segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Como foi que a filosofia pós-moderna se perdeu?

Entendo por filosofia pós-moderna a toda filosofia que surgiu após Immanuel Kant. Isto por uma razão muito cômoda: a filosofia dele foi contemporânea ao fim da Idade Moderna, de modo que ele pode ser considerado o último dos filósofos modernos. Desse modo, passo a chamar aqui, genericamente, de filosofia pós-moderna a toda filosofia que surgiu após Immanuel Kant. A razão de se estabelecer esse ponto de corte ficará mais clara adiante.

Normalmente se espera que o que vem depois supere ou aprimore o sistema de pensamento que foi anteriormente construído. Mas isso nem sempre é verdadeiro e, ao longo da história, é possível observar vários avanços e retrocessos no pensamento. Só que em se tratando de filosofia pós-moderna, houve não apenas um retrocesso, mas um imenso retrocesso, de modo que praticamente tudo o que foi construído até o final da era moderna foi substituído por um misticismo dogmático, sofístico, pseudosapiente, que ainda nos dias de hoje é estudado nas faculdades como se fosse filosofia. É duro de se dizer, mas uma boa parte dos filósofos que são hoje laboriosamente estudados e pesquisados deveriam ser banidos das universidades de filosofia diretamente para a faculdade de história, história sobre como não se deve fazer filosofia, para que esses desastres do pensamento humano nunca mais se repitam.

O que aconteceu é uma longa e triste história, que pretendo partilhar aos poucos neste Blog, de acordo com o meu entendimento das minhas leituras. Aqui vou tentar apenas sumarizar em poucas palavras a forma do erro principal, deixando para outra oportunidade as motivações: com Kant aprendemos que é impossível o conhecimento sintético da realidade existente fora de nós (todo o contingente) sem o concurso da experiência, e toda tentativa sem ela está fadada ao fracasso. Kant demonstrou isso especialmente para os teólogos teístas da época, refutando as suas tentativas dogmáticas de demonstrar a existência de Deus e a existência e imortalidade da alma. Mas parece que os filósofos ateístas não entenderam que a refutação ao dogmatismo também se lhes aplicava, e que se é impossível ao teólogo demonstrar a liberdade da vontade, a existência de Deus e a imortalidade da alma, também é impossível a demonstração do contrário pelos "filósofos" ateístas. Somente a ciência (que se realiza apenas com o empírico) é capaz de produzir algum conhecimento da realidade fora de nós, e mesmo assim ele será sempre imperfeito, porque sujeito às limitações da nossa sensibilidade. Todo contingente que é inacessível à experiência é incognoscível ao homem; e se há algo que jamais poderá ser representado em uma experiência, este algo é absolutamente incognoscível, não apenas hoje, mas enquanto existir homens.

É claro que a ciência avança principalmente com hipóteses e as hipóteses se referem a algo que é ainda não se apresentou à experiência (ou seja, que ainda é suprassensível). Mas as hipóteses científicas sempre partem de um conhecimento empírico já obtido e tentam avançar mais um passo no conhecimento, por meio da hipóteses de experiências possíveis, testáveis, caminhando sempre da experiência em direção às primeiras causas, de experiência em experiência, de passo em passo, sem a menor pretensão de alcançá-las ou de já as ter alcançado. Mas o que dizer daquele que quer abreviar essa caminhada e, por um recurso intelectual qualquer, chegar ao fim da jornada de um salto só e obter o conhecimento dos fundamentos primeiros (das coisas em si) antes da ciência? O que dizer daqueles que não têm a "paciência" necessária para esperar a ciência nos revelar a realidade gradativamente pelo empírico? Não diríamos que são charlatães, que são trapaceiros intelectuais, por estarem, como em uma loteria, tentando acertar o real apostando em um dos infinitos possíveis concebíveis pela razão humana?

Foi exatamente isso que fizeram os filósofos pós-modernos, e por isso todos os sistemas que produziram são como castelos de cartas, que uma brisa cética é capaz de derrubar. Mas pelo menos serviriam como crenças? Também não, porque vão de encontro ao interesse prático da razão. E se não valem como conhecimento nem valem como crenças, valem de que então? Nada! São absolutamente imprestáveis para a humanidade. Esse o resultado da filosofia pós-moderna: um grande "nada" (como aliás queria Schopenhauer, no capítulo final do quarto livro da sua obra principal). A maior parte do que se pensou como filosofia desde então, o que eu considero mais de 95% do que foi produzido (e não digo 100% para não correr o risco de ser injusto com algum bom filósofo pós-moderno que eu ainda não tive a oportunidade de conhecer), não serve para absolutamente nada. A universidades estão simplesmente discutindo crenças de certos homens que por alguma razão alcançaram certa proeminência. Filósofos mesmo, com "F" maiúsculo, não vemos no mundo desde que Immanuel Kant deu o seu último suspiro, em 12 de fevereiro de 1804, na extinta cidade de Königsberg, que aliás deve o seu desaparecimento à pseudofilosofia dogmática que se produziu desde então, especialmente na Alemanha, e que seduziu toda a classe culta mundo afora (incluindo os próprios alemães), a partir de Fichte, passando por Hegel, Marx, Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger e uma legião de outros. Não digo que alguns desses homens não possam ter produzido algo de útil em outras áreas, mas em Filosofia não produziram praticamente nada de utilizável.

Eis aqui uma pedra de toque para que se reconheça a pseudofilosofia: todo sistema (teísta ou ateísta) que pretende investigar teoricamente as causas primeiras (Deus, alma e mundo) ou seus predicados só produz falso conhecimento, ou, na terminologia deste Blog, só produz filosofisma. Na melhor das hipóteses, se houver honestidade intelectual, depois de todo o laborioso trabalho investigativo, chegar-se-á ao mesmo ponto de ignorância inicial de onde se partiu, como se nada tivesse sido feito. As causas primeiras – leia-se Deus, alma (fundamento da liberdade) e coisa em si material (fundamento da natureza mecânica ou do mundo) – são absolutamente inacessíveis à experiência e, portanto, são absolutamente incognoscíveis à ciência e ao homem, enquanto existir humanidade na Terra. A simples tentativa de se tentar conhecer essas coisas já é um erro, primeiro porque intenta-se querer ser mais esperto que a Ciência e chegar antes dela ao final da caminhada no mero chute; e segundo porque tal empreendimento está fadado ao fracasso, pelas razões que já expus, ainda com a desvantagem desse pseudoconhecimento poder se transformar em perigosas ideologias, tanto teístas como ateístas (como o nazismo e o comunismo, por exemplo). Nos artigos subsequentes deste Blog pretendo tratar mais detalhadamente esses problemas. Para finalizar, apenas deixo as advertências de Kant, da Crítica da Razão Pura, que foram (entre outras) largamente ignoradas pelos filósofos pós-modernos:

"De bom grado renunciaríamos a ver resolvidos dogmaticamente os nossos problemas, se compreendêssemos antecipadamente que, seja qual for a resposta, esta só aumentaria a nossa ignorância e nos precipitaria de uma incompreensibilidade numa outra e de uma obscuridade noutra maior ainda e, porventura, mesmo em contradições."

(...)

"Não compartilho, na verdade, a opinião tantas vezes expressa por homens eminentes e profundos (por exemplo Sulzer) que sentiram a fraqueza das provas até aqui empregadas, a saber, que se podia esperar encontrar um dia demonstrações evidentes das duas proposições cardiais da razão pura: há um Deus, há uma vida futura. Pelo contrário, estou certo de que isso nunca acontecerá. Com efeito, onde irá buscar a razão o princípio destas afirmações sintéticas que não se reportam a objetos da experiência e à sua possibilidade interna? Mas também é apoditicamente certo que nunca aparecerá ninguém que possa sustentar o contrário com a mínima aparência de verdade e para já não dizer dogmaticamente. Porque, não podendo demonstrá-lo senão pela razão pura, devia esforçar-se por provar a impossibilidade de um ser supremo ou de um sujeito que pensa em nós, como pura inteligência. Mas donde extrairia esses conhecimentos que o autorizariam a julgar assim, sinteticamente, acerca de coisas para além de toda a experiência possível? Não temos pois que nos preocupar com que alguém nos venha algum dia provar o contrário e por isso não temos necessidade de recorrer a argumentos escolásticos, mas podemos sempre admitir aquelas proposições que concordam perfeitamente com o interesse especulativo da nossa razão no uso empírico e, além disso, são os únicos meios de o conciliar com o interesse prático." (grifos em negrito meus)

(Kant em Crítica da Razão Pura, Representação céptica das questões cosmológicas levantadas pelas quatro ideias transcedentais, e A disciplina da razão pura relativamente ao seu uso polêmico)

Obs. 1: espero que o leitor não pense que eu tenha me convertido ao ceticismo, que considero igualmente um erro de julgamento tão pernicioso quanto o dogmatismo. Há certas coisas que podem sim ser tratadas como conhecimento objetivo e a priori. Porém, se os objetos transcedentais não podem ser tratados como conhecimento, e nem sequer devem ser investigados, o mesmo não se diz ao tratá-los no domínio da crença, mas apenas tendo-se em vista um interesse prático da razão. Mas deixo o desenvolvimento deste tema para um outro ensaio, para não alongar demais este.

Obs. 2: espero também que o leitor não entenda que estou desprezando os filósofos e toda filosofia anteriores a Kant, nem diminuindo a sua importância, visto que eles também tentavam inutilmente conhecer as primeiras causas e igualmente não produziram conhecimento algum; quando muito produziram boas crenças com uma capa dogmática que as travestia de conhecimento. Mas foram eles que iniciaram as primeiras tentativas de conhecimento e além disso não tinham advertência alguma (uma crítica da razão), de modo que podemos e devemos reconhecer-lhes o mérito das tentativas. Foi inclusive por meio de suas tentativas fracassadas que a verdadeira limitação da nossa razão pôde ser mais tarde mapeada e reconhecida, por Kant. Então, resta-lhes grande mérito. Mas no caso dos filósofos pós-modernos não há como desculpar, porque conheciam a advertência kantiana a respeito das pretensões ao conhecimento suprassensível e mesmo assim seguiram pelo caminho dogmático. Eles não caminharam para frente, mas deram marcha à ré conscientemente. Pretendo tratar detalhadamente desses equívocos pós-modernos nos artigos subsequentes neste Blog, um a um.

Rafael Gasparini Moreira [rafael.gasparini@gmail.com]
Petrópolis/RJ
Revisado em 5/6/2013.

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