terça-feira, 20 de novembro de 2012

Sobre a crença e a fé...

A crença é um tipo de juízo que tem sido muito difamado ao longo dos últimos tempos como se, pelo fato de não se tratar de um conhecimento, fosse algo inútil, um mero efeito placebo, wishful thinking ou algo não proveniente da razão. A , que é um caso particular de crença, de modo similar tem sido igualmente difamada, como sinônimo de fanatismo religioso irracional. O objetivo aqui é procurar entender em que sentido deveriam ser realmente compreendidas essas duas palavras e demonstrar que, quando devidamente direcionadas, não só não são irracionais, como são decorrências diretas de um uso sadio da razão.

A crença possui um valor e uma importância fundamentais para o progresso humano, mas apenas quando é orientada em um sentido exclusivamente prático, e não com finalidades teóricas, como tem sido comum ao longo de todos os tempos. Pode-se inclusive afirmar que as crenças são as mais poderosas alavancas de transformação do mundo e da humanidade, tanto para o bem como para o mal, e que por isso esse conceito deveria ser mais detidamente estudado pelos homens, a fim de que estes procurassem conhecer o seu real fundamento e as suas potencialidades. É isso que vou tentar fazer resumidamente agora neste ensaio.

Os nossos juízos podem ser suficientes (há uma certeza completa) ou insuficientes (não há uma certeza completa), ao mesmo tempo que podem ser objetivos (valem para todos os seres racionais) ou subjetivos (valem apenas para mim mesmo). Com isso podemos formar quatro grupos de juízos:

1. Juízo subjetivamente insuficiente e objetivamente insuficiente: é a opinião;
2. Juízo subjetivamente suficiente e objetivamente insuficiente: é a crença (ou convicção);
3. Juízo subjetivamente suficiente e objetivamente suficiente: é o saber; e
4. Juízo subjetivamente insuficiente e objetivamente suficiente: coloquei aqui apenas para constar, visto que este é um conceito autocontraditório, pois aquilo que é suficiente para todo mundo deve ser também suficiente para mim mesmo e entraria para a categoria do saber; ou, pelo contrário, aquilo que é insuficiente para mim mesmo não poderia ser suficiente para todos e entraria para a categoria da opinião.

Dessa forma vemos que só há três modalidades possíveis de juízos e que a crença está situada em um ponto intermédio entre a opinião e o saber, como uma espécie de juízo que tem valor de certeza apenas para o sujeito que julga. Vejamos as aplicações das três modalidades.

Lançamos mão de uma opinião quando não podemos ter certeza absoluta ao mesmo tempo em que a falsidade ou a veracidade daquilo que estamos julgando em nada nos afeta (em outras palavras, possui um valor apenas teórico). Dessa forma é que, por exemplo, eu posso ser da opinião de que exista um éter preenchendo o espaço, na forma da matéria escura, porque sendo isso verdadeiro ou falso em nada vai afetar a minha vida e as minhas decisões (considerando que não seja eu o encarregado de investigar isso). A opinião, portanto, verdadeira ou falsa, em nada afeta o meu agir e a minha existência como um todo.

No extremo oposto, quando é possível a certeza absoluta, independentemente se afeta ou não a nossa vida e as nossas ações, o juízo chama-se saber. São saberes todos os conhecimentos a priori, ou seja, a matemática e geometria, a lógica, as leis morais e a metafísica, coisas nas quais podemos ter uma certeza absoluta e objetiva, que vale para todo mundo. Não quero dizer com isso que já conhecemos tudo sobre essas coisas (muitos não sabem matemática, por exemplo), mas que o conhecimento que já obtemos (e também o que futuramente obteremos) dessas coisas é final, perfeito e objetivo.

Seria de fato ridículo se eu opinasse acerca de questões matemáticas, ou se eu tomasse as demonstrações matemáticas como válidas somente para mim (como uma crença). Imaginem se eu dissesse, por exemplo, que apenas na minha opinião a soma dos ângulos internos de qualquer triângulo são exatamente iguais à soma de dois ângulos retos, ou se eu dissesse que isso é uma verdade apenas para mim. Eu seria motivo de risos. Pelo contrário, eu posso ter certeza absoluta dessas coisas e devo julgar dessa forma, sem hesitação. A certeza sobre as leis morais e a metafísica são um pouco mais controversas, mas não pretendo tratar essa controvérsia aqui para não alongar demasiadamente o ensaio, de modo que deixo para uma outra ocasião. O importante é a ideia de que todo o saber possui valor objetivo, que vale e pode ser imposto a todo mundo como conhecimento, e que é nisso que ele se diferencia da opinião e da crença.

conhecimento empírico também é um tipo de saber, mas como a certeza empírica absoluta é, com raras exceções, impossível ao homem, esses casos talvez devessem ser classificados como um gênero especial de crença que estivesse mais ou menos próximo do saber. Veremos isso mais abaixo após tratarmos da crença.

Entre os dois extremos da insuficiência subjetiva e a suficiência objetiva dos juízos encontramos a crença como suficiência subjetiva e insuficiência objetiva, que pode-se dizer que é o mesmo que postulado prático da razão, ou seja, algo que assumo como verdadeiro por causa de uma necessidade prática. Do ponto de vista objetivo, a crença se assemelha à opinião, pois que nela não se consegue provar ou demonstrar nada que possua valor universal. Do ponto de vista subjetivo, contudo, devo lançar mão da crença não apenas porque quero julgar, mas porque preciso (sou obrigado a) julgar e esse julgamento influenciará as minhas ações futuras, que poderão resultar em boas ou más consequências, tanto para mim como para o mundo. Alguns exemplos tornarão isso claro.

Se tenho uma certa quantidade de dinheiro e penso em investi-lo abrindo um novo negócio, eu não posso ter uma certeza objetiva de que o negócio prosperará, de modo que com isso eu possa convencer o mundo inteiro do meu empreendimento. Mas também não é suficiente eu ser simplesmente da opinião que o negócio prosperará, como se o sucesso ou insucesso do empreendimento não me afetasse em nada. Então neste caso eu devo crer na escolha que eu fizer e essa crença pode se mostrar tanto verdadeira como falsa, sendo que se ela se mostrar falsa eu vou perder dinheiro. Então, subjetivamente falando, eu preciso estar certo (ter uma crença, estar convicto) do negócio que estarei iniciando, porque se eu não estiver certo de que a escolha é correta eu não vou fazer nada (pelo menos seria mais prudente não fazer nada). Já o meu vizinho, que nada perde ou ganha com o sucesso ou fracasso do meu negócio, este sim pode ser de simples opinião a respeito do sucesso ou insucesso do empreendimento, donde que se depreende que um mesmo juízo pode ser opinião para uns e crença para outros.

E não pensem que a crença é objeto apenas para as pessoas comuns e que a ciência se encontra acima disso tudo, como se ela pisasse apenas em chão firme o tempo todo. Quando os governos investiram bilhões de dólares no LHC (aquele grande acelerador de partículas de 27km de perímetro encravado na fronteira franco-suíça que recentemente - ao que parece - conseguiu detectar o bóson de Higgs), certamente que havia a convicção, tanto de quem propôs o investimento como de quem autorizou o financiamento, de que algo haveria a se ganhar naquele empreendimento incerto. Decisões de governo também são baseadas em crenças (convicções), baseadas nos melhores prognósticos disponíveis. O mundo se movimenta impulsionado pelas crenças individuais ou coletivas.

E o fato de a crença não se tratar de um conhecimento, de ela ter valor apenas subjetivo e não objetivo, não implica que ela não precise de fundamentação racional, não para provar para o mundo que ela está certa (porque aí ela seria um saber e não uma crença), mas para convencer a mim mesmo e a quem for necessário que caminhe junto comigo de que o prognóstico de sucesso é bem alto e que vale a pena investir nela. Se os cientistas não fundamentassem muito bem para os governos a respeito da chance de sucesso do LHC, eles provavelmente jamais autorizariam aquele caro investimento. Portanto, a boa crença precisa sim de excelente fundamentação. A crença cega e a credulidade é que não precisam. Mas estas também não precisariam existir.

Mesmo crenças antagônicas, em que pelo menos uma delas se mostrará objetivamente falsa no futuro, podem ser ambas válidas do ponto de vista subjetivo, desde que ambas fundamentem ações práticas. No final do século XIX, a disputa protagonizada por Thomas Edison e George Westinghouse em um episódio conhecido como Guerra das Correntes, mostrou o quanto as crenças, mesmo falsas e antagônicas, fundamentam o agir e estimulam o progresso humano. Edison acreditava que o futuro da eletricidade seria com corrente contínua; Westinghouse, pelo contrário, acreditava na corrente alternada. Mas como saber antes da pesquisa e aplicação? Ambos então, cada qual pelo seu lado e concorrendo entre si (até com certa dose de deslealdade), fizeram todas as pesquisas e experiências possíveis a fim de provar que a sua crença era a verdadeira e que iria se realizar na prática. Thomas Edison protagonizou inclusive alguns espetáculos deploráveis, pois na tentativa de mostrar que a corrente alternada era perigosa promoveu algumas execuções públicas de animais vadios, bois, cavalos e até elefantes, e inventou a cadeira elétrica (mesmo sendo contra a pena de morte) que foi usada pela primeira vez com uma baixa tensão alternada (a fim de tentar demonstrar os perigos dessa modalidade de corrente), o que ocasionou um dos mais horríveis espetáculos de execução humana da história. Não é preciso dizer que a crença de Edison se revelou falsa (visto que hoje usamos a corrente alternada), mas a disputa trouxe bastante progressos em conhecimentos e na geração, transmissão e distribuição da eletricidade.

Agora vejamos os maus usos da crença. Algumas pessoas, provavelmente motivadas pelo orgulho de não querer abrir mão de uma ideia, mesmo quando ela se revela falsa, convertem desnecessariamente aquilo que deveria ser uma simples questão de opinião (cujo objetivo é meramente teórico) em um objeto de crença. Por que, por exemplo, precisamos transformar em objeto de crença o tempo de existência do mundo? Por que não podemos simplesmente opinar a respeito, que ele tem 4 bilhões, 6 bilhões, ou mesmo 6000 anos, como alguns dizem? Para que transformar em crença a opinião de que Jesus andou ou não sobre as águas? Ou que Josué parou o Sol? Ou que existe a matéria escura dos físicos? O que ganhamos com isso? Nada, pois nada vai mudar em nossas vidas independentemente da falsidade ou veracidade dessas proposições, donde que poderiam ser simples opiniões. E é dessa forma que surgem uma série de crenças inúteis e sem sentido.

Mas algumas pessoas vão ainda mais longe. Não satisfeitos em elevarem uma opinião ao status de crença, querem elevá-la também ao status de um saber, cujo valor seja objetivo, criando os chamados dogmas. Chamo aqui de dogma a toda crença ou opinião elevadas indevidamente ao status de um saber. O dogma, ao contrário da crença que possui valor subjetivo e à qual se adere livremente por convicção, passa a ter valor objetivo e a ser imposto como tal a toda gente, como são impostas as certezas matemáticas. Todos os abusos ocorridos na Idade Média em nome da religião se deveram a opiniões e crenças elevados a status de saberes, assumindo valores objetivos que foram impostos a todos por meio da chancela do Estado com o uso da força. Nos países islâmicos isso acontece até hoje e aquilo que deveria ser objeto de crença ou de opinião pessoal é imposto a toda população com força de lei. E todos os abusos cometidos no século XX foram se deveram também a crenças (as ideologias marxista e nazista) que igualmente se elevaram ao status de saberes e igualmente foram impostos a toda a gente por meio do poder estatal. Dogmatismo, ao contrário do que muitos poderiam pensar, não é doença apenas de religiosos.

Já o abuso contrário da crença, característico do nosso tempo (principalmente do mundo ocidental), é rebaixar aquilo que é legitimamente objeto de crença ao status de mera opinião, como se ajuizar em tal ou qual sentido fosse indiferente para a vida do sujeito quando na verdade não o é. Deus e imortalidade são objetos de crença (na verdade de , como veremos abaixo), e eu não entendo como pode ser considerado irrelevante para alguns o fato de vivermos ou não após a morte física, ou a existência ou não de um supremo Juíz do mundo. O juízo, seja num sentido ou no outro, afeta e muito o nosso estado de espírito, de tal modo que em geral passamos de uma mentalidade ética para uma mentalidade utilitarista simplesmente invertendo os nossos juízos a respeito desses dois temas. Mas há pessoas (e não são poucas) que defendem que é irrelevante crer ou não em Deus, ou na imortalidade, ou seja, rebaixando essas crenças indevidamente ao status de uma mera opinião. Esse é o mal característico do nosso tempo.

Acima eu escrevi que o conhecimento empírico também é um tipo de saber, mas como a certeza empírica absoluta é, com raras exceções, impossível ao homem, esses casos talvez devessem ser classificados como um gênero específico de crença ou de opinião que estivesse mais ou menos próximo do saber. Essa é uma questão bem difícil e confesso humildemente que ainda não o tenho completamente discernido, porque, por exemplo, em um julgamento, não se deve julgar baseado em crenças, mas é preciso ter certeza, ou julga-se sem consciência. Só que a certeza empírica depende dos nossos sentidos, e há quem defenda que os nossos sentidos nos enganam e que nem sequer a realidade exterior existe de fato (como quis Schopenhauer, por exemplo). As provas empíricas também, por mais convincentes que sejam, tendem a se converter em crenças ou opiniões no futuro, especialmente se não restarem provas documentais diretas. Deve ter sido bastante certa no passado e empiricamente provada para quem viveu naquele tempo a existência de uma pessoa chamada Jesus, que foi crucificado. Mas hoje, 2000 anos depois, isso se tornou um objeto de crença ou de opinião, tanto que há pessoas hoje que duvidam que ele tenha sequer existido de fato; outros dizem que casou ao invés de morrer na cruz, etc. Mesmo com relação a fatos bem mais recentes, como a ida do homem à Lua em 1969, há pessoas que duvidam que isso tenha mesmo acontecido. Então, o empírico quase sempre deixará uma margem de incerteza, de modo que, nos casos de apenas quase certeza, ele seria mais corretamente classificado como uma crença ou como uma opinião (dependendo do uso prático ou teórico) do que como um saber, por mais óbvias que pareçam as evidências objetivas.

De qualquer forma, a humanidade não pode deixar de tomar decisões só porque há margens de incerteza em certas provas, e há casos que são tão claros e a possibilidade de erro tão pequena, que podemos classificar o conhecimento como um saber, mas sempre lembrando de que há uma possibilidade, por ínfima que seja, de os nossos sentidos estarem nos iludindo, tanto individual como coletivamente. Vemos um céu à noite, uma Lua, um Sol e várias estrelas. Como saber, com absoluta certeza, que são mesmo estrelas e que não há uma redoma de vidro com pontos brilhantes, como acreditavam os antigos? Eu não creio nisso, mas também não sei que não é assim e não posso provar que não é assim. Uma das tarefas da Filosofia da Ciência é tentar reduzir essa margem de incerteza, por meio da elaboração dos chamados métodos científicos, que nada mais são do que procedimentos que, se seguidos à risca, prometem reduzir a margem de incerteza do conhecimento empírico a um patamar insignificante. Podemos chamar a prova empírica de um saber por causa da alta probabilidade de acerto, mas ela, se formos nos ater ao rigor das palavras, é melhor classificada como crença ou como opinião - bastante provável, é verdade - mas ainda assim uma crença ou uma opinião, dependendo, como já disse, do uso prático ou teórico que dela se faça.

Falta falar aqui de um gênero particular de crença, que é a . Podemos, de modo simples, chamar de à confiança nas promessas da Lei Moral. Essa lei promete recompensas para os justos (que não tenham agido tendo em vista essas recompensas ou por medo de castigos) e punição para os injustos, segundo a lei de talião. Aquele que tem , portanto, crê e confia nas promessas dessa Lei. Só que há duas condições sem as quais as promessas da Lei não passam de sonho e ilusão: a existência de Deus e a imortalidade da alma. Quando digo então que tenho fé em Deus e na imortalidade da alma, isso é a mesma coisa que dizer que tenho confiança nas promessas da Lei Moral (que pode ser também chamada de Lei de Deus). E ela é também um gênero de crença porque não há a menor possibilidade de algum dia haver uma prova objetiva, a favor ou contra, da existência de Deus, da imortalidade da alma e, consequentemente, de que a Lei cumprirá as suas promessas, de modo que esse juízo não pode ser imposto a todo mundo como se fosse um saber e a adesão a essa fé deve ser completamente livre. Posso tentar convencer o outro a aderir à minha , mas jamais obrigá-lo.

A diferencia-se também da simples crença por uma outra característica particular. A crença propriamente dita poderá, talvez, algum dia ser provada verdadeira ou falsa (considerando-se as limitações da certeza empírica tratadas acima), pois em geral se refere a coisas do mundo sensível. Dessa forma, hoje sabemos que a crença de Edison não se realizou, ao final da minha vida poderei saber se a crença no meu negócio valeu a pena, etc. Mas a propriamente dita jamais poderá ser confirmada ou refutada, com a menor probabilidade de certeza, por nenhum experimento humano, não apenas hoje, mas enquanto houver humanidade na Terra. A é de um gênero tal que não se deixa conhecer, porque o seu objeto (Deus e a alma) não poderá ser nunca por nós representado em uma experiência. E no entanto a é necessária e fundamental para a humanidade, porque aquele que diz para si mesmo "não tenho fé", implicitamente diz também para si mesmo, automaticamente, "não tenho nenhuma confiança no futuro", o que traz consequências práticas.

Ora, aquele que não tem nenhuma confiança no futuro trabalha apenas pelo presente, para objetivos mais ou menos imediatos, ou seja, adquire uma mentalidade meramente utilitária, em contraposição à mentalidade ética, que tem em vista principalmente o futuro, mesmo que às custas de sacrifícios e prejuízos no presente (mesmo que seja um presente por toda a vida). Por isso é que, com muita razão, as escrituras dizem que sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11:6), porque aquele que não tem a (bem entendida, conforme exposta acima) relega para segundo plano o objetivo principal da Criação, que é o progresso material do mundo, a felicidade do homem na Terra e a instauração de uma constituição civil jurídica perfeita (coisa que nunca poderá ser perfeitamente alcançado na Terra, mas cujo objetivo nos é imposto pela Lei Moral como dever perseguir, não importando que sacrifícios pessoais sejam necessários e independentemente se esse fim será ou não alcançado algum dia), substituindo-o por outros objetivos de bem-estar imediatistas. Isso sem falar dos deploráveis casos daqueles que pensam em poder tirar vantagens da ausência de futuro por meio da violação do direito no presente, contando que não terão que responder por nada, desde que sejam bastante espertos para se esquivarem da justiça humana; o que é certamente um dos piores escolhos para a existência humana na Terra.

E assim como a crença tem as suas deturpações, a fé também as tem, e muito. O desvio da fé consiste em substituir a máxima "confio nas promessas da Lei Moral" pela máxima "confio nas promessas de que um ente sobrenatural realizará os meus desejos imediatos no mundo", que em geral são sensíveis, pessoais e arbitrários. Desse modo é que muitos dizem: "tenho fé que Deus me arrumará um emprego"; ou "tenho fé que Deus realizará os desejos do meu coração"; ou "tenho fé que a Nossa Senhora desatadora de nós desatará os nós da minha vida"; ou "tenho fé que obterei a cura da minha doença"; ou "tenho fé que Deus curará fulano"; ou "tenho fé que Deus me dará a vitória sobre os meus inimigos" (como se o inimigo também não fosse filho e digno da graça de Deus); "tenho fé que arrumarei um marido", etc., etc.. Todas essas esperanças, embora muitas delas legítimas, se afastam das Leis Morais, donde que não podem ser objeto de , mas apenas objetos de uma falsa fé (ou simplesmente credulidade).

E quando essa falsa fé é levada ao extremo vemos o fanatismo, que é a tentativa exaltada de obter um determinado comércio com Deus (ou com qualquer outro ente tido por sobrenatural) para tornar real o objetivo arbitrário almejado por essa falsa fé. É daí que surgem os pagadores de promessa, as campanhas de orações visando um fim terreno específico, autoflagelantes e toda espécie de sacrifícios inúteis a que os homens se auto-impõem tendo por objetivo o auxílio de Deus para um fim arbitrário na Terra, quando tudo aquilo que poderiam e deveriam fazer é jamais se afastarem da Lei Moral. Se fizessem apenas isso veriam uma chuva de graças e consolações em suas vidas, sem precisar recorrer ao servilismo (mendicância) espiritual. Mas infelizmente esse ainda não é o caso para a maior parte das pessoas hoje em dia. Provavelmente, aliás, foi essa a mensagem que Jesus quis transmitir quando disse "Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve." (Mt 11:29-30) O fardo leve aqui é a estrita observância e respeito pela Lei, a dominação dos instintos e dos vícios, ao invés dos fardos, em geral muito mais pesados e desagradáveis, que os homens inventam e insistem em carregar e que no final vai resultar, na melhor das hipóteses, em um grande nada, ou, o que é mais provável, em grandes prejuízos morais ou materiais.

Portanto, tanto a falta de fé como a falsa fé (credulidade) são nocivas para o homem. A primeira produz um angustiante estado de espírito em que o mundo é visto como irremediavelmente injusto, não importando o que se faça, fazendo com que as pessoas literalmente repousem sobre os problemas ao invés de tentar solucioná-los por si mesmas (isso quando não fazem pior - o que não é raro - tentando levar as suas vantagens por meio de violações diversas ao direito dos outros homens). Toda a ineficiência produtiva (tanto na iniciativa privada como a governamental) tem, no fundo, a sua origem em uma falta de fé de que aquilo que fazemos (que são as nossas obrigações diárias, sem excluir uma só sequer) de nada servirá para mudar o estado do mundo, e essa falta de fé é capaz inclusive de arruinar nações. Já a falsa fé nos faz perseguir objetivos ilusórios ou impossíveis. Na data de hoje mesmo os palestinos e os israelenses estão se confrontando no oriente médio. A falsa fé dos palestinos parece que só vai terminar quando todos forem destruídos, visto que a vitória sobre Israel é praticamente impossível, dada a enorme desvantagem militar. Eles deviam partir para outras vias negociadas, considerando que Israel não os quer destruídos (pois se quisesse eles já estariam extintos). Mas a falsa fé deles não permite que desistam do objetivo de vitória militar sobre Israel, contando certamente com algum tipo de ajuda sobrenatural, que dificilmente virá, de modo que eles consigam vencer Israel como Davi venceu Golias no conto bíblico.

Eis aí os problemas. Mas como resolver então os problemas da falta de fé e da falsa fé na humanidade? Considerando que a crença (e consequentemente a fé) é e deve ser sempre livre, não sendo moralmente possível nem permitido obrigar as pessoas ao são discernimento e convicção, há muito pouco o que se fazer a não ser tentar abrir os olhos de quem realmente quiser ter os olhos abertos, lembrando à humanidade de que a busca pelo autoconhecimento é uma obrigação de todo homem para consigo mesmo, e então esperar pacientemente que as pessoas se cansem de perseguir objetivos quiméricos e ilusórios, por meio de enormes sacrifícios inúteis (incluindo as guerras que provocam). Somente quando as crenças de todos estiverem ajustadas aos fins essenciais da razão humana, teremos verdadeiramente progresso e paz. Fora isso podemos apenas, na medida do possível, nos afastar (para não sermos atingidos pelos estilhaços das lutas inúteis e constantes) e observar os espetáculos deploráveis que os acontecimentos do mundo colocam sob as nossas vistas devido às crenças ruins.

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Petrópolis/RJ
Revisado em 24/1/2013.

2 comentários:

  1. Bom,observei seu texto e reparei que o seu discurso me passa um presentimento que você não crer na intervernção divina,ou seja,que ele possa interferir em nosso mundo e favorecer aquele quem ele quer.Dentro visão teologica cremos na intervenção divina,mas isso não quer dizer que eu não venha trabalhar por aquilo que quero.Crer em um Deus estático em que não intervem na humanidade,posso acreditar que sou quase um ateu,pois não me fará diferença se ele existe ou não.Dentro dessa concepção para que o teísmo então? Agradeço e espero anciosamente pela resposta.

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    1. Prezado leitor anônimo.

      Como a resposta ao teu questionamento ficou um pouco mais longa do que eu inicialmente tinha em mente, respondi em um ensaio em separado neste Blog, intitulado "É possível racionalmente crer em uma intervenção divina no mundo?". Pode lê-lo no link abaixo:

      http://filosofia-filosofisma.blogspot.com.br/2013/01/e-possivel-racionalmente-crer-em-uma.html

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