quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O perigoso canto da sereia comunista

Quantos são os que não foram seduzidos, pelo menos em alguma fase da vida, pelo belo canto comunista das sereias barbudas (Marx&Engels) e seus discípulos, especialmente os que, nada possuindo, vislumbravam a possibilidade de a riqueza dos ricos ser transferida para o fundo comunal e compartilhada com os pobres? O canto era muito sedutor: falava de igualdade e harmonia entre os homens. Muitos não resistiram e, infelizmente, os que foram ao seu encontro só se depararam com os rochedos das decepções, miséria, escravização e morte. Felizes os que, como o Odisseu da mitologia, se fizeram surdos a esse canto, que nada mais é do que uma cruel armadilha ideológica. Quando Marx disse aos proletários que eles nada tinham a perder com a revolução, ele se enganou ou os enganou. Eles tinham sim a perder, e muito, a começar pela própria liberdade, não raramente a própria vida, e as populações de todas as nações que embarcaram nessa aventura foram escravizadas e dizimadas em enormes genocídios.

Felizmente essa ideologia está morrendo; hoje está moribunda. Mas ainda conta com muitos adeptos, de modo que não podemos ainda suspirar aliviados e dizer que o marxismo é só história. Em outro ensaio escrevi que talvez não demore muito tempo para que ela e seus principais símbolos sejam tratados com o mesmo horror que são tratadas hoje a ideologia e símbolos nazistas. Porque no fundo eram a mesma coisa, embora se apresentassem sob formatos diferentes. Ambas consideravam os homens como simples coisas, simples organismos mecânicos que só teriam direito a existência neste mundo enquanto fossem úteis. A diferença é que o nazismo discriminava pela raça (o racismo), enquanto que a ideologia comunista discrimina pela classe social (que tenho chamado de classismo). Mas ambas apregoavam que aqueles indivíduos que fossem considerados prejudiciais à sociedade, ou que não tivessem mais utilidade neste mundo, deveriam desaparecer. É sempre bom lembrar o que disse o ainda aclamado escritor inglês Bernard Shaw, em um vídeo reproduzido no documentário A História Soviética (The Soviet History), (aos 20:30 minutos aproximadamente):
Todos devem conhecer ao menos meia dúzia de pessoas que não têm utilidade nesse mundo, que são mais um problema do que aquilo que valem. Apenas coloque-os lá e diga: "Sr. ou Sra., você será gentil o suficiente para justificar sua existência". "Se não pode justificar sua existência, se não está produzindo tanto quanto consome, ou de preferência mais, então não podemos usar a grande organização da sociedade para mantê-lo vivo, porque sua vida não nos beneficia nem pode ser muito útil a você mesmo". (grifo meu)
Salta aos olhos aqui a mentalidade utilitária, com total desprezo pelo indivíduo, em contraposição à mentalidade Ética, que leva em conta os direitos individuais. Os comunistas podem dizer o que quiserem, mas não podem negar que a sua proposta de reforma social passava por uma chamada luta de classes e pelo aniquilamento daqueles que eles consideravam os parasitas da sociedade: a chamada classe burguesa. Será que as pessoas achavam que Marx&Engels estavam brincando, ou estavam sendo apenas metafóricos, quando escreveram no manifesto comunista (prefácio e cap. IV) (grifo em negrito e sublinhado meu):
Um espectro ronda a Europa - o espectro do comunismo. (...) Os comunistas não se rebaixam em dissimular suas ideias e seus objetivos. Declaram abertamente que seus fins só poderão ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social existente. Que as classes dominantes tremam diante de uma revolução comunista! Os proletários nada têm a perder nelas a não ser suas cadeias. Têm um mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos!
Bem, como já disse acima, a história provou que os proletários não tinham nada a ganhar e tudo a perder. Marx&Engels os enganaram.

Como o comunismo é uma filosofia que nega a faculdade da liberdade, o homem é visto como um simples organismo mecânico sempre determinado por situações exteriores. Por isso, para Marx, somos nada mais do que simples joguetes da história e dos meios de produção. Ele entendia o caminho para o paraíso na Terra em quatro estágios bem definidos: Feudalismo -> Capitalismo -> Socialismo -> Comunismo. Por entender que o homem era incapaz de se auto-determinar, ele simplesmente não concebia que uma sociedade pudesse pular, por exemplo, do estágio feudal para o estágio socialista sem passar pelo estágio capitalista. Por isso é bastante compreensível que ele tenha escrito o seguinte, que também consta do vídeo que indico no final deste ensaio, aos 16 min. aproximadamente:
“As classes e as raças, fracas demais para conduzir as novas condições da vida, devem deixar de existir. [...] Elas devem perecer no holocausto revolucionário.” (Fonte: Marx People's Paper, 16 de abril de 1856, Journal of the History of Idea, 1981)
Supondo que o socialismo e o comunismo fossem realmente estágios sociais mais avançados, como Marx queria, o que é que impediria as populações feudais de serem educadas e inseridas já no estágio mais perfeito, ao invés de terem que passar pelos estágios imperfeitos? Por que precisariam perecer? Para qualquer um que admita a faculdade da liberdade, nada impede. Mas para aqueles que nos consideram simples organismos mecânicos, eles entendem que os nossos "sistemas" não assimilariam as novas condições se não tivessem percorrido todo o caminho evolutivo. Por isso esses povos deveriam certamente perecer quando as sociedades mais adiantadas avançassem para o estágio de luta de classes: o socialismo.

A teoria marxista fracassou vigorosamente em todas as suas formas. Primeiro porque Marx previa que o estágio socialista proviria do estágio capitalista. Ora, os países que eram capitalistas na época eram a Inglaterra, a França, a Alemanha, os Estados Unidos. Mas foi justamente nesses que a revolução socialista nunca esteve nem perto de ocorrer. As revoluções ocorreram onde então? Justamente nas populações ainda rurais e feudais, onde a ignorância e o analfabetismo reinavam absolutos. Mas qualquer país onde a população tinha um mínimo de nível educacional, por mais medíocre que fosse, resistiu a essa fraude intelectual. Porém ainda hoje os marxistas encontram desculpas para justificar o seu fracasso e continuar alimentando a de que o marxismo poderá vir a prosperar no futuro.

Eles dizem que os genocídios que ocorreram foram distorções do pensamento de Marx. Mas será que Marx estava pensando que a luta de classes se daria com balas de festim e com outras armas não letais? Será que ele não via que a chamada classe burguesa deveria ser erradicada pela chamada classe proletária? O que será que ele entendia por ditadura do proletariado, que não um déspota que se sentaria no trono, em nome dos proletários e para governar em nome deles, e que iria implementar o estágio de luta até que a classe burguesa tivesse sido completamente erradicada do mapa? Simon Sebag Montefiore, em seu livro intitulado, na tradução brasileira de Pedro Maia Soares publicada pela Editora Companhia das Letras, A Corte do Czar Vermelho, cap. 20 (intitulado Banhos de sangue aos magotes), em se referindo à época do expurgo ou do grande terror, escreveu (inserções entre colchetes e grifos meus):
"Eles nem especificavam os nomes, simplesmente fixavam cotas de mortes aos milhares. A 2 de julho de 1937, o Politburo ordenou que os secretários locais prendessem e fuzilassem "os elementos anti-soviéticos mais hostis" que deveriam ser sentenciados por troikas, tribunais de três homens que incluíam usualmente o secretário do Partido, o procurador e o chefe do NKVD local.

O objetivo era "acabar de uma vez por todas" com todos os inimigos e com aqueles impossíveis de educar no socialismo, de modo a acelerar o desaparecimento das barreiras de classe e, portanto, a instauração do paraíso para as massas [ou seja, o estágio comunista]. Essa solução final era um massacre que fazia sentido em termos da fé e do idealismo do bolchevismo, que era uma religião baseada na destruição sistemática das classes. O princípio de ordenar o assassinato como cotas industriais do Plano Quinquenal era, portanto, natural. Os detalhes não importavam: se a destruição dos judeus por Hitler foi genocídio, então aquilo foi democídio, a luta de classes se transformando em canibalismo.
E como o que estava em jogo não eram pessoas, mas simples organismos mecânicos, era preferível sacrificar alguns a mais, independentemente se eram ou não inocentes, do que deixar um único inimigo da revolução para trás. Na continuação do texto acima (grifos meus):
Na Rússia (...) a morte era, às vezes, aleatória: o comentário esquecido há muito tempo, o flerte com a oposição, a inveja do emprego, da mulher ou da casa de outro homem, vingança ou simplesmente pura coincidência causaram a morte e a tortura de famílias inteiras. Isso não importava: "Melhor ir longe demais do que não ir longe o suficiente", disse Iejov a seus homens, enquanto a cota original de prisões da Ordem nº 00447 inflava para 767.397 prisões e 386.798 execuções.

(...)

...No total, pelas últimas estimativas, combinando as cotas e os contingentes nacionais, um milhão e meio foram presos nessas operações e cerca de 700 mil fuzilados.
O que torna tudo isso possível do ponto de vista intelectual é, como já repeti diversas vezes em vários ensaios neste Blog, é a negação da faculdade da liberdade, que automaticamente retira do homem a sua dignidade intrínseca como fim em si mesmo da criação, tornando-o equivalente a uma simples coisa e que pode ser disposta como uma simples coisa, desde que ela não tenha mais utilidade neste mundo. De fato, quem é que se preocupa com direitos de coisas, de organismos simplesmente mecânicos? Sacrificavam-se pessoas como hoje se sacrificam manadas de bois, quando somente suspeita-se que estejam doentes. Essa a consequência da negação da faculdade da liberdade, que é comum a quase toda filosofia pós-moderna, incluindo a de Marx, como mostrado na citação abaixo:
"Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado."

Fonte: Karl Marx, O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, Capítulo I.
E por fim, para fechar com chave de ouro essas asneiras filosóficas, Marx&Engels acreditavam que uma vez que a classe burguesa estivesse riscada do mapa, todos os homens se tornariam irmãos, todos seriam livres e trabalhariam felizes e contentes pelo bem comum em completa abstração de seus interesses pessoais, e que aí então aquela ditadura do proletariado, instaurada no estágio socialista para ajudar os proletários a se livrar dos burgueses, iria se tornar desnecessária e se esvaziar por si só, magicamente, os proletários seriam os únicos controladores do meios de produção e todos viveríamos felizes para sempre, em um planeta sem governos, sem burgueses, sem exploração, no definitivo e perfeito estágio comunista. Chega a escorrer uma lágrima de emoção e de (falsa) esperança quando lemos o resumo de Engels, no final do seu livro intitulado Do socialismo utópico ao socialismo científico, publicado em 1880 (grifos meus):
3. — Revolução proletária, solução das contradições: o proletariado toma o poder político e, por meio dele, converte em propriedade pública os meios sociais de produção, que escapam das mãos da burguesia. Com este ato redime os meios de produção da condição de capital, que tinham até então, e dá ao seu caráter social plena liberdade para se impor. A partir de agora já é possível uma produção social segundo um plano previamente elaborado. O desenvolvimento da produção transforma num anacronismo a sobrevivência de classes sociais diversas. À medida que desaparece a anarquia da produção social, vai-se diluindo também a autoridade política do Estado. Os homens, donos por fim da sua própria existência social, tornam-se senhores da natureza, senhores de si mesmos, homens livres.

A realização deste ato, que redimirá o mundo, é a missão histórica do proletariado moderno. E o socialismo científico expressão teórica do movimento proletário, destina-se a pesquisar as condições históricas e, com isso, a natureza mesma deste ato, infundindo assim à classe chamada a fazer essa revolução, a classe hoje oprimida, a consciência das condições e da natureza da sua própria ação.
É preciso ser muito simplório do ponto de vista intelectual, e desconhecer profundamente a natureza humana, para pensar que uma vez eliminada a classe burguesa nenhum homem tentaria mais se impor, nenhum olharia mais para os seus interesses pessoais e todos olhariam apenas para o interesse coletivo. Só mesmo quem é ingênuo o bastante para nos comparar a simples máquinas, que podem ser programadas, poderia supor que a humanidade alcançaria um tal estado de coisas e o manteria. Isso sem falar que, mesmo que isso fosse verdade para uma geração, quem é que garante que seria verdade para as gerações futuras? Será que os comunistas pensam que ideologia se transmite de pais para filhos, que o filho de um comunista um comunista sempre será? É muito ingênuo todo esse filosofisma, e é de certa forma humilhante para a espécie humana que tantos de nós nos tenhamos deixado iludir por essa fraude intelectual grosseira, que pode ser refutada com quase nenhuma reflexão.

Os socialistas poderiam matar 90% de qualquer população, e ainda assim existiriam burgueses, existiriam "inimigos" da revolução, porque quando sai um que olha para o seu interesse, imediatamente outro (que antes, teoricamente, só se preocupava com o bem comum) toma o seu lugar. Isso faz parte da natureza humana e é impossível eliminar. O fato é que o estágio socialista nunca termina, e com isso a ditadura do proletariado nunca termina (os ditadores, aliás, uma vez que sentam no trono, só o abandonam quando morrem), o estágio (sangrento) de luta nunca termina, porque nunca deixará de haver "inimigos", e a fase comunista, o "paraíso na Terra para as massas", nunca vem e nem nunca virá, de modo que a liberdade que se almejava se transforma em uma piedosa esperança que é sempre prometida, mas nunca concretizada, e o estado de opressão e escravização é o estado definitivo, até que o sistema seja derrubado ou simplesmente desistam dele, discretamente, como fez a Rússia e outros países.

Isso tudo pode ser entendido a priori, mas para quem não se convence com demonstrações a priori, pode se fiar na história, porque nenhuma experiência comunista conseguiu transcender a fase socialista, e nenhuma nunca conseguirá. Só há uma saída para as sociedades socialistas abandonarem o estado de terror e de luta: "retroceder" para o estágio capitalista, pois este sim é o mais justo e estável sistema, além de ser o único possível. Só os fanáticos comunistas é que não percebem isso e continuam presos às suas utopias. Mesmo Cuba está hoje discretamente aplicando um "retiro o que disse", liberalizando aos poucos a sua economia, abrandando algumas restrições à liberdade individual, e quem sabe daqui a alguns anos não veremos eleições livres na ilha?

Seja como for, embora essa ideologia esteja morrendo, ela ainda continua por aí e em alguns poucos lugares continua firme e forte. Mas como disse, espero viver para ver o dia em que essa ideologia, assim como a sua simbologia, serão tratadas com o mesmo desprezo e horror que hoje são tratadas as ideologias e simbologias nazistas. Alguns acontecimentos no mundo me levam a crer que esse dia não está longe (quem sabe mais uns 10 ou 20 anos apenas?). Não pude deixar de sentir uma certa satisfação quando, no dia 10 de janeiro deste ano (2013), li uma notícia na página do IG, que informava sobre uma polêmica iniciada por causa do uso de uma imagem de Lênin em uma propaganda de celular na Polônia. Trechos da matéria diziam o seguinte:
Na Polônia, Vladimir Lênin não é motivo para piadas.

Após ser altamente criticada, uma operadora de celular polonesa que utilizou um desenho do revolucionário comunista resolveu nesta semana tirar do ar sua campanha publicitária.

(...)

Na segunda-feira de 7 de janeiro, a companhia avisou em sua página no Facebook que retiraria os anúncios de circulação após protestos. A empresa também disse que nunca teve a intenção de ofender ninguém.

Entre aqueles que protestaram estava o Instituto da Memória Nacional, um órgão estatal que investiga crimes da era comunista. Seu diretor, Lukasz Kaminski, escreveu em uma carta aberta para a empresa de telefonia que Lênin foi "um dos maiores criminosos" do século 20.

Ele disse estar indignado com o fato de a empresa ter utilizado a imagem de um homem que foi diretamente responsável por milhões de mortes, incluindo a de milhares de poloneses.

"É irresponsável banalizar crimes em massa e suas vítimas", disse Kaminski. "Os efeitos sociais dessa campanha também podem ser perigosos, pois ela é dirigida a jovens que poderão associar coisas positivas a Lênin."

Um grupo de direitos do consumidor também pediu que as pessoas reclamassem para a empresa, uma campanha que resultou em cerca de 1 mil cartas.

A Associação da Sua Causa disse que usar um "criminoso comunista” como um ícone publicitário não passou de uma piada de mau gosto. Também disse que teriam o maior prazer em pagar aulas de história para os membros do conselho da administração da empresa de telefonia e para os da agência de publicidade que veiculou os anúncios.
É isso aí, palmas para os poloneses. Espero viver para ver esse tipo de atitude no mundo inteiro, inclusive no Brasil, onde infelizmente ainda existem partidos que ostentam em suas páginas a malfadada ideologia marxista. A notícia completa pode ser lida no link abaixo:

http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2013-01-10/anuncios-de-celulares-com-imagem-de-lenin-desatam-polemica-na-polonia.html

Para finalizar, indico também um documentário muito interessante que mostra a verdadeira face dessa ideologia adotada por pessoas que pensam em tomar as nações e escravizar suas populações (tudo em nome da igualdade de riquezas e da harmonia), como fazem bandidos comuns que tomam uma residência de assalto e fazem os seus moradores de reféns. O documentário chama-se A História Soviética (The Soviet Story), e pode ser encontrado disponível na internet.

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Petrópolis/RJ
Revisado em 21/2/2015

2 comentários:

  1. O seu blog é muito interessante!

    Votos de continuação do bom trabalho!

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