quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

É possível racionalmente crer em uma intervenção divina no mundo?

A pergunta é pertinente, porque há os que afirmam que a não é algo que seja proveniente da razão. Na data de ontem (acaba de passar da meia-noite), um leitor anônimo, ao ler o meu ensaio intitulado Sobre a crença e a fé..., publicado neste Blog em 20/11/2012, deixou o seguinte comentário (fiz alguns pequenos ajustes referentes a incorreções na digitação):
"Bom, observei seu texto e reparei que o seu discurso me passa um pressentimento que você não crê na intervenção divina, ou seja, que ele possa interferir em nosso mundo e favorecer aquele quem ele quer. Dentro visão teológica cremos na intervenção divina, mas isso não quer dizer que eu não venha trabalhar por aquilo que quero. Crer em um Deus estático em que não intervém na humanidade, posso acreditar que sou quase um ateu, pois não me fará diferença se ele existe ou não. Dentro dessa concepção para que o teísmo então? Agradeço e espero ansiosamente pela resposta."
Como a resposta ficou um pouco mais longa do que eu tinha inicialmente em mente, decidi responder neste ensaio em separado.

A existência de Deus, assim como a imortalidade da alma e a minha liberdade inteligível, são consequências imediatas da minha consciência das Leis Morais (que aliás é uma Lei da razão e que podem ser chamadas também de Leis de Deus, aplicada aos seres dotados de liberdade). Ora, neste caso eu não poderia conceber um Deus que fosse dissociado de Suas Leis, agindo e intervindo no mundo em desacordo com os fins propostos de Suas próprias Leis.

Mas qual é o fim proposto pela Lei para os seres livres? É a felicidade? Se fosse, teríamos razões suficientes para afirmar que Deus não existe, pois a maioria de nós não é feliz, e todos nós não somos felizes o tempo todo (entendendo aqui por felicidade como sendo o estado de coisas em que tudo ocorre segundo a nossa vontade). Inclusive alguns estados de miséria e de desgraça do mundo são argumentos para alguns ateus afirmarem que Deus não existe, pois que não conseguem vislumbrar outro fim terminal para a Criação que não seja a felicidade. Como o homem não é feliz o tempo todo, dizem então que "Deus não existe”. Mas não é muito difícil de identificar a falácia do argumento.

É mesmo a felicidade o fim terminal da Criação? Então por que nos indignamos quando vimos ontem, por exemplo, um "bicheiro" conhecido, que foi condenado a quase 40 anos de prisão por uma série de crimes de peculato, corrupção, formação de quadrilha, entre outros, descansando (ou seja, usufruindo de certa felicidade) em um Resort de luxo na península de Maraú, no litoral da Bahia? Se fosse a felicidade o fim terminal da Criação, não deveríamos estar incondicionalmente felizes pela felicidade dele, independentemente de mérito?

Por aí vemos que a felicidade não é e nem pode ser um fim terminal (último) da Criação, mas ela só pode ser um fim condicionado, o que implica dizer que o fato de existir infelicidade no mundo não é razão suficiente para afirmar a inexistência de Deus, pois é possível conceber um alto estado de infelicidade e mesmo assim admitir a existência de um Ser Supremo de toda a bondade e toda justiça.

Na verdade, para a Lei atingir a sua finalidade, o fim terminal da criação deve ser a felicidade condicionada à moralidade, ou seja, ser feliz apenas aquele que é digno de ser feliz, por ter pautado a sua vida sempre pela ética; e ser infeliz (ao menos temporariamente) aquele que não é digno de ser feliz, por ter violado a ética (ou seja, por ter pecado). Essa é a verdadeira finalidade da Lei, e não se pode conceber um Ser Supremo (Deus) que não intervenha no mundo para fomentar esse fim, assim como é absurdo supor que Deus atue no mundo de modo a sabotar a finalidade das Suas próprias Leis.

Logo, em um perfeito Reino de Deus, veríamos felizes os que são dignos de ser felizes, e veríamos infelizes os que não são dignos de ser felizes, de modo que mesmo um mundo infeliz poderíamos dizer que estivesse vigente um legítimo Reino de Deus, desde que essa infelicidade não fosse injusta. Quem é então capaz de provar que o Reino de Deus não se faz, hoje, também presente na Terra, mesmo com toda a infelicidade que ela carrega?

Por outro lado, aquele que concebe a existência de um Ser Supremo deve crer também que tudo o que ocorre no mundo ocorre segundo a vontade Dele. Logo, todas as alegrias do mundo ocorrem pela vontade de Deus. Mas da mesma forma, todas as infelicidades do mundo também ocorrem segundo a vontade de Deus (embora tenhamos uma tendência de colocar a culpa no Diabo). Nada disso, como eu disse, afeta os atributos da divindade, visto que o sofrimento pode ser justo (e caso Deus exista, todo sofrimento é certamente justo).

Ora, quando espero alguma coisa de Deus (quando tenho uma verdadeira ), devo esperar somente aquilo que sei que concorda com a Sua vontade. Bem, estou certo que Deus (se existir) quer que Sua Lei se cumpra e que a finalidade de Sua Lei seja alcançada. E a finalidade da Lei é a felicidade adequada à moralidade.

Nós não sabemos por que estamos aqui, se tivemos uma existência anterior a esta ou se teremos uma depois desta. Não sabemos se existe de fato um Supremo Juiz do mundo. Cremos nele, mas não sabemos se existe, pois é impossível a prova objetiva. Quem é então que pode dizer para si mesmo, com absoluta certeza, que seu sofrimento ou as contingências que precisa enfrentar neste mundo são injustas? Não podemos provar que são justas, isso é certo, mas também não podemos provar que são injustas. Quando você pede a Deus para curar uma doença (em você mesmo ou em outros), como é que tem certeza de que não é vontade de Deus que aquela doença permaneça por mais algum tempo, por uma razão qualquer que você ignore? Como é que você pode saber que aquela doença que lhe aflige, ou que aflige a quem você ama, não é algo enviado pelo próprio Deus para purificar a alma, para fazê-la refletir sobre a vida e se restabelecer como uma pessoa moralmente melhor? E quem te garante que é mesmo vontade de Deus que o doente se restabeleça, e que não é da vontade Dele chamar o indivíduo dessa vida por meio daquela doença que você pede para curar e tem "fé" que será curada? O mesmo pode ser dito para quaisquer contingências no mundo empírico: desemprego, miséria, violência, intempéries, inimigos, etc., etc...

Quando eu transformo essas coisas em um objeto de "fé", eu posso cometer (e vou te dizer que em 100% das vezes cometeria) o absurdo de desejar que ocorra algo no mundo que é contrário à vontade de Deus, o que destrói a fé por meio dela mesma. O simples fato de orar a Deus pedindo a solução dessas contingências terrestres já é um erro, pois estou orando a Deus para que Ele não faça cumprir a Sua vontade, o que é um absurdo prático para aquele que crê em Deus. É como se eu estivesse dizendo a Deus o que Ele deve fazer, como se ele estivesse desatento ao meu problema, como se não estivesse fazendo o Seu trabalho direito, ao invés de me resignar à vontade Dele. Por isso essas coisas, quando transformadas em objeto de "fé", só podem ser objetos de uma falsa fé (ou seja, de uma simples credulidade). Eu só posso pedir a Deus, ou esperar que Deus realize no mundo, algo que eu tenha certeza que esteja de acordo com Sua vontade, ou seja, algo que só pode ser moral.

É claro que quando estou doente, ou vejo alguém querido doente, o meu maior desejo é que essa doença se vá, e vou (e devo) empreender todos os meus esforços para isso. Mas não vou pedir a Deus para intervir no mundo a meu favor para me livrar dela, porque não tenho como saber a vontade de Deus no caso em questão. É um ordenamento que eu empreenda todos os esforços lícitos para me livrar com sagacidade dos meus problemas. Mas é também um ordenamento que eu não mova uma única palha de esforço ilícito (ou seja, que contrarie a ética) para me livrar do mesmo problema. E orar por algo que seria contra a vontade de Deus é um desses esforços ilícitos. Tentar um comércio com Deus (uma promessa, uma campanha, uma oração, por exemplo) para fazer com que Ele interfira a nosso favor em um caso arbitrário é uma prática supersticiosa e, portanto, é outro desses esforços ilícitos.

De novo: eu só posso pedir a Deus aquilo que tenho certeza que concorda ao mesmo tempo com Sua vontade. Mas o que mais podemos ter certeza de ser a vontade de Deus senão a respeito de tudo aquilo que é moral? Mais nada eu posso saber e, consequentemente, mais nada eu posso pedir ou esperar. Só o que é moral! Então, eu não só posso como devo pedir a Deus que sua Lei se cumpra; eu não só posso como devo esperar que sua Lei se cumpra; e eu não só posso como devo empreender todos os esforços no mundo em concordância com essas Leis para viver produtivamente a minha vida, buscar a minha própria felicidade e solucionar as minhas contingências. Além disso é mera crendice e/ou superstição.

Por isso, o objeto da verdadeira fé só pode ser “a confiança nas promessas da Lei Moral”. Eu posso não saber o que é que Deus está fazendo pela minha vida, mas posso crer e esperar que tudo o que me acontece é permitido por Deus para me provar e me experimentar, visando o meu bem-estar moral, ainda que a minha carne possa estar sendo fustigada. Eu posso, em oração, pedir a Deus que só me dê fardos que eu possa carregar, que me livre dos que ainda não posso carregar, que me livre de tudo o que possa me desviar do meu fim moral na Terra (visto que todos temos tarefas para cumprir aqui e, se fôssemos desviados por acidentes fortuitos, não conseguiríamos realizá-las), que me dê forças e resignação para suportar e vencer as minhas provações, forças para não sucumbir às tentações, acesso a um melhor entendimento de Suas Leis para que eu possa melhor observá-las. Todos esses são pedidos lícitos que podemos fazer a Deus, porque concordam com Sua vontade e com Suas Leis.

Qual a diferença dessa crença para a crença do ateu? Eu, que creio em Deus, que tenho o que considero uma firme e verdadeira fé em Deus (mesmo não podendo saber se Ele existe mesmo), creio que a humanidade caminha sempre para o que é melhor, embora em alguns momentos (aos meus próprios olhos) ela pareça retroceder. Eu creio que Deus intervém sempre no curso do mundo no sentido de não permitir que a humanidade estacione ou se perca, nem um único ser livre sequer.

Já o ateu não crê em nada; para ele não existe o futuro. Ele crê na sorte. Se ele se dá bem diz “tive sorte”. Se ele se dá mal diz “tive azar”. Considera todos os sofrimentos e mazelas do mundo como prejuízos à humanidade, na qual nada há para ser feito a não ser tirar as melhores vantagens das diversas situações. O mundo para ele está irremediavelmente perdido, seja hoje, seja daqui a milhares ou milhões de anos, não se dando conta de que não faz diferença desaparecer hoje ou um milhão de anos à frente. Quando acha que sofre uma injustiça, tende a procurar compensações, mesmo que contrariamente a ética. Quantos, por exemplo, não gostariam de fazer justiça com as próprias mãos no caso do "bicheiro" (o que seria contrário à Lei), ao invés de delegar essa justiça para o Estado (que é o correto, segundo a Lei) sob a desculpa de que a justiça do Estado é muito lenta e falha? Quantos que, ao se depararem com um estuprador em flagrante na rua, não partem para o linchamento (o que é contrário à Lei), ao invés de simplesmente entrega-lo à justiça para ser julgado (o que é conforme à Lei)? E os policiais justiceiros, que ao invés de entregarem o delinquente à justiça (que é conforme à Lei) o executam a sangue-frio e depois dizem que ele reagiu (que é contrário à Lei)? Quantos acham que o caminho para a solução da corrupção da política é a via da revolução (o que nada mais é do que o aniquilamento do Direito e aplicação de uma "justiça" com as próprias mãos) ao invés do caminho da reforma?

Tudo isso é resultante de uma falta de fé, ou seja, de uma falta de confiança de que o curso do mundo está e sempre esteve seguro, em um caminho progressivo, nas mãos de Deus, que intervém sempre no sentido do que é melhor. Essa falta de fé atinge certamente os ateus, mas atinge também uma grande parte dos religiosos que, embora crendo em Deus, agem como gentios (ver abaixo), não crendo que o curso do mundo esteja sob controle e, sempre que podem, buscam as suas compensações, atropelando a Ética. E o resultado disso, já sabemos: quem parte por essas vias; quem perde a fé na justiça e atropela a Ética, torna-se indigno, perde o merecimento à felicidade e, se Deus existir mesmo, vai perder (ao menos temporariamente) a felicidade de fato, porque Deus quer a Sua Lei atinja a sua finalidade, e Ele não pode conceder felicidade àquele que é indigno dela. É ingenuidade se convencer do contrário (aquele que crê em Deus).

Isso tudo que expliquei é o que a razão ensina. Mas podemos encontrar a mesma coisa nas Escrituras Sagradas. Para começar, a cena de Jesus no Getsêmani:
“E adiantando-se (Jesus) um pouco, prostrou-se com o rosto em terra e orou, dizendo: Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres.” (Mt 26:39)
Essa é a verdadeira oração! O cálice a que ele se referia são todos aqueles sofrimentos que estava para sofrer na cruz. Era normal o desejo de se subtrair àquilo. Mas ele não pede a Deus que o livre daquele destino, mas diz, “se possível”, que afastasse dele aquele destino. Jesus não transformou esse desejo em objeto de fé; ele não creu que seria poupado daquele destino por meio de uma "fé" em Deus, mas antes se submeteu à vontade Dele, fosse ela qual fosse, dizendo "não seja como eu quero, mas como Tu queres", porque a Fé de Jesus lhe dizia que Deus sabia o que era melhor para o caso em questão.

Da mesma forma, poderíamos nós dizer (visto que os atos de Nosso Senhor devem ser imitados): “Senhor, se possível, me cura dessa doença (ou me livre do desemprego, da miséria, dos meus inimigos, das intempéries, etc.); mas que seja feita a Tua vontade e não a minha, porque creio (tenho Fé) que qualquer que tenha sido o destino que me reservaste, esse destino é para o meu melhor proveito. Essa é uma oração possível. Mas não devo crer (ou ter “fé”) de que Deus me curará, porque eu nem mesmo sei se essa é a vontade Dele, não devendo então pedir isso a Ele em oração. Pelo contrário, se o meu pedido possível não for atendido, devo dizer, como Jó: "O Senhor o deu, o Senhor o levou; louvado seja o nome do Senhor." (Jó 1:21)

Outra passagem:
“Por isso vos digo: não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que alimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Ora, qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura? E pelo que haveis de vestir, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam; contudo vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir? (Pois a todas estas coisas os gentios procuram.) Porque vosso Pai celestial sabe que precisais de tudo isso. Mas buscai primeiro o Seu reino e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal." (Mt 6:25-34)
Ora, que falta de fé é essa, achando que Deus vai se descuidar e te deixar faltar o necessário? Que falta de fé é essa que o leva a pedir a Deus o que Ele decidiu ainda não te conceder? Jesus compara a gentios esses “homens de pouca fé” que correm atrás de tais coisas ao invés de buscarem apenas o Reino de Deus e Sua Justiça. Ignoram que Deus sabe do que eles realmente precisam, antes até que eles sintam falta (mesmo que seja contrário às suas vontades)? Pelo contrário, quem deixa de buscar essas coisas mundanas e olha apenas para a meta, ou seja, para o Reino de Deus e sua Justiça (ou seja, o fomento, no mundo, dos fins prometidos pelas Leis de Deus – que são as mesmas Leis Morais), não importando com que sacrifícios, terá a felicidade que deseja sem que a busque. Mas quem busca a felicidade (os gentios), desviando o olhar do Reino de Deus e da Sua Justiça, não vai encontrar a felicidade que procura e vai ficar sempre pedindo aquilo que Deus não vai permitir nunca que obtenham, por contrariar a finalidade da Lei. Lembre-se: doutrinas de felicidade dissociadas da Ética jamais trazem felicidade. E a maioria das doutrinas de salvação que pregam por aí são dessas "doutrinas de felicidade", altamente supersticiosas (ou seja, que esperam agradar a Deus por atos que qualquer um pode realizar sem precisar se esforçar para se tornar um homem de bem) e idólatras (ou seja, em que Deus é concebido como um ser a quem podemos esperar agradar, não mediante um bom comportamento moral no mundo, mas pela adoração e adulação apenas).

Portanto, creio sim que Deus interfere no curso do mundo. E creio fortemente (tenho). Mas não posso crer que Deus o faça contrariando as Suas próprias Leis. Da mesma forma não devo pedir a Deus, ou esperar de Deus (por meio de uma falsa fé), que Ele faça uma determinada intervenção no mundo que, mesmo que pretensamente em meu favor, possa estar em desacordo com a Sua vontade. Eis tudo.

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Petrópolis/RJ
Revisado em 24/1/2013.

4 comentários:

  1. Parabéns pelo texto!

    Marcus

    (http://br.groups.yahoo.com/group/estudantes-da-biblia/)

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  2. Amei o texto,muito oportuno para o momento.Esclareceu dúvidas que tinha quanto a intervenção divina,minha maneira de orar, buscar a Deus.Obrigada!

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  3. O texto nao está isento, transparece a orientacao espirita, entao sofremos porque devemos sofrer e nos resignar com isso tipico da sua religiao para a qual viemos para esse mundo para cumprir a missao e aprender com os erros do passado. Hum, me parece que a sua argumentação esta eivada de influencias do espiritismo, que alias também parece uma construcao racional para explicar o inexplicável como vc proprio diz fazendo referencia a Kant. Entao tudo o que colocou pode ser verdadeiro, ou não. A resposta somente saberemos com a morte. O resto é divagação, mesmo com base em uma aparente lógica bem estruturada, como a que você utiliza no texto

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    1. Prezado Anônimo,

      Em primeiro lugar, eu considero a mim mesmo um adepto do Espiritismo (digo "me considero" porque há os que dizem que sou um "traidor da causa", rs.). Então não se deve esperar de mim discordâncias basilares com o Espiritismo. Ademais, o que seria "imparcial" para você? Se você escrevesse esse artigo conseguiria ser “imparcial” do jeito que propõe? Quem seria? A minha concepção e crença em Deus é racional e, consequentemente, moral (ao menos eu tento fazê-las ser), o que casualmente concorda com as filosofias de Kant e com o Espiritismo, que foram os que primeiramente despertaram as minhas ideias (e é justamente por isso que me declaro adepto de ambos). Se estes discordassem do meu pensamento, eu aderiria a outro, ou não aderiria a ninguém, visto que não existe uma necessidade absoluta de aderir a um sistema qualquer.

      O que escrevi, no entanto, corresponde ao pensamento de Kant, corresponde ao pensamento do Espiritismo, e também corresponde ao espírito do ensinamento bíblico em uma concepção de fé racional.

      Em Kant lemos:

      "Ora bem, desta índole nada mais pode haver exceto a moralidade em nós. De fato, embora a petição se refira só ao pão para o dia de hoje, ninguém pode estar certo da atendibilidade desta oração, i.e., de que esteja necessariamente conexa com a sabedoria de Deus a concessão do que é pedido; pode talvez harmonizar-se melhor com tal sabedoria deixá-lo morrer hoje desta carência. É também uma ilusão absurda e, ao mesmo tempo, impudente tentar, mediante a insistente impertinência da petição, se Deus não poderá desviar-se do plano da sua sabedoria (para nossa vantagem presente). Portanto, não podemos considerar como atendível oração alguma que tenha um objeto não moral, i.e., não podemos pedir algo assim na fé." (Kant em nota do item 1, Observação Geral, §4o - Do fio condutor da consciência moral em matérias de fé, Segunda Seção, Quarta Parte, Religião nos limites da simples razão)

      No Espiritismo lemos:

      A vossa prece deve conter o pedido das graças de que necessitais, mas de que necessitais em realidade. Inútil, portanto, pedir ao Senhor que vos abrevie as provas, que vos dê alegrias e riquezas. Rogai-lhe que vos conceda os bens mais preciosos da paciência, da resignação e da fé. Não digais, como o fazem muitos: "Não vale a pena orar, porquanto Deus não me atende." Que é o que, na maioria dos casos, pedis a Deus? Já vos tendes lembrado de pedir-lhe a vossa melhoria moral? Oh! não; bem poucas vezes o tendes feito. O que preferentemente vos lembrais de pedir é o bom êxito para os vossos empreendimentos terrenos e haveis com frequência exclamado: "Deus não se ocupa conosco; se se ocupasse, não se verificariam tantas injustiças." Insensatos! Ingratos! Se descêsseis ao fundo da vossa consciência, quase sempre depararíeis, em vós mesmos, com o ponto de partida dos males de que vos queixais. Pedi, pois, antes de tudo, que vos possais melhorar e vereis que torrente de graças e de consolações se derramará sobre vós. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XXVII - Pedi e obtereis, item 22).

      E na Bíblia encontramos a mesma ideia em Mt 6:25-34, que já se encontra citado no ensaio.

      Todos dão a mesma mensagem: “É um erro pedir a Deus qualquer coisa não moral”. É preferível não orar de forma alguma do que despender tempo pedindo a Deus a solução de problemas mundanos. E mesmo para o que é moral, nem tudo pode ser pedido, como por exemplo, que "Deus me torne uma pessoa melhor". Tornar-se uma pessoa melhor é obrigação nossa, e não de Deus realizar em nós e por nós.

      E de fato eu não posso saber. E você também não. Por isso pressupomos, e essa pressuposição é a verdadeira base da fé. Se temos uma existência racional, então só podemos pedir a Deus o que é moral. Mas se não temos uma existência racional, qual seria o sentido da oração? Qual seria o sentido de pressupor a existência de Deus? Nenhum. Portanto, seja em um caso ou outro, orações não morais não fazem sentido algum; são mera superstição.

      Abçs.,

      Rafael.

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