dogmático, e o ônus da prova vira para aquele que quer afirmar algo objetivamente, seja a existência ou a inexistência de Deus, da alma ou da imortalidade. Isso, como bem previu Kant, deve infalivelmente confundir o adversário. Empatando a disputa no campo teórico, abre-se o caminho para a inserção do argumento prático, para as máximas subjetivas da razão, que necessariamente vai faltar ao adversário, esvaziar e tornar inútil a especulação, cortar as asas do ceticismo e do dogmatismo (seja teísta ou ateísta) e orientar com segurança as nossas crenças, sem temer o menor ataque do partido adversário, seja ele cético ou dogmático. Apenas dessa forma é possível refutar todos esses filosofistas.

É claro que esse papel crítico será um tanto ingrato, porque se trata de refutar todos os dogmáticos de uma só vez, não importando o partido (teísta, ateísta, panteísta, materialista, etc., o que deve compreender bem mais de 99% da população mundial), com um único argumento: não é possível um conhecimento de qualquer contingente que seja suprassensível. Cada qual certamente vai querer defender com unhas e dentes as suas posses, os seus conhecimentos ilusórios, e ninguém vai querer admitir a ausência de solução a seu favor, ainda que seus adversários dogmáticos sejam igualmente refutados. Essa a razão porque a filosofia de Kant não é muito popular entre teístas dogmáticos e ateístas, visto que ambos são por ele refutados com uma única "pedrada".

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Petrópolis/RJ
Revisado em 8/6/2013.

6 comentários:

  1. Ontem saiu nos noticiários uma matéria muito interessante. Uma delas pode ser lida no link abaixo:

    http://oglobo.globo.com/educacao/enem-2013-mec-decide-alterar-pergunta-inadequada-sobre-domesticas-em-questionario-8549036

    Nela lemos o seguinte, entre outras coisas:

    "- É um ato discriminatório porque nos reduziu a objetos. Não foi perguntado se na casa do aluno havia pais, filhos ou parentes. Só objetos e as empregadas domésticas. E o mais grave é que quem elaborou esse questionário são pessoas ligadas à educação, formadores de opinião. Será que eles ensinam para as crianças que empregadas são utensílios domésticos? - questiona a presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), Creuza Maria de Oliveira."
    (...)
    "- É um absurdo, num momento em que a gente está discutindo a legislação das domésticas, o Enem compará-las a objetos. Essa pergunta é muito infeliz, porque o Brasil ainda tem heranças da escravidão que parecem vincadas na terra - afirma uma candidata identificada apenas como Gabriela, que se manifestou contra o questionário com um post no Facebook."

    Tirando a parte os exageros, porque não creio que o Enem fez de propósito, mas o fato é que elas têm razão. Ou será que ainda há dúvidas a esse respeito? Será que alguém precisaria então avisar a essa "massa ignara" (na qual eu incluiria a mim mesmo), que provavelmente nunca pôs nem os pés em uma academia, que nunca aprenderam que os "bastiões do pensamento pós-moderno" (Nietzsche, Hegel, Schopenhauer, Heidegger, Michel Foucault e vários outros) já provaram "cristalinamente" e "acima de qualquer dúvida razoável" que a liberdade inteligível (fundamento da inteligência e do livre-arbítrio) é uma quimera, que não existe e que, com isso, o homem nada mais é do que uma coisa na natureza e que o Enem não teria errado ao colocar as empregadas mensalistas junto de objetos? Sem a liberdade inteligível, o homem é medido meramente por sua utilidade. E com base nessas crenças corrompidas que são ensinadas hoje em universidades como se fossem conhecimento sério para um pretenso mundo "pós-metafísico", quem garantiria, afinal, que uma geladeira ou uma TV super moderna não poderia valer tanto ou mais que uma empregada mensalista (ou mesmo mais do que qualquer um de nós)? "Quanta vaidade dessas empregadas em acharem que valem mais do que uma geladeira, ou uma TV super moderna, etc...!"

    Eu gostaria que aqueles que foram acima por mim citados, que "bateram no peito" pra dizer que "a natureza sempre esteve e sempre estará acima dos seres racionais", ou aqueles que disseram que "usam pessoas como coisas", enfim, aqueles que dizem que a vida racional não precisa ter sentido algum, que não somos melhores que simples máquinas e que podemos nos equiparar (ou ainda nos rebaixarmos) à natureza, que explicassem para essas empregadas que elas estão erradas e que, pelo contrário, dependendo do ponto de vista, poderia ser insultuoso é para a geladeira ter as empregadas na mesma lista, ao invés do contrário. Eu gostaria que os que foram acima citados tentassem explicar esses absurdos para elas.

    Porque são essas as consequências a que nos levam essas vãs filosofias pós-modernas e crenças materialistas e pseudo-espiritualistas que diminuem a humanidade a um valor torpe! São imprestáveis como conhecimentos - pois não podem ser provados - e imprestáveis como crenças - pois são inaceitáveis por qualquer pessoa minimamente razoável. E isso tem sido ensinado a altos brados nas universidades. Por isso não admira que erros como esse do Enem tenham sido cometidos. Essa ideologia está entranhada nas mentes das classes cultas (que já passaram por uma academia) como uma praga que é difícil de erradicar.

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  2. No momento, é só o que eu posso dizer: Excelente ensaio! Ajudou-me demais em alguns pormenores que eu sabia se faziam ausentes de minhas impressões acerca da vida.

    P.S.: Se faz sentido -ou não- este elogio, é algo que não posso avaliar em absoluto. Apenas senti que deveria realizá-lo. =]

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  3. Bom texto, mas acho que a vida não faz sentido: http://odesconhecidotransmuta.blogspot.com.br/2014/04/333.html
    e http://odesconhecidotransmuta.blogspot.com.br/2014/02/trash-thing_2.html

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    1. Olá Will.

      Ainda bem que você disse "eu acho", ou seja, que você não tem certeza absoluta do que escreveu. Caso contrário eu teria que lhe pedir as provas do que diz. Você "acha" que a vida não faz sentido. Eu, por outro lado, "creio" que ela faz sentido. Nenhum de nós dois consegue a prova objetiva do que diz e, portanto, do ponto de vista teórico estamos empatados nessa incerteza.

      No entanto, eu li os links que indicou na esperança de eventualmente encontrar, ainda que oculta, a derradeira prova teórica de que realmente a vida não tem sentido algum e assim refutar todos os "ingênuos" que ainda creem que a vida deve ter algum sentido. Mas pelo contrário, encontrei apenas mais afirmações dogmáticas (ou seja, não fundamentadas), como as que reiteradamente critico neste Blog, o que evidencia que você (como aliás bem admitiu) tem apenas opiniões ou crenças a respeito, mas não uma certeza objetiva.

      Só como exemplos do primeiro texto que me indicou:

      "This life cannot be true...", "It [the universe] doesn’t make any sense like this text. Without meaning.", "A dispersão só lhe conta o que você quer ouvir.", "But dear, you are not yourself", "I am a liar, I am Christ and the antichrist, and I am you. You are me.".

      E do segundo texto que indicou:

      "Nós somos o acaso que, por ser acaso, gosta das coisas sem serventia.", "Nossa espécie procura em coisas inúteis o que lhes lembra a utilidade. Este é o motivo da existência de coisas inúteis.", "Mas a arte não nos ajuda em nossa reprodução ou em nossa sobrevivência. É totalmente inútil. Entretanto, o homo sapiens também não tem utilidade."

      Ok. Deu para ver que você acredita nisso que escreveu, mas que não tem as provas que sustentam essas afirmações. E crenças por crenças eu particularmente ainda prefiro as minhas.

      Não é minha intenção certamente dizer que você deve dar algum sentido à sua vida quando você mesmo parece não querer fazer isso. É seu direito não dar sentido algum a ela. No entanto, ainda é seu direito exigir dos outros homens que respeitem a sua vida como se ela tivesse um sentido (assim como é seu direito abrir mão desse direito e permitir que os outros homens lhe usem ou tratem como se fosse uma simples coisa). Porém (atenção!) é seu DEVER respeitar as vidas dos outros homens como se todas elas tivessem um sentido (e dignidade), sendo vedada a utilização ou o tratamento deles como se fossem simples coisas às quais não se atribui sentido algum. Esse dever independe de suas crenças. Você apenas pode rebaixar a si próprio ao estado de uma coisa, mas não os outros homens.

      Obrigado pelo comentário.

      Abraços.

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  4. A vida é simplesmente insignificante. Você disse que é espírita. Eu sou ateu, mas acredito na existência da vida após a morte e na reencarnação. Mas isso não me diz absolutamente nada nada nada. Eu odeio a vida! Porquê temos que morrer? Eu morrer não é nada, o pior foi eu ter perdido o meu querido paizão, meu melhor amigo. Depois disso estou começando a achar que Deus na verdade, pode ser um ser de outra dimensão da qual nunca iremos saber quem é, que no seu total marasmo e tédio, nos criou com um único propósito: Nos fazer SOFRER! Cara, eu junto a teoria espírita de "espíritos evoluídos" com a tese de uns cientistas que disseram que o universo na verdade, pode ser um jogo de computador. Sim! Eu acredito nessa teoria também. OS MALDITOS ESPÍRITAS falam tanto que os espíritos conforme seu grau de evolução vão morar em outros "planetas mais evoluídos" que se vc for pensar bem, então é como um jogo: Você vai para outras etapas do jogo. Eu odeio DEUS!! EU ODEIO A VIDA. PERDI MEU PAI, A VIDA PERDEU O SENTIDO PARA MIM.

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    1. Olá Anônimo. Desculpe-me a demora em responder.

      Em primeiro lugar, ser ateu e acreditar na existência da vida após a morte beira a contradição (ainda que não seja absolutamente contraditório), embora não seja tão trivial entender o porquê.

      A questão é se há ou não vida inteligente no universo (o que equivale a perguntar se há espíritos, ou se existe a alma, ou se há razão, etc...).

      Se há esse tipo de vida, então algo com os atributos de Deus deve existir necessariamente, ainda que fosse simplesmente emulado pela comunidade dos seres racionais, o que na prática, do ponto de vista das consequências, seria a mesma coisa que Deus existisse.

      Ora, seres racionais, se existirem, não podem viver em estado de anarquia, seja aqui, seja em uma outra vida, seja em qualquer contexto. Como não podem se defender sozinhos contra todos, precisam se unir em torno de um poder soberano por eles mesmos instituído a fim de garantir uma justiça pública. Por isso aqui na Terra o estado anárquico sempre foi e sempre será uma deplorável transição para uma constituição jurídica. Na outra vida (se existir) não será diferente, de modo que só há duas opções possíveis: ou Deus existe de fato e exerce esse poder, garantindo a justiça pública; ou a comunidade de seres racionais de há muito já constituiu um poder soberano que teria poderes sobre nós como o teria a divindade, o que no final das contas é a mesma coisa.

      Por outro lado, se não crê que somos racionais, então na verdade não somos nada além de "coisas", e coisas não têm dignidade, nem autonomia, nem importância alguma em si. Pouco importa se a condição não-racional é aqui ou na outra vida. Se for na outra vida, seríamos então "coisas espirituais" (desculpe o apelo ao absurdo, pois uma "coisa" "espiritual" é um contradictio in terminis). Mais uma vez, então, o ateísmo é contraditório com a crença em outra vida, pois vida não-racional não é vida de modo algum, e se não somos racionais, já não somos nada hoje, agora, e não apenas após a nossa morte, de modo que tanto faz como tanto fez se Deus existe e se renascemos ou não.

      Outro erro comum dos que não creem em Deus é não crer Nele por julgarem que seria sua obrigação fazer-nos felizes, como fazemos com os nossos cachorrinhos ao lhes darmos comida, abrigo e segurança. Ora, enquanto seres racionais, somos bem mais do que isso! A felicidade é um projeto pessoal e subjetivo, e não está no poder de alguém fazer o outro feliz, mesmo que esse alguém fosse o próprio Deus. Da mesma forma, não está no poder de alguém dar um sentido à sua vida se você mesmo não quiser dar. Engana-se redondamente quem usa Deus como muleta psicológica para ser feliz, porque o objetivo final Dele não pode ser esse, mas sim o de garantir as condições para a dignidade, que pode concordar com a felicidade, mas muitas vezes a ela se opõe.

      Desse modo, o verdadeiro objetivo de Deus (se existir e for racional) é garantir as condições da dignidade, o que pode implicar em situações em que tenhamos que ser infelizes, ao menos temporariamente. O verdadeiro objetivo da divindade não é resolver os nossos problemas, mas criar as condições para que tenhamos problemas morais a solucionar e, com isso, nos restar o mérito e fomentar o desenvolvimento da nossa auto-estima racional e da nossa própria dignidade.

      O seu comportamento nesta postagem vai justamente na contramão disso, porque a prova lhe foi dada pela natureza das coisas e, ao invés de suportar com coragem e amor próprio as condições que a vida lhe impôs, vem aqui chorar como uma criancinha e culpar alguém que nem sequer acredita que exista: Deus. Se seu pai estiver (ou estivesse) vivo hoje, na outra vida, como acha que ele deveria estar avaliando estes queixumes?

      Então, meu caro, sinto muito pela sua perda. Mas se aceita uma sugestão, aconselho-lhe coragem para enfrentar as suas provas, mantendo firme a sua dignidade e encontrando para a sua vida um sentido, antes que a natureza selvagem dê para ela um sentido que provavelmente não será o que você gostaria que ela tivesse.

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